Lágrimas de sangue
23 O desespero.
Enquanto Calore estava fora, tive que continuar em casa com Dhuly, fingindo que estava tudo completamente normal. Sabendo que minha filha, tão amada, linda e adorável, era a segunda, em milhões de anos, a não ter coração. Eu não sabia se conseguiria sobreviver com ela naquela casa. Não mais.
Faltava mais um dia para Calore voltar com uma equipe profissional. Pesquisadores que procuram até hoje Ghirf por aí. Ele me disse que se eu precisava de ajuda, eles com toda certeza poderiam me ajudar.
Os dias com Dhuly se tornaram insuportáveis. Dormir no mesmo quarto que ela se tornou impossível. Eu não dormia mais. Preparar almoço, brincar e até olhar para ela se tornou uma tarefa complicada. Óbvio que ela percebeu.
– Pai, você tem andado estranho ultimamente... — ela dizia enquanto caminhava até a cozinha. — Desde que aquele seu amigo Cal saiu daqui, você tá diferente.
– Não é nada, Dhuly. — eu disse sem olhar para ela, sentado no sofá com o olhar fixo na TV mas sem prestar atenção.
– Tem certeza? Pode desabafar comigo... Sou sua filha!
Naquele momento eu me lembrei do significado da palavra FILHA, que ela fez questão de dizer com tanta ênfase. Como Dhuly pode ter nascido assim? Ninguém da minha família, nem ninguem do mundo era assim, somente Ghirf, que até hoje procuram saber o porquê e como isso foi possível.
Ela era minha filha sim, minha querida filha, mas ela planejava o mal, com certeza.
– Só um parente de Cal que faleceu... Nada demais. — completei e fiquei quieto.
Certamente meu maior medo era se Dhuly lia meus pensamentos. Se ela lia os de Tutu, por que não ler os meus?
E Tutu? Será que ele sabia dessa história? Será que ele era só mais uma vitima? Ou ele a ajudava de alguma forma? Será que Dhuly já sabia que nós descobrimos seu segredo? Tudo isso me apavorava.
No exato momento que voltei a prestar atenção na TV, Tutu apareceu com um queijo na boca, como um rato normal. Ele não parecia saber de nada. Era tão tranquilo como uma criança... Teria medo de Dhuly se soubesse a verdade.
Dhuly voltou à sala com um pacote de biscoitos e sentou ao meu lado. Eu tentei me conter e permanecer ali, ainda fingindo que nada estava acontecendo.
– Tá calor aqui, né?
Ela disse isso e quando pisquei, pude ver a sala inteira da casa em chamas. Tudo queimava feroz e rapidamente, o que realmente deixava o local muito abafado. Eu me assustei, mas antes de tomar qualquer atitude, pisquei de novo e tudo voltou ao normal.
"Me controlando novamente". Eu pensei.
Comecei a olhar pros lados um pouco nervoso, sem saber o que fazer. Ela era tão maligna e eu só queria ser um pai normal, mesmo depois de tudo que fiz.
– Eu... eu acabei de lembrar de pedir para Cal trazer umas coisas na sua volta. — eu disse com dificuldade, sem me lembrar que Dhuly não sabia que ele voltaria.
– Mas ele já vai voltar?
– Ah! É... Ele vai trazer uns amigos. Sabe... pra matar a saudade.
Ela me lançou um olhar desconfiado mas balançou a cabeça demonstrando que entendeu.
Então rapidamente eu me levantei e caminhei até o quarto. Peguei meu celular e quando ia trancar a porta, percebi o quão idiota era aquilo. Dhuly podia facilmente ouvir a conversa ou ler meus pensamentos. Eu precisava sair dali.
Fui até uma das gavetas e peguei as lentes verdes e a chave do carro. Saí do quarto a caminho da garagem com pressa. Claro que Dhuly percebeu.
– Onde vai?
– Eu... Vou dar uma saída rapidinho, tudo bem? — respondi gaguejando um pouco.
Me olhando de cima a baixo, ela percebeu que eu estava pálido e trêmulo, então fez questão de se oferecer para ir junto.
– Então eu vou junto!
– NÃO! — eu gritei no desespero, sem perceber.
Dhuly se assustou e ergueu as sobrancelhas como se aquilo não fizesse sentido. Eu tentei me recompor e não demonstrar meu medo.
– Quer dizer... Não, tudo bem. Obrigado! Você não pode ir... — tentei elaborar uma desculpa rapidamente e disse: — Farei uma surpresa.
Ela me olhou séria, como se soubesse tudo o que eu fiz, faço e ia fazer. Aquilo fez meu coração disparar. Achei que morreria ali, até que ela me surpreendeu.
Com uma gargalhada alta e apavorante, ela voltou a olhar para a televisão e disse um "tenha cuidado", acenando com os dedos.
Eu me vi livre naquele momento. Disfarçadamente corri para o carro e fui.
Fiz questão de só pegar o celular novamente quanto tivesse descido o morro todo. Chegando lá, liguei para Cal e fiquei rodando o centro da cidade.
– E aí, cara? Tudo bem? — ele já atendia preocupado, pois sabia do que Dhuly era capaz melhor do que ninguém. Ele tinha medo daquele ser meu último telefonema ou um pedido de socorro. Felizmente não era.
– Por enquanto...
– Fiquei tranquilo. Amanhã estaremos aí para pôr os planos em prática. — ele disse.
– Planos... — eu dei uma pequena pausa. — Para matá-la?
– Quer dizer, são poucos mas temos que tentar. Usaremos as mesmas tentativas que fizeram com Ghirf, o primeiro, e o que achávamos ser o único sem coração.
– As mesmas? Mas se não funcionou com ele, para que perder tempo com as mesmas tentativas? — eu estava perdendo a cabeça.
– Talvez... Pelo fato de ela ser mais nova, pode ser que seja pouco mais fraca. Pode ser que funcione. De qualquer forma teremos que tentar de tudo.
Eu reconheci o esforço de Calore para isso tudo, então eu somente concordei.
– Tudo bem... Espero que dê certo.
– Fique calmo por enquanto. Amanhã estaremos aí.
Desliguei o celular e voltei para casa.
A ideia de ter que matar minha filha, a única pessoa que eu consegui e aprendi a amar na minha vida, não me deixava feliz... Mesmo sabendo do perigo. Mas era preciso.
Chegando em casa eu disse à Dhuly que sua surpresa seria dali alguns dias. Essa surpresa seria sua morte. Mas ela não podia saber disso.
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