Kurohanayome - A Noiva de Negro
5 Rosa Escarlate
Notas iniciais
Espero que gostem. ^^
Boa leitura. ~
Aquela noite estava fresca. O céu estava limpo e a lua crescente. Eu observava aquela calmaria pela janela do escritório até o momento que Sebastian bateu à porta e entrou:
–Mestre, todos já estão prontos.
Eu me virei para ele e sorri satisfeito:
–Já estava mais do que na hora. Vamos descer, senão chegaremos atrasados.
Meu mordomo encolheu os ombros e disse:
–Geralmente, essas festas não começam exatamente no horário que está previsto.
Eu passei direto por ele sem encará-lo e fui específico:
–Me referi a atrasarmos para abordar nosso alvo.
Senti os olhos dele em minhas costas, mas não parei de andar pelo corredor. Apenas fiz um sinal com a mão para ele me acompanhar e rosnei um “vamos logo”. Quando cheguei à sala de estar, vi meus empregados conversando animadamente e Meirin parecia ajeitar algum revólver sob o espartilho.
Um jeito bem inusitado para uma mulher guardar uma arma, eu pensei. Imaginei se Elizabeth faria algo do tipo. Logo me veio outro pensamento que apagou o pânico da dúvida se ela estaria protegida ou não.
–Vamos indo, a diligência já está lá fora. – Sebastian apareceu e bateu palmas para todos se apressarem.
–Tem mais algo para nos falar, mestre? – Bard me indagou.
Eu balancei a cabeça negativamente:
–Apenas o que já foi combinado anteriormente. Espero que estejam atentos de verdade.
Todos eles responderam num firme coro:
–Sim, senhor.
Tanaka me olhava com uma expressão apreensiva. Eu sorri e disse a ele:
–Tudo dará certo.
–É o que esperamos. Se esse confronto causar grandes problemas, o reino inteiro começará uma busca pelos arruaceiros. – ele desabafou.
Eu suspirei e reparei que aquilo era verdade, porém eu não tinha intenções de chegar ao palácio e já resolver as contas com Charlie de cara. Tinha em mente algo mais discreto e que não seria difícil de realizar, porém eu entendia o temor de Tanaka: humanos podem surpreender com algumas habilidades específicas, mas todos temem pelas suas próprias vidinhas.
Quando saímos da mansão, começou a ventar. Meirin entrou em pânico quando a saia de seu vestido salmon começou a esvoaçar freneticamente e amassar. Inocentemente e com boas intenções, Finny empurrou a parte de trás da saia do vestido contra o corpo dela, tomando cuidado para não exagerar na força, porém foi possível escutar o tapa duplo que ela levou ali. Sem reparar no que tinha acontecido ainda, ele disse gentil:
–Pronto, to segurando.
–Mas, tinha que ser logo aí? – ela tornou-se rubra.
Bard arregalou os olhos:
–Caramba!
Sebastian suspirou:
–Dá para parar de bagunça e entrar logo na carruagem?
Eu bati a mão na testa e suspirei profundo: os anos podiam ter se passado e aqueles três terem criado um pouco mais de juízo, porém não deixavam de ser atrapalhados.
De repente, escutei um ruído vindo do jardim. Olhei para a direção dele e fiquei parado no meio da escada apenas observando. Quando faltava apenas eu para entrar, Sebastian me chamou do lado de fora da porta da diligência:
–Mestre, estamos atrasados.
–Eu sei. – respondi calmo. Ergui a mão. – Esperem um pouco.
Eu sabia quem estava ali e queria encontra-lo sozinho. Sebastian continuou parado no mesmo lugar ao ver meu pedido silencioso para que não se intrometesse.
Sob as macieiras, lá estava Undertaker com seu sorriso que era um misto de enigma e sadismo. Ele me olhou entre a espessa franja bagunçada e me saudou:
–Boa noite, Conde. Há quanto tempo que não nos vemos!
–Realmente, faz muito tempo. – eu cruzei os braços e balancei a cabeça. Parei a três metros de distância dele.
Ele saiu debaixo das árvores e deixou ser iluminado pela luz da lua. Me relatou:
–As últimas guerras têm deixado os shinigamis com trabalho o suficiente para que não pudéssemos parar para tomar um café com os velhos conhecidos.
Isso explicava porque faziam anos que Grell não havia aparecido atrás de Sebastian. Eu fui direto ao ponto, pois a hora passava rápido:
–Trouxe o que eu pedi?
–Sim, sim. Apesar de o tempo estar corrido, eu ainda pude providenciar o que você solicitou. – ele sorriu e balançou a cabeça. Tirou uma rosa escarlate de dentro da roupa e me entregou. – Aqui está a sua belezinha.
Aquele era o tom de vermelho mais vívido que qualquer demônio ou mortal pudera conhecer. Aquela cor me lembrava da pureza de sangue e de alma ao mesmo tempo, não sei exatamente o porquê. Apenas sei que, logo que vi aquela flor, reparei que combinaria perfeitamente com Elizabeth.
–Obrigado. – eu agradeci.
Ele balançou a cabeça fracamente:
–Não há de quê. Mas, lembre-se que isso não é uma exata garantia de que impeça o pior. – sorriu sádico.
Eu o encarei com uma expressão séria e esclareci:
–Eu sei que não é, mas é uma boa forma de evitar.
–Sim, sim. – ele concordou. – Afinal, a vida é tão frágil e passageira quanto a beleza de uma rosa.
–Mestre! – Sebastian me chamou novamente. O vento vinha naquela direção e carregou a voz dele até mim.
Undertaker se moveu para as sombras novamente e me disse:
–Acho que o senhor já está atrasado para o seu compromisso. Noutra hora, conversaremos melhor.
