Lágrimas De Sangue
4 Capítulo Três- Lembranças Dolorosas
Notas iniciais
(Sans)—Fechem os olhos, a magia poderá cegar vocês, mas Clara pode me desobedecer se quiser.
Notei um tom de sarcasmo. Perguntei a mim mesma quando Sans iria me perdoar por um passado que não interferia nessa nova vida dele, já estava começando a me chatear, e eu não aguentaria ser forte por muito tempo.
Todos nós permanecemos de olhos fechados esperando para que o transporte se concretizasse. Ouvi novamente uma melodia suave, e Sans ordenou para que nós abríssemos os olhos novamente.
Fiquei boquiaberta ao perceber que a árvore havia simplesmente sumido, e no lugar dela agora havia um grande elevador metálico, que parecia desgastado com o tempo. Lembrei-me que em minha vida humana eu tinha uma grande fobia por altura e tudo que pudesse literalmente despencar, e o elevador estava na lista de objetos que “caem” de alturas elevadas.
Frisk pareceu notar meu desespero.
(Frisk)—Não tenha medo, Clara. Esse elevador também é sustentado por magia em casos de risco de acidente, então se algo ameaçar em acontecer ele não deixará que nós nos machuquemos. E também teremos uma pequena ajuda do Sansy.
(Sans)—Só você será salva Kiddo.
Sans recebeu um peteleco na cabeça, não pude segurar o riso, adorava ver como os dois se davam bem de uma maneira estranha. Frisk apertou um botão do elevador e então pudemos ouvir uma musiquinha baixa, que me lembrava muito o canto de algum pássaro desconhecido.
A porta metálica do elevador se abriu e pude observar um fundo cinzento que nos aguardava. Caminhamos para fora e pude perceber um longo corredor cinza, que de alguma maneira me trazia certa melancólica e saudade do passado, eu e Asriel adorávamos correr por esse corredor enquanto brincávamos, eram bons tempos.
Lembrando-me de Asriel, aquela dor havia retornado, dessa vez se alastrando por todo o meu corpo, me provocando algumas tremedeiras estranhas.
(Frisk)—Clara? Você está bem?
(Chara)—Não se preocupe, é apenas nervosismo.
Onde estava aquela Chara durona, forte, e sobretudo valente? Eu estava parecendo um cachorrinho com medo de tomar banho, tremia com medo do que viria a seguir, e a dor talvez fosse pelo mesmo motivo.
(Sans)—He He, não vá se clagar de medo hein.
(Frisk)—SANS!
(Sans)—Que foi? Às vezes uma boa piada cura nervosismo, não se estresse mulher.
Tive que confessar que daquela vez não me segurei e dei um sorriso bobo, pelo menos ele não estava tentando me matar como das ultimas vezes, era um bom sinal.
Depois de enfrentar um extenso corredor cinzento, demos de cara com uma casa, sim, uma casa dentro de um castelo. Imagino que mamãe era humilde demais para dormir em um castelo luxuoso quando ainda podia ter uma casinha simples para fazer suas deliciosas tortas de caramelo e canela sem a intromissão de algum empregado, essa era com certeza uma qualidade de Toriel, a simplicidade.
(Frisk)—Ai, que saudade desse lugar!
(Sans)—Imagino que iremos encontrar apenas a rainha aqui.
(Frisk)—Mas e os outros?
“Asriel”, eu tinha que vê-lo urgentemente.
(Frisk)—Toriel gosta do seu pequeno cantinho particular, não sei se o rei teria paciência de ficar em um lugar como esse, não parece ser de sua personalidade.
(Sans)—Kiddo, tá na cara que com “outros”, ela quis dizer “Asriel”.
Aquele saco de ossos conseguia ler mentes também?
Frisk fez-se de desentendida, era melhor assim.
(Frisk)—Oh, não sei o que há com ele viu, ninguém o vê desde a morte da irmã.
(Sans)— “Ain ele é um cavalheiro, adoramos ele”
Sans estava claramente imitando Frisk. Mas... Morte da irmã? Que irmã? A irmã não era eu?
(Frisk)—Eu quis passar uma boa impressão da família para ela, Sansy! Se eu dissesse que o príncipe é um desaparecido que não fala com ninguém o que ela iria pensar?
Frisk sussurrava apenas para Sans, mas eu consegui ouvir também, por mais que não tivesse entendido. O Asriel que eu conhecia realmente era solitário, mas da maneira como ela estava falando era como se ele fosse algum louco se escondendo em uma caverna por ai, o que não era verdade. O Asriel que eu conhecia era um pequeno chorão covarde, mas era o meu chorão covarde, era o meu pequeno medroso e bobalhão, não havia mais o que pensar, eu amava ele, por mais que centenas de linhas do tempo tivessem sido apagadas, eu ainda o amava.
