Kurohanayome - A Noiva de Negro
1 Noite de Inverno
Notas iniciais
–Lady Elizabeth, já está muito tarde. É hora de dormir. – Paula disse fechando as cortinas.
Eu suspirei e fiquei balançando os pés estendidos na beirada da cama: não queria dormir. Ou melhor, eu estava me sentindo cansada, mas sabia que aquela noite eu não conseguiria embalar no sono, porém como poderia explicar o motivo de minha insônia para Paula? Preferi apenas concordar me deitando e olhando fixamente para o teto. Pus as mãos sobre minha barriga enquanto ela me cobria e dizia:
–Amanhã será um bom dia. – sorriu gentil.
–Será que ele trará algo bom de verdade, Paula? – eu estava descrente.
Ela respondeu com otimismo:
–Com certeza. Boa noite. – e saiu deixando a luz acesa.
Eu fiquei deitada por um pequeno período de tempo naquela posição. Logo sentei novamente. Minha cabeça estava pesada e isso era culpa dele.
“Por que você se foi tão cedo assim?” eu pensei. Fiquei por dias sem acreditar na notícia de que Ciel havia falecido. Aliás, eu fui a última da casa a saber: meus pais procuraram a melhor forma de me contar sobre o paradeiro de meu primo. Me senti traída e passei por muito tempo tentando acreditar que era apenas uma brincadeira de mau gosto. Entretanto, minhas vagas esperanças foram por terra na manhã daquele dia que se findava, quando construíram um memorial para a família Phantomhive no fundo do grande jardim da mansão. Eu procurei com os olhos pelos antigos empregados durante a cerimônia, mas achei ninguém. No máximo, vi um vulto ruivo em meio à multidão que se assemelhava ao cabelo de Meirin.
–Me desculpe por apenas causar problemas, Ciel. – eu dizia baixinho. Olhei para um espaço semi-escuro do quarto e roguei: – Deus, por favor, me perdoe por ter sido uma péssima noiva.
Noiva... Eu escutei essa palavra várias vezes dirigida a mim desde que eu me conhecia por gente. “Aquela é a noiva do filho do Conde Phantomhive”, “Ela é a noiva do Cão de Guarda da rainha”, “Ciel Phantomhive tem uma bela noiva”... Eu era apenas vista como uma subordinada de Ciel: quase ninguém se recordava de mim pelo meu nome. Mesmo sendo vista assim, eu apenas o atrapalhava. Agora me sentia culpada de algum modo.
Meu coração se apertou e deduzi o que era. Deitei e abafei meu choro com o travesseiro sobre a cabeça. Só consegui me lembrar de pedir desculpas repetidamente a ele, a Deus, a tia Rachel e tio Vincent. Apenas desculpas e lágrimas durante aquela noite inteira. Então, adormeci assim.
Dormi mal, porém foi o suficiente para ter um sonho interessante: eu me via em um campo de flores púrpuras sob um céu cinzento. Longe de mim, estava Ciel de costas com seu sobretudo azul marinho ao vento. Eu não conseguia caminhar até ele e ele continuava parado no mesmo lugar. De repente, Sebastian apareceu do meu lado e sorriu misterioso como de costume.
–Ele precisa de sua ajuda. – o mordomo murmurou em meu ouvido, segurando minha mão direita.
Eu estremeci e senti meu coração bater mais forte quando Sebastian fez isso. Então, quando ele soltou a minha mão, reparei que eu segurava o anel que pertencia a Ciel.
–O que isso significa? – perguntei a ele, porém Sebastian havia desaparecido juntamente com meu primo e eu estava sozinha no campo contra o vento forte.
Mesmo sem vê-los, continuei escutando a voz de Sebastian repetindo aquela frase. Olhei para o anel que estava em minha mão e reparei que ele tinha um brilho intenso.
–Eu cuidarei dele. – eu disse.
