Kurown

1 CAPÍTULO I – LONDON BRIDGE IS FALLING DOWN


“Poooomm!!!” –A enorme buzina de um navio ecoa pelo céu azul fazendo gaivotas voarem por bem perto das nuvens brancas. É uma manhã, e bem calma.
À bordo do navio, um garoto de aparentemente dezessete anos se aproxima da popa.
Seus cabelos castanho-claros são levados pelo vento, e são tão grandes que quase chegam em seu ombro (alguém desatento facilmente o confundiria com uma garota).

Ter cabelos meio longos não é a única coisa que torna o rapaz estranho.
Seus olhos, possuem cores diferentes. O da esquerda é castanho tão claro que parece amarelo, o da direita verde.
Da parte de baixo do olho direito, uma pintura como uma cicatriz de circo segue até abaixo encostando no fim do rosto, e fazendo um Naipe de Ouros na altura do nariz.
Como se não bastasse, da boca dele, há dois riscos como um sorriso até as orelhas; riscos traçados, como um sorriso costurado.

Ao menos, suas vestes são decentes. Um belo terno negro, com direito a colete e gravata, luvas brancas e delicadas. Seus sapatos são tão bem cuidados que reluzem.
Uma maleta preta ao seu lado indica que ele claramente viera à trabalho. E ele não está só.

Ao lado do rapaz, que sente a brisa correr seu rosto magicamente e o acariciar como uma folha seca e delicada caindo de uma arvore de outono, está alguém tão estranho quanto o mesmo.

A melhor forma de descrever sua aparência, seria como um boneco de 1,90m.
Sua cabeça parece uma bola de futebol e seus membros são finos como um cano. É claramente feito de madeira polida e pintada de branco. Não usa um terno, mas está pintado de forma que pareça que usa. Uma cartola está no topo da sua cabeça, e embora, eu adorasse dizer que ele está sentindo a brisa o acariciar também, ele não está. Bonecos não sentem o vento. Mas este, ao menos, podia observar. E aquele porto se aproximando, com um manto azul do mar e toda aquela beleza era o suficiente para fazer até mesmo uma marionete feliz.

— Chegamos, finalmente!. Exclamou o rapaz olhando para a marionete que não parecia muito feliz.

– O que foi Fulano? Você não parece muito bem...
Estranhamente o boneco falou. – Queria poder sentir a brisa. Sei que o vento deve estar agradável, apesar de frio. É uma pena que marionetes não possam sentir a mesma coisa que vocês humanos. As vezes eu até sinto um pouco de inveja Sr. Fukuba.
— Ora, que isso Fulano. (Deu tapinhas para consolar a marionete.) – Não vai começar a ficar deprimido de novo né? Acabamos de chegar em LONDRES! Não quero ficar triste logo de início com seus comentários sobre ser marionete.
— Desculpa Sr. Fukuba...
— Aqui Fulano.
O rapaz, revelado se chamar Fukuba, entrega a maleta à marionete e coloca uma cartola na cabeça.
— Vamos, não temos muito tempo à perder. Não quero nem imaginar a cara do Velho Superior se ele achar que estamos demorando demais para voltar. Me pergunto onde o Foxey foi... Ambos foram descendo a rampa de desembarque do navio que acabara de ancorar em um porto que nunca haviam visto.

Enquanto andavam lentamente entre as pessoas para ouvir alguns possíveis boatos locais, se certificavam de não chamar muita atenção. Apesar de que ambos sempre foram bem chamativos.
Ao passarem pela maioria das massas, encontraram um café local onde poderiam se sentar para discutir melhor o que fazer a partir de então.
Fukuba pagou um capuccino para ele e, bom, Fulano não bebe nada, então ele apenas se sentou frente ao amigo.

Fukuba deu uma leve bebida na xícara branca e bela que o garçom tinha trazido, e após olhar para os céus cinzas, olhou para Fulano, mudando de expressão para uma levemente mais séria.
— Então Fulano... Podemos falar melhor sobre o trabalho agora.
Fulano olhou ao redor para ver se tinha alguém olhando e começou a falar.
— Bom, Sr. Fukuba... Ao que parece, desaparecimentos de mulheres estão ocorrendo por aqui. E isso não é algo muito comum, acredito eu.
Fukuba riu um pouco. – Não é nada comum. Mas pode ser mais especifico quanto aos desaparecimentos?
Fulano tirou algumas anotações da boca, que mais parecia um local para armazenar coisas, como uma gaveta retangular.
— Mulheres com idade entre 16 e 21 anos desaparecendo. Seis até agora. A cidade não parece fazer muito alarde sobre isso mas... Pelo que fiquei sabendo um pequeno jornal local falou sobre um caso.

Como você estava apreciando a bela vista e eu não podia, eu aproveitei para pegar um mais cedo. Aqui.
— Nossa Fulano, você parece revoltado...
Fukuba pegou o jornal para avaliar. Realmente parecia ser um dos jornais pequenos, se aproveitaram do caso justamente para ter uma matéria chamativa.

DAILY DOVE

DESAPARECIMENTO REPENTINO ASSUSTA MORADORES

A cabelereira Annie Wolkye desapareceu repentinamente na ultima sexta-feira. Ninguém sabe exatamente o que aconteceu. O salão continua da mesma forma que ela deixou. Testemunhas viram ela a ultima vez, entrando no salão. Desde então nem sabem se ela saiu de lá (O que torna tudo mais impossível).

Matéria escrita por: Bernard Sinccon.

— Credo... Fico me perguntando se essas desaparecidas continuam vivas... E por quê reportariam apenas sobre uma? Fulano, tem certeza de que nenhuma outra apareceu em jornais?
— Sim Sr. Fukuba, eu tenho. Posso não ser humano pra tomar um capuccino, mas sou bom com pesquisas.
— Quanto ódio...
Ambos deram mais umas olhadas nas anotações, e embora Fukuba parecesse sério, a linha de sorriso costurado desenhado nele o faziam parecer sorridente.
Enquanto estavam sentados chamaram a atenção de umas oito pessoas. Quando terminaram de olhar tudo, voltaram a conversar. Fukuba foi tomando a frente da conversa.

— Bom, se a única e ultima anunciada foi essa tal de... “Annye Wolkye”, então deveríamos ir no tal salão de beleza onde ela trabalhava. Mas tem uma coisa que está me deixando encabulado. Por quê escreveriam apenas a matéria sobre ela? Isso é algo em que não consigo parar de pensar. Então acredito que antes de qualquer coisa, devemos ir atrás de Bernard Siccon, o escritor da matéria.
— Suspeitava de que fosse dizer isso. Completou Fulano. – Mas como pretende encontra-lo?
— É simples! Vamos na editora do Daily Dove!
— Era o que eu temia que fosse dizer.

Fukuba pediu alguns bolinhos, e após comer e rejuntar todas as anotações, se levantou. O primeiro passo, seria encontrar a editora do Daily Dove (Ou D.D) enquanto ainda era de manhã. Eram umas 08:00 AM, teriam tempo de sobra.
A primeira coisa que fizeram, foi irem juntos até a banca de jornal mais próxima, que ficava bem próxima de uma doca. Um homem magro de nariz fino ao lado de um garotinho sardento e dentuço de boné disse que os jornais da D.D vêm de uma pequena editora na Rua Releigh.

Quando ambos foram, encontraram uma rua estreita e fria. Uma casa que quase não parecia uma editora estava com a porta aberta. Um jovem rapaz saia de dentro dela com um grande lote de jornais. Ele quase não se aguentava em pé.
— Opa, opa opa! Finalmente!. Ele saiu da editora com todos os jornais. Fukuba e Fulano se aproximaram.
— Olá moço... Disse Fukuba ainda se aproximando e acenando.
— Ehm... Oi, eu conheço você? O rapaz não conseguiu esconder o quanto achou a cor diferente dos olhos, a linha abaixo do olho direito e o sorriso pintado e traçado do rosto do Fukuba, e o enorme boneco Fulano.
— Não, eu sou só um leitor do seu jornal. Gosto muito das matérias.
— Aaah! Obrigado! É bom saber que alguém aprecia coisas boas... Digo, não que as coisas que andam acontecendo sejam boas.
— Eh... Bom... Era exatamente sobre “as coisas que andam acontecendo” que queríamos falar... Não é Fulano.
— É – É sim! Com certeza.
— Certo meu jovem leitor, o que quer saber exatamente? Aproveite enquanto espero o entregador de jornais!

