Kuwabara E A Garota Fantasma
3 Mayumi, a garota fantasma
Os dias foram passando. Kuwabara seguia uma rotina bastante rígida de estudos: acordava às seis da manhã, mal engolia seu café, saia de casa todo amarrotado e partia para a escola. Mesmo caminhando, sempre mantinha seu livro aberto. Na escola, nada de conversas, apenas estudando durante as aulas, no horário do almoço e em qualquer tempo livre que tivesse. E sempre indo estudar com a Keiko após as aulas. Quando voltava para casa, estudava até de madrugada. Sua dedicação foi tanta que em apenas duas semanas ele passou de um estudante desatento que mal conseguia resolver equações simples a um nerd convicto, dominando bem boa parte dos conteúdos exigidos na prova, seja língua japonesa e inglesa, matemática, ciências naturais e humanas. Muitas vezes ele quem tirou duvidas da Keiko, que ficava chocada, mas muito feliz com a evolução de seu “pupilo” e amigo.
Faltavam apenas duas semanas para o exame, e Kuwabara mantinha seus estudos. Um dia, já de madrugada, viu uma garota mais ou menos da sua idade, cabelos rosas e com um uniforme da sua escola. Mas uma coisa não batia, o que ela estaria fazendo em seu quarto naquela hora, e como entrou lá? Kuwabara achou que tinha caído no sono e estava sonhando, mas caiu da cadeira quando ela se dirigiu a ele:
—Olá , finalmente consegui achar alguém que consegue me ver _ disse a garota com um sorriso empolgado.
—O...o que? Vai me dizer que você é um espírito? _ respondeu assustado.
—Sou sim. Eu vago pelo mundo há vinte anos, e você vai me ajudar a seguir para o mundo dos espíritos.
—Não garota, infelizmente não posso. Tenho que estudar pra uma prova que vai decidir minha vida.
—Vai ajudar sim, só você pode_ respondeu nervosa.
—Agora não vai dar _ respondeu taxativo.
—UM DOIS TRES INDIOZINHOS QUATRO CINCO SEIOS INDIOZINHOS..._ela cantava alto.
—Ah, não ligo pra você _ Kuwabara respondeu.
—SETE OITO NOVE INDIOZINHOS....
Kuwabara tentava ignorá-la, mas não conseguia. Parou de estudar e foi para a cama, mas ela não parava de cantar. Já de manhã, quase na hora de ir pra escola, ele não havia pregado o olho, então Shizuka abriu nervosa a porta de seu quarto.
—Kazuma, faz logo o que essa garota quer, não aguento mais.
Ela bateu a porta e saiu. Logo a garota parou de falar e falou:
—Bem rapaz, eu sou um espírito, logo não preciso comer ou dormir. Vi que sua irmã também me ouve, mas pelo seu hiquero que você me ajude.
—Tá bom você venceu. Mas pelas suas roupas vejo que você já foi uma estudante e sabe a importância do exame de admissão. Posso propor um acordo? _ diz Kuwabara muito cansado.
—Fale _ respondeu a garota.
—O exame é daqui a quinze dias. Você me deixa em paz nesse período e depois eu faço o que você quiser, até aprendo a voar pra te levar pro outro mundo_ falou sorrindo.
—Combinado. Depois do exame eu te digo o que fazer.
Depois disso Kuwabara foi para a escola, lendo na rua apesar do sono perdido. Estudou como de costume, apenas foi pra casa um pouco mais cedo. Ao entrar em seu quarto levou novamente um susto, pois a garota estava confortavelmente deitada em sua cama.
—Você ainda está aqui? _ perguntou Kuwabara.
—Nossa, seu poder de dedução é incrível. Tem certeza que você pretende passar no exame? _ ironizou ela.
—Olha, não estou com tempo agora. Faça o que quiser, só não me atrapalhe a estudar.
—Beleza, vou ficar por aqui mesmo. Você tem uma casa legal sabia? Já dormi em cada lugar que você nem imagina, uma cama é bem confortável. Além disso, andei conversando com a sua irmã e ela é bem mais interessante do que você. Pelo menos ela perguntou o meu nome.
—E qual é o seu nome?
—Mayumi. O prazer é todo seu.
—Igualmente.
Kuwabara voltou a estudar, enquanto Mayumi apenas ficava no quarto em silêncio.
Os dias passaram. Kuwabara continuava seus estudos, enquanto Mayumi ficava em sua casa. Às vezes ela ia com ele para a escola, mas dificilmente falava com ele. Até que chegou a véspera do exame. Era um sábado, Kuwabara foi normalmente à escola, mas resolveu não estudar com a Keiko, apenas foi pra casa. Olhou pra Mayumi, que estava sentada em sua cama e sorridente disse a ela:
—Tá afim de dar uma volta por aí?
—Você não tem que estudar hoje?
—Hoje não. Me preparei bem e quero relaxar.
—Então vamos._ Mayumi respondeu empolgada.
Os dois saíram e foram ao parque de diversões da cidade. Foram conversando coisas cotidianas pelo caminho, Kuwabara falava sobre a escola, sobre os amigos e também algumas aventuras que teve com Yusuke e os outros, como o torneio das trevas, por exemplo. Ela falou de quando ela era viva, mostrando que ela sempre foi uma “bad girl”. As pessoas olhavam com espanto o Kuwabara falando sozinho no meio da rua, mas ele não se importava.