Então acordei nesse momento com a luz do sol penetrando pelas finas cortinas de meu quarto. Um pouco sobressalta devido ao sonho e com muito sono ainda, cobri a cabeça com a coberta e fechei os olhos com força. Depois estiquei meu corpo e toquei com as duas mãos a cabeceira de mogno da cama. Então, senti algo pequeno e retangular sob o travesseiro, que estava bem acima de minha cabeça. Apalpando o objeto, o puxei e arregalei os olhos quando vi que era uma caixinha preta.
Senti um frio na espinha quando abri a curiosa caixa e vi o anel de Ciel dentro dela. Recordando que ele havia desaparecido juntamente com seu dono – de acordo com a polícia ao encerrar, sem sucesso, o caso de busca por culpados -, abafei o grito de espanto com uma das mãos.
Durante o dia inteiro, fiquei agitada enquanto cumpria minha rotina – pelo menos, eu tentava cumpri-la do jeito mais normal possível apesar de estar abalada com tantas coisas acontecendo de uma única vez: fiquei atenta às conversas entre meus pais a fim de saber se eles que haviam deixado o anel de Ciel comigo. Eu guardei a caixa sob o estrado de minha cama com muita dificuldade – o estrado era pesado e quase machuquei os dedos. Entretanto, dentro de três dias ninguém manifestou que sabia de alguma caixa preta com o anel de meu noivo dentro.
No final do terceiro dia, quando me certifiquei que Paula já havia saído do corredor, levantei o estrado novamente e tirei a caixa. O anel brilhava daquela mesma forma intensa que no sonho.
–Eu irei protegê-lo com a minha vida, querido Ciel. – eu prometi mergulhada na escuridão do quarto. Sem querer, adormeci com o anel posto em meu dedo mínimo esquerdo, assim como Ciel usava.
Os anos se passaram e muita coisa aconteceu. Entre os novos acontecimentos, a rainha Victoria se foi e seu filho, Alfred Edward, que ficou conhecido como rei Edward VII, assumiu o trono. Nos primeiros meses de reinado do antigo “príncipe-dandy”, as coisas se ajeitavam lentamente na Inglaterra. Até o dia que papai chegou em casa com uma expressão estranha e declarou solenemente:
–Aquele rei está ficando louco.
–Como assim? – mamãe ergueu os olhos na outra ponta da mesa de jantar.
Eu apenas escutava.
–Hoje ele revelou que quer aumentar alguns impostos para o povo a fim de melhorar a estrada de ferro. Porém, nós não precisamos desse investimento no momento. – meu pai disse com uma ponta de estranhamento.
–Talvez ele queira antecipar algo... – mamãe sugeriu em seu tom passivo.
–Ou queira começar a dar uma de esperto e extorquir dinheiro. – papai resmungou entre alguns goles de vinho.
Eu olhei para o rosto dos dois em silêncio: mamãe voltou a comer e papai continuou olhando para o vazio com uma expressão séria. Internamente, eu concordava com a minha mãe em partes: talvez, pelo fato de Edward VII ter acabado de começar seu mandato, seria preciso aumentar alguns impostos por um pequeno período de tempo. Entretanto, uma parte minha concordava com meu pai: aquilo estava soando estranho demais também.
–Sem contar que... – papai continuou desabafando. – O novo mordomo da família é muito suspeito.
–Victor... – mamãe suspirou e disse o nome dele com ar cansado. – Você não acha que está suspeitando demais do filho da rainha por que vocês dois não tiveram um relacionamento gentil quando eram adolescentes?
–Papai conhece o rei desde antes de ele assumir o trono? – eu não queria me envolver na conversa, entretanto deixei a pergunta escapar sem querer.
–Não, Frances. – ele a respondeu com um tom amuado e encolhendo os ombros. Olhou para mim e disse: — Sim, querida. Mas, não nos demos bem nunca.
–Ainda acho que você está levando isso para o lado pessoal. – mamãe persistiu. – Está sobrando até para o pobre mordomo.
–Não o chamaria de “pobre”. Apesar de não ter me simpatizado com ele, admito que Charlie seja um mordomo e tanto. – papai encolheu os ombros.
Um mordomo e tanto...
