Lágrima Escarlate

13 Revelações - Cap final


***

Naman, passado o impacto da surpresa por ver seu filho, receptáculo da alma da Deusa, sendo penetrado por um outro, precipitou sobre os dois. Dylan foi arrancado de dentro de Bellan pelas mãos fortes do pai do menino.

Dylan caiu aos pés do monge Kabir vendo Naman dar bofetadas na face do filho enquanto gritava palavras esquisitas. Sentiu sua cabeça ser acertada por algo sólido e suas forças esvaíram.

Acordou algum tempo depois. Estava amarrado sobre um altar, aos pés da estátua de um deus que ele não conhecia. Estava bem, sentia apenas a cabeça doendo, possivelmente devido a pancada que recebeu.

Olhou ao redor e observou que estava em uma sala desarrumada em algum recando do templo.

Olhou ao lado e viu Bellan desnudo disposto sobre um altar. Ele não estava amarrado, porém, não estava em condições de se mover. Sangue cobria parte de seu corpo e hematomas enormes estendiam pelas pernas e braços. Estava quase irreconhecível.

Algumas pessoas estavam ajoelhadas ao redor do menino. Dentre eles, o pai, o monge e uma mulher que chorava descompassadamente que Dylan acreditou ser a mãe do garoto. Mais ao fundo, em algumas cadeiras amontoadas, pessoas sentadas acompanhavam à distância o que acontecia no altar onde o Bellan estava.

Cantavam um mantra suave e tranquilo, em descompasso com a cena horrível que acontecia naquele salão imundo, obscuro e mal iluminado.

Dylan forçou um pouco os punhos e viu que não poderia escapar, já que fora muito bem amarrado.

O medo que havia tomado conta de si desde que acordou, aumentou um pouco quando viu Bellan naquela situação. Se haviam feito aquilo com um dos seus, o que não fariam então com um estrangeiro.

Voltou seus olhos ao indiano e encontrou os olhos suaves do menino. Pareceu-lhe terno e calmo, ainda que a respiração denunciasse que sentia muita dor no corpo e na alma.

O mantra continuava quando o monge se levantou. O canto foi entoado com mais fervor e as pessoas levantaram de seus acentos.

Caminhando lento, o monge foi até Naman e ofereceu-lhe uma adaga de lâmina curta. O homem a recolheu com certo receio. Porém, levantou e pôs-se ao lado do filho. A mulher se desmanchava em prantos.

Dylan olhava estático e aterrorizado, não dando muito crédito ao que sua intuição previa acontecer. Porém, virou o rosto e mordeu fortemente os lábios inferiores quando viu a adaga penetrar na carne fria do indiano.

Naman a enterrou um pouco abaixo do umbigo ao som de um tênue gemido do filho. A lâmina afiada foi conduzida pela extensão do abdome, cortando apenas a pele e a fina camada de gordura que protege as entranhas. Encontrou a junção da costela ao alto do tórax e as separou. Dylan ouviu o som dos ossos sendo cortados. Já próximo ao pescoço, a adaga foi retirada enquanto o corpo estremecia.

O mantra entoado fervorosamente cobria os gemidos do indiano que ainda trazia um sopro de vida. O choro lamurioso de Dylan parecia não ser ouvido por ninguém.

Naman abriu o filho, segurou o coração quente e ainda pulsante em suas mãos. Olhou aos olhos do filho que ainda exalava o último naco de vida.

Os olhos se fecharam e a respiração cessou quando as ligações do coração foram cortadas.

Naman e o monge levaram o órgão do menino até aos pés da estátua da Deusa Kali, acompanhados pelo mantra. Ajoelharam e ali rezaram para que a alma da Deusa que estava naquele menino fosse novamente por ela recebida, já que Bellan não se mostrou honrado para a carregar.

O mantra cessou e o choro incontido de Dylan pode ser ouvido no salão. Ele voltou os olhos e viu Naman vindo até ele. O homem trazia nos olhos a marca do ódio e nas mãos, uma corrente de açoite.

A noite caiu em Mumbai. A cidade efervescia com o Diwali e as ruas estavam abarrotadas de pessoas que cantavam e divertiam. Dragões chineses serpenteavam por entre a multidão, trazendo ainda mais colorido ao festejo.

Alícia estava na sacada, tentando identificar Dylan em meio à multidão. O coração apertado e a preocupação latejando em sua alma. Ele ainda não havia saído por ali sem ela. Talvez tivesse se perdido pelas redondezas por entre aquelas ruelas que mais pareciam labirintos.

