Lágrimas De Sangue

2 Cap I - Pecados rastejando pelas costas


Notas iniciais
Bem, não queria postar tão cedo, mas ai está! Obrigada por lerem, boa leitura!

Levantei-me da cama de flores douradas cambaleante, ainda me sentia cansada da transição confusa de mundos. Tentei me acostumar com o ambiente ao redor, tudo era muito agradável, a natureza era muito presente naquele vilarejo, pássaros cantavam, flores desabrochavam, e o céu permanecia límpido e harmonioso.

Comecei a caminhar em passos lentos e à medida que chegava ao vilarejo consegui avistar algumas casinhas, estas muito convidativas e atrativas, mas me contive em bater na porta de alguma delas pedindo ajuda para evitar constrangimentos com desconhecidos.

Consegui identificar alguns aldeões fazendo seus deveres diários, e pude jurar que vi alguns conhecidos dentre eles, mas descartei qualquer possibilidade visto que nenhum deles era monstro. Meus amigos deveriam estar a cerca de alguns palmos do chão, e não em algum vilarejo humano qualquer.

Pude jurar que à medida que me aproximava mais daquelas casinhas, alguém atrás de mim me seguia com passos cada vez mais pesados. Senti-me desprovida de coragem para checar se havia mesmo alguém me acompanhando, então apenas continuei a caminhada, buscando fazer o mínimo de barulho possível para não chamar a atenção de tal pessoa.

Decidi fazer o caminho contrário ao do vilarejo, fui em direção a uma floresta nada convidativa, não havia outra opção, se algum ser estava me seguindo eu iria descobrir naquele momento. Quando me virei para seguir meu novo objetivo, olhei de relance que um rapaz fez o mesmo caminho que o meu. Tomada pelo desespero, acelerei o passo, sendo acompanhada pelo sujeito. O que mais me amedrontava nele era sua face coberta pelo capuz de seu moletom azul, assim sendo difícil identificar quem quer que ele fosse — não que isso adiantaria algo, sendo que não conhecia praticamente ninguém daquele novo mundo.

Cansei-me facilmente, deixei-me por vencida, parei a poucos metros do rapaz que me seguia e esperei para saber o que ele queria comigo. Quando vi um sorriso sinistro formando em sua face, arrependi-me e por um instante esperei minha morte, parece que não gostam de estranhos no vilarejo.

—Está perdida?

A voz do rapaz era grossa e um tanto lenta. Lembrou-me um amigo do passado, mas certamente não era ele, se fosse, certamente seria o motivo de estar me seguindo com um ar violento, eu tinha dívidas sérias com esse amigo.

—Não, estou apenas de passagem.

Respondi rapidamente. Queria me livrar daquele sujeito estranho que estava me seguindo sem mais nem menos. Senti que minha resposta não satisfez a curiosidade dele, pois seu sorriso cínico aumentava cada vez mais, por fim, ele retirou o capuz e pude ver seu rosto. Ele era um pouco mais alto que eu, tinha um cabelo branco e heterocromia, um de seus olhos era preto e o outro azul, o brilho deles me arrepiava, sentia ódio em seus orbes.

—Eu vou ser um pouco mais claro. O que você está fazendo em meu mundo?

Sua voz de lenta passava a levemente agressiva. Eu lutava comigo mesma para não entender aquela pergunta, não podia compreender, sentia que se soubesse o que ele estava dizendo eu teria um choque de realidade doloroso.

—Não entendi a sua pergunta, por favor, apenas me deixe ir.

Supliquei, mas a expressão do rapaz não mudava, apenas se distorcia ainda mais. Por um momento, vi um de seus olhos quase faiscarem em chamas.

—Chara, não se faça de boba, eu sei quem você é, eu sei o que você fez, eu me lembro.

Senti meu coração falhar. Ele se aproximava cada vez mais de mim, e seu olho esquerdo ardia em uma chama azul. Eu também sabia quem ele era, se pudesse, sei que Sans não perderia a chance de me matar ali mesmo.

—Eu não consegui te fazer arder no inferno da primeira vez, ou melhor, das quinhentas vezes seguidas, mas agora, que você está nesse corpo falso, eu poderei te fazer passar por uns maus tempos.

Assim que Sans ergueu sua mão, senti meu corpo acompanhar esse movimento, como se eu fosse uma verdadeira boneca de pano, não possuía mais controle de mim. Tentei gritar por ajuda, mas nenhum som era emitido, ele estava começando a apertar meu pescoço de tal maneira que pensei desmaiar por um breve momento.

Antes que eu pudesse realmente perder os sentidos, avistei uma garota de uma aparência quase idêntica a minha, vindo apressadamente até nós, ela não parecia nada feliz com o que Sans estava fazendo.

—Sans, Solte-a! Quantas vezes terei que dizer para não usar seus poderes nesse mundo? Você enlouqueceu saco de ossos?

Apesar de a menina aparentar estar zangada, sua voz era calma e quase inaudível, suspeitei que até mesmo Sans não ouviu pois ele não me soltava por mais que a garota chamasse seu nome.