— Bom, é que... Eu não pude deixar de notar que... O senhor Bernard Siccon escreveu essa matéria sobre a cabelereira Annye Wolkye.
— Ah, sim! A matéria sobre a Srt. Wolkye! Como lutamos com a polícia para poder escrever sobre isso... Você nem imagina! Mas o que quer saber exatamente?

— É que outras mortes aconteceram, e só uma foi publicada. Por quê?
— Que menino mais esperto, para pensar em coisas tão complexas quanto essas... Mas o verdadeiro motivo não é nada em especial. É só que as autoridades não queriam assustar os cidadãos. Mas para que tivessem cuidado, eles pediram para publicar algo sobre a morte da Srt. Wolkye... Assim ninguém seria imprudente.
— O senhor disse que lutaram para poder escrever a matéria... Então a polícia não permitiu facilmente? Não foi ela quem mandou vocês publicarem?
— Não é isso!. O homem riu. – É que só um jornal poderia publicar, então lutamos para que fôssemos nós e nossas vendas pudessem alavancar um pouco!. O homem riu olhando os jornais. Na mesma hora, um garoto sardento e dentuço de boné, muito familiar, chegou montado em uma bicicleta para pegar os jornais. Fukuba já tinha as informações que queria. Tinha demorado um bocado para chegar na rua da editora da Daily Dove, e falar com o tal homem; já eram 11:00AM.

Eles saíram da Rua Releigh para encontrar o salão da Wolkye.

Começaram andando por um bom tempo. Fulano fez uma pergunta que deu um certo sobressalto no Fukuba. – Já estamos trabalhando faz um bom tempo. Quando vamos nos vestir adequadamente?
— Ihgn...! (Um som estranho que o Fukuba soltou). Ainda vamos precisar lidar com muitas pessoas e pegar muitas informações... Não podemos ficar vestidos daquele jeito, as pessoas vão achar estranho.
— Como se elas não achassem estranho você com esses olhos, e esse sorriso falso até as orelhas.
— Então, reformulando: As pessoas vão achar MUITO MAIS estranho do que já é! E você só falou de mim, nem citou o fato de que é uma marionete!

Os dois andaram por um bom tempo, e nada do salão... Se ao menos tivesse um endereço no jornal ou algo do tipo... Mas não havia nada. Enquanto o número de pessoas aumentava e a multidão começava a crescer na manhã que ficava cada vez mais fria, um som chamou atenção dos dois investigadores; uma música, como se viesse de uma concertina, e alguém cantando.

London Bridge is Falling Down... Falling Down... Falling Down... London Bridge is Falling Down… My Fair Lady.”

— Nossa, que música legal… Ouviu isso Fulano?. Fulano olhou para Fukuba frustrado.
— Ops... Desculpa, eu esqueci que marionetes não conseguem ouvir músicas... Não foi por querer... –Sem problema.
— Mas... De onde tá vindo esse som?
— Notaram minha música? Obrigado. Fico honrado.


Fukuba e Fulano olharam para trás e viram um homem alto e magro vestido de bobo da corte, com uma concertina e uma tatuagem de estrela preta na bochecha.
— Ah, então foi você! Gostei da música! Mas... O sobre o que é?
— É uma canção regional! “London Bridge is Falling Down... Falling Down... Falling Down... London Bridge is Falling Down… My Fair Lady”. Bonita não é? Dá pra sentir a cultura local só de ouvir.
— É, eu… Acho que sim. Por falar em “local”, você saberia nos dizer onde podemos encontrar o salão de beleza de uma mulher chamada... Ehm...
— Annie Wolkye. Completou Fulano. – Isso mesmo!. Terminou Fukuba.
— Ah, sim, o salão da Srt. Wolkye. Admito que ele está recebendo mais vizitas com ela morta do que quando ela estava viva... Me sigam. Como pagamento por terem ouvido e gostado da minha musica, eu os levarei lá.

Então, sorrindo e feliz da vida, o bobo da corte levou Fukuba e Fulano por uma, duas e três ruas, até que eles chegaram exatamente na frente de um salão um pouco velho.
— É aqui meus caros: Salão da Wolkye.
— Obrigado moço!. Agradeceu Fukuba. O bobo da corte retribuiu o agradecimento com um sorriso simpático e foi seguindo pela rua se misturando nas pessoas.
Fukuba não pôde esconder a felicidade ao ver o salão de beleza. – FINALMENTE FULANO!. Fulano não parecia se importar muito, até por quê ele poderia andar o quanto fosse e nunca se cansaria.

Eles respiraram fundo e entraram. Dentro do salão haviam vários policiais e um policial principal com um bigode grosso que mais parecia um salsichão. O policial principal se aproximou deles com uma cara extremamente emburrada.
— O que uma criança faz aqui? O local do desaparecimento de alguém não é local para se divertir! Vá embora e leve esse boneco com você!
Fukuba olhou pra ele com uma cara engraçada de quem diz “Criança?”. O policial principal continuava o encarando bufando, e logo gritou com os outros policiais “Continuem procurando! Pode ter alguma coisa importante aqui!”.
Fukuba se aproximou mais um pouquinho (como se já tivesse feito isso muitas vezes e não cansasse de fazer isso).
— Acho que o senhor deve estar enganado, Sr. Policial principal... Digamos que... (Risadinha) Eu não sou nenhuma criança.
— COMO NÃO?!. Gritou o policial já irritado.
— Em primeiro lugar, eu tenho 15 anos... A vida foi gentil em não me dar acnes e me deixar ter um rosto como o bumbum de um bebê... (Apontou pro rosto com as duas mãos). E quanto a estar aqui... (Ele puxou teatralmente uma carta como de baralho de dentro da manga do terno) aqui!

O policial principal pegou a carta com um olhar intrigado. Nela, estava escrito:

Kurown: Fukuba – Do Circo Rainbow

Número de casos Solucionados: 5-F, 2-C

Marionete acompanhante: Fulano

Lema: Eu sou um daqueles que eliminam o mal e trás a felicidade e o sorriso para o rosto das pessoas! Fukuba, mais que um palhaço: Um Kurown!

Especialidades: Resolução de casos julgados como insolucionaveis, confusos, dificultosos e sobrenaturais.

Autorização dada pelos Kurown’s gerais para livre transição e investigação na área dos 193 países.

Com a cara ainda emburrada e o bigode preto tremendo indicando que ele estava resmungando, o policial principal deu a ordem para os demais policiais.
— Vamos homens, deixem ele trabalhar!
E Fukuba ficou com uma cara engraçada de orgulho.
— Ele não consegue esconder a cara de orgulho... Comentou Fulano.
Não demorou muito para que todos os policiais saíssem do salão e fossem cumprir outras tarefas. Fukuba e Fulano esperaram um tempo para terem certeza de que todos os policiais estavam longe, e então trancaram a porta.
— Certo Fulano... Você já sabe... Estamos sozinhos, e isso significa que finalmente podemos nos vestir para o trabalho!
— Eu gosto dessa parte.
Fukuba arrancou o terno e impressionantemente já estava com outra roupa por baixo, uma bem esquisita que lembrava bastante um... Palhaço.
Tinha um terno mais fino e listrado, lilás claro e verde. Uma gola redonda que mais parecia um disco branco com babados triplos. No fim das longas mangas, os mesmos babados triplos. Uma gravata borboleta lilás com uma pedrinha verde no centro. As luvas brancas e delicadas permaneciam. Seu cabelo, surpreendentemente, tinha ficado azul.

Sua calça combinava com o terno (As mesmas cores) e seus sapatos eram chiques e pretos, mas eram maiores que o normal, apesar de terem um leve salto e serem brilhantes e limpos. Uma cartola lilás escura (quase azul) em sua cabeça, tinha uma fivela com um “cinto” lilás claro, da cor do terno. E ele parecia pronto para qualquer coisa.

Fulano simplesmente pegou um manto longo e colocou. Apesar de Fulano ser muito alto, o manto chegava em seus pés. Era um manto vermelho-vinho, com um capuz e uma fita vermelha no pescoço. Também possuía ombreiras da mesma cor da fita.
Ele caminhava em direção à Fukuba com o que parecia ser um nariz de palhaço redondo, vermelho e brilhante. – Fukuba, você esqueceu isso denovo.

— Ah, mas nem vem com esse troço! Eu odeio essa coisa tosca! Deixei bem claro que não queria que isso viesse no meu fardamento mas o Sr. Goat deve ter ignorado meu pedido. Que triste, não tenho direito nem à exigências.
Ele pegou o nariz de palhaço e guardou no bolso.
— Lamento por você, Fukuba.
— Agora vejamos... Vamos procurar por alguma coisa importante Fulano. Algo que indique o que pode ter acontecido com a tal dona do salão que nem lembro mais o nome.
— Annie Wolkye.
— Isso mesmo.

