Os respingos de suas tintas enfeitavam suas bochechas pálidas, quase como se o próprio pintor fizesse parte de sua obra, tornando-se, assim, uma obra humana. O pincel, preso pelos seus dedos curtos e gordos, fazia rastros com cores frias, que eram o foco de sua mais nova obra. Seus cabelos castanhos e compridos — o Jinki perdeu-se nas contas da última vez que cortara seus fios — estavam extremamente bagunçados, apresentando todo o desleixo que era presente em sua rotina.

Estava há tempos preso em seu quarto; um quarto pequeno e bagunçado, mas surpreendentemente confortável, visto que ele possuía um forte cheiro de café e do perfume doce do sabonete que o Lee usava todos os dias.

Aquele era seu mundinho particular, onde ele depositava todos os seus sentimentos e vivências, sendo eles positivos ou negativos. Isso era perceptível pelas paredes, todas elas revestidas com suas pinturas e rascunhos. Lee Jinki, quando se tratava de artes plásticas, não poupava esforços. Não era para menos que todos o consideravam como um dos melhores alunos de sua faculdade de artes.

A tela mediana, que estava apoiada em um cavalete de madeira velha, estava há dias tomando toda a atenção de seu dono. O pintor havia até mesmo se esquecido do conforto de sua cama, de suas pálpebras pesadas e até mesmo do gosto ruim na boca que sempre possuía ao acordar de manhã. Não sabia mais como era viver sem o uso da cafeína e de seus remédios para dor de cabeça.

Havia uma linha tênue entre Jinki e o delírio.

A figura que mantinha em sua mente, há mais de um mês, fazia com que ele ficasse daquela forma; ansioso e extasiado. Poderia considerar aquela uma de suas melhores obras, mesmo que ainda mantivesse-a em construção.

Um rapaz, era o que pintava. Um simples rapaz que viera em sua mente criativa e debilitada. O semblante triste era a única coisa que o Jinki conseguia imaginar, como se o personagem não tivesse outra expressão além daquela. Dói-me, o personagem parecia explanar ao pintor, mesmo que estivesse no mais absorto silêncio, Isto é doloroso.

O azul em sua paleta era belo, entretanto melancólico. Serviria para fazer seu ajuste final, o detalhe que faria com que ele, finalmente, pudesse pendurar em sua parede; deixaria seus amigos, Kim Kibum e Choi Minho, orgulhosos por terem um amigo tão criativo e talentoso pela sua mais nova arte.

Ao pincelar, perto dos pequenos olhos, a cor azul, Jinki viu ali ter um problema. O rapaz não era-lhe estranho, muito pelo contrário, era muito bem conhecido. Os lábios cheios, que nunca se curvavam para sorrir, o nariz pequeno e desenhado de uma forma charmosa, os olhos puxados, as sobrancelhas um pouco grossas e o rosto fino estavam retidos em sua mente.

Aquele era Lee Jinki.

Tudo aquilo que imaginou era apenas uma figura sua, distorcida em tons frios. Tudo que pintara naquela tela, representava o que ele enxergava, corriqueiramente, no espelho de seu banheiro.

Lee Jinki possuía lágrimas de aquarela e, a cada dia, mais e mais, ele se afogava nelas.

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