Línea - Os 10 Anciões
4 O sujeito misterioso
Notas iniciais

Alice agonizava enquanto tossia sangue e segurava a mão de Dragan, que amparava a pequena criança firmemente em seus braços, balançando-a como se estivesse colocando um bebê para dormir. Sua pele estava pálida e gelada como a última brisa do outono. Ela toca o rosto de Dragan com o dedo indicador e médio coberto de sangue. Seu olhar estava voltado fixamente para o céu, como se estivesse procurando alguma resposta. Nuvens cinzas surgiam do horizonte como se estivessem apressadas para um espetáculo. Começou a chover. Uma chuva calma e morna, tão calma e serena que por um instante Dragan pareceu ter se livrado de todos os seus problemas. Alice então fecha os olhos e adormece lentamente.
Heskan coloca Dragan e Alice em suas costas e voa devagar até a caverna. Seu olhar estava cruciante e pesaroso. Observou o ambiente ao seu redor procurando uma ameaça eminente. Caminha até um pinho branco e com uma simples patada estraçalha a arvore. Partiu a madeira e carregou a lenha com a boca até a caverna, acendendo uma fogueira. Dragan cortou uma porção de relva com sua espada, costurando um pedaço de tecido que ele tinha de sobra e fazendo um travesseiro para Alice. A pobre garotinha não merecia tal sofrimento e esse sofrimento só poderia significar uma coisa. Luna estava em perigo.
***
O céu estava cinza, os pássaros cessaram a sua linda sinfonia. Os girassóis estavam murchos e fracos. As cigarras já não cantavam com animação. A garoa tranquilizava os pensamentos inquietos de Heskan, que deitado fazia desenhos aleatórios no chão com suas afiadas garras. Sentia-se perdido e Dragan parecia estar na mesma sintonia.
Dragan retirou de sua sacola um salmão rosa, um ramo de alecrim do campo, uma pequena porção de uvas ressecadas, sal em pedra e um pote com azeite de oliva das montanhas. Desenrolou um pedaço de pano no chão da caverna. Retirou a pele do salmão rosa e em seguida fez vários furinhos na carne. Quebrou o sal em pequenas lascas e as colocou cuidadosamente em cada orifício. Despejou um pouco de azeite nos dois lados, espetou a carne com um graveto e colocou sobre a fogueira. Jogou um salmão cru para Heskan que olhou sem fome para o alimento.
— Sei que este é um momento difícil Heskan, porem você tem que se alimentar. — Disse Dragan girando o salmão lentamente.
— Isso nunca acaba... Estou vivo a 340 anos e você a 170 . Olha toda porcaria que já enfrentamos juntos. Estou cansado desta merda toda. Tudo o que eu amo ou morre ou é afastado de mim. Fico imaginando o que estão fazendo com Luna e onde se encontram os outros oito. Estou farto desta merda de tarefa. — Desabafa Heskan em um tom agressivo.
Dragan não sabia como responder, pois o que Heskan havia dito era verdade. Ambos tinham uma tarefa que só eles poderiam realizar. Precisavam reunir os anciões a tempo, mas antes precisavam salvar Alice e Luna, que se encontravam em situação de risco.
***
Estavam cochilando quando subitamente um raio acerta a planície acordando os dois. Sentiram uma atmosfera densa e pesada como se uma rocha estivesse sobre suas costas. Algo se aproximava e num piscar de olhos Heskan avistou um vulto preto voando em alta velocidade. Segundos após, três vultos claros. Alguém estava sendo perseguido, mas quem?
— O que faremos? — Indagou Dragan.
— Alice esta em sono profundo e irá demorar até acordar, vamos! — Ordenou Heskan.
Dragan sem demorar pegou sua bainha e amarrou um tecido no pescoço de Heskan, criando uma espécie de rédea precária.
— á faz um tempo desde o nosso ultimo voo não é mesmo amigo. Não precisa se segurar. — Disse Dragan firmando a mão no tecido.
Heskan deu um sorriso expondo todos os seus afiados dentes, saiu da caverna, abriu as asas longas e vermelhas, flexionando suas coxas e firmando suas garras que mais pareciam navalhas no chão. Num piscar de olhos, chutou o solo dando impulso para a decolagem.