Então os dois saíram procurando por todo o salão. Procuraram dos móveis, embaixo de cada garrafa ou frasco, dentro de gavetas, atrás de espelhos, dentro de almofadas... Procuraram em todos os locais; não só uma, mas cinco vezes.
E nada. Nada foi encontrado. Nem mesmo uma pista sequer.

— Já procuramos em todo canto e nada Fulano! Você achou algo?
— Também não tive sucesso. Sacudiu a cabeça em negativa.
— Temos que sair daqui, tudo meu está cheirando à creme de cabelo e produtos de beleza. Que horas será que são?
Fulano caminhou até um relógio que tinha perto do espelho e mostrou Fukuba. Nove e meia da noite, eles tinham passado horas e horas lá dentro procurando por pistas.
— Não acredito! Já é tão tarde assim Fulano?! Nem nos cadastramos em nenhum hotel ou pousada!

— A culpa é claramente sua.
— Quê?! E agora vem me culpar?! Mas isso pouco importa. Posso jantar agora e isso é música pra meus ouvidos! Estou faminto!
— Sempre esbanjando que pode comer e ouvir músicas... A vida é tão triste, queria não existir. Disse fulano ficando mais sombrio no capuz.
— Calma Fulano, não foi por querer.
— Claro que não, mestre Fukuba. Nunca é.

Quando saíram do salão, viram o quão escuro estava do lado de fora. As nuvens cobriam todo o céu, e um nevoeiro denso típico de Londres cobria a área. A rua parecia vazia, e tudo estava silencioso e sombrio.
— Sinistro não é Fulano? Sinistro mas agradável.
— Sim, eu diria. O vazio das ruas permite mostrar o quão elas são bonitas, por quê dá para ver partes onde as pessoas antes ficavam e impediam de ser vistas.
— Não entendi muito bem, mas é isso aí mesmo.
— AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHH!!!!!!!
Um grito agudo de gelar a espinha fazer o coração pesar e arrepiar os pelos das costas e da nuca rasgou a noite ecoando por toda a rua.

— Que grito foi esse?. Perguntou Fukuba olhando de um lado para o outro. Os olhos de Fulano ficaram brancos e luminosos, como duas bolas de luz, e ele saiu procurando girando a cabeça em 360° como se visse através da densa neblina.
— Ali Sr. Fukuba!. Apontou para um lugar entre a névoa que praticamente não dava para ver. Fukuba saiu correndo em disparada ao tal lugar, enquanto tirava a cartola da cabeça, colocava a mão dentro e tirava um guarda chuva de dentro.

No local para onde ia Fukuba, estava uma jovem garota bonita, com cabelos loiros e compridos e pele pala. Era tudo o que dava para distinguir dela com toda a névoa.
Encima, pairando sob ela, estava uma figura obscura e sinistra. Era como uma fumaça negra e meio sólida, com um rosto totalmente branco no meio. Nesse rosto, olhos abertos sem pupilas, um nariz pontudo e uma boca pequena com de boneca, mas com lábios totalmente pretos, deixavam a coisa mais assustadora.

De repente, uma parte da coisa fumacenta se tornou pontuda como uma lança e foi em direção a garota para a perfurar. Um som seco foi ouvido e um gemido vindo da garota. O nevoeiro se afastou por completo como se um gigante abanador tivesse sido usado uma vez com muita força.

Fukuba estava usando seu guarda chuva para impedir a coisa pontuda de atingir a jovem. A força do impacto havia empurrado a neblina. Ela estava abaixada, provavelmente achando que já tinha morrido.

Quando se deu conta, se levantou rápido e olhou pra todo lado.

— Você está bem?. Perguntou Fukuba olhando pra ela por cima do obro esquerdo enquanto ainda segurava a coisa pontuda do ser sinistro.
— Ahhh! Outro monstro!!. Gritou ela apontando pra Fukuba. Ele pareceu frustrado e meio irritado, tanto que empurrou a ponta que segurava fazendo a criatura ser empurrada e chegou mais perto dela apontando pra própria cara.
— Eu pareço um monstro pra você?!
— Que feio!.
Fukuba parou no momento deprimido. Até o ser sombrio parecia estar com pena dele. Mas não demorou muito para que ele formasse mais um espinho.
A garota só se jogou no chão de novo, já Fukuba se jogou contra o monstro pegando em seu guarda chuva como se fosse uma espada. Com uma velocidade tremenda, Fukuba apareceu do outro lado do monstro, de costas para ele.
O monstro se partiu ao meio e foi desaparecendo em um amontoado de chamas negras.

— Pronto. Disse Fukuba fazendo uma reverencia e tirando a cartola como se agradecesse os aplausos de um espetáculo; logo em seguida, guardou o guarda chuva dentro da cartola.
A garota ainda parecia assustada. Ele caminhou em direção à ela mas ela se afastou.
— Q – quem é você?! Ou melhor, o que é você?!
— Eu sou um daqueles que eliminam o mal e trás a felicidade e o sorriso para o rosto das pessoas! Fukuba, mais que um palhaço: Um Kurown!. Ele falou fazendo poses um tanto quanto ridículas mas para ele, magníficas.
— Mais que um palhaço?! Achei que palhaços fizessem as pessoas rirem, não sentir medo! “Um daqueles que eliminam o mal e trás a felicidade”? Eliminar o mal até que eu vi, mas só de olhar pra sua cara e eu já fico tão assustada quanto quando o monstro tava aqui! Que tipo de maquiagem de palhaço é essa? Parece que sua boca chega nas orelhas! Um sorriso costurado! Que coisa!
Foi como se uma pedra gigante de humilhação tivesse caído encima do Fukuba.
Fulano que estava observando tudo em silêncio atrás da garota sem ser percebido, resolveu falar.
— Não se preocupe moça, ele não lhe fará mal. A propósito, me chamo Fulano.
— AAAAAHHHH!. Ela deu uma pancada nele com o livro grosso que tinha nas mãos, e fez a cabeça dele girar girar e ele caiu.
Fukuba se levantou.

— Ora sua ingrata! Isso é forma de tratar seus salvadores?!
— Oh... Bom... Você tem razão em dizer que me salvaram mas... Não podem me culpar por ter me assustado com vocês né?
— Sr. Fukuba... Ela tem razão.
— Shhh! quieto Fulano. Disse Fukuba tentando disfarçar. Depois continuou falando. – Então... Acho que você merece saber o que aconteceu. Coisa simples, não tem nada a ver com as mulheres sumindo, não se preocupe. Você estava com tanto medo ao andar pela rua sombria e vazia que seu medo se materializou. Isso acontece quando as pessoas estão com medo, e sozinhas. Pode-se dizer que o pior inimigo de alguém que está com medo é o próprio medo. Pois ele forma um “Fantasma do Medo”.
— É eu sei. Disse a garota sorrindo.
— Exatamente, é por não saber que estou contando entendeu? – Ehm... Sr. Fukuba, ela disse que sabe.
— Quê?! C-como você pode saber disso?! Você por acaso é uma Kurown também?!
— Eu nem sei o que é isso, “Kurown”. Mas, respondendo sua pergunta... Ehm... Fukuba não é?
— Sim. – E eu Fulano. – Ela não perguntou a você. – Como sou humilhado...
— Continuando, eu sei sobre o Fantasma do Medo, por quê li em um dos livros do meu pai. Ele tem muitos livros sobre lendas, contos e folclore. Inclusive, se estão se perguntando o que eu estava fazendo andando na rua tarde, é que eu vinha da biblioteca. Fui pegar um dicionário de Latim.
— Oh... Bom, isso explica muita coisa.
De repente, uma ideia ocorreu na mente do Fukuba.
— Você disse que seu pai tem livros de folclores locais certo?
— Disse sim.
— Poderia nos deixar dar uma olhada? Por favor!
A garota olhou pra Fukuba e sorriu. – Bom, não posso mexer muito nos livros de folclore local, mas como vocês salvaram minha vida eu acho que não tem problema!
A garota parou um pouco no tempo e pareceu ficar um pouco corada e colocou a mão no rosto.
— Que falta de educação a minha!!! Eu sequer disse meu nome e até pessoas como vocês já se apresentaram!
— Ei! Que que ela quis dizer com “Pessoas como vocês”? (Disse Fukuba mentalmente)
— Eu me chamo Alice. É um prazer conhecê-los, Fukuba e... Fulano. Nomes muito engraçados.
— Obrigado. Disseram Fulano e Fukuba coçando a cabeça.

