Kurt, Interrompido
26 Pelo menos agora esta tudo bem.
Notas iniciais
“Eu reclamava do bloco A?! Serio mesmo?” Diz Sebastian enquanto remexe nos tubos em volta dele que se enroscam, não parecem ter começo ou fim. Não me parece um estado terminal, mas as manchas sobre a sua pele dizem muito o contrario.
Hunter e Austin ajudam ele a se desenrolar dos cabos enquanto o resto de nos esta parado ao redor da cama. Blaine tenta ir ajudar mas Hunter da um tapa em sua mão.
“É contagioso entre gays, não entendeu?”
No fundo me surpreende Hunter não ter criticado Sebastian depois de descobrir sua verdadeira orientação sexual, mas acho que se eu tivesse um melhor amigo com a mesma patologia da minha, também faria isso.
Blaine e eu não temos nos falado. Eu segui o conselho de Wes e fiquei longe, ate a hora certa chegar, e Blaine esta quieto e se deixa manipular de Hunter toda hora, parece mais frágil do que nunca.
“Da pra tirar a mão?! Droga eu ainda não morri!” Sebastian, por outro lado, esta ainda longe de ser frágil.
As manchas são terríveis. Pensar que isso poderia acontecer comigo ou com Blaine me fazia querer ficar trancado para sempre. Sebastian tosse algumas vezes e diz,
“Como vai a Dalton?” Não chegamos a uma reposta total, uns são pessimistas e outros otimistas. E também tinham aqueles que não falavam nada e só encaravam um ao outro, tipo eu e Blaine.
“Aumentaram a minha medicação.” Diz por fim Austin.
“A minha também.” Completa Nick.
“E a minha.” Sebastian faz sinal pra Wes se calar, “Já entendi”, ele diz.
“O que é isso na sua cara?” Pergunta Wes.
Tem uma mancha na bochecha de Sebastian, grande e roxa escuro, tentamos não olhar para esse detalhe desde que as enfermeiras disseram que isso o deixaria com raiva, claro que elas não precisavam se dar ao trabalho de explicar algo que podia ser notado com tanta facilidade se tratando de Sebastian.
“Você veio só pra olhar pra minha cara? Pode ir se foder, isso sim.”
Wes levanta as mãos em sinal de rendimento e se esconde atrás de mim enquanto murmura para Sebastian relaxar.
“Ainda não entendi porque tem que tratar você aqui e não na Dalton” Pergunta Hunter.
“Porque eu to morrendo, não entendeu?”
“Você não vai morrer.” Hunter se concentra nos tubos enrolados em cima da cama, não olha para Sebastian. “Não vai.”
“Achei que o viado era eu.” Sebastian ri.
“Você não era viado antes do Kurt chegar.” O olhar de Hunter chega a queimar quando direcionado a mim, tamanha a sua raiva.
“Tecnicamente ele é viado desde o nascimento.” Às vezes esqueço como Wes é tão bom amigo. “Alias, só você não percebeu a queda dele pelo Blaine.”
“Não interessa.” Diz Hunter, “Ele não estaria preso aqui se o Kurt não tivesse enchido a cabeça de todo mundo com suas ideias de vida digna.”
“Desculpa,” Digo, Blaine arregala os olhos “Eu ainda não entendi o porque de Sebastian ter contraído um câncer ser culpa minha e das minhas ideias de liberdade.”
Câncer gay, era disso que a AIDS era chamada.
“Ele não teria contraído nenhum câncer se tivesse ficado na Dalton, pela sua culpa ele saiu.”
“Seu filho da puta cínico.” Wes sussurra pra Nick chamar uma enfermeira mas o seguro pelo braço e continuo “Vai mesmo me culpar pela morte de Sebastian quando a ideia de fugir foi sua?”
Hunter me empurra com forca, minhas costas batem com forca no móvel atrás de mim e o choque de minha cabeça contra a parede recua pelo quarto. Hunter é atingido bem no queixo por um soco surpresa, não posso ver de quem foi mas as enfermeiras já estão chegando para nos tirar dai.
Como a Sue prometeu, depois da visita desastrosa pra Sebastian, fomos tomar sorvete. Hunter tem um saco de gelo no queixo inflamado e eu tomo sorvete de flocos ao lado de Wes e Blaine.
“Cara, não sabia que você podia bater tão bem assim!” Nick diz enquanto se senta na nossa mesa, escuto Blaine rir.
“O Hunter é feito de papel, não é necessário muito para fazê-lo cair.”
É a primeira vez em muito tempo que escuto Blaine dizer alguma coisa, ainda mais saber que foi ele quem nocauteou Hunter.
Wes praticamente enfia a cara no seu sorvete de morango com chantili, olho pra Blaine por cima dos ombros de Wes, ele sorri pra mim e eu fico sem entender.
“Todos em fila!” Grita a enfermeira, nos levantamos e Blaine fica na minha frente e tenho a impressão que ele fica rebolando de proposito enquanto anda. Mordo o lábio e quero saber que merda esta acontecendo aqui.