Aquela frase ecoou em minha mente e tive um deja vu de Sebastian sorrindo enigmático pelos corredores da mansão Phantomhive, Ciel o observando com ares de impaciência e eu, no fundo de minha alma, encantada com o charme e gentileza daquele ser. Hoje eu sei exatamente o que eu sentia quando olhava para ele, entretanto não posso deixar de negar que meus sentimentos por Ciel sempre foram irrevogáveis.
“Seis anos já...” eu fazia as contas de quanto tempo havia se passado desde que o anel dele apareceu do nada em meu quarto. Subi as escadas após me despedir de meus pais por aquela noite, enquanto Paula vinha logo atrás de mim tagarelando animadamente:
–Amanhã poderíamos ir ao festival sobre o rio congelado, há tantas coisas bonitas e baratas lá que lady Elizabeth poderá gastar sem se preocupar com os problemas financeiros que estão rondando nosso país!
Eu olhei sobre o ombro e sorri:
–Seria maravilhoso mesmo. Apesar de que admito que não estou muito a fim de compras.
Não sei como, mas eu “senti” Paula suspender a respiração bruscamente e depois indagou num tom assustado:
–Lady Elizabeth rejeitando a ideia de comprar coisas bonitas? Está se sentindo bem?
–Calma, Paula. – eu fiquei sem jeito. – Na verdade... – procurei uma resposta eficiente até encontrá-la alguns segundos depois de suspender minha fala – Esse inverno está tão rigoroso que me sinto desconfortável em sair de casa por esses dias. Deixe-me pensar melhor que depois de amanhã poderemos até ir lá... E eu compro alguma coisa para você também. – eu segurei uma das mãos dela.
Paula corou e olhou para nossas mãos unidas:
–Obrigada, my lady.
–Não precisa agradecer. Afinal, você sempre está comigo quando eu mais preciso, não? Eu tenho que te retribuir de alguma forma. – eu respondi sincera.
–A senhorita é muito gentil, mas cuidar de seu bem-estar faz parte do meu trabalho que foi designado há muitos anos atrás. Nem acredito que... – reparei que uma pequena lágrima se alojou no canto de um dos olhos dela e ela respirou fundo para não chorar. – Já se tornou uma bela jovem de dezenove anos.
Eu corei e balancei a cabeça. Realmente, fazia anos que Paula cuidava de mim e
me acompanhava aonde quer que eu fosse. Apesar de ser seu trabalho, nós duas acabamos desenvolvendo uma amizade singela ao longo desse tempo. Eu a amava como se fosse uma irmã para mim assim como amava meu irmão Edward, apesar de nossas tradicionais brigas fraternais que aconteciam até depois dele ter se casado.
Conversamos por um tempo sobre algumas coisas que ocorreram durante o dia enquanto eu me arrumava para dormir. Depois de guardar meu pente dourado na gaveta da cômoda, Paula se inclinou ligeiramente e se despediu como de costume:
–Boa noite, my lady. Durma bem.
–Você também, Paula. – eu respondi.
Quando ela se retirou, eu caminhei até a mesma cômoda que guardei o pente e tirei a caixa com o anel, que estava escondida sob vários papéis e uma bíblia pequena. Havia desistido de guardá-la sob o estrado da cama desde o dia que prensei um dos dedos e ele ficou roxo – não queria levantar suspeita de que eu escondia algo em meu quarto.
A pedra azul do anel mantinha seu brilho extremo. Eu a mirei sob a luz da lamparina e notei sua transparência anil e como ela era bela. Encaixei o anel em meu dedo e fiquei o alisando por um tempo. À vista de que, um dia, cheguei a ter ciúmes dele, afinal parecia que Ciel dava mais importância a aquele objeto do que a mim, agora ele era sinônimo de que um pedaço dele ficou guardado comigo durante todos aqueles anos.
Admito que houveram dias que, magoada e ansiosa com as coisas que me aconteciam, eu colocava o anel no dedo e conversava mentalmente com Ciel como se ele estivesse ali. Poderia ser inútil – ele provavelmente não me escutaria -, mas aquela pedra brilhava tanto como os olhos dele que eu colocava uma pequena credibilidade que ela nos ligava.