“Nossa... Eles gostam bastante de elogios...” Pensou Alice. E logo continuou a falar.
— Bom, meu pai não deve estar em casa por quê está trabalhando hoje à noite. Mas não se preocupem, pois James o mordomo pode nos ajudar.
Fukuba pensou em perguntar sobre a mãe dela, mas... Se ela não tinha a citado, então poderia ser por quê ela estava morta e ele não queria ser indelicado.

Depois de decidirem isso, Fukuba e Fulano seguiram Alice até a casa. Passaram por ruas tão escuras e vazias... Raramente viam alguma carruagem ou guarda noturno.
O céu nublado não facilitava, pois os postes não iluminavam muito bem. Se o lençol de nuvens negras se abrisse um pouco, com sorte, a lua iluminaria e os ajudaria à enxergar mais a frente. Mas Alice parecia já estar acostumada; afinal ela sabia o caminho de casa de cor.

Uns dez minutos se passaram, e eles se viram diante de uma enorme casa bege, com jardim pequeno e altas janelas.
— Uaau! Nossa, é aqui que você mora, Alice?!
— É sim Fukuba. Modesta, mas é boa.
— Atualize suas definições de ”modesta”... Falou Fukuba com uma cara estranha enquanto Alice abria uma grande grade de ferro.
— Passando pelo pequeno jardim, vamos chegar no portão principal da casa.
E todos os três foram caminhando. Fukuba pôde ver umas mesas pequenas e brancas com cadeiras igualmente pequenas. Talvez aquelas fossem mesas para chás da tarde. Reuniões entre amigos. Um seleto grupo de pessoas requintadas tomando chá e comendo bolinhos. Em geral, Fukuba não gostava de pensar na vida dos outros, mas sempre esquecia disso quando pensava em como as outras pessoas poderiam ser felizes, ou tristes. E a vida da Alice parecia muito boa. Mas ela não parecia se importar com todas essas coisas.

— Aqui meninos. Ela pegou uma chave e abriu a porta. Do lado de dentro, um mordomo alto e velho, de cabelos ralos e um bico estranho que combinava com o nariz empinado e bigode fininho parecia esperar Alice.
— Srt. Alice!. Disse ele falando surpreso por ver ela, mesmo que à esperasse. Foi imediatamente pegando o casaco dela e colocando em um cabide próximo.
— Fiquei preocupado que algo tivesse acontecido com a senhorita!
— Tudo bem, James; eu estou bem. Eles me ajudaram. Apontou para Fukuba e Fulano.
— E esses são...?
— Fukuba e Fulano! Como eu disse, eles me ajudaram.
— Oh... Já vejo. Ele não conseguiu esconder a cara de impressionado ao ver o quão excêntrica era a forma de se vestir do Fukuba.

—Poderia me dar sua cartola, meu jovem.,.? Obrigado. E você quer tirar essa máscara?
Fulano quase se irritou pra valer. “Mascara? Por favor!” mas Fukuba o tranquilizou. “Calma Fulano, melhor confundir sua cara com uma mascara do que saber que você é um boneco”.
— James, faça eles se sentirem à vontade, certo? Vou pegar um livro que eles querem emprestado.
— M – Mas senhorita! Está indo à sessão do seu pai!
— Eles salvaram a minha vida James! Garanto que o papai faria o mesmo.

James se calou e pareceu concordar. Colocou a cartola do Fukuba em um guarda-chapeis ao lado e seguiu para uma sala perto. Fukuba ficou observando ao seu redor.
Era realmente uma casa muito bonita e xique. Não extremamente roca, mas com certeza bem mais que a maioria.
— Fulano... Você percebeu? Perguntou Fukuba intrigado olhando pra toda parte.
— Sim Sr. Fukuba, desde que chegamos.
— São sigilos, amuletos de proteção desenhados em lugares específicos da casa. Bem escondidos, mas a aura deles é inconfundível. O pai da Alice parece realmente saber o que faz. Queria falar com ele pra ver se ele pode me ajudar mas... Como ele não tá em casa só vai dar pra fazer isso provavelmente depois do caso.
— Frustrante.

James voltou da salinha com um carrinho de comida. Nele tinham bolinhos, biscoitos e um belo bule de chá de porcelana com muitas xícaras ornamentadas de flores raras.
— Para os senhores.
O chá estava sendo servido. Bolinhos à mesa. Fulano quis mais do que nunca ser humano e poder comer. Fukuba beliscou um bolinho e foi dar uma golada no chá quente, enquanto James o observava, mas Alice chegou correndo de repente e Fukuba não teve tempo de beber e quase se molhava todo.
— Acho que encontrei o que queria Fukuba! Um livro sobre o folclore local, aqui está!
— Nossa Alice, não sei nem como agradecer!
— Ehm... Senhor, o chá está esfriando...
— Não tenho tempo pra comer agora! Alice, pode me levar pra um cômodo escuro?! Quanto mais escuro, melhor!
— T – Tudo bem... Alice não entendia o que Fukuba planejava, mas ele e Fulano pareciam tão calmos como se fizessem isso muitas vezes. Estava começando a ficar... Estranho, por assim dizer, e o James com uma cara de quem notava o quão estranho tudo estava, apenas recolheu o chá e os alimentos.
Alice andou com eles pela escura escada que dava ao deposito do porão com um castiçal na mão.

— Bom Fukuba, esse é o cômodo mais escuro que tem, o depósito.
Fukuba e Fulano entraram com Alice e olharam ao redor. Os dois esquisitos pareciam ter gostado do local
— Obrigado Alice! Pode fechar a porta e apagar essa luz?
— Einh?! Estava tudo mais estranho ainda. Mas eles tinham salvado a vida da Alice, e ela confiava neles bastante. Então, ainda que receosa, fez o que o Fukuba pediu

Ela só ouviu um barulho de tinido, e Fukuba dizer “Aqui Fulano, ainda bem que eu trouxe a chave de corda” e logo depois “Pega o livro” .
Do nada, uma vela lilás se ascendeu na mão do Fukuba.
— Era mais escuro do que pensei Alice! Nem vejo o Fulano direito!. E ela viu que o Fulano colocou uma chave de corda em um buraco que deveria ser o ouvido dele, e pegou o livro na mão. Rapidamente começou a passar as folhas como se lesse cada página em um segundo.
— O que ele está fazendo Fukuba?
— Ah, sim! Eu devia ter explicado antes! Bom, o Fulano é realmente um cara de muitos talentos, mas esse, particularmente, é um dos meus favoritos! “Representação Cinematográfica”!
— Representa.. Cinemato... Quê?!
— É bem simples. Ele pode ler coisas muito rapidamente. Como se os olhos dele fotografassem as páginas e decorassem todas as palavras. Então, para alguém que não pode fazer isso, após ler, ele faz a representação cinematográfica. Você vai ver!
Fulano terminou de ler e entregou o livro ao Fukuba, que entregou a uma Alice bem confusa. Então, Fulano girou a chave de corda que estava em seu ouvido algumas vezes (O que fazia barulho de engrenagem) e abriu a boca, de onde um cano preto como de uma espingarda saiu. Seus olhos começaram a brilhar e Fukuba sorrindo apagou a vela “É agora!”. Alice tinha pensado em perguntar onde Fukuba tinha conseguido aquela vela e como tinha a acendido, mas a pergunta escapou da mente dela quando viu o que estava acontecendo. Os olhos e o cano da boca do Fulano refletiam uma grande tela na parede. Fukuba sentou no chão. – Eu devia ter trazido os bolinhos do James.

A chave no ouvido do Fulano começou a girar no sentido contrário fazendo barulho de engrenagens e... 5... 4... 3... 2... 1... !
Um cinema começou bem ali! O queixo de Alice praticamente caiu no chão.
“Apresentando oficialmente: O incêndio de 1666 em Londres.”
Alice, boquiaberta se sentou ao lado do Fukuba.

O filme começou calmo. Uma carroça aparentemente de prisioneiros estava sendo carregada por dois cavalos enquanto dois cocheiros conversavam na frente.
— Por quê nós quem temos que levar as bruxas pra Londres?!
— Não sei, mas me pergunto isso toda vez! Os inquisidores fazem a parte divertida, e a complicada fica para nós, humpf!

