Lápide [Poemas]
14 A putrefação do meu mundo
Notas iniciais
No Pântano pouco neblinoso ecoou um canto de sereia.
Aquele timbre sombrio fazia dançar as aranhas da teia, abraçarem-se as raízes, calarem-se os corvos, sujarem-se os rastejantes na areia.
Eu me agasalhava na canção, até ser coberto pelo tempo, ao eterno desencontro do vento.
Vi meu pântano envelhecer. O vi adoecer.
O vi decompor-se na hipnose da canção sem que eu fizesse nada senão casar-me com o chão
Até que um dia flutuei pra fora do corpo rasgado, vi que o tempo todo quem cantava estava enterrado ao meu lado.
Há tempos eu escutava, há mais tempo ela não cantava.
Chorei sozinho o murchar das flores cabeiras, os animais mais fortes eram menos que caveiras.
Não choveu por três noites inteiras.
Arranquei ervas de outras paisagens, destrocei entalhos, machuquei homenagens.
Desenterrei meu corpo débil, a deixei pra terra fértil.
O pântano tem seu morto de volta a ativa. Ele quer ouvir os cantos de quem se perde em sua terra desconvidativa. Sem o som mudo de quem ele vela, não os que dormem sob ela.
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