O guardei novamente em seu respectivo esconderijo e me deitei. Quando comecei a ficar inconsciente, senti que havia alguém perto de mim e acordei com o coração batendo rápido. Procurei o suposto intruso, mas vi ninguém no quarto.
“Foi apenas uma alucinação” conclui e fechei os olhos com força, puxando o cobertor até a altura do meu nariz e adormeci profundamente.
Eu tive um sonho que carregava uma estranha paz. Não me recordo direito dele antes de ter sido acordada, porém me lembro que tudo ao redor era leve e azul claro. Meu corpo parecia flutuar e eu escutava um pequeno coro de vozes infantis cantando em latim.
De repente, senti flocos de neve caindo vigorosamente sobre mim e um vento muito forte assoprando em meu corpo. Acordei em um local muito estranho... E fiquei sem reação a princípio.
Minha situação atual era: eu estava bem acima do chão, sendo carregada por alguma criatura que voava para longe de um bosque, passando sobre um rio congelado. Entre as árvores, dois vultos negros se movimentavam rapidamente e um deles lançou algo prateado na direção da criatura que me levava até as alturas.
De repente, eu senti meu corpo cair e se separar do estranho ser que me carregava para o alto. Entre meus cabelos bagunçados e soltos, vi que era uma criatura semelhante a um humano com grandes asas brancas – horas depois que associei aquilo a um anjo. O ar estava gelado e as extremidades do meu corpo pareciam queimar de tanto frio.
Então, quando eu estava há alguns metros de cair no chão íngreme, fui agarrada por braços quentes de outro indivíduo, que me segurou firmemente a ponto de eu nem sentir o impacto de ter a queda interrompida.
–Pronto, te peguei. – a voz dele saiu com uma mistura de alívio e nervosismo. De repente, gritou: — Sebastian, não o deixe escapar!
Sebastian...
Eu ainda não havia recobrado totalmente a consciência, mas estava começando a ter noção da realidade. Primeiramente, aquilo não deveria ser um sonho. Depois...
Eu olhei para cima, tentando identificar o rosto da pessoa que me segurava e ainda não consegui acreditar no que eu via. Fiquei por um longo tempo o fitando e minha mente raciocinou lentamente.
Ciel olhou para mim com uma expressão preocupada. Eu fechei os olhos novamente e tombei a cabeça voltada para o peito dele, que, embora fosse quente, não tinha o som de um coração pulsando.
–Finalmente. – eu murmurei antes de desmaiar.
Acordei no meio da noite ainda. Estava sob as minhas cobertas e a luz ainda estava acesa. Podia parecer que tudo aquilo não havia passado de um devaneio, se não fosse o detalhe de que minhas mãos estavam geladas, embora o ambiente do meu quarto estivesse quente.
Senti a presença de alguém do lado oposto da cama. Fiquei paralisada e hesitante em virar e ver algo que me deixasse assustada. Então, perguntei baixinho, segurando firmemente o cobertor tampando meu nariz:
–Você está aí?
Minha pergunta ficou solta por um tempo, sem resposta. Até que escutei o suspiro de Ciel:
–Sim, estou.
Involuntariamente, me levantei de uma vez e saltei sobre ele, o enlaçando pelo pescoço com os braços. Quase caí entre o espaço que havia entre a cama e ele, ficando meio suspensa pelo pescoço de Ciel, porém naquele momento nada mais me importava a não ser abraçá-lo depois de tanto tempo e – patética Elizabeth! – começar a choramingar.
–Ei, não precisa disso tudo. – ele disse com um jeito constrangido. – Eu estou bem e você está à salva. – me segurando pelas têmporas, afastou meu rosto do peito dele e secou meus olhos cuidadosamente. Sorriu: — O pior já passou.
Aquele sorriso estava bem diferente do que eu me recordava desde que Ciel havia desaparecido: não carregava mais a arrogância, mas um ar de enigma assim como o de Sebastian. Sem contar que ele estava mais alto do que eu – algo que já era de se reparar desde o início.