Eu concordei:
–Sim, sim. Muito obrigado de verdade. – saí do jardim e embarquei imediatamente.
Com a rosa em mãos, todos ao meu redor voltaram seus olhares curiosos para ela. Finny foi o primeiro a exclamar:
–Que linda! Nunca vi uma flor tão bela e com cor tão viva quanto essa!
Bard perguntou perplexo:
–Essa era uma das rosas do jardim da mansão?
Tanaka murmurou:
–Acho que não.
Eu sorri diante do espanto deles e respondi:
–É um presente.
Meirin sorriu:
–Para lady Elizabeth? Que lindo, com certeza ela vai adorar.
–Sim. – murmurei fraco. Olhei para o lado e vi Sebastian me encarando com o canto dos olhos. Depois ele virou o rosto para a janela e me ignorou.
Embora eu dissesse que fosse um presente, eu nunca queria dar algo daquele tipo para ela, pois o significado por trás daquela rosa era bem maior do que os humanos poderiam imaginar.
A morada da realeza estava ricamente ornada por todos os cantos, desde os jardins até o interior dos salões de festas. Havia tantas luzes que parecia que era um amontoado de estrelas preso nas edificações. Só que naquele mundo humano, eu não pude ver algo brilhar mais intenso do que os olhos da filha do Marquês de Middleford. Principalmente, quando entreguei aquela rosa a ela.
–Para mim? – Elizabeth ficou oscilante em pegar a flor.
Eu rolei os olhos com impaciência:
–Claro que sim.
Ela me encarou cerrando os olhos e perguntou desconfiada:
–Você está bem?
Eu pendi os ombros:
–Por que não estaria?
Ela balançou a cabeça e murmurou afirmativa:
–Você está estranho.
–Lizzy, será que tem como... – eu murmurei e parei subitamente quando o marquês apareceu por trás da filha.
–Boa noite, Ciel! – ele me cumprimentou.
Eu respondi com um ótimo fingido sorriso de contentamento:
–Boa noite.
O marquês alisou os bigodes e declarou:
–Espero que hoje a festa seja linda. – olhou para Elizabeth e disse: — Saiba se portar, entendeu?
–Sim, senhor. – ela respondeu submissa.
Quando ele se afastou, ela cruzou os braços e mudou a expressão para chateada:
–Então, é pra mim mesma, certo? Obrigada. – sorriu de lado e pegou a rosa.
Eu fiquei perplexo com aquela mudança súbita de humor:
–Agora quem está estranha é você.
Lizzy passou a mão na cabeça e suspirou:
–Desculpe, estou meio paranoica ultimamente.
–Está doente? – eu fiquei preocupado.
Ela me encarou séria e disse com a voz quebrada:
–Eu estou morrendo.
Usar o termo “morrer” naquela hora não me trazia boas energias. Sem contar que a aura dela estava com levemente manchada de mágoa e revolta, porém ali não era o lugar apropriado para conversar sobre sentimentos.
–Anime-se um pouco, por favor. Você sabe que não estamos aqui para nos divertimos mesmo. – eu tentei faze-la melhorar, falhamente diga-se de passagem.
Elizabeth pegou a rosa com cuidado e a fitou. Murmurou:
–Por que você acha que eu estou assim?
–Eu não te obriguei a nada. – fiquei na defensiva.
Ela fez uma carranca:
–Eu não te culpei por nada!
De repente, uma senhora passou perto de nós e exclamou risonha:
–Olhem lá, não são mais noivos, mas brigam como um casal!
–Vovó, eles são primos! – uma mulher jovem a censurou entre risos.
Neste momento, Elizabeth virou-se de costas para mim e reparei que ela ficou acanhada. Tossi e maneirei no tom de voz:
–Vai dar tudo certo, confie em mim.
Ela virou-se um pouco para o lado e admitiu trêmula:
–Eu confio em você, o problema sou eu.
–Apenas siga o que já foi designado. – eu dei um meio sorriso e fiz uma reverência. – Guarde essa rosa com você e não se preocupe com mais nada além de cumprir o seu trabalho. Defender você e o reino da Inglaterra são as minhas maiores metas.
Ela se aproximou de mim e perguntou hesitante:
–Pelo menos, seu lado humano ainda pensa assim, não é?
Eu apenas balancei a cabeça e estendi a mão para ela:
–Espero que seu noivo não se importe por você me fazer companhia hoje, my lady.
–Ele é um idiota. – ela disse sarcástica e me deu a mão. – Obrigada por me contar comigo... My lord.
A rosa escarlate ficou presa entre as madeixas douradas de minha prima juntamente com os adereços que se localizavam nas laterais de sua cabeça. Quando entramos no salão, eu pude ouvir as pessoas comentando de que se Lizzy ou a rosa era a mais bonita naquela união. No final das contas, se convenceram de que elas estavam à altura uma da outra.
E Sebastian desprezava minha antiga noiva cada vez mais – reparei em seu desprezo quase sólido emanando de seu olhar sobre nós. Aquele ciúme doentio dele me deixava enjoado e com raiva. Eu já havia ignorado aquilo várias vezes, porém prometi depois que, se continuasse se degradando daquela forma, eu não aceitaria mais.
De repente, no meio da multidão e ao lado da aniversariante do dia e de seu esposo, estava quem eu queria ver àquela noite. Elizabeth segurou minha mão com força quando nós dois avistamos Charlie.
–É ele. – ela murmurou.
–Você se lembra ainda daquela noite? – eu perguntei.
Ela me encarou com o canto dos olhos e respondei sob a respiração:
–Eu não me recordo das feições, porém sinto uma energia familiar vinda dele. Uma energia calma a ponto de me deixar agoniada.
Realmente, era ele.
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