Dentro da carroça, um grupo de mulheres acorrentadas pareciam ter sofrido para serem capturadas. Uma de cabelos ruivos deixou escapar um óbvio comentário. “Parece que fomos capturadas...”
— Parabéns, gênio! Berrou sarcasticamente uma velha que estava sentada próxima a ela. Apesar de todas estarem desapontadas e a maioria deprimida, a ruiva sorria.
— Não se preocupem... Dessa vez será diferente. Conosco não será a mesma coisa.
“O quê?!”, “Como pode ter tanta certeza?”, “Você está louca?!”, perguntavam as outras mulheres irritadas. Mas a ruiva mantinha a calma.
— Eu tenho um plano... E ele fará com que tenhamos mais sorte do que as outras antes de nós.Felizmente, conheço alguém em Londres... E se estamos sendo levadas para lá, posso pedir ajuda à essa pessoa.

Pouco tempo depois, elas chegaram no destino, Londres. Foram levadas para o subterrâneo de uma igreja onde haviam masmorras escuras com tochas para iluminar de leve. Uma por uma foram jogadas na cela, com força, sem um pingo de delicadeza.
“Fiquem aí, Bruxas!”

Elas gemiam baixo horas depois de terem sido trancadas. “Espero que esse tal plano funcione”, “Não tem jeito, vamos morrer aqui!”... A ruiva xingava. “Malditos...”
— Por quê está tão abatida? Uma voz veio do escuro. Outro guarda? Não. Era o amigo que a mulher ruiva tinha dito que estaria em Londres.
— Marcos? – Sim, Rubila. Sou eu. Já vou as libertar... Deu muito trabalho convencer os outros à vigia-las pessoalmente mas... (Tirou uma chave prateada do bolso) Eles confiaram em mim.
Então, colocando a chave na fechadura e destrancando a grade da cela, ele a escancarou rapidamente. “VÃO!”.
As Mulheres sedentas por sangue e vingança, tanto pelas suas ancestrais bruxas que tinham sido mortas queimadas quanto por aqueles que foram torturadas saíram berrando em plena garganta.
“VAMOS MOSTRAR A ESSA CIDADE... COMO É A SENSAÇÃO DE ESTAR IMERSA EM CHAMAS!!!”

A ruiva também gritou alto. – QUEM QUISER VINGANÇA PELOS SEUS ANCESTRAIS, ADIANTE! ESSA É A HORA! MOSTREM A LONDRES, A CIDADE PERFEITA, COMO É SER DESTRUÍDA PELO FOGO!

Imediatamente, bruxas saíam das masmorras da igreja e quebravam o templo principal. Saíam por toda a cidade atirando bolas de fogo poderosas para cima, que pegavam nas casas matando famílias, nos cavalos que eram reduzidos a cinzas, nas construções que eram incendiadas, e quando menos se esperou, a cidade inteira estava pegando fogo. Labaredas do tamanho de árvores enormes estavam engolindo tudo o que viam pela frente, e uma fumaça negra fazia com que todos tossissem.

Rubila, a ruiva, falava com Marcos que tinha liberto ela e as demais. – Vamos amor, vamos aproveitar essa chance para fugir de Londres sem sermos percebidos! É a vida que sempre sonhamos! Longe de qualquer um que possa nos julgar, afastados de todos os que matam pessoas apenas por não serem como eles!
— Sim Rubila. Essa é a vida que você merece. Depois de sofrer tanto... Depois de esperar tantos anos para nos vermos novamente...
— Não fale como se você também não merecesse! Você também não me esqueceu e me ajudou a escapar. Eu e as demais. Marcos, precisamos ir logo, vamos deixar a conversa para depois, senão seremos consumidos pelo fogo também!
— Sim, tudo bem. Eu conheço uma passagem perto daqui que nos levará pra longe da igreja e estaremos bem perto do porto! Assim, vamos finalmente escapar daqui!

Rubila e Marcos foram seguindo por uma portinha de esgoto e seguiram correndo pelo subterrâneo de Londres. Enquanto lá fora, o fogo consumia tudo, eles ainda ouviam gritos de desespero e explosões.
Uma bruxa mais jovem jogava chamas poderosas como um jato de fogo das mãos. Quando ela viu duas crianças e uma mulher correndo das chamas, seu sorriso sinistro marcou seu rosto. – Tentando escapar?... Nós, bruxas, nunca pudemos ter esse privilégio. SINTAM O MESMO QUE NÓS!
Uma rajada de fogo foi lançada contra a família, mas esta não sentiu nada pois o fogo parou no caminho e a bruxa caiu com um buraco no peito esquerdo tão profundo que havia varado e dava pra ver o outro lado.
Atrás dela, um rapaz pálido e loiro quase grisalho de olhos azuis e uma boca rosada, com vestes cinzas gélidas quase prateadas, guardava uma espada. Ele era estiloso e belo, como um puro cavalheiro.
— Mamãe, quem é aquele rapaz?! Perguntou uma das filhas. – Ele é lindo... Disse a outra impressionada. A mãe sabia do que se tratava. Qualquer um adulto ali saberia quem ele é.

— Essa roupa e uma espada de esgrima... É um dos peões da rainha... Precisamos ir, ele vai cuidar de tudo!
O rapaz olhou de cima da casa para as chamas que refletiam em seus olhos.
— Francamente... Isso é ridículo. Um peão como eu me remetendo a uma tarefa tão estúpida? Poderiam mandar um soldado qualquer, não um cavaleiro real.
— Está resmungando demais, Francis!. Mais um jovem, este mais jovem ainda com as mesmas vestes, caiu encima da casa. Ele tinha mas mesmas características do Francis, mas seu cabelo era maior e seus olhos eram verdes.
— Veio aqui só pra me dizer isso, Richerd?
— Jamais. Eu só queria dizer que acabei com as bruxas do outro lado... Isso é realmente tedioso não é Francis? Mas você pode voltar ao palácio. Sabe, eles não precisavam ter mandado dois peões pra fazer esse trabalho. Um de nós é bem mais que o necessário.
— Neste caso, voltarei e darei o relatório à rainha. Direi que os ratos estão sendo aniquilados. Com sorte, não terei que ver nenhum bispo no caminho. Francamente, eles irritam mais que as torres, tudo por quê são extremamente poderosos, e não podemos fazer nada sendo peões.
— Olhe pelo lado bom Francis, podemos não ser páreos pra eles, mas não há ninguém que nos supere além deles! Richerd deu uma risadinha delicada escondendo o sorriso com a mão coberta de sua luva branca. Francis deu uma palmada nele de leve, o que não doeu tanto por quê o Francis também usava luvas delicadas.
— Mantenha sua classe, Richerd. Estou indo. E deu um salto tão grande que praticamente voou.
Uma bruxa apareceu na frente de Richerd e tentou dar um soco nele, mas ele apenas fez um movimento de espada sem nem chegar a tirá-la da bainha por completo e a bruxa se partiu ao meio espirando sangue pra todo lado, exceto nele que defendeu todas as gotas de sangue que iam pingar nele com a espada. – Ora ora... Tentando manchar meu uniforme?

Enquanto isso, Marcos e Rubila saiam de uma portinha subterrânea e corriam para uma ponte. Não conseguiam conter a felicidade e riam enquanto corriam.
— Não é incrível Rubila?! Ao cruzar essa ponte, todos os nossos sonhos serão realidade! E todos os nossos medos desaparecerão!
— Sim, Marcos. Seremos livres... Livres por nossos sonhos!
— Eu te amo Rubila!
— Eu também te amo Marcos...
E ambos foram cruzar a ponte sorrindo. Rubila sorriu ao olhar pra Marcos e se surpreendeu ao ver que ele tinha um grande buraco no peito esquerdo como se o coração dele tivesse sido perfurado.

E então, com os olhos brancos e sangrando, Marcos caiu, morto, frente à sua amada.
— Quem diria que eu ainda encontraria ratos no caminho.
— Quando Rubila olhou para trás pra ver de onde vinha a voz, viu um rapaz pálido e delicado de expressão fria com uma espada de esgrima. Era Francis.
— Pensei que iria acertar os dois com um só golpe... Devo estar perdendo a prática. O Richerd pega todos os meus serviços. Humpf...
Rubila permanecia calada com os olhos arregalados. Não sabia o que fazer, ou dizer. Ódio a cercava. Ela nunca sentiu tanto ódio em toda vida. E pela primeira vez naquela noite, as nuvens se afastaram da lua, e a lua que estava cheia iluminou tudo com as chamas. Rubila se lembrava de um feitiço. Um feitiço poderoso que poderia ser feito com a luz da lua. Algo que em troca da vida dela, faria com que muitos sofressem por muito tempo.
Então começou a recitar baixo.

“Abro mão da visão e do dom de escutar,
abaixo da lua, estou à clamar;
como tudo que começa o que eu quiser terminará,
um dia, como eu, esse chão cairá,
e com ele, sofrida, a cidade sucumbirá.
Diga agora, que tributo para a paz me dará...”