A pressão foi tão forte que as rachaduras do solo chegaram até a parede da caverna. A barreira do ar quase foi quebrada. Heskan deslizava no ar como um peixe brinca dentro dgua. Dando piruetas no ar e rasgando as nuvens, os dois pareciam crianças num playground. Logo avistaram os supostos vultos e ficaram surpresos. Eram soldados imperiais montados em grifos! O grifo é um animal lendário com corpo e patas traseiras de leão; cabeça, asas e patas dianteiras de águia; e orelhas pontudas. Como o leão foi tradicionalmente considerado o rei dos animais e a águia a rainha das aves, o grifo era considerado uma criatura especialmente poderosa e majestosa. Carregavam lanças e perseguiam algo preto. Heskan deu um impulso e sobrevoou os guardas. Estava voando a uma altitude de aproximadamente cinco mil metros de altura.
— Se segure Dragan. — Disse Heskan.
Soltando todo seu peso, Heskan despenca em direção aos guardas. Fumaça começa a emanar de sua boca e podia-se ver as chamas em sua garganta. Mas ele não liberou a baforada. O fogo começou a se concentrar, e de repente em alta velocidade ele abre a boca engolindo todo o ar, fazendo com que o fogo entre em um movimento de rotação tão veloz que ele queima sua própria boca. Pouco antes de bater de encontro com os guardas, Heskan altera seu curso agora voando paralelamente ao guarda, que ao olhar para o dragão fumegante, é automaticamente cremado.
Uma bola de fogo do tamanho de um punho é liberada da boca de Heskan. A bola de fogo atingiu a barriga do indefeso militante, se expandindo e arremessando os animais e guardas que são incinerados a duzentos quilômetros por hora. Acabando desintegrados antes mesmo de atingirem o solo. Dragan tremia mais que a cabra que o alimentou quando mais jovem.
O vulto preto havia parado e Dragan agora conseguia ver com mais precisão quem era o alvo. Um sujeito desconhecido de estatura media, vestindo um manto preto com capuz, montado em uma vassoura.
Aquilo ecoou na mente de Dragan, o vulto preto retira algo da cintura e num milésimo de segundo ele vê um raio roxo atingir seu braço esquerdo, agora paralisado. Dragan não consegue segurar mais o tecido e quase cai das costas de Heskan, se não tivesse firmado as pernas no mesmo. Olhou para o sujeito, que guarda o que parecia ser uma varinha na cintura. Em um instante a vassoura acelerou com velocidade total e Heskan não perde tempo.
A perseguição continuou arduamente e uma tempestade cai sobre os três. O vento forte não interfere o voo de Heskan, por possuir uma aerodinâmica avançada. O dragão reteve energias para fazer churrasquinho do indivíduo e então sente algo tocar seu ombro. Era Dragan.
— Não faça isso. Traga-me mais perto. Preciso confirmar algo. — Ordenou Dragan com um olhar corajoso.
— Heskan sobrevoou a vassoura e arremessou Dragan na direção do sujeito, que surpreendido, é derrubado de sua vassoura com uma joelhada na nuca.
Dragan nadou em queda livre até o sujeito, que desmaiado não conseguiria se salvar. Seu braço esquerdo está dormente, e ele segura no tornozelo do sujeito com a mão direita. O solo ia se aproximando e Dragan começou a suar frio. Voar não era seu esporte favorito e enquanto caia não conseguia pensar em mais nada, apenas gritar:
— Aaaaaaaaaah.
Fechou os olhos e bateu o rosto em algo que pensou ser o chão. Pôde sentir seu crânio sendo esmagado, transformando seu encéfalo em gelatina. Abriu os olhos e estava em cima de Heskan, que numa manobra fenomenal pousou glamourosamente nas rochas, colocando Dragan e o sujeito no chão.
O sujeito ainda desmaiado não movimentou musculo algum. Chegando mais perto, Dragan suspirou virando o corpo leve esticado.
Sentiu um arrepio na espinha, suas mãos suaram e suas pernas estremeceram.
Aqueles cabelos grisalhos nunca saíram de sua memória.
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