Por fim, a menina teve que cutucar o amigo diversas vezes para que chamasse sua atenção. Após vê-la mais detalhadamente, notei que aquela criança era Frisk. Eu tinha dívidas ainda maiores com ela, por ter possuído seu corpo com meu espirito maligno, mas penso que Frisk, diferente de Sans, não podia se lembrar de outras linhas do tempo.

—Desculpa Frisk, tenho assuntos a tratar com essa sujeita.

O desdém de Sans irritou ainda mais a garota, que inutilmente ainda continuava xingando-o com aquela voz calma e pacifica.

—Os aldeões não podem te ver nesse estado, quer que eles te joguem na fogueira te acusando de ser um bruxo?

—Não vou deixar ninguém me jogar na fogueira.

—E como fica a vida de seus amigos se você espantar todos os outros humanos? Não pensa nos outros?

Sans por um momento pareceu afrouxar o aperto em meu pescoço, e, vagarosamente foi abaixando o braço e consequentemente me largando na terra fria.

—Só estou ponderando seu comentário porque Papyrus deu de se apaixonar por uma humana remelenta. Não teria coragem de partir o coração do meu mano.

—Não fale como se nós também não fossemos humanos.

—Eu sou?

Ele estava levemente sarcástico, e eu aparentemente naquele ponto já não estava estendendo mais nada. Apenas fiquei escutando aqueles dois discutir dando graças aos cosmos por ter saído viva dessa.

(Frisk)—Vamos pra casa, você vem?

Frisk parecia estar se direcionando para mim, seu olhar estava bondoso e ela aparentava entender que eu estava literalmente perdida e sem um lar. Queria muito poder aceitar, mas algo no olhar fuzilante de Sans me dizia que se eu concordasse eu teria que passar por uns maus tempos.

(Frisk)—Qual o seu nome?

O rapaz por um momento olhou assustado para a garota, depois me encarou, como quem dissesse “nem pense em dizer seu nome verdadeiro” e eu, prezando pela minha vida, entendi seu recado, e iria obedecer.

—Clara.

Pensei no primeiro nome que veio a minha mente, era algo parecido com o meu, e também não era bizarro, pior coisa que poderia acontecer era eu sofrer bullying por causa de um nome idiota.

(Frisk)—Belo nome, vamos?

(Sans)—Belo nome o cacete! Frisk, não podemos deixar uma estranha na MINHA casa, você pensa que só porque é especial para mim e para o Papyrus que a casa é sua?

—Eu moro lá também Sans, e ela aparenta estar sozinha e com fome.

—Que se dane ela! Eu estava pronto para matá-la.

—Desde quando você é sanguinário assim? Não te reconheço.

—Esse ser é um demônio e ele vai machucar a todos, não entende?

No meio daquela discussão, eu apenas me fazia de cachorrinho abandonado, encolhida, e fazendo a máxima cara de inocente possível, não queria que Sans tivesse um ataque de raiva e me atacasse desprevenida.

—Ela não machucou ninguém e nem aparenta querer fazer mal para alguém. Pare com isso, senão eu ficarei aqui e não retornarei para casa, você terá que aguentar o Papyrus me chamando o dia inteiro.

Sans pareceu ter sido dado por vencido, relutou por um tempo, mas logo cedeu. No fim fomos todos para a casa dos irmãos, com ele me fitando com ódio pelo caminho inteiro, e com Frisk ora o repreendendo e ora me confortando.

A medida que chegávamos perto da casa, vi algumas pessoas muito familiares – ou nem tanto – cumprimentando os dois, imaginei que seriam alguns monstros do subsolo que nessa realidade eram humanos, não havia como saber, apenas perguntando o nome de cada um.

A casa aparentava ser uma das maiores do vilarejo, ela era inteirinha de madeira e a decoração era um tanto confusa, com alguns enfeites e pisca-piscas natalinos, e uma bandeira de uma caveira pendurada em cima do telhado. Logo ao lado da casa havia uma casinha de cachorro, perguntei-me mentalmente se eles tinham algum animal de estimação, mas achei meio impossível visto que nada animalesco estava dando sinal de vida naquele local. A caixa do correio estava cheia de cartas, era meio inconveniente já que o vilarejo era pequeno e provavelmente não havia problemas de comunicação, apenas pensei que aquelas seriam cartas do reino, e talvez Papyrus tenha realizado o sonho de ser guarda real. Apesar disso tudo, o lugar me era familiar, lembrava muito a antiga casa que eles tinham em Snowdin.

—Aqui existe um reino?

Perguntei para confirmar minhas suspeitas.

(Frisk)—Sim, o rei e a rainha Dreemurr são muito gentis e sempre estão nos visitando para saber como vão as coisas.

Frisk me respondia com um sorriso gentil, nem posso acreditar que em outra linha do tempo fui capaz de corromper uma pessoa tão boa, ainda mais que na época ela era apenas uma criança.

(Sans)—Não precisa falar deles assim, todos sabem que você é a queridinha da rainha.

Sans aparentava estar com tédio, ele enrolava para abrir a porta da casa, errando a fechadura milhares de vezes, como quem evitasse que um intruso entrasse.

