Lírios e Dragões

2 O pássaro livre voa


Notas iniciais
finalmente posto aqui o segundo capítulo da estória Lírios e Dragões, espero que gostem pois está muito emocionante!

– Criatura de todos os céus, acorde, por favor! – escutava-se Macha berrando.

Louisi abriu os olhos relutantemente e viu sua mãe com uma vela nas mãos, era fina e os respingos de cera escorriam pelo conteúdo. A anciã a chacoalhava freneticamente. A garota sentou-se na cama ainda sonolenta e esfregou os olhos, encarou a mãe e perguntou confusa:

– O que aconteceu?

– Aconteceu o que tanto queria! – respondeu em tom imperativo puxando sua coberta de fio de lã.

– Quer que eu vá à cidade agora? – questionou Louisiana encucada.

Levantou-se da cama e foi ate um armarinho que continha algumas gavetas, em cima deste encontrava-se uma bacia larga contendo água. Com as duas mãos em concha, lavou o rosto; no lado direito por trás do cabelo que o cobria para despertar. Macha estava por perto, iluminando o caminho.

– Não necessariamente agora – comentou a velha, portando um sorriso no rosto – só precisará ter sono para poder sonhar.

Louisi se virou para ela e sorriu também, mostrando a expressão no lado esquerdo da boca.

Dirigiu-se até a cozinha e pegou um pouco de pão, uma faca e o pote de mel. O lugar se iluminou ainda mais com a presença de Macha, que rapidamente tirou os alimentos de sua mão. Ao menos me deixe comer, pensou Louisiana, mas nada disse.

– Não vai comer nada até tomar sua poção – advertiu, enquanto guardava tudo no lugar – Normas da magia, meu doce de leite de cabra.

– De se esperar – sussurrou, logo depois sentou-se numa cadeira e apoiou as braços na mesa e o rosto nas mãos, encarando a mãe a frente – O que vai nesta poção?

– Vai muita coisa, lhe garanto, mas temos tudo que precisamos bem guardado. Com exceção dos lírios, obviamente.

Os raios de luz solar penetravam por entre as entranhas do chalé, iluminando boa parte do local.

– O que acha de começarmos agora? – sugeriu a jovem.

– Aqui está mãe, o ingrediente que precisas; flores de camomila – Louisiana derramou algumas dúzias da flor branca dentro de uma panelão que ferventava e emanava um cheiro doce, que acalmava os sentidos.

Macha misturava com uma grande colher de pau. O liquido borbulhava e tinha uma coloração alaranjada, com algumas folhas verdes, flores de cores chamativas e poucas plantas junto da mistura. A velha parou de mexer e olhou para a filha.

– Acho que está na hora de ir buscar o ultimo dos ingredientes, meu doce.

– Sim, está! – retrucou com um ar de felicidade estampada no rosto, encostou-se na parede e continuou: — Pela primeira vez, eu vou ver... ver o mundo lá fora, enxergar pessoas que nunca sonhava em contemplar. E também descobrir a verdade. – sua expressão se encontrou séria, a amargura a atingiu enquanto falava – Sabe por que eu não a questionei quando me disse que escondia algo sobre mim? Porque eu tinha medo. Medo de saber que algo pior que imaginava cerca essas marcas no meu rosto – Referia-se aos desenhos no seu rosto como marcas, apenas. Por mais que sempre visse seus reflexos na água ou em outro lugar, que as observava, como perfeitas pinturas, não tinha significado, apenas a atrapalhava, a fazia ter vergonha de si mesma, nada mais.

– Não tenha medo. Tenha coragem, determinação, superação, tudo, menos medo. Isso não a levara a lugar algum. – A anciã foi até uma estante cheia de potes com iguarias e derivados. Apanhou uma cesta funda e deu-a para Louisi. – Deve ir agora, o feudo deve estar cheio neste momento.

Ela pegou e certificou-se de que o cabelo tampava parte do rosto.

Caminhou até a porta do chalé, com sua mãe ao lado, que apenas disse: “Tenha cuidado, minha filha.” Não entendeu o motivo da recomendação, mas continuou até chegar ao portão de madeira do terreno verdejante. Abriu-o e viu-se no limite do solo de sua casa para a rua afora. Olhou para trás e observou Macha por uns instantes; parada na porta com expressão séria. Virou-se novamente e andou.

