Onze de outubro de dois mil e dezesseis.
Só mais um dia, de só mais um ano.
Como em qualquer outra vez,
me afundo no limbo antes do sono.

Ele me joga aos términos de um outono.

E lá estava meu corpo pálido, em quase falência.
Estava vivo graças à compaixão da sorte,
pela terceira vez numa curta existência.
Eu pensava: não há nada mais triste que a morte.

Tão frio é o leito que ostenta o ser,
que espera o resultado dos dados.
Impotente, esperando saber,
se aqueles são os últimos pensamentos soprados

Lembro-me de romantizar a janela do quarto hospitalar.
Talvez fosse minha última visão daquele céu sem a morna luz solar.
Até minha querida dama se escondia em algum lugar,
se ausentara de perto de mim o luar.

As estrelas que nunca contemplei.
As palavras que nunca mencionei.
Os mares que nunca visitei.
O amor que nunca toquei.

Quando a escuridão no além-túmulo é sua única crença,
o medo torna-se uma doença,
mas aprende-se a viver com outros olhos.
Do aprecio das pequenas coisas em monopólio.

Muito romantizo a tristeza,
mas hoje a vida sobe à realeza.

Onze de outubro de dois mil e dezesseis
Me foi dado mais um dia, mais um ano
Diferente de qualquer outra vez,
Me alegra mais uma noite de sono.