— É uma bela moça admito. É uma pena que seja uma bruxa. Falou Francis observando Rubila e se aproximando.

“ ’Bela dama’ o tributo será.”

E com uma labareda de fogo, Rubila desapareceu e as demais bruxas vivas (que não eram muitas) morreram. Francis pareceu confuso, mas apenas ignorou tudo.

FIM

...

— Acabou! Falou Fulano esticando as articulações.
— Onde é a página em que a feiticeira recita o feitiço final Fulano? Tenho certeza de que a chave pro caso pode estar lá.
— Aqui. Mostrou a marionete. Alice ainda boquiaberta e confusa.
— Hmm... “um dia, como eu, esse chão cairá, e com ele, sofrida, a cidade sucumbirá”...
Ele olhava o texto com o desenho da bruxa encima da ponde de Londres ao lado do amor dela, morto, jurando perante a lua.

— Esse chão... Fukuba arregalou os olhos. – A ponte de Londres! Ela vai cair e a cidade vai cair com ela!
— A ponte de Londres vai o quê?! Perguntou Alice confusa.
— Calma Alice, não se preocupe, precisamos investigar mais, então fique aqui e não saia, por favor!
— Tudo bem...!
Fulano foi colocando o capuz, Fukuba pegou a cartola e ambos saíram correndo para a rua.

Na rua nublada, Fukuba corria com Fulano para encontrar a ponte. O que poderia ter a ver com o caso? Ele ficava pensando em como as coisas tinham ligação com outras.
— A ponte de Londres vai cair... Mas... “Jovem moça o tributo será”...? Jovem moça?!
Fukuba fez uma expressão de surpresa. – É isso! O tributo! As moças que sumiram!
“Moças com idade entre 16 e 21 anos desaparecendo. Seis até agora”!

Tudo parecia claro, tudo estava ligado, mas como? Algum lunático viu a lenda e temia que algo acontecesse por isso estava oferecendo as damas como sacrifício?
Eles precisavam chegar na ponte para ter certeza de que era isso. No meio de toda a neblina perto da ponte, encontraram uma figura com um manto negro e encapuzado.
“Eu sabia!” pensou Fukuba. Olhou pra ele por alguns segundos mas o sinistro encapuzado parecia tão intertido em ir para a ponte que não notou o Fukuba nem o Fulano, mesmo que ambos estivessem próximos.

Então Fukuba decidiu chamar a atenção dele. – Ei, você! E foi puxar o manto.
PLAFT! Alguém segurou a mão do Fukuba violentamente. Outro encapuzado. Fukuba se virou imediatamente para ver quem era e não acreditou no que viu.
— O policial principal!
— Não deveria atrapalhar isso, meu rapaz!
Quando Fukuba olhou pra Fulano, viu que ele estava sendo imobilizado por algumas pessoas que nunca viu. Eram claramente cidadãos. Dentre eles, um homem magro de nariz fino e um garotinho sardento e dentuço de boné abaixo do capuz, que pareciam muito, muito familiares.
— O pessoal da cidade?! Exclamou Fukuba incrédulo. (Isso explica o por quê das outras mortes não terem sido publicadas... Não se importavam!)
— Que desconfortável. Falou Fulano sendo imobilizado por quatro pessoas.
Fukuba estava vendo todo aquele pessoal da cidade encapuzado como se fizessem parte de uma seita, mas não podia acreditar... Não poderia ser verdade. Ele tentou falar com eles. – Vocês têm que ter cuidado! Ouvi dizer que na ponte de Londres—

Um soco no estômago e uma cotovelada na cabeça fizeram Fukuba parar de falar e tossir sangue. Agora, seus cabelos azuis estavam bagunçados.
— Cof! Cof! Fukuba limpou o sangue que escorria da boca. – Por quê? Por quê fizeram isso? As mulheres da cidade estão em perigo!
— Disso nós já sabemos! Gritou o policial principal. –Já sabemos da maldição da ponte e de todo o resto!
— Se sabem de tudo isso, por quê deixam acontecer?! Respondam! Por quê nunca tentaram resolver nada?!
— É pelo bem da cidade! O sacrifício de mulheres belas precisa acontecer anualmente! É para acalmar a maldição da ponte! Não há nada que possamos fazer.
— Lixo. Falou Fukuba secamente com um pequeno sorriso amargo. O policial irritado pegou ele pela gola de palhaço e levantou erguendo o punho no rosto dele.
— COMO É?!!
— Isso mesmo. Lixo. Alguém que tem tanto medo de morrer que oferece a vida das pessoas como sacrifício? Lixo.
O policial deu um murro em Fukuba com toda a força, o que fez ele cair meio longe.
— MESTRE! Gritou Fulano com agora seis pessoas o segurando.

— O que um palhaço estúpido como você entende sobre medo de morrer? O que alguém tão idiota pode entender sobre sacrifícios?! Seu trabalho é ficar fazendo graça pra que os outros riam, não é?! O que alguém como você entende sobre a vida de verdade? Nunca entenderá sobre nada disso! Nunca entenderá o medo que passamos! Nunca entenderá a dor que é ter que sacrificar algo para ficar vivo! VOCÊ É APENAS A DROGA DE UM PALHAÇO! Então cale a boca!

Algumas coisas passaram na cabeça do Fukuba nesse momento. Pequenos momentos de seus dias anteriores. Lembrou do seu irmão, e de seus pais mortos na frente dele. Lembrou de como era não ter nada. Lembrou de como o vazio dói mais que qualquer coisa. Uma coisa ele não precisou lembrar; a sensação e o remorso que carrega constantemente consigo, de que se fosse mais forte poderia ter protegido seus pais. Se fosse mais forte, poderia ter impedido seu irmão de ir embora, e se cão de ser morto por aqueles garotos em um dia de chuva. Ele nunca pôde defender nada. Nem seus pais, nem seu irmão, nem seu cachorro. Mas olhando pra trás, nunca daria a vida de ninguém pra ter qualquer um de volta. Ou pra impedir que eles morressem.
Então Fukuba apenas sorriu, como sempre fazia em momentos complicados.
—Você tem razão. Sou apenas um palhaço.
Um raio de luz vermelho iluminou um pouco do chão. As nuvens, pela primeira vez naquela noite, saiam da frente da lua.

— A lua já está aparecendo... Onde está aquele idiota? Perguntou um homem com uma barba grande e óculos.
— Aqui mestre!
Era o mordomo James, e ele trazia a Alice toda amarrada. – Desculpe o atraso.
— Papai, socorro! Ela gritava para o homem de barba grande e óculos, mas ele a ignorava enquanto todos ascendiam uma vela.
— ALICE! Gritou Fukuba. Fulano olhou assustado e viu que era a Alice mesmo. O nevoeiro se dispersava. O pai da Alice olhava para a lua.
— Ótimo, já está tudo pronto, a lua já está no céu! Levem-na para a ponte! Gritou o policial principal.
— Traga ela James! – Sim, senhor!
E segurando uma vela, todos ali começaram a cantar.

“Build it up with sacrifice! Sacrifice! Sacrifice!
Build it up with sacrifice!
Of a Fair Lady!”
( “Construa-o com sacrifício... Sacrifício, sacrifício... Construa-o com sacrifício... De uma bela dama.”)

— Não mesmo! Gritou Fukuba olhando pra Fulano. – Fulano! Impeça!
— Ok!
Os braços magricelos do Fulano começaram a engrossar, pois a madeira estava aumentando de tamanho. As pernas ficaram mais grossas também e no meio, ele se abriu um pouco de modo que ficasse mais largo. Agora, ao invés de magricela, ele era uma marionete forte e robusta, como um lenhador; exceto pela cabeça que continuava a mesma coisa.
— Esse é o meu “Modo de Combate!”, agora receba isso James! Kyaaaah!!!
Um soco poderoso foi em direção à cara do James!
KRASH!
Uma armadura medieval impediu o golpe. Era uma armadura de ferro imponente com pena na cabeça, viseira e tudo. Ela tinha impedido o golpe do Fulano com uma poderosa lança. Dava para ver que era uma armadura vazia, pelas partes abertas onde não dava para ver o cavaleiro dentro.
— De onde saiu isso?! Gritou Fukuba. E James sorrindo satisfeito comentou.
— É o Golem de Ferro que aquele cara vendeu pra nós! Como ele foi útil! Devemos agradecer à ele depois! Não teríamos conseguido metade do que conseguimos se não fosse por ele!
— Um... Golem de Ferro...? Essa não! Fulano, sai daí!!!
Fulano ia sair quando o Golem brutalmente deu uma pancada com a lança no tronco dele destruindo seu corpo em vários pedaços. A cabeça que caiu ainda inteira no chão, chegou a gemer. “Fu... Ku... Ba...”.


