Notas iniciais
Oláaaa, pessoal! Aqui estamos nós no 17º capítulo de Kurohanayome. Depois de tanta tensão na história, espero que se divirtam com este capítulo. Boa leitura e até a próxima. o/

Alguns dias depois, nós estávamos na casa de Lau. Era uma mansão espaçosa e com uma arquitetura que era o resultado da mistura de edificações britânicas e chinesas. Ele nos chamou para ficarmos lá enquanto a polícia estava investigando a respeito da tragédia que envolveu minha família. Deixar a casa de Ciel vazia seria uma ótima forma de manter os humanos envolvidos com o conde sãos e salvos... Por enquanto.

Naquela noite haveria a festa da alta sociedade inglesa. Achei que bastaria por um vestido e me produzir algumas horas antes, porém, sob as ordens do dono da casa, as várias empregadas cuidaram de mim o dia inteiro. Fazia tempo que eu não me sentia “mimada”, embora sempre tivesse tudo o que quis. Meirin também pode aproveitar disso e ela se apresentava mais tímida do que eu diante daqueles cuidados excessivos.

Eu consegui me livrar das serviçais por um tempo, a fim de dar uma volta pelo jardim de inverno e tentar por os pensamentos no lugar: saber que estaríamos mais próximos da solução do caso que trouxe Ciel de volta me trazia a consciência também de que o risco de vida seria bem maior. Eu trajava um quimono laranja e meus cabelos estavam presos para trás em cachos espessos.

De repente, reparei que alguma coisa se moveu no meio de um arbusto. Parei diante da pequena árvore, que continuou se movendo e minha curiosidade aumentou. Aproximei para ver que animal se escondia ali e, então, duas orelhas pontudas e pretas saíram do meio da folhagem, acompanhadas por um miado suspeito. A princípio, imaginei que fosse um gato sentindo dor, até a cabeça do indivíduo se erguer e revelar, primeiramente, a cabeleira ruiva de Grell.

-Ah... Cadê Sebastian? – ele me perguntou sem rodeios.

Senti vaga vergonha alheia ao vê-lo usando aquelas orelhas postiças. Respirei fundo e tentei impor um tom gentil, me forçando a não rir daquilo:

-Ele deve estar com meu primo agora. Mas... O que são essas... – apontei para as orelhinhas, que se moveram.

O shinigami suspirou decepcionado e saiu do meio do arbusto. Limpou a roupa e me explicou o porquê de estar ali:

-Queria surpreender Sebby, mas ele não desgruda daquele moleque... Desculpe, eu sei que é seu primo, noivo, sei lá, mas... – se aproximou repentino e perguntou com um brilho esperançoso nos olhos: — Vamos nos ajudar a separá-los?

Fiz um gesto com as mãos para que ele parasse de falar e suspirei enfadada:

-Falando assim, até parece que eles têm um caso. – apontei para o lado que eu acreditava que eles estavam. – Sebastian deve estar para lá, mas, francamente, é muita teimosia da sua parte correr atrás dele mesmo sabendo que ele não gosta de te ver.

Grell fez bico:

-Infelizmente, ele fica bem tímido quando me vê, mas... – apalpou as orelhas de gato e disse sorrindo: — Essas belezinhas aqui irão me ajudar a conquistá-lo.

Não ria, Elizabeth – eu conseguia me dominar para não rir daquelas coisas se movendo no alto da cabeça dele. Não que eu não achasse bonitinho, mas em Grell haviam ficado cômicas. Ele completou:

-Essas são as coisas que Ciel prometeu me dar caso eu ajudasse vocês.

Dessa vez, não pude evitar: pus a mão no rosto sem acreditar que havia escutado aquilo. Perguntei:

-Ciel tinha te prometido isso? Essa era “aquela coisa”?

-Exatamente. – o shinigami fez sinal de afirmativo com a cabeça. Perguntou malicioso: — Você tinha pensado o quê?

-Vá logo atrás de Sebastian antes que ele suma! – não quis mais responder a respeito daquilo e passei por ele.

Grell veio correndo atrás de mim:

-Mas, essa mansão é gigante, eu não sei onde eles estão!

-Então, me acompanhe! – eu o chamei. Admito que também não sabia, mas, se nos perdêssemos, seríamos dois perdidos num mesmo lugar.

-S-Sebastian... – escutei uma voz familiar soando por trás de uma das portas do corredor.

-Fique quieto. – o mordomo pediu paciente.

-I-Isso não... – Ciel continuou resmungando.

-Não vai doer nada.