No parque, eles foram à roda gigante. Enquanto estavam lá, Kuwabara falou:
—Eu tenho amigos no mundo espiritual. Tem a Botan, que é uma guia, e também o Koema, que o filho do manda chuva de lá. Depois da minha prova eu vou procurar por eles, com certeza vão te ajudar.
—Não vão _ Mayumi respondeu com tristeza.
—È claro que vão menina, você não conhece eles, são todos gente muito boa _ disse Kuwabara empolgado.
—Eu tive a minha chance mas a perdi. Fui condenada a vagar pela terra como um espírito errante.
—Como assim?
—Eu sei da história do seu amigo Yusuke. Aconteceu o mesmo comigo há vinte anos, eu também morri antes da hora. Mas nem tive uma morte honrosa como a do seu amigo...
Kuwabara a olhava atento, mas sem dizer uma palavra.
—Vou contar minha história desde o princípio. Eu não conheci meus pais, não sei se eles morreram ou se eu fui abandonada. A primeira coisa que me lembro é de terem me achado na rua e me levado pra um abrigo.
Ela continuou:
—Tinha mais meninas lá, todas comportadas, menos eu. Eu era violenta, batia nas meninas e também nos funcionários do abrigo. Ficava de castigo muitas vezes, e tive que ser trancada ou amarrada muitas vezes.
Kuwabara a observava chocado.
—Com dez anos fui adotada. Mas eu, burra como sempre fui, não mudei o meu comportamento e o casal que me adotou me devolveu pro orfanato. Eu não queria voltar pra lá, então fugi. Eu sabia que se a polícia me pegasse na rua eu seria arrastada de volta pro abrigo, então me escondi embaixo de um cais, onde mercadorias chegam e saem do Japão. Lá eu tinha abrigo, comia o que sobrava dos trabalhadores e era dona do meu próprio nariz, sem regras. Os homens que trabalhavam lá me conheciam, mas a maioria me ignorava. Lógico que sempre tinha uns pervertidos que vinham me oferecer dinheiro ou presentes em troca de “pequenos favores”, mas eu nunca me vendi. Até desenvolvi uma técnica de luta imitando as ondas do mar pra me livrar dos mais abusados.
Mayumi continuou.
—Um dos pervertidos que falei era um velho marujo. Ele nunca avançou o sinal, mas sempre falava que tinha uma boa casa e queria que eu fosse morar com ele. Eu nunca aceitei, mas como ele nunca tentou tocar também não precisei quebrar seu braço. Mas dois anos depois que eu cheguei no porto, ele morreu. Eu sabia que ele não tinha parentes e também onde era sua casa, então tive uma ideia, simplesmente fui até lá, arrombei a porta e fui morar lá. Ele não deixou muito dinheiro ou coisas de valor, mas era muito melhor do morar embaixo de um cais. E principal: usando os documentos do velho, consegui me fazer por sua filha, falsificar documentos e entrar na escola. Eu já sabia ler e escrever e sempre fui esperta, então entrei na série apropriada pra minha idade.
Ela continuou contando sua história:
—Na escola me tornei uma garota problema, muito brigona e não gostava de acatar ordens. Só não fui expulsa porque, apesar de indisciplinada, sempre tirei as melhores notas da minha turma, e o diretor achou melhor me manter lá porque se eu fosse bem nos exames externos elevaria o nome da escola. Apesar de alguns problemas, foi a melhor parte da minha vida. Até que chegou o dia da minha morte.
—Como aconteceu? Você não fez o teste?_ perguntou Kuwabara;
—Eu estava voltando pra casa de noite, passando por um viaduto segurando uma bolsa com o dinheiro que tinha ganhado naquele dia. Um garoto que estava andando ,esbarrou em mim e a bolsa caiu. Eu me estiquei pra tentar pegar a bolsa antes que ela caísse do viaduto, mas eu me desiquilibrei e sofri uma queda de quase dez metros, fora os carros que me atropelaram depois. Quando a guia espiritual veio me receber, disse que minha morte não estava prevista pelo mundo espiritual, que nem os deuses acharam que eu seria tão idiota. Me foi dada uma chance de reviver, desde que preservassem meu corpo intacto antes dele ser cremado. Mas ninguém se importava comigo, mesmo tentando me comunicar por sonhos, ninguém foi procurar meu corpo e ele acabou sendo cremado sem sequer um velório. Depois disso meu registro foi apagado do mundo espiritual, e eu fico vagando desde então.
—Ninguém se importava mesmo? Olha, você é uma garota muito bonita, não tinha um namorado ou sequer um pretendente?
Mayumi suspirou e disse:
—Os garotos da escola tinham medo de mim, exceto um, chamado Kazushito. Ele era muito gentil, e toda vez que eu fazia besteira ele vinha com um sorriso e dizia “Menina, não faça isso”. Eu fui muito apaixonada por ele, mas ele me via praticamente como uma irmã problemática. Eu cheguei a acompanha-lo por uns anos depois da minha morte, mas o deixei quando ele ficou noivo dez anos atrás.
Kuwabara saiu da roda gigante, olhou pra ela e disse em tom alto:
—Você procurou a pessoa certa. Eu, Kazuma Kuwabara, irei revirar os três mundos para fazer você seguir o seu caminho.
Mayumi não disse nada, apenas deu um belo sorriso. Os dois foram conversando pra casa, Kuwabara contando sobre suas aventuras e ela o ouvindo.
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