Notas iniciais
Eu ODIEI esse prólogo, mas é normal eu nunca ficar satisfeita com o que escrevo.
De qualquer forma, espero que gostem e isso seja apenas coisa da minha cabeça.
Bom começo e boa leitura.

Perdidamente apaixonado e eu não sei o quanto

Porque eu estou pensando em voz alta e eu me sinto fora de mim

Mas eu estou com meus pés no chão de novo e

ansioso para ser o que você queria

Air Supply – Lost In Love

O homem andava a passos curtos e ritmados pelo vazio corredor de madeira e paredes brancas ostentando quadros e prêmios, olhos focados à frente, pensamentos perdidos por aí. Sua expressão estava calma e tranqüila, apesar de os andares abaixo de seus pés estarem movimentados naquela sexta-feira tão agitada.

Por sorte aquele andar era calmo, mas ainda que sons caminhassem por ele não ia de fato fazer diferença, afinal de contas, aquela era uma das primeiras vezes em que o homem estava naquele lugar sem ser para trabalhar, e a diferença disso era praticamente gritante.

Apesar disso ainda usava uma elegante roupa social, ordens de seu chefe. Por sorte parecia ter noção do porque foi chamado ali, e ainda porque deveria trajar uma roupa como aquela. E se seus pensamentos estivessem certos logo ele estaria longe daquela cidade. De certa forma era perfeito.

- Entre Kouyou. – Disse uma voz vinda de trás da porta, sem que ele tivesse que bater na mesma. Deveria esperar por isso, claro.

Mas, como dito, girou a maçaneta da porta de marfim, fazendo o cheiro amadeirado e característico do lugar escapar pelo corredor, mais rapidamente quando uma lufada de vento causada pelo movimento da porta adentrou o ambiente, fazendo uma corrente circular pelo lugar que só por acomodar o dono do grande estúdio de arquitetura já fazia com que os ares por lá fossem pesados.

- Chamou-me aqui senhor?

- Sim, e agradeço que tenha vindo trajado assim. – O homem assentiu de leve quando o outro sentado o olhou de baixo para cima.

- Do que se trata, no caso?

- Das suas férias.

- E? – O homem sabia que para ir trajado daquela forma tinha mais alguma coisa em jogo.

- E eu preciso de um favor. – Disse, colocando alguns papéis que estavam em suas mãos por cima da grande mesa com tampo de vidro e base de marfim, e apoiando os braços sobre ela, cruzando os dedos.

- Que favor? – O homem respirou fundo, desejando que fosse no mínimo algo que não atrapalhasse os trinta dias de descanso que ele teria.

- Fiquei sabendo que vai passar as férias numa cidade distante de Tóquio, – O homem assentiu enquanto seu chefe falava – e exatamente nessa cidade tem um pintor muito famoso, ainda que o seja apenas para as pessoas daquele lugar.

- Provavelmente, porque quando pesquisei sobre a cidade não veio nenhum nome relevante. – O homem mantinha a postura ereta e as mãos descansavam sobre a cadeira que havia à sua frente.

- Sim. E no caso – Disse enquanto abria uma das gavetas que havia na estante que se erguia imponente à suas costas – eu queria lhe pedir que se fosse possível, o mandasse pintar esse quadro.

Kouyou inclinou-se para frente apenas o suficiente para pegar o papel branco de uma das mãos de seu chefe. Depois o examinou por algum tempo antes de baixar o braço e focar em seu chefe novamente.

- Acho que não terá mesmo nenhum problema. Caso eu o encontre por lá e ele me dê um parecer sobre o desenho eu lhe telefono dando um aviso geral sobre o que conseguir.

- Eu ficaria agradecido. E bem, boas férias.

- Aliás, sobre a roupa...

- Você já deve imaginar.

E claro que ele imaginava. Pegou um papel com o nome do tal pintor, mas nem fez questão de olhar. Saiu da sala do chefe fechando a porta, e de certa forma amaldiçoando-lhe por lhe ter feito ir trajado daquele jeito apenas para causar boa impressão.

- Tudo bem, afinal de contas, o nome do tal pintor poderia se perder, certo?

Takashima Kouyou não era do tipo que agüentava as coisas calado e sempre sabia o que fazer caso assim se mantivesse. Era um famoso arquiteto japonês de corpo esguio e magro, dono de um metro e setenta e sete de altura, olhos de cor chocolate e cabelos até o meio das costas, num tom loiro bem acentuado.

Trabalhava com arquitetura há cinco anos, exatamente no ano em que terminou a faculdade. Era ainda dono de trabalhos memoráveis e estava se especializando em decoração, principalmente por querer sair daquele estúdio e do chefe tão cretino. Claro que também amava a subárea, mas se ver livre daquele homem já seria uma benção.

No entanto, seus pensamentos eram outros. Adentrou seu carro no estacionamento do estúdio e colocou os óculos de sol que descansavam dentro do porta-luvas. Saiu daquele lugar pegajoso quando as ruas de Tóquio já eram preenchidas pelo alaranjado do pôr-do-sol e dirigiu até seu apartamento, onde já havia arrumado suas malas.

De fato iria para uma pequena cidade longe de Tóquio onde alugou uma cabana que ficava numa pequena floresta, ainda que houvesse árvores de porte grande. O lugar ainda dava vista para um pequeno lago e era muito visitado por turistas, o arquiteto agradecendo por ter conseguido alugar primeiro. Parecia de fato um lugar realmente bom para descansar.

E claro Kouyou mais do que tudo queria estar lá o mais rápido possível, relaxando como assim havia planejado.

Assim, não pestanejou. Chegou em frente ao prédio em que morava, e enquanto o porteiro tomava conta de seu carro, que estava com o porta-malas aberto, subiu até seu andar e pegou as malas, agra agradecendo por estar bem-vestido. Não queria ir de qualquer jeito, e a roupa social com riscas brancas na vertical lhe caiu bem.

Agradeceu por ter conseguido descer com todas as coisas de uma vez e as guardou rapidamente no grande porta-malas, adentrando o banco do motorista logo em seguida.

- Takashima-san dirija com cuidado e boa viagem.

- Eu agradeço.

Kouyou sorriu e fechou a janela de seu carro. Guardou novamente o óculos de sol, dessa vez em sua caixinha preta primeiro, antes de colocar no porta-luvas. Ligou o ar-condicionado e o rádio, que despejaram ar e uma melodia suave dentro do veículo respectivamente.

O tal desenho ele colocou numa pasta branca e posteriormente no banco de trás, tentando não pensar que teria de fazer um favor para o chefe.

Por fim acomodou-se no banco e ligou novamente o carro, sorrindo para si.

- Férias aqui vai Takashima Kouyou.

Dito isso saiu de sua rua em direção a rodovia que dava para fora de Tóquio.