Lágrima Escarlate
12 Reencontro
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Dylan ficou um tanto desolado naquela tarde. Por óbvio, não disse à tia sobre o encontro que teve, ainda que ela notasse os pensamentos distantes do sobrinho.
No almoço, agora com cardápio puramente indiano, Alícia conseguiu extrair poucas palavras de Dylan. Ele apenas concordou sobre o bom sabor da comida, ainda que apimentada.
Notando a opacidade do menino, ela não resistiu em perguntar sobre a saída de Dylan pela cidade naquela manhã. Ele apenas disse que saíra para ver os enfeites e que acreditava que no dia seguinte a festa seria incrível.
Mas ele não viu a hora que o almoço e a conversa acabaram para se retirar para seu quarto e ficar um pouco sozinho.
O quase beijo estava aflorado em sua mente. Ele não acreditava no que havia feito. Um garoto que até então havia apenas beijado meninas, com uma queda especial pelas belas garotas das Bahamas, estava agora enfeitiçado por um menino.
Uma ebulição de sentimentos estavam em seu ser. Sentimento de que talvez fosse menos homem, de que fosse gay. Puxava pela memória tentando talvez encontrar outro momento em sua vida que tivesse tido tal sentimento.
Lembrou de que, ainda quando criança, masturbava pensando nos meninos, em como poderia ser bom ser penetrado por um deles. Mas quando foi seduzido por uma prima um pouco mais velha e sentiu o sabor de cada parte de seu corpo em sua boca, quando trocou com ela carícias profundamente íntimas, os pensamentos com meninos se esvaíram por completo.
Mas Bellan era mesmo diferente. Tinha uma beleza andrógina que definitivamente o encantava. E esta beleza se configurava em tua mente de um jeito profundo, que fazia seu coração pulsar descompassado.
Não sabia exatamente que horas eram nem quanto tempo havia estado jogado naquela cama, observando o teto com pensamentos distantes. A tia bateu à porta.
Ela desejava mostrar melhor a cidade para o sobrinho e, ainda que ele desejasse permanecer naquele quarto perdido em seus pensamentos, não quis ser desagradável e aceitou o convite.
Conversaram sobre tudo, ou quase. A tia lhe mostrava entusiasmada a parte central da cidade. Fazia pouco tempo que eles estavam juntos, mas o suficiente para ela desenvolver certo gosto por ele.
O barulho da noite fervilhando até altas horas não atrapalhou o sono de Dylan tanto quanto o menino que permeava seus pensamentos. O sono lhe veio altas horas quando a canseira abateu os devaneios.
O sol nasceu límpido no dia do Diwali. Dylan, logo pela manhã, saiu à sacada e viu a rua efervescendo, com os já costumeiros carros, pessoas, vacas e buzinas.
Os enfeitas pareciam estar todos prontos. Um colorido exuberante enchia os olhos do rapaz.
Ficou um pouco ali observando até que foi chamado por Alícia. Era hora do café da manhã.
A mesa estava preparada apenas com cardápio indiano. Ela havia abandonado os pratos ingleses. Ainda que Dylan não gostasse muito, era ao menos delicado para não deixar que a tia percebesse.
Alícia estava exuberante e Dylan, sabendo do fino estilo da tia, não veio à mesa com seu pijama, como no dia anterior. Procurou se vestir melhor, ao menos com um jeans e uma camiseta mais descente.
— Hoje à tarde teremos grandes festividades por aqui, Dylan. É o nosso grande dia. — disse sorridente enquanto servia um naco de tofu ao sobrinho.
— É. Ontem vi aquelas pessoas enfeitando as ruas. E pelo que vi naquela noite contigo, será mesmo muito belo. — Retribuiu o sorriso da tia.
— A maioria dos festejos acontecerá na praça onde fomos outro dia. Mas acontecerão algumas comemorações em toda a cidade.
— Aqueles que desfilaram no cortejo também estarão na praça? — Comentou tentando extrair uma confirmação da tia.
— Tem algum interesse neles, Dylan? — Notou o interesse nas entrelinhas e sorriu um tanto sínico.