“Austin, larga isso, não é seu!” Austin larga a cadeira com tudo no chão, o estabelecimento inteiro olha pra nos, a enfermeira esta vermelha feito um pimentão. “Vocês são piores que os pacientes catatônicos... Ou crianças de 5 anos.” Ela sussurra, voltando ao inicio da fila, apena a seguimos, as ruas param e nos dão passagem, passagem para os doidos da cabeça.
“Então, você acha que o seu irmão ainda esta vivo?” Me pergunta Wes, eu faço sinal pra ele fechar o bico e continuar andando. Assim que chegamos, a enfermeira me leva pela mão ate a sala de visitas, eu não quero ir, fico repetindo mas ela ignora.
“Kurt?” Meu pai e Carole estão juntos, Rachel não. Mesmo assim tenho que perguntar.
“Acharam o Finn?” Fiquei ofegante do nada?
“Kurt, senta.” Eu sento, mas volto a perguntar o que eles souberam sobre Finn. “Finn não vai voltar, filho.”
“Vai.” Digo, Carole olha pra baixo.
“Não vai. Kurt, ele morreu.”
“Parem de me dizer que ele morreu! Em nenhum papel esta escrito que ele morreu, eu tenho mais esperança estando em um hospício que vocês na vida real!”
“Você precisa deixar ir.”
“Vocês vieram aqui pra me fazer desistir do Finn?”
“Viemos aqui pra dar uma noticia.”
“O que? Agora a Rachel foi convocada? Você, a Carole?” Rio amargamente, eles ficam sérios.
“Carole esta gravida.” Eu devo ter algum distúrbio compulsivo, fico arranhando a mesa ate minhas unhas ficarem acabadas, me levanto e abraço Carole.
“Meus parabéns! Sempre quis ter um irmão bastardo.” Carole fica sem expressão e meu pai me forca a sentar, aponta o seu dedo bem ao meio do meu nariz.
“Nunca mais fale assim com a sua mãe.”
“Minha mãe morrer, pai. Voce precisa deixar ir.” Rio, mas meu pai me da um tapa que com certeza vai ficar vermelho.
“Burt!” Carole esta quase chorando, meu pai também, e eu acaricio minha fase machucada.
“Você tem que estragar tudo sempre?”
“Eu estraguei tudo? Você foi quem me mandou nesta merda de lugar pra começar!” Cuspo as palavras do fundo do estomago, quero vomitar a minha bile. “E depois quer me dizer que o Finn morreu mas não devo me preocupar porque agora vou ter um irmãozinho.”
A enfermeira me pega pelo braço mas eu continuo falando “O nome do pequeno vai ser Finn, não é? Desejo tudo de bom ao Finn!”
“Me surpreende como a sua família continua voltando pra te ver. Se fosse eu teria te largado aqui e nunca mais olhado para trás.” Rio com as palavras da enfermeira, ela me solta e eu fico andando sem rumo pelo hospital, rindo sozinho.
“Finn, Finn. Belo nome pra um irmão.” Digo para mim mesmo. Blaine esta encostado contra a porta do quarto dele, fumando, ele me olha e o sorriso volta a tomar conta dele. Ele esta me provocando desde que saímos da visita de Sebastian e agora também entrei no clima.
“Finn é um bom nome.” Ele diz, fico de frente pra ele. “Mas prefiro Kurt.”
Rio alto, pego o cigarro da boca dele e jogo fora, encosto os lábios no ouvido dele e digo “Voce melhorou então.”
“Tempo faz milagres.” Ele ri, “Estabilizadores de humor também.”
Me lembro do corpo do Pavarotti escondido no bolso dele em Nova Iorque e não posso ignorar isso. “Por que você mentiu pra mim?”
“Eu não falei a verdade, não é o mesmo que mentir.” Ele acaricia a gola da minha cabeça.
“Uma boa teoria.” Digo, “Porem falha.”
“Por que falha?”
“Você não tinha direito de esconder a verdade de mim desse jeito, Blaine.”
“Você também escondeu algumas coisas de mim, estou certo?” Ele diz, ele crava suas unhas de leve em meu braço e eu suspiro.
“Nada muito grave.”
“Bobagem. Tudo relacionado com você tem importância.” Ele beija a minha bochecha, no mesmo lugar onde meu pai me acertara “Me perdoa?”
“Achei que era eu quem devia se desculpar.”
“Eu te perdoo.” Ele diz. Eu acabo com o joguinho e o beijo, ele se enrola mais em mim.
Estou em choque por dentro, minha família me odeia cada vez mais e o meu pai nunca tinha batido em mim. Ninguém acredita que Finn esta vivo além de mim.
Mas pelo menos esta tudo bem agora. Apenas com Blaine e os Warblers, mas eles são minha casa agora, então foda-se. Eu ainda amo Blaine Warbler.
“Vem.” Digo, ele ri enquanto eu o guio ate o meu quarto, expulso o garoto que esta lá dentro e tranco a porta.
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