Olhava a estreita rua perpendicular à sua e ao fundo, o templo dedicado à Deusa Kali. Ela estava vazia, não era para ser assim, não no Diwali. Era o dia em que Bellan seria consagrado à Deusa. A rua deveria estar repleta de pessoas. Mas estava totalmente vazia.

Ela não poderia mais esperar. Saiu pelas ruas do bairro. Caminhou apressada por entre as pessoas, vacas e carros, até chegar à pequena rua que dava ao templo de Kali. Andou por ali e não encontrou ninguém que pudesse perguntar sobre o sobrinho.

Caminhou depois pelos arredores antes de voltar à casa para ver se ele havia regressado. Mas nada dele.

Era já muito tarde, hora de procurar as autoridades.

Os policiais não deram muita importância ao seu relado e ela continuou sua procura insana. Não teve sucesso a madrugada toda.

Ela se sentia responsável pelo sobrinho. Mais que isso, havia se apegado a ele naqueles poucos dias que passaram juntos. Havia uma ligação, algo mais que ela não conseguia explicar.

Recebeu uma ligação no primeiro raiar do sol.

Chegou ao necrotério e encontrou um corpo desfigurado, com marcas de açoite e hematomas terríveis, o abdome e o tórax fora aberto e partes de suas entranhas arrancadas.

O pânico tomou conta de si, mas precisava ligar para a irmã e contar o sucedido. Com certeza Marine a iria execrar totalmente.

Contido o choro após algum tempo, conseguiu fazer a ligação.

— Olá Alícia. — Disse a voz fria do outro lado. Alícia estava um tanto transtornada para perceber o sarcasmo ácido típico daquela mulher.

— Marine, aconteceu algo terrível. — Tentava encontrar as palavras para falar à irmã, tendo a voz embargada pela necessidade do choro.

— O que aconteceu Alícia? Estou te notando nervosa. — Tentou disfarçar certa tensão na fala.

— É Dylan... ele… ele está morto.

A voz calou do outro lado, enquanto Alícia esperava tensa pela reação de Marine. Ela sabia que não seria das melhores. Ao menos julgava mão ser.

— Quando papai e mamãe morreram, Alícia, eu a trouxe para minha casa, para meu convívio e me propus a cuidar de você. — Marine disse tranquila e com voz calma. Calma demais.

— Eu sei Marine, e sou grata por isso. — Tentou entender o porquê da irmã falar daquele assunto. O momento não parecia propício.

— Cuidei de você e você me traiu. Não poderia ter feito isso.

— Marine, porque está tocando neste assunto? Não é momento. — Alícia ainda que transtornada, notava a frieza na voz da irmã, não compreendendo como uma mãe poderia manter essa frieza diante da morte de um filho.

— Quando você engravidou eu sabia desde o início quem era o pai. Sabia que não era de um namoradinho como você disse.

— Marine... O que você está dizendo? — Cada vez mais ela não compreendia onde Marine queria chegar.

— Eu também estava grávida e só Deus sabe o quanto sofri para suportar o que estava acontecendo e fingir que estava tudo bem. — Alícia notou ódio na voz da irmã.

— Marine, eu perdi aquele meu filho. Porque está me trazendo de novo esse sentimento? — Não conseguiu conter o choro ao lembrar do dia em que, no hospital, recebeu a notícia de que o filho havia nascido morto.

— Não Alícia, quem morreu naquele dia não foi teu filho, foi o meu.

— O que? — Alícia ficou perplexa com o que ouviu.

— Eu não permitiria jamais que você tivesse um filho com meu marido, Alícia. Pelas mão do destino tivemos o parto no mesmo dia e o meu filho nasceu morto, então, com a ajuda de um médico amigo meu, eu troquei os bebês. O meu morto, pelo seu vivo.

— Marine. O que você está me dizendo? — Alícia estava totalmente transtornada, ainda não assimilando o que estava ouvindo.

— Estou dizendo para você enterrar seu filho. Dylan é fruto da traição sua e de Wallace. Ele não me pertence, nunca me pertenceu. Eu apenas o suportava, e agora nem isso eu preciso mais fazer. — Concluiu um tanto sarcástica. — Passe bem e não me procure mais.

— Wallace sabe? — Conseguiu ainda perguntar.

— Não se preocupe com Wallace, ele é problema meu. — Falou antes de, por fim, desligar o telefone.

Alícia não conseguiu desligar, o aparelho apenas deslizou por suas mãos. E ela chorou. Um choro escarlate que vinha do canto mais profundo de sua alma.

***

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!