—Sans me dá essa chave, deixa que eu faço isso.

A garota estava impaciente, abriu rapidamente a porta e deu espaço para que entrássemos, senti-me levemente tímida, algo que não era de meu feitio, onde estava a Chara corajosa e forte?

Lembrei-me de Asriel, e uma dor latejante me atingiu. Eu precisava saber como ele estava, se nessa realidade ele ainda estava vivo, se ainda se lembrava de mim.

—O rei e a rainha tem um filho?

Perguntei, enquanto me sentava no sofá a pedido de Frisk.

Senti Sans fitar-me com malícia nos olhos, certamente ele sabia aonde eu queria chegar.

(Frisk)—Sim, Asriel é nosso príncipe, um verdadeiro cavalheiro. É muito difícil nós vermos ele, pois está sempre recebendo treinamentos então fica muito distante da vila.

—Entendo.

Sentimentos de felicidade e tristeza formavam uma confusão dentro de mim, gostei de saber que ele estava vivo, mas odiei saber que não poderia vê-lo tão cedo.

De qualquer maneira eu não estava ansiosa apenas para ver Asriel, queria poder abraçar minha mãe, meu pai, estes que nesse ponto devem que nem se lembram mais de mim.

—Sans que hora o Papyrus chega? Eu ia falar para ele fazer um delicioso espaguete pra nossa convidada.

—Você não me deixou matá-la e agora quer que meu irmão mate ela por intoxicação alimentar?

—Pare de ser idiota, ele faz um espaguete gostoso.

—Só nos seus sonhos.

Realmente o espaguete de Papyrus era praticamente algo muito próximo do podre, pelo menos na outra linha do tempo, onde ele adorava me encher das receitas malucas dele. Espero realmente que tenha melhorado para assim não me fazer vomitar e passar vergonha na frente de Sans, não aguentaria quando o antigo esqueleto começasse a fazer suas piadas inconvenientes.

Eu estava morrendo de fome, e apesar de não gostar das comidas de Papyrus, já estava quase implorando para que ele chegasse e fizesse alguma gororoba visto que eu estava quase desmaiando ali mesmo.

(Frisk)—Venha cá Clara, vou te mostrar onde fica seu quarto.

Demorei em pegar no tranco por causa do nome, mas logo a acompanhei, subindo as escadas e parando perto de um quarto isolado no segundo andar. Estranho, não me recordo desse lugar existir na outra linha do tempo, talvez porque eu e Sans não éramos tão próximos para que ele me mostrasse sua casa inteira. Lembrei-me também que apesar de ser uma cópia perfeita da casa de Snowdin, não era a mesma, portanto poderia muito bem agregar alguns cômodos a mais.

Lembrei-me de Toriel quando Frisk me apresentou o quarto desse modo, e uma saudade avassaladora me consumiu. Como minha mãe estava vivendo? Ela estava bem? Deve que sim, pois sendo uma rainha deve ter todos os mimos possíveis, isso me aliviava.

O quarto era simples e ajeitado, o que me estranhava por estar na casa dos irmãos, que sempre foram muito relaxados, mas Frisk deve ter cuidado para que o cômodo permanecesse intocado.

—Nunca usamos esse quarto, sempre foi apenas eu, Sans e Papyrus, então não precisa ficar com receio de dormir aqui.

Dei um sorriso gentil, pelo que vi, Frisk seria minha primeira amiga nesse novo mundo. Saber que eu não estava sozinha me aliviava.

(Frisk)—Ah, outra coisa, você deve ter se assustado com a forma como Sans te abordou, não precisa ter medo, ele é um saco de ossos legal e tenho certeza que não irá te machucar pra valer, ele apenas está um pouco estranho ultimamente.

Saber que tudo aquilo podia ser culpa minha me fazia ficar com um peso enorme na consciência. Não havia porque me fazer de vítima, eu estava merecendo aquilo.

(Frisk)—Ele vem dizendo coisas estranhas para mim, como algo relacionado a uma linha do tempo corrompida, um perigo que se aproxima, enfim, eu tenho algum conhecimento sobre isso, mas Sans está passando dos limites com suas teorias.

Queria muito dizer para ela que na verdade ele está certo sobre tudo, mas se Sans soubesse que eu abri a boca eu me tornaria um cadáver, além do mais, havia muitas coisas que eu ainda não sabia, quando surgir uma oportunidade, não hesitarei de interrogá-lo.

(Frisk)—Quanto aos poderes dele, sei que deve estar assustada, mas logo que ele pegar confiança em você sei que te dirá mais sobre isso.

Uma curiosidade gigantesca crescia dentro de mim, muitas perguntas novas estavam sendo criadas em meu pensamento, eu sabia que Sans em outro mundo era um monstro, mas por que mesmo sendo um humano aquilo persistia? Por que eu vim parar aqui? Como todos vieram parar aqui? Quem controlou o “true reset” que nos trouxe até aqui? Todas aquelas perguntas sem respostas e a minha própria curiosidade, estavam me enchendo de DETERMINAÇÃO.

Notas finais
Até o próximo capítulo, não se esqueçam de dar sinal de vida ;*