Eu e Grell paramos imediatamente ao escutar aquilo. Não precisei olhar para o ruivo para que ele me perguntasse:

-Ainda acha que eles não têm um caso? Como é bobinha...

-Não vamos pensar besteiras! – eu disse com a voz trêmula e caminhei até a porta.

Quando fiz menção de rodar a maçaneta, escutei derradeiramente:

-Esquece, eu não vou fazer isso de novo! – e a porta se abriu.

A única coisa que vi após a porta se abrir foi o teto vermelho em minha linha de visão e senti fios de cabelo acinzentado um pouco abaixo do meu queixo. Sebastian apareceu à porta e me agradeceu:

-Obrigado por segura-lo, lady Elizabeth. Ele queria fugir.

Demorei a entender o que havia acontecido, até finalmente meu raciocínio funcionar: Ciel havia trombado comigo e caímos juntos no chão, porém eu havia servido de amortecedor para a queda dele e, em compensação, minhas costas doíam muito.

-Droga, que foi que eu fiz? – ele saiu de cima de mim, assustado. Perguntou preocupado: — Lizzy, você está bem?

Meneei a cabeça e reclamei:

-Você pesa. Que decepção, achava que era mais leve.

Lau chegou ao corredor, nesse momento, e perguntou:

-O que está havendo aqui? – olhou para mim e indagou perplexo: — Está querendo tirar uma soneca no meio do corredor, lady Elizabeth?

Sebastian e Ciel me ajudaram e me levantar. Após minha respiração voltar ao normal, olhei para eles e quis uma explicação:

-O que aconteceu?

Ciel cruzou os braços no peito e protestou:

-Eu não irei por um vestido de novo!

-“Vestido”? “De novo”? – repeti essas palavras e voltei meu olhar para Sebastian querendo uma resposta mais clara.

O mordomo suspirou e disse baixo:

-Uma longa história. – virou-se para o jovem conde: — De qualquer forma, Lau já havia falado que a melhor forma de se achegar ao rei é disfarçado, principalmente se for de uma jovem e bela dama.

-Mas, eu não consigo por aquilo! – Ciel protestava insistente.

-Domine seu trauma, mestre. – Sebastian pedia.

O garoto rosnou:

-Não!

Grell cortou o assunto:

-Sebastian, deixe-o para lá e fale como ficou em mim...

Nós olhamos para o shinigami que fazia uma pose fofa. Sebastian o olhou indiferente e disse seco:

-Horrível.

Não é preciso citar que o deus da morte ficou tão arrasado a ponto de se jogar de cara no chão e ficar inerte. Ignorando aquela cena, pus a mão no ombro de Ciel:

-Você não estará sozinho na festa, portanto, seja lá o que aconteceu com você na outra vez que se disfarçou de garota, isso não irá se repetir.

-Mas, Lizzy... – pelo visto, aquilo realmente o deixava constrangido até naquele estágio.

Sebastian já havia ficado impaciente, pois começou a estalar as articulações dos dedos e dizer obscuro:

-O mestre vestirá aquela roupa de um jeito ou de outro...

Deduzi que aquilo não teria um bom resultado e fiquei entre os dois imediatamente. Disse ao mordomo:

-Pode deixar, eu dou um jeito nisso.

-Como? – Grell indagou de cara no chão.

Sebastian me encarou incrédulo e senti que Ciel ficou tenso – não era para menos.

-VOCÊ VAI POR ESSE VESTIDO OU NÃO VAI? – eu ergui o sabre com o mesmo poder que meus floretes haviam ganhado na última batalha (desta vez, fornecido por Sebastian).

Ciel estava encolhido num canto do quarto e me olhando feio:

-Você é igualzinha à sua mãe!

Ri:

-Me deixa feliz saber que eu lembro ela!

Ele grunhiu e pôs a mão no rosto. Pus as mãos na cintura e argumentei:

-Você mesmo disse que deveríamos nos esforçar, portanto não devemos perder o ânimo e nem deixar traumas passados persistirem. – me aproximei dele e estendi a mão para que ele se levantasse.

Depois de tanta insistência e até ameaça, ele cedeu e agarrou minha mão:

-Você está certa. – Ciel caminhou para trás do trocador e eu saí do aposento.

Quando cheguei ao lado de fora, olhei para os lados procurando por Sebastian para ajudar meu primo com o resto, porém não achei o mordomo e nem o shinigami ruivo.

-Está tudo bem aí? Daqui a algumas horas, temos que partir. – o chinês apareceu misteriosamente outra vez.