Falando no antigo mordomo, ele estava há alguns passos de Ciel, nos encarando com os braços cruzados. Eu corei ao reparar que ele estava ali e o cumprimentei:
–Há quanto tempo, Sebastian.
–Concordo, senhorita Elizabeth. – ele sorriu de lado e balançou levemente a cabeça.
–Lizzy... – Ciel se voltou a mim com uma expressão séria. – Você tem uma coisa que eu preciso.
–Sim, eu sei. – arrumei meu cabelo que não estava apresentável no momento. Aliás, eu estava tão afoita que esqueci que estava de camisola, que era menos apresentável ainda. – Mas, Ciel, o que está acontecendo?
Ele e Sebastian se encararam. Apesar de eu ter reparado que havia alguma coisa sobre-humana ali, ainda não fazia ideia do que era exatamente.
–Acho melhor ela não saber. – Sebastian murmurou para Ciel.
–Por favor, eu preciso. – eu quase implorei.
–O reino está correndo perigo. – Ciel ignorou Sebastian. – Te pedi para guardar o anel porque para onde eu fui não poderia levá-lo comigo.
–Aonde você foi? – eu estava muito curiosa, querendo saber de todos os detalhes imediatamente.
–Por favor, o anel e depois as informações. – Sebastian se mostrava menos discreto do que antigamente.
Ciel o encarou com ar impaciente. Eu gaguejei ao reparar que estava sendo petulante como de costume:
–Me desculpem. – fui até a gaveta e entreguei a caixa a Ciel.
–Agora sou como Sebastian, Lizzy. – Ciel me disse. – Viverei eternamente e, por causa dessa minha nova sina, consequentemente terei que cuidar do reino que a nossa amada rainha deixou. Agora Inglaterra corre perigo: o novo rei acabou fazendo pacto com uma criatura que pode trazer a ruína de todos e, diga-se de passagem... – ele suspendeu a respiração e olhou para a caixa. – Por pouco eu o deixei te levar.
Eu arregalei os olhos e caí sentada na cama.
–O anjo? – minha voz quase não saiu, porém ele ainda entendeu.
–Sim. Ele é um anjo da morte e, como nós demônios, se alimenta de almas humanas. Porém, se fosse apenas isso até que seria fácil lidar... O problema é que ele ainda tem mais força do que nós e certo “apoio” dos seres superiores a anjos caídos.
–De... Demônios? – eu fiquei realmente perplexa e encarei Sebastian. Não conseguia associar aquela bela face com aqueles seres que sempre eram apontados como de aparência terrível e atos piores ainda. Muito menos associar Ciel a um.
Ciel não se alterou. Apenas balançou a cabeça e me disse:
–Não se preocupe, não iremos lhe envolver. Apenas iremos cumprir nosso trabalho. Enquanto isso tente se manter a salvo. Logo, logo livraremos a Inglaterra desse impasse. – então, ele se afastou.
–Espere! – ergui o braço e me levantei na direção dele. – Eu quero te ajudar!
–Elizabeth, isso é arriscado. – ele me censurou. – Depois, humanos não estão à altura de enfrentar uma criatura daquelas.
–Eu não me importo. – eu retruquei cruzando os braços.
–Você não tem que se importar. Use o juízo pelo menos uma vez na vida. – ele fez uma carranca.
–Independente do que você se tornou e de qual caminho você tome agora... – eu encarei profundamente aquele par de olhos que lembravam duas sólidas safiras – Ainda me recordo muito bem que eu sou a quase esposa do Cão de Guarda da rainha e que a luta dele é a minha também.
Sebastian fez uma expressão de surpresa e Ciel de perplexidade. As mãos dele vacilaram um pouco e a tampa da caixa saiu do lugar. Me aproximei sutilmente e ajeitei a tampa.
–Eu sempre te dei trabalho mesmo quando nós dois éramos humanos... – eu disse olhando para a caixa. – Porém, eu te prometo que dessa vez serei mais útil do que antes. Eu não ganhei forças especiais que nem você, Ciel