— Apenas achei interessante aquele grupo. — Retribuiu o sorriso. — E não se preocupe, eu sei me cuidar. — Completou tirando os olhos da tia e os colocando em sua xícara de chá indiano, reclamando em pensamentos da quentura da bebida.
Alícia pensou um pouco enquanto deglutia uma torrada. De alguma forma ela estava se afeiçoando pelo sobrinho. Já tinha por ele algum carinho e até certo apego, não lhe agradando que se envolvesse com aquele grupo de fanáticos radicais, principalmente com aquele menino reencarnação da Deusa. Por outro lado, não o quis deixar sem resposta.
— Hoje eles não se reunirão na praça ou estarão pelas ruas. — Falou um pouco a contragosto, e sem riso algum na face. — Eles se reunirão no templo Hamnatan, que fica no final de uma rua aqui perto.
— Deve ser uma grande construção que vi lá. Estava meio decaída…
— A religiosidade indiana é algo mais particular, Dylan. — Sorriu discreta. — As pessoas cultuam os deuses em casa, não usam muito o templo. Mas hoje há um acontecimento especial. — Olhou ao sobrinho para ver sua expressão. — Bellan será consagrado.
Dylan, por óbvio, não conseguiu conter que sua expressão fosse afetada ao ouvir aquele nome. Desviou os olhos da tia e se ateve em sua torrada, demonstrando certo desconcerto.
— Hoje à tardinha iremos à praça, se não se importar? — Trouxe novamente um riso, permeado pela desconfiança, afinal, seu coração estava um tanto apertado, principalmente depois que notou que Dylan estava nutrindo certo interesse pelo indiano.
— Claro. — Respondeu simplesmente, sem dar olhos à tia.
A tarde caiu límpida. Dyaln, após o almoço e mais um momento de conversa agradável com a tia, foi para a sacada de seu quarto e ficou observando a movimentação na rua em frente.
Além dos já costumeiros carros, transeuntes e vacas, haviam também pessoas fantasiadas de dragões e deuses de todas sorte. Vendedores de todas as espécies deixavam ainda mais barulhenta a rua, disputando sonoridade com as buzinas e gritos dos dragões de pano.
Estava um pouco antes do cair profundo da tarde, com o sol já bem baixo, quase encobrindo sobre alguns edifícios mais altos ao longe, quando Dylan viu Bellan, junto a alguns homens e mulheres enfeitados, caminhar em direção ao templo.
Desviou os olhos e pensou por um tempo. Minutos depois estava à entrada do templo. Estava irreconhecível. Vestia uma calça de tactel e uma camisa branca, coberta por um xale colorido e um pequeno turbante na cabeça, com uma sandália a lhe proteger os pés.
O traje, tipicamente indiano, ele comprou com um senhor simpático a um preço caro, ainda que tentasse pechinchar, após sair do apartamento à surdina, cuidando para que a tia não o visse.
A rua frente ao templo efervescia com pessoas cantando e adorando deuses de todos os tipos. Não se pode dizer que ele passou por elas desapercebido, já que, apesar de suas vestimentas ser de um típico indiano, seu biotipo o denunciava. Apesar de que, se tivesse com seu jeans e sua camiseta do Green Day, por certo chamaria ainda mais atenção.
De qualquer modo, entrou no templo sem problemas. Era uma grande construção já gasta pelo tempo. À frente, uma grande imagem de uma mulher assassina esculpida em concreto. Ela possuía vários braços segurando cabeças cortadas e pisoteava um morto. Provavelmente uma das deusas que o povo cultuava, mas que jamais iria saber o nome, já que para ele, aquilo era apenas crenças retrógradas e nada mais.
Sem perder tempo, ainda que com certo receio, ele entrou no templo.
O interior estava em melhor estado, mesmo que desse para ver que as arrumações e enfeites haviam sido providenciados naqueles últimos dias. Provavelmente para o ritual. Antes, porém, demonstrava estar tão abandonado quando o exterior.