(Frisk)—TORIEL!
A antiga voz pacifica e calma de Frisk aparentava ter ido embora, a garota gritava com todas as forças por Toriel enquanto esmurrava a porta com toda indelicadeza possível, até o saco de ossos se assustou.
Ouvimos passos leves se aproximando da porta, finalmente eu iria ver mamãe novamente.
(Toriel)—Quem está ai... Ah, minha criança!
Toriel abrira a porta e deu de encontro com Frisk, esta que abraçou a grande mulher com um aperto considerável, enquanto ambas choravam de emoção. Mamãe estava diferente de como a conhecia, visto que não era mais uma cabra. Nesse mundo ela era uma mulher alta e grisalha, suas expressões eram de uma senhora de aproximadamente quarenta anos, visto que já havia tido um filho, mas ainda possuía algum charme, vestia um vestido longo e negro, com mangas longas, parecia muito o manto que usava no underground.
Era eu quem deveria estar emocionada, mas de alguma maneira não senti nada, não reconhecia aquela mulher que estava abraçando Frisk, para mim não era mamãe.
(Toriel)—Que saudade minha pequena, já me sentia uma senhora idosa sem filhos.
(Frisk)—Ora mamãe, a senhora está muito conservada, e não tem culpa daquele ingrato do Asriel não vir mais aqui.
(Toriel)—Ele está passando por tempos difíceis querida, entenda seu irmão.
Confesso que senti certa inveja e ciúme ao assistir de camarote Frisk tomando meu lugar na família, mas eu não podia me irritar, aquele não era meu mundo, eu era uma intrusa naquele lugar.
(Frisk)—Ele não é o meu irmão. Bem, eu trouxe o Sansy comigo, e uma menina que apareceu no vilarejo hoje de manhã, o nome dela é Clara.
Toriel apenas percebeu minha presença depois que Frisk havia dito aquilo, e quando olhou em minha direção, senti que ela me analisava com cuidado, aparentando estar um pouco surpresa, como se... Estivesse vendo um fantasma?
Sans até tentou cumprimentá-la, mas foi completamente ignorado, Toriel estava fixa em mim, e isso já estava me assustando.
(Toriel)—Clara? Eu poderia jurar que você é minha filha falecida. Os olhos vermelhos... Eram algo único nela, e você os têm, impressionante...
Então naquela linha do tempo eu já havia existido? Interessante... Talvez por isso Sans estivesse me perseguindo e querendo minha cabeça em uma bandeja, talvez ele pensasse que eu era algum tipo de essência maligna da Chara falecida, mas para falar a verdade, nem mesmo eu entendia o que estava acontecendo.
(Frisk)—Ah, de novo não mamãe, a senhora disse isso para outras dez garotas, tá ficando louca que nem aquele maníaco do Asriel.
(Toriel)—Por favor... Querida, cale-se, dessa vez é algo sério.
Pela primeira vez vi Toriel realmente brava, apesar de ainda possuir doçura na voz. Mamãe, ou melhor, aquela mulher gentil, pediu para que entrássemos e assim fizemos.
(Toriel)—Ah, perdão Sans, você está Sansacional hoje, adorei.
Toriel aproveitou para brincar com o saco de ossos, enquanto eles se cumprimentaram de uma maneira estranha, parecendo velhos amigos inseparáveis.
(Toriel)—Podem se acomodar, vou preparar alguma coisinha para vocês e já volto, estarei na cozinha.
(Sans)—Não precisa Tori, a Frisk já nos entupiu até os ossos de chá, estamos mais do que cheios.
(Toriel)—Clara precisa experimentar minha torta de caramelo e canela, é algo sagrado como boas-vindas para uma nova amiga, não é mesmo minha criança?
(Frisk)—Sim mamãe! Você irá amar a torta dela Clara, é uma delicia, acho que engordei bastante de tanto comer.
(Sans)—Não precisa falar que tá gorda, todos veem que seus ossos sofrem uma batalha diária para ter algum espacinho ai, tanto que já tem gordura até saindo da blusa e...
De novo uma troca de olhares mortais, um dia eu ainda entenderia os dois. Naquele ponto, Toriel já estava na cozinha fazendo sua deliciosa torta, já havia provado diversas vezes, é um privilégio de ter sido sua filha em outros tempos.
Havia alguns sofás para se sentar na sala, mas eu quis simplesmente explorar e deixei os dois se entendendo sozinhos. Eu estava confusa quanto a muitas coisas, e esperava pacientemente pelo momento certo para interrogar Sans ou até mesmo Toriel sobre o que estava acontecendo naquela realidade, se eu continuasse apenas deixando a vida me levar sem entender nada, um dia eu enlouqueceria, deveria pôr minhas dúvidas em dia e estava esperando aquele saco de ossos ficar sozinho comigo para que eu perguntasse, só esperava que ele não tentasse me matar como das outras vezes.