As pessoas que agarravam Fukuba começaram a rir e ao provocar.
“Hahahah! Ele morreu por sua culpa!”
“Você matou seu brinquedinho!”
“O brinquedo quebrou, criança!”
“Só não vai chorar einh!”

Fukuba sorriu. – Chorar...? Não enquanto eu vestir essas roupas. E mesmo que eu chorasse...
Fukuba chutou a cartola fazendo o guarda chuva cair e pegando ele com a boca, girando e fazendo todos os que o seguravam voarem com o corte poderoso.
— Vermes como vocês não saberiam o significado de lágrimas verdadeiras!
Então com um giro e uma reverência, Fukuba estalou o dedo.
— Bom, acho que podemos começar o show.
Uma pancada em sua frente fez ele pular e deslizar para trás. Era o Golem de ferro dando uma lançada no chão e fazendo pedras voarem. O poder dele era aterrorizante.
— Que Golem mais apressado! Agora, vejamos... O que eu lembro sobre Golens?

Fukuba lembrou de um dia, em uma tenta de circo conversando com um palhaço meio velho e rabugento, mas aparentemente muito sábio. Ele falava com uma voz rouca de quem fumava muito.
— A próxima lição é muito importante, então preste atenção!
Todo Golem possui a palavra “EMET”, nas costas ou na testa; em um desses dois lugares. Essa palavra significa “Verdade” e dá a vida ao Golem à partir de uma magia poderosa. A única forma de derrotar um Golem, seja ele do que for, é apagando a letra “E” do início da palavra, deixando ela assim: “MET”.
“MET” Significa “Morte”! Ao fazer isso, a magia é quebrada, e o Golem se desfaz! É simples então anote!
Ele lembrou de que perguntou algo.
— Mas... Professor, e se um Golem não tiver essa palavra?
— Então não é um Golem. Simples assim!

Fukuba se esquivou de mais uma lançada, se abaixando. “Não tem nada na testa dele”.
Depois deslizou entre as pernas do Golem indo para as costas. “Nada nas costas também! Então não é um Golem! É só uma armadura animada!”
Ele enfiou o guarda chuva com toda força nas costas da armadura, e cravou. Logo em seguida, armou o guarda chuva e as partes da armadura voaram para todos os lados.
Em meio à chuva de peças, Fukuba agradecia o espetáculo. “Obrigado...”
— Ah é, a Alice!

Quando ele chegou na ponte, o pai dela já ia mata-la, mas ele o desmaiou com um toque no pescoço e desmaiou o James que apareceu para atrapalhar também.
— Ainda bem que fui rápido! Ele se abaixou e prendeu com o guarda chuva a perna do policial principal que ia o atacar pelas costas, o derrubando e o fazendo desmaiar.
— Ótimo. Acho que ninguém mais vai atrapalhar.
Ele tirou o pano que tinham posto na boca da Alice.
— Você tá bem Alice?
— Sim Fukuba, obrigado por me ajudar... Muito obrigado, de novo.
Fukuba quebrou as algemas e correntes com a ponta do guarda chuva e Alice se levantou.
— Ainda bem que fui rápido, né Alice?
— Uhum! Ambos sorriram.
Então, o sorriso deles foi interrompido. Um tremor tomou conta da ponte. Das ruas... Da cidade. Um terremoto poderoso fazia pequenas partes da ponte cair. A lua, brilhava vermelha. O terremoto aumentava cada vez mais. As casas se rachavam. As ruas se rachavam. Todos dentro de casa, e as pessoas da seita começaram a cantar em um único coro.

“London Bridge is Falling Down...
Falling Down, Falling Down…
London Bridge is Falling Down...
My Fair Lady…”

Alice olhando pra Fukuba triste parecia desesperada.
— A ponte vai cair Fukuba! E a cidade vai junto! Eu... Eu preciso me sacrificar! Não posso viver sabendo que a cidade vai ser destruída! E que as pessoas todas vão morrer! Ainda há pessoas boas aqui! E além do mais... (Ela olhou para as pessoas da seita) Eu não posso culpa-los... Eles só queriam proteger o local onde vivem... Eles não tinham opção.
— Lembre-se sempre disso, Alice: Não importa o que aconteça, sempre temos opção.
E a lua foi ficando rubra cor de cobre. Um calor imenso tomou conta do local.
— Aquilo... Disse Fukuba impressionado, olhando pra cima.
— A lua...
Uma massa de fogo vivo descia lentamente da lua.
— Sem sacrifícios...? Hora da cidade cair.
E a ponte começou a tremer mais e mais.
— De onde veio essa voz?! Apareça, vou acabar com você! Fukuba procurava de um lado pro outro.

— Não há como acabar comigo!
E a massa de fogo acelerou, indo em direção ao Fukuba e a Alice. Fukuba pegou o guarda chuva e colocou na mão da Alice.
— Alice, pegue esse guarda chuva e não o solte aconteça o que acontecer, certo?!
— Tudo bem, mas... Aaaaaahhh!
O fogo bateu no chão com uma explosão. O guarda chuva que estava com a Alice se armou e a carregou voando para o outro lado da ponte.
— Cuidado! Fukuba!

Na frente de Fukuba, o fogo se materializou em uma mulher ruiva e bonita.
— Não há como me matar... Por quê eu já estou morta!
— Rubila...! Entendo... Então, se não cumprissem o sacrifício, você viria pessoalmente destruir tudo.
Rubila olhava ao redor com duas bolas de fogo nas mãos, enquanto a ponte tremia e os pilares desabavam e a cidade tremia tanto que as casas desmoronavam.
— Mas como eu disse... Vou acabar com você.
— Pare de estupidez seu palhaço de maquiagem macabra, já falei que estou morta! Se me conhece, sabe que sou um fantasma! Morri em 1666, levando a vida das minhas amigas pra que pudesse me vingar de todos!
— Eu sei que você está morta, Rubila.
Fukuba levou a mão até o olho castanho-claro, e removeu uma lente de contato, revelando que os dois olhos eram azuis muito claros.
E ele continuou – Mas, digamos apenas que as coisas são um pouco diferentes...
(Em um piscar de olhos, seus olhos ficaram amarelados, mas ainda muito belos).
Quando já se encarou a morte com seus próprios olhos!
— Então... Essas pinturas em seu rosto...?!
— Que pinturas...?
Olhando agora, dava pra notar. Não era um sorriso costurado pintado. Era de verdade. Alguma coisa havia cortado a boca do Fukuba até as orelhas e agora estava costurado. E o traço abaixo do olho até o queixo, era um corte profundo de verdade, dava pra ver a carne, mas não sangrava.

Então, ele arrancou as mangas da roupa e seus braços tinham marcas desenhadas, como tatuagens antigas que iam até o ombro, em espiral ao redor do braço.
O fantasma de Rubila pareceu conhecer.
— A marca da penumbra...?!
Fukuba tirou as luvas brancas.



Suas unhas da mão eram pintadas de preto. As marcas de tatuagem iam até uma tatuagem de um pentagrama na palma da mão dele.
E se olhassem de perto, veriam que não eram tatuagens. Aquelas tatuagens na verdade eram feridas que não cicatrizavam nem sangravam.
— Vamos ver o que você sabe fazer, Rubila.
Rubila atirou uma poderosa bola de fogo em Fukuba. “DESAPAREÇA!”, mas ele segurou com as duas mãos sendo empurrado para trás, uns dois metros.

Do outro lado da ponte, já meio longe dali, Alice pousou e o guarda chuva se fechou.
— Fukuba... Cuidado...

Fukuba desviou de mais duas bolas de fogo e olhou para o pentagrama na palma da mão. Ele estava tendo um brilho roxo. Então ele fechou a mão e uma chama lilás começou a queimar, meio transparente. Rubila voou muito alto, e Fukuba se abaixou e deu um salto tão alto que alcançou Rubila voando.
Então ele abriu a palma da mão com o pentagrama e pegou a cara dela como se ela não fosse um fantasma, derrubando ela com tudo no chão da ponte e fazendo ela praticamente cair.
— Quem vai desaparecer aqui é você, Rubila. Desapareça.
Então chamas negras e roxas começaram a consumir tudo em um furacão, e o tremor estava diminuindo aos poucos, exceto pelo tremor que as próprias chamas pesadas causavam. Rubila e Fukuba gritavam, não com a mesma intensidade um do outro.
Quando o fantasma tinha sido consumido pelo fogo, ainda em meio as chamas, Fukuba pôde ver Marco, estendendo a mão pra Rubila, que pegou a mão dele e ambos caminharam para o além, mas antes Rubila sorriu e fez sinal de agradecimento para Fukuba.
Após alguns instantes, as chamas desapareceram em um redemoinho sendo sugadas para a palma da mão do Fukuba.

