Lágrimas De Sangue
8 Capítulo 7 (É Real)
Notas iniciais
Sentia meu corpo acordar, mas não enxergava absolutamente nada, mesmo que tivesse a certeza de que meus olhos estavam abertos. Eu estaria ficando cega? Foi então que senti uma mão quente e felpuda apalpar meu corpo. O dono dos afagos nada dizia, eu apenas conseguia sentir sua respiração pesada e um pequeno som de choro disfarçado. O que estava acontecendo? Senti minhas narinas serem preenchidas por um material fofo, provavelmente algodão. Estava me confundindo com uma morta?
—Descanse em paz, minha filha. – Uma voz familiar pronunciou. Seu tom estava embargado em choro e não pude identificar o dono dele.
—Onde será que erramos, querido? – Outra voz ainda mais desesperada indagou. Apesar da dificuldade de identificar, pude notar que era a doce melodia de Toriel. Os sons de choro começaram a ficar cada vez mais incessantes, tornando aquele local um coral melancólico.
Por algum motivo até então desconhecido, pude sair daquele corpo morto e inútil. Minha alma e essência deslizavam graciosamente para fora, assim fazendo com que eu pudesse voar – sim, literalmente flutuar sem asas – por todo aquele local fúnebre. Apenas assim pude finalmente adquirir uma visão que funcionasse, inspecionando ao redor e notando que todos os monstros estavam presenciando aquele funeral, mesmo que apenas o rei e a rainha estivessem de fato melancólicos.
Meu raciocínio trabalhava a mil. Várias teorias dançavam em meu cérebro buscando o motivo para eu estar morta e em uma realidade diferente. Há pouco tempo eu estava apenas sonhando, isso seria apenas outro sonho ruim? Por que estava tendo essas alucinações em um momento tão inoportuno? Apenas queria retornar para aquela realidade boa e viver normalmente como estava em meus planos.
Meu corpo morto estava pálido e muito ferido, provavelmente por consequência de alguma doença degenerativa que me acometeu em vida. Mas, se era apenas outro sonho, por que me parecia tão real? Os sentimentos dos monstros, eu podia sentir todos eles. Pulsavam como se fossem suas almas em meu ser, ou em minha essência. Não me recordava daquele momento em uma linha do tempo passada, talvez porque naquele ponto eu já estaria morta, sem qualquer sentido existencial. Então aquela Chara genocida não era minha pessoa? Talvez alguma alma perdida que havia se apossado de minha forma, de minha essência? Era bem provável.
Por um momento percebi que eu podia ouvir pensamentos, como se eu existisse fora do campo existencial, e, se eu havia mesmo morrido, realmente isso se confirmava. Vários burburinhos de algumas mentes começaram a ecoar dentro do que me restara de consciência, mas apenas um pensamento naquele local me interessara.
“Era muito peso para uma mera humana”
Pude ouvir os pensamentos de Sans daquela realidade. Ouvi com toda a atenção para que não perdesse qualquer detalhe.
”A primeira humana”
“Meu pai era louco para pôr as mãos em uma”
“Tudo pode acontecer daqui em diante”
Tentei ligar todas as informações e não consegui chegar a lugar nenhum. Não havia coerência em meu ponto de vista, ou talvez eu não fosse inteligente o suficiente para entender seus pensamentos. Sans tinha um pai? O que ele queria dizer com “ele era louco para pôr as mãos em uma”? Talvez um maníaco-pedófilo de humanas?
Foi então que me lembrei de um dos motivos que me levaram a adoecer. Além de me acometer uma enfermidade degenerativa desconhecida, eu havia contraído uma depressão e uma leve esquizofrenia. Podia jurar que via um espectro extremamente pálido com uma manta enorme e negra. Ele sempre aparecia em espelhos e perto das flores douradas, como uma verdadeira praga em minha vida. A criatura nunca revelava seu nome, apenas aparecia por alguns segundos para me aterrorizar e dizer algumas palavras desconexas em alguma simbologia antiga. Eu às vezes tinha a impressão de que reconhecia aquele espectro. Talvez fosse a alma perdida de W.D Gaster? Não conhecia muito sobre aquele cientista real, apenas sabia que ele havia morrido de forma trágica quando eu era apenas um pequeno bebê, e desde então eu vinha tendo crises de esquizofrenia.
Era egoísta colocar a culpa dos genocídios em outra pessoa, mas era quase certeza de que aquele espectro estava me influenciando. Havia possuído meu corpo e tomado o controle da situação, usando o resto do meu corpo e minha consciência. Todo aquele tempo em que fui grossa, mal-humorada, depressiva, não era eu realmente. Estava em um estado depressivo e de paranoia por causa daquela alma perdida, a irritabilidade e o desdém eram apenas consequências do meu sofrimento. Agora tudo estava claro.
Assisti as últimas homenagens em meu nome. Assim pude ver ao vivo o meu Asriel aproximando-se do corpo morto em prantos, sussurrando palavras desconexas e esmurrando a si mesmo. Se eu não fosse apenas um restinho de consciência, certamente teria chorado ao ver aquela cena. Mas tudo o que me restou foi aguardar e observar tudo o que se passava ali, era uma realidade diferente e aquela Chara talvez não fosse a mesma pessoa que eu era agora. Era necessário deixar o passado para trás e construir o meu futuro, afinal, eu não estava morta, a Chara da outra realidade que estava. Por algum motivo, minha mente projetou aquele passado distante para que eu refletisse sobre algo, ou talvez para que descobrisse algo que me privaram de saber. Talvez ainda houvesse esperança de recuperar as memórias que me faltavam? Encaixar os quebra-cabeças e descobrir a verdade? Era algo que eu apenas descobriria futuramente, e com toda certeza Sans da minha realidade me ajudaria a desvendar diversas peças daquele enigma.
Asriel continuou parado em frente ao meu corpo por horas seguidas. Pude perceber que ele até quis me abraçar mesmo morta, mas não o fez, com receio de que alguém visse. Só então que notei diversas almas – ou figuras brilhantes e translúcidas – circulando ao redor do corpo. Todo aquele salão dourado estava repleto delas, que pareciam sussurrar códigos indecifráveis enquanto rodeavam aquela Chara como verdadeiros cães de guarda, dispostas a proteger aquele corpo como se ainda houvesse algum resquício de vida nele. Pude notar também algumas almas negras, estas esperando alguma oportunidade para realizar algum plano mirabolante, talvez meu corpo original houvesse sido vitima de alguma dessas figuras, e não precisamente de W.D Gaster.
—C-chara, eu vou te vingar! – A voz saia como sussurro, mas eu pude ouvir. Asriel aparentava esta enlouquecendo, isso justificaria aquele rapaz que fazia parte da minha realidade. Não pude compreender seus pensamentos, cujos me soavam muito desconexos e não formavam frase alguma.
Por um momento, vi aquele Asriel me enxergar nitidamente. Seus olhos verde-escuros fitavam-me com receio, enquanto eu apenas retribuía o olhar e imaginava o porquê de ele conseguir interagir com uma pessoa que estava fora daquele plano existencial. Foi tudo muito rápido. Asriel gritou. Eu me desfiz lentamente. Meu corpo estava preparado para retornar ao lugar de onde vim. Tudo que eu vi era real, nada daquilo era um pesadelo afinal, e saber disso me assustava.
Qual era a verdade por trás de tudo?
Em súbito, senti minha consciência pesar e a partir daquele momento, eu não seria mais a mesma.
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