Na entrada da casa havia uma escadaria que levava para baixo. Na casa das ruinas, ela levava para um grande portão que daria entrada para o mundo onde os monstros caçavam humanos. Eu sabia daquilo pois vivi no corpo de todas as sete almas por um bom tempo, era eu quem as vezes influenciava os humanos a matarem Toriel para atravessarem o portão, mas eu preferia acreditar que era apenas uma essência maligna minha.
Naquela versão de casa dentro do próprio castelo, a escadaria levava para o andar de baixo do mesmo e lá levaria até a sala do trono onde permanecia o rei, que nesse momento deveria estar ocupado sendo que nem dava atenção para a esposa. Eu nunca iria querer um marido assim, por mais que entendesse que ele tinha que cuidar de um reino inteiro. Toriel aparentava estar sozinha por um bom tempo, sua expressão cansada e seus olhos vazios confirmavam isso. Eu me perguntava se Asriel estava em uma situação parecida, e pelo que Frisk disse, essa teoria estava cada vez mais forte na minha cabeça, ele talvez tivesse enlouquecido.
Em outro corredor, vi três quartos, e muitas, muitas flores douradas espalhadas, aquelas que eram minhas favoritas. Entrei no primeiro quarto e me deparei com duas pequenas camas de criança, mas pareciam estar inutilizadas há muito tempo, muitos brinquedos estavam jogados aqui e ali, e havia também uma grande prateleira com alguns troféus e outros brinquedos de criança. Eu não era nem louca de me esquecer daquele lugar.
—Asriel... Eu sinto tanta falta de te contar algumas histórias para dormir... Seu bebê chorão e medroso... Onde você se meteu? Por que está me deixando sozinha? Você tinha tanto medo de ficar sozinho... E quem acabou me abandonando foi você...
Não aguentei todas aquelas lembranças, foi demais para mim, no fim acabei me ajoelhando e desabando em lágrimas, enquanto apertava em meus braços algo imaginário, imaginando que algum dia eu poderia abraçar Asriel com a mesma intensidade.
(Sans)—Ah... Chara...
Levantei-me em um sobressalto. Ele não podia ter visto aquilo, não podia ter me visto daquela forma tão... Fraca e vulnerável... Eu não era assim...
(Sans)—Se sente tanto a falta dele eu posso te levar até onde ele está, mas acho que não ficará feliz em te ver.
Sequei as lágrimas com a ponta dos dedos, a ideia me alegrou, mas eu não poderia dar-me por vencida tão facilmente. Não... Por ele eu esqueceria meu orgulho, aceitar a proposta de Sans era tudo o que me restava no momento.
(Chara)—Por quê? Ele nem mesmo me conhece...
—Você se parece muito com a Chara desse mundo que morreu há alguns anos, e de fato você é ela, então isso poderá deixá-lo confuso, ainda mais no estado em que está.
(Chara)—O que houve com ele, Sans? Por que vocês falam dele dessa maneira?
—Você verá.
O saco de ossos foi caminhando sem nem ao menos olhar para trás, eu apenas tentei segui-lo, mas assim que estávamos para descer a escadaria, Mamãe, ou melhor, Toriel, nos barrou como quem nos protegesse de algo ruim, aquilo me trouxe uma nostalgia de tempos passados.
(Toriel)—Aonde vão crianças? Não vão nem comer um pedacinho da minha torta?
(Sans)—Desculpa Tori, apenas ia apresentar Clara para seu marido e filho, ela quer conhecê-los.
A grande mulher aparentou estar preocupada com algo, sua expressão era de medo.
(Toriel)—Não acho ser uma boa ideia. Sans, você sabe o que pode acontecer...
(Sans)—Eu sei Tori, mas uma hora seu filho terá que se acostumar com alguns rostos semelhantes, ele não irá entrar em coma se ver alguém idêntico a Chara, talvez apenas tenha uma reação parecida com a sua.
Toriel apenas abaixou a cabeça, por um momento, vi seus olhos lacrimejarem, estava sendo difícil até para ela encarar a realidade. Por fim ela apenas aceitou e deu passagem para que descêssemos a escadaria, acenando como uma forma de despedida, sempre muito formal.
(Toriel)—Por favor, digam ao meu filho que eu o amo muito, faz tempo que não o vejo, avisem que estou com saudade.
Pude ver Frisk de longe apenas observando a cena, enquanto comia uma enorme fatia de torta, de certeza ela não sairia tão cedo daquela fartura alimentícia que Toriel estava lhe proporcionando, seria melhor assim, eu queria conversar com Sans a sós sobre algumas dúvidas particulares.
Apenas concordamos e continuamos nosso caminho. Saber que finalmente eu encontraria Asriel, estava me enchendo de DETERMINAÇÃO.
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