E lá estava Fukuba, em meio a fumaça e vapor que se esvaia aos poucos, ajoelhado e meio apagado no meio da ponte, colocando a lente castanho-clara.
As pedras estavam se encaixando lentamente nos seus devidos lugares uma a uma, e os pilares da ponte levitando e encaixando nos lugares deles.
Alice corria para ele com o guarda chuva.
— Fukuba! Você está bem?!
— Estou sim...
– Você está... Está tão machucado!
— Eu sei... Heheh... Mas não dói muito. – Mas... E o Fulano?!... – Fukuba ficou falado...

Alice pegou o braço do Fukuba, que agora parecia ter meras tatuagens, e colocou sob ela pra que ele pudesse andar melhor.
— Mas Fukuba... Se você tinha esse poder desde o início... Por quê não o usou?
— Bom, digamos que isso não teria graça alguma... E você sabe... Eu sou um palhaço!
Disse ele rindo.

— Um dos ruins por sinal.
Fukuba e Alice olharam. Quem falou isso foi um rapaz aparentemente da mesma idade que o Fukuba. Ele era ruivo e tinha um cabelo bem recheado e cacheado, quase como um afro, mas com duas mechas lisas nas costeletas, que chegavam quase aos ombros. A pele dele era bem pouco alaranjada e ele tinha um nariz pintado de preto como o de um cachorro, e bigodes de gato desenhados nas bochechas. Vestia um robe parecido com um kimono todo vermelho e laranja e tinha um capuz extremamente felpudo e laranja, que lembrava um capuz esquimó.
As pedras continuavam se encaixando e tudo quebrado se endireitava.
— Foxey! Gritou Fukuba feliz.
— Demorou muito pra acabar o trabalho, Fukuba. E como sempre, eu quem tive que limpar tudo!
— Você reclama, mas é exatamente esse o seu trabalho...
— Ehm... Fukuba, quem é esse e como assim “É exatamente esse o seu trabalho”?
— AH é, nem te apresentei. Ele é o Foxey, um colega de trabalho. Ele trabalha como um Limpador, isso é, limpando as memórias das pessoas e reconstruindo tudo com telecinese. Mas como ele não gosta muito de mim, por algum motivo que eu não sei, ele prefere andar meio separado, ou invisível.
Alice fez uma cara meio triste.
— Mas... Fukuba, eu não quero esquecer nada!
— Diga isso ao Foxey... Fukuba lançou um olhar amedrontado ao Foxey que parecia irritado, como sempre.
— Não precisa me dizer nada, eu já escutei. Não querer esquecer nada é um direito seu. Mas não me culpe depois se tiver pesadelos.
Metade das pessoas nos procuram novamente depois de três dias...
A outra metade se mata.
— S-e mata?! – Relaxa... h-heheh’ Disse Fukuba tentando acalmar Alice.
— Me admira saber dos limpadores e levar toda essa coisa numa boa. Muita gente nem acredita. Disse Foxey intrigado e irritado.
— Depois de tudo isso, nada mais me impressiona!

Foxey teve muito trabalho pra fazer. Mas depois de tudo, no dia seguinte, todos se encontraram na casa da Alice, pois ela ofereceu bastante comida para eles. O pai de Alice e o mordomo James estavam deitados no sofá, pois Foxey pôs os dois em um sono profundo.
— Francamente, se eu não precisasse tratar os outros bem nesse trabalho, eu daria uma surra nesses dois. Mas agora, vou apagar a memória deles do acontecimento, e dos sacrifícios.
— Espera! Ainda não! Disse Alice interrompendo.Foxey olhou meio irritado, meio tedioso.
— O que foi? – Aconteceu alguma coisa? Perguntou Fukuba agora com uma camisa social azul e com cabelos castanhos.
— É que... Eu gostaria que você me apagasse da memória deles!
— Quê?! Perguntou Fukuba segurando a cabeça de Fulano (Que era a única parte do corpo inteira).
— Por quê? Perguntou Foxey intrigado, com seu humor habitual.

— Não é óbvio meninos? Eu não conseguiria viver no mesmo lugar em que as pessoas que tentaram me matar vivem... (Ela começou a choramingar) E se... E se tiver outro perigo? E se precisarem me matar de novo? Eles vão me matar sem pestanejar! Não posso confiar neles!
Foxey apenas se dirigiu aos dois deitados no sofá e esticou o dedo. Relâmpagos azuis e fraquinhos começaram a sair da cabeça do pai dela e do James.
— Odeio ter que concordar Fukuba. Mas ela tem razão. Esses caras já provaram que não são de confiança. Irei fazer o que ela pediu.
— Obrigado Foxey... Você é tão gentil...! Foxey mudou de meio alaranjado para bem vermelho, mas seu rosto de irritado não mudou. E Alice parou pra pensar meio triste.
— Mas agora... Eu não vou ter pra onde ir...
— Ue, vem com a gente! Disse Fukuba segurando a cabeça do Fulano que disse “É!”.
— QUÊÊÊ?!! Gritou Foxey irritado.
— É sério?! Eu posso...? Eu posso ir com vocês?!
— MAS É CLARO QUE NÃO! Berrou Foxey.
— Mas é claro que sim! Disse Fukuba sorridente.
— COMO É QUE É! ACHA MESMO QUE ELA PODE SE MISTURAR CONOSCO?! VOCÊ TÁ LOUCO?! NÃO TEM LUGAR PRA ELA ENTRE NÓS!
— Então o Fulano tá concertado Fukuba?
— Não Alice, mas a cabeça está inteira. Isso é o mais importante.
— Eu... Tô legal, eu acho. Disse um Fulano bem confuso.
— ESTÃO ME IGNORANDO...

Alice subiu rápido para o quarto dela e desceu com duas malas.
— Ta-daaam~! Estou pronta para ir com vocês!
— NÃO BRINCA, JÁ TINHA MALAS PRONTAS?!

Então, depois de berros, gritos, argumentos e tudo o mais, Foxey se viu sem sucesso por quê às 2 da tarde, lá estavam eles, Alice, Foxey, Fukuba e o que restou do Fulano, em uma estação de trem para pegar o trem mais rápido pra um lugar que Alice nem sabia onde. Alice com seu belo chapéu, olhava para o trem. “Yuupi! Eu amo trens!”.
— Isso vai doer em mim...
— Relaxa Foxey, não é contra as regras. Comentou Fukuba com esforço carregando a mala dele, e as da Alice, que seria todas carregadas pelo Fulano se estivesse bem. Foxey levava a cabeça do Fulano.

O trem apitou. Significava que iria partir. Alice empolgada foi logo na frente e gritou:
“O ultimo a chegar é um Fantasma do Medo!”
— Medo tenho eu, de que saibam que essa louca está comigo. Resmungou Foxey.
— Ow Foxey, ajuda aqui!
Fukuba caiu pra dentro do trem derrubando todos. Pouco tempo depois o trem começou a andar e tomou velocidade. Viram a cidade ao longe.
Só havia o silêncio e o som do trem. Até Fukuba soltar um grito.
— Droga! Eu esqueci minha cartola!
— Idiota. Comentou Foxey como sempre.
— Eu amo trens! Disse Alice se aconchegando no banco acolchoado.
E todos seguiram, em alta velocidade. Rumo ao que o futuro os reservasse.

(London Bridge is Now Saved...)
A bela ponte, salva, mantêm-se firme.
(Now Saved, Now Saved...)
A cidade, permanece intacta.
(London Bridge is Now Saved…)
Alguém, encima de uma alta torre de relógio, olha o trem onde Fukuba e os outros estão, indo embora.
(My Fair Pupetteer...)
Quem está acima da torre, é um homem alto e magro vestido de bobo da corte bem estiloso, com uma concertina ao lado dele, uma tatuagem de estrela preta na bochecha e uma armadura medieval muito alta, com uma lança na mão atrás dele, ligado às mãos dele por cordas de marionetes finíssimas.


Tradução:
A ponte de londres está salva agora...
Salva agora, Salva agora...
A ponte de Londres está salva agora...
Meu belo Marionetista.

Notas finais
Dependendo da recepção, haverá continuação.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.