A rua era de terra empoeirada. Tinha umas seis crianças, com vestes esfarrapadas. Correndo e brincado livremente perto de suas casas. Lembrou que nunca teve uma infância assim; sempre presa em casa aprendendo a odiar a própria aparência, fazendo-se esquecer dela e focando em aprendizados de poções, magias e ungüentos. O ar que respirava era diferente, ao menos parecia ser. Sentia a liberdade, como as crianças que já se encontravam longe dela. Quando a rua acabou, começava uma trilha dupla no meio de um vasto campo de flores amarelas.

Era uma passagem entre o centro da cidade de Míriank com o resto dela, que era onde morava: na parte agrária, onde se cultivava boa parte dos alimentos.

Louisiana esperou se afastar um pouco para correr desenfreadamente, sentindo o vento no rosto e nos cabelos, rodopiando e dançando em círculos por entre as flores, em meio de gargalhadas e sorrisos. Até que se cansou e deitou no campo, fechou os olhos e sentiu a energia da luz solar e a brisa. Seu coração disparava e o sangue em suas veias a esquentou. Ela percebeu que agora estava escuro e o ar mais frio, pensou ser uma nuvem que tampou a visão do sol, então escutou o bufar de um animal e batidas no chão. Logo se ouvia gritos e falações.

Abriu os olhos e viu um homem montado num cavalo marrom. Ele fazia a sombra, então Louisi percebeu que era loiro, com barba rala e cabelo comprido, também corpulento. Levantou-se rapidamente e ajeitou o vestido e cabelo. Chegaram mais homens montados a cavalo e a cercou, a jovem os olhou seriamente, sem demonstrar apavoramento.

O rapaz loiro que a olhava seriamente, perguntou:

– Está perdida, senhorita? Em poucos anos na cavalaria do reino, nunca a vimos por aqui. – os outros murmuravam e concordavam.

– Não estou não – respondeu – moro na cidade e sou cidadã livre. Tenho que ir ao centro, permita-me senhores.

– Por que oculta uma parte de seu rosto?

– Que pergunta estranha – comentou outro cavaleiro, de rosto fino e longos cabelos castanhos, portanto um sorriso. – Perdoe-me, senhorita, Brandon nunca soube falar com mulheres. Meu nome é Maegor, minha bela moça.

– E você sabe, por acaso, Maegor? – ironizou outro homem, conhecido por alguns na cidade como Conor parecia ser o mais velho do grupo, aparentava ter trinta anos. O resto era jovem como Louisiana. Todos riram com o comentário, até Louisi deixou escapar um sorriso. – Deve ter afazeres, e nós também. Vamos.

Todos partiram em direção de onde ela vinha apenas Brandon continuou no lugar.

– Como se chama? – perguntou o cavaleiro.

– Me chamo Louisiana. Nem preciso perguntar o seu.

– Realmente, Maegor é um tremendo boca aberta – os dois deixaram escapar sorrisos – Preciso ir agora, até breve, bela moça.

Então cavalgou até o grupo, já longe de onde ela estava.

Louisi caminhou por mais alguns minutos no campo, agora pisou em chão de pedras. Olhou para cima e viu um arco na entrada da cidade central de Míriank; de metal prateado cujas pontas dos dois lados se desencontravam no topo, formando duas lanças curvas, não havia muralhas, mas era um símbolo conhecido por alguns outros reinos. O movimento era grande. Pessoas circulavam, falavam e negociavam umas com as outras; carroças transportavam vários tipos de objetos e alimentos e ainda mais crianças corriam. As casas, hospedaria, pensões e pocilgas eram grandes e uma ou outra luxuosa.

Ela parou de observar as características da cidadela e começou a procurar por uma barraca com lírios. Na feira, as pessoas se amontoavam em volta dos produtos. Caminhou mais e chegou até o centro do feudo, parou e olhou para os dois lados, procurando. Uma barraca vazia chamou sua atenção, nela tinha vários vasos com flores, de todos os tipos e cores. Andou apressadamente em sua direção e encontrou uma senhora bem velha miúda e de cabelos brancos, administrando-a.

– Com licença, a senhora tem lírios? – perguntou.

A velha deu um pequeno sorriso.

– Claro, querida, quantos quer?

– Quantos puder me dar por este colar – tirou o pingente do pescoço, com fio preto portando uma presa de gato e oferece para ela.

Os olhos da mulher brilharam, pegou rapidamente e o guardou no bolso.

– Pegue quantos lírios quiser.