Diversas imagens grandes de deuses enfeitavam a parede. Todas elas, minuciosamente pintadas em um colorido que atraiu os olhos de Dylan.
O templo era um grande salão sem bancos. Ao centro, uma enorme mandala estava desenhada ao chão. Na alta abóbada, lustres iluminavam o ambiente.
No lado inverso da entrada, um grande altar, com imagens de deuses atrás e aos lados.
Diversas pessoas andavam por ali. Dylan acreditou que estavam preparando o local para as festividades e para o ritual, já que colocavam guirlandas com velas e flores pelas paredes e nos pescoços de algumas estátuas de deuses. Porém, não se atentou muito a eles. Preferiu ver se encontrava por ali o indiano que passou a permear seus pensamentos.
Caminhou entre as pessoas. Falavam em um dialeto que ele não reconhecia uma única palavra. Ainda que algumas o olhassem, não lhe davam sequer um sorriso e logo passavam a o ignorar. Olhava atento, mas não conseguia ver Bellan entre eles.
Um pouco mais ao fundo viu um corredor. Foi por ele encontrando com poucas pessoas que carregavam fitas, tintas e outros materiais que utilizavam para enfeitar o salão do templo. Em uma sala, viu um menino acompanhado de dois outros homens ajoelhados aos pés de uma imagem representando uma bela deusa de quatro braços. Identificou ser Bellan.
Ele, então, se afastou e ficou em uma entrância do corredor, esperando semiescondido, ouvindo o mantra que os adoradores entoavam.
Ficou ali algum tempo até que viu os dois homens saírem. Bellan ficara sozinho naquele cômodo. Dylan suspirou fundo enquanto o coração batia descompassado, e entrou.
O indiano estava em frente à imagem. Dylan chegou de mansinho, devagar, fechou a porta atrás de si. Caminhou um pouco e pousou as mãos sobre os ombros de Bellan.
— Que você está fazendo aqui? — O indiano perguntou assustado quando recobrou do susto que levou, voltando-se para o inglês e se levantando.
— Vim te salvar deste seu destino medonho. — Trazia um sorriso enigmático, ainda que um pouco forçado já que estava um tanto nervoso.
— Não tem nada que me salvar porque eu não recuso meu destino. — Falou áspero, com o coração batendo forte e uma espécie de temor pela expressão que via em Dylan.
Dylan, sem muito esforço, pegou Bellan pela cintura e o colocou sobre o altar, por entre velas e santos. Envolveu as mãos à nuca do indiano e trouxe a boca do menino até a sua.
— Pare… — Tentou empurrar o inglês, ainda que suas forças faltassem.
— Eu sei que você quer, que também deseja, então, pare de recusar.
Dylan selou a boca de Bellan com um beijo e sentiu as forças de indiano se esvaírem, não mais recusando o que desejava.
Bellan apenas fechou os olhos e deixou que seus desejos se manifestassem, desejos que reprimia desde que viu o inglês naquela sacada, quando sentiu sua alma queimar, abrasando seu coração como nunca havia ocorrido antes.
O coração do indiano batia descompassado, não pelo medo de serem descobertos, mas pela emoção incrível que sentia.
O inglês, da mesma forma. Sequer as mais belas garotas das Bahamas o haviam levado a tal estado de alucinação, prazer e amor.
Os corpos se entrelaçavam em carícias profundas, em encontros primeiros, em toques sutis, em êxtase de sensações indescritíveis.
Bellan sequer preocupava com seu destino, com a necessidade de se manter puro e inviolável. Apenas sentiu o momento. Se permitiu envolver. Se permitiu perder a pureza.
As roupas ao chão e os corpos unos. Naquela sala, em um recanto do templo, apenas leves suspiros se fazia ouvir, além de alguns pequenos gemidos de dor e prazer.
— Bellan
— Bellan.
Naman gritou algumas vezes até que os dois pudessem ouvir.
— Pai. — Bellan sentiu sua alma esvair ao ver o homem parado na porta do oráculo, junto à Kabir, o monge, e mais algumas pessoas, estáticos observando os dois nus sob o altar sagrado dedicado à deusa Kali.
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