-Sim, está. – respondi, mas depois corrigi: — Na verdade, eu queria saber aonde Sebastian foi, pois finalmente consegui convencer Ciel a se vestir.

-Eu o vi sendo importunado por uma pessoa de cabelo ruivo e voz de traveco. – Lau disse entre uma baforada de cachimbo. – Esse estranho faz parte da mansão também?

-Mais ou menos. – passei a mão no cabelo e escutei alguma coisa caindo dentro do quarto.

Voltei para dentro e perguntei ponto a cabeça para dentro:

-Está tudo bem aí, Ciel?

-Na verdade, eu não estou conseguindo me virar aqui. – ele respondeu.

-Posso ir aí? – perguntei com pudor.

-Venha. – ele respondeu calmo.

Notei que ele estava puxando as fitas do espartilho de modo errado. Ri silenciosamente ao notar que eu também tinha aquele problema, mas era normal para alguém que não tinha o costume de se vestir sozinho. Avancei minhas mãos nas linhas e tomei a direção:

-Deixe que eu cuido disso.

-Para onde Sebastian foi? – ele perguntou.

Encolhi os ombros:

-Deve estar tentando enxotar Grell daqui.

Ele resmungou:

-Aquela coisa mais atrapalha do que ajuda. Sebastian precisa mandá-lo para bem longe mesmo.

O quarto estava começando a ficar escuro, então acendi o candelabro que ficava sobre a cômoda e continuei ajeitando as fitas das costas do espartilho bege, porém, toda vez que Ciel movia os braços, as omoplatas acabavam chamando a minha atenção.

Fiquei envergonhada ao reparar que, embora ele fosse um garoto – pelo menos, ainda estava com uma fisionomia muito próxima a de um normal -, Ciel tinha um corpo mais delicado do que o meu. A pele dele era branca, mas não era naquele tom doente: lembrava a brancura do leite e de outras coisas saudáveis. A cor acinzentada do cabelo combinava com a tez. Os braços dele não eram finos os musculosos demais. Os ombros não eram muito largos também. O bloomer dava um efeito de que ele tinha as pernas roliças, mas já era de se imaginar que ele era esguio por completo.

De repente, parei de reparar no corpo dele quando Ciel me perguntou:

-Está pensando no quê?

Eu não soube se corria, se abaixava a cabeça, se terminava logo o serviço, se mentia ou todas as alternativas e mais um pouco. Perguntei nervosa:

-Você já deve saber. – talvez aquilo não tivesse sido uma boa resposta, porém eu temia que ele não me interpretasse direito.

Ele riu baixo:

-Na verdade, tem coisas que você pensa que para mim não são claras.

-É feio invadir a mente dos outros, viu? – eu brinquei.

-E ficar reparando no que não deve também... – ele retrucou.

Parei de respirar imediatamente como se minha respiração exalasse alguma coisa que não devia: Ciel havia captado a parte que eu menos queria e, pior de tudo, bem distorcida. Tentei manter a calma para demonstrar que aquilo era um equívoco ou, pelo menos, não bem do modo que ele deduzia, mas gaguejei demais:

-Eu não estava reparando em nada! – queria que a morte chegasse logo (covarde!).

-Ahan... – reparei pelo reflexo do espelho que ele sorriu de modo vagamente pervertido.

Senti os olhos marearem de raiva:

-Eu estou falando sério!

-Eu sei, estou brincando. – Ciel pôs uma das mãos sobre a boca para abafar a risada. Disse: — Desculpe, é que estamos tendo muitos momentos tensos ultimamente e eu queria quebrar um pouco isso. Aliás... – me fitou através do reflexo: — Você fica fofa quando nervosa.

Aquilo foi a gota d’ água. Movi os lábios como se dissesse “ah, é?”, peguei as pontas das fitas do espartilho e apertei com força. Perguntei com um falso sorriso gentil:

-Está bem firme agora, querido?

Ele arfou:

-Lizzy... Você não pode me matar asfixiado, mas... Isso dói, viu?

Eu sorri me sentindo vitoriosa. Mandei:

-Peça desculpas.

-Pelo o quê? Você que pensa o que não devia e sobra pra mim... Ai! – eu apertei mais quando ele falou. – Ta bom, parei! Desculpe, eu vou parar com isso!

Afrouxei um pouco, dei um laço e virei às costas:

-Não há de que e chame seu mordomo para te ajudar com o resto.

-Obrigado. – ele faltou me venerar por tê-lo tirado do sufoco, literalmente.