A garota olhou para as delicadas flores brancas e pegou, uma por uma, guardando-as na cesta, lado a lado, com todo o cuidado para não deixar cair uma pétala. Ao todo foram cinco.

Afastou-se da barraca e voltou pela direção de onde veio.

Ela caminhou lentamente, apreciando mais uma vez a visão do mundo exterior, então ouviu gritos e o trotar de vários cavalos. Estes cavaleiros passaram rudemente por ela, mas muitos a cercaram. Esses eram diferentes, pareciam ser mais velhos e portavam elmos de prata e malhas de ferro e couro. Estavam carrancudos e isto a assustou.

– Sou uma cidadã livre, se nunca me viram antes é porque raramente saio de casa. Permitam-me passar, senhores – disse tentando não mostrar medo, mas acabou não dando muito certo.

– Quero que me deixe ver seu rosto, por favor – comentou um homem com cabelo e barba marrons, em tom rude que a deixou nervosa.

– Desculpe, mas não posso.

– Então terá que vir conosco – os homens se aproximaram ainda mais.

Ela não poderia simplesmente ir com eles. Estava com medo e queria rapidamente sair dali, mas estes a olhavam seriamente. Louisiana se afastou do homem que lhe dirigiu a palavra, porém, outro a cercou, ficando presa naquele circulo.

– Por que querem que eu vá com os senhores? – suplicou, pela primeira vez sai de casa e já arranja confusão, só poderia ter sido um engano.

– Galarraz, prenda suas mãos junto ao seu cavalo – disse o homem inicial, em sussurro, querendo não chamar a atenção.

– Sim, Sor Konder – desceu do cavalo, pegou um pequeno pedaço de corda na parte posterior da sela de seu cavalo e pegou os pulsos dela de súbito, apertando-o com força, olhando carrancudamente para tentar intimidar – se você gritar morrerá.

Amarrou as cordas nos dois pulsos fortemente e prendeu na parte de trás da sela.

E agora? O que fazer? Era o que pensava. Muitas vezes se encontrou arrependida por ter tirados os pés pra fora de seu terreno.

Eles agiram normalmente, Sor Konder deu uma olhadela mortal em sua direção e em seguida prosseguiu para o lado contrario do caminho da jovem. Seus homens foram atrás, Galarraz estava no meio da fila indiana, para garantir que a prisioneira não escapasse, o que a deixou ainda mais nervosa. Ninguém a dava atenção, por quê daria? Escravos tinham que fazer o que seus donos pedissem, obviamente, e era a cavalaria da corte do rei. Teria que dar um jeito ela mesma. Olhou para trás e viu dois dos cavaleiros e a frente dela e de Galarraz, apenas Konder.

Viu as cordas que a prendiam e puxavam, e tentou pensar no que fazer para escapar dali. As cordas estavam bem amarradas e ela estava completamente cercada por eles, só teria uma escolha:

A magia. Energia filtrada. Como sua mãe lhe ensinou: as pessoas são centros de concentração de energia cósmica ainda mais fortes e complexas que objetos de rituais, por isso teriam que conviver anos de suas vidas praticando para conseguir chegar ao seu objetivo. Mas como Louisi passou a vida inteira praticando e aprendendo estava na hora da pratica. Energia filtrada e concentrada. Assim chama Macha. Os cavaleiros cavalgavam lentamente, ainda estavam no centro do feudo, Míriank era extensa, a garota acompanhava seu ritmo; quieta e aparentando estar calma, fechou os olhos e se concentrou, a estrada era reta.

Sua mãe sempre pedia para que fechasse os olhos, isso sempre ajuda a ver dentro de si, esquecendo a visão material do lado de fora. E qual é o objetivo de tudo isso? Ora, energia é poder, movimento, o indestrutível, quando controlada pode causar varias reações diferentes. Louisiana sabia que nada disso seria fácil, mas agora é a hora, de se concentrar em si, no seu poder e subconsciente.

Primeiro passo: Filtrar-se. Filtrar todo o poder cósmico.

Ainda de olhos fechados; esvaziou a mente e tudo que via era a claridade através das pálpebras. Continuava andando normalmente e escutando tudo a sua volta. Concentração! Sentir a energia fluir é como estar perto de uma enorme fogueira, o calor se espalha pelo corpo.

A temperatura aumentava gradualmente e a claridade também, por mais que estivesse de olhos fechados tudo estava mais claro do que antes. A densidade a possuiu. Caminhava mas sentia-se tão leve e tão volúvel que não percebia que ainda caminhava, apenas enxergava luz e a sentia dentro de si.

Para quem a olhasse do lado de fora era apenas uma mulher normal caminhando de olhos fechados.

Agora que a energia se solidificou dentro dela, era hora da concentração, a parte mais difícil de todas ao qual vinha treinando por muito tempo.

Segundo passo: concentrar-se. Teria que expelir de algum modo tudo aquilo ou morreria, ou apenas concentrando em um ponto especifico para no fim eclodir.

Ela tentou abrir os olhos, mas era impossível, como se estivesse presa no próprio corpo enquanto realizava o processo. Concentrou-se totalmente na parte dos pulsos, onde estava o problema, precisava de algum modo se livrar das amarras. Ao modo em que centralizava a energia naquele ponto especifico, eles esquentavam; ferviam, mas tão amortecida estava que não sentiu muita coisa. Porem sentia o calor aumentar.

As pessoas em volta ficaram totalmente chocados com o que viam, a cavalaria parou de repente e todos os olhos se voltaram para a mulher luminosa que estava presente. Era como se estivesse envolta de uma nuvem prateada, que brilhava muito e seus pulsos ainda mais brilhantes, as amarras se derreteram instantaneamente. Até que tal bruma brilhou ainda mais cegando todos que estavam por perto. Sor Konder desceu do cavalo, mas foi cegado quando se aproximava então toda aquela luminosidade se acalmou aos poucos e desapareceu. Louisiana também não estava mais lá.

Encostou-se à parede de uma hospedaria, cuja rua estava deserta, escutava a balburdia das pessoas e, viu os cavaleiros passando apressadamente por ela sem vê-la. Percorreu pela rua e virou novamente e foi em direção do arco de prata da cidade. Finalmente pisou na trilha dos campos de flores amarelas. Olhou para trás e nem sinal dos homens. Correu pela trilha e ouviu um grito. Era o mesmo homem:

– Acha que somos tolos, bruxa? – ele berrou, Louisi parou assustada olhou mais uma vez para trás, desta vez estavam todos lá.

Ficar ou correr? Essa era sua indecisão. Ela estava petrificada e escutou-os rindo e se aproximado aos poucos. Não pensou em mais nada e correu.

Corria como vento, agarrada em sua cesta. Então sentiu uma dor aguda na perna e deitou-se no campo. Viu uma flecha atravessada na região atingida. Começou a sangrar e sentir a dor aumentar. Eles se aproximaram e riram. Um deles desceu do cavalo e a puxou pelos braços, forçando-a a ficar de pé.

– Pensa que pode fugir de nós? Bruxa imunda! – ele a chacoalhou e apertou seus braços tão fortemente que Louisi grunhiu de dor.

– Largue ela agora! – berrou Brandon, com Maegor, Conan e todos os outros.

Conan se pôs na frente de Bran e disse:

– Ela é uma mulher livre, solte-a agora!

– Quer mandar em mim agora, saco de pulgas? – respondeu jogando-a no chão como uma simples boneca de pano – Não passa de um homem que só serve para treinar novos cavaleiros! – puxou a espada da bainha como um desafio.

Louisi rastejou para longe do circulo que formaram e olhou para onde a flecha a acertou, sentiu duas mãos a pegar pela sua cintura e se deparou já em cima do cavalo de Bran, que também resgatou sua cesta. Eles se afastaram e cavalgaram em direção á casa dela. Ela viu os dois grupos se enfrentando já longe.

– Eles estão distraindo a cavalaria – disse ele, Louisi tentou puxar a flecha para fora – Não! Não mexa nela, te levarei até sua casa, onde é?

– Sou filha da anciã.

Brandon disparou com o cavalo e o animal correu ainda mais. Chegaram até o portão e Macha saiu rapidamente para fora. Bran desceu e a carregou no colo.

– O que aconteceu com ela? – se desesperou a mãe.

– Vamos, ela precisa retirar esta flecha.

Ele a levou para dentro e colocou-a na sua cama. Louisi gemia de dor, mas suportava o quanto podia.

– Pode ir garoto, sei muito bem o que fazer agora, obrigada – disse Macha apressadamente, com olhar preocupado.

Ele saiu do terreno e voltou a montar seu cavalo.

Notas finais
Eu vou postar um capítulo por semana, talvez possa haver alguns atrasos ou adiantamentos, mas sempre estarei postando! Espero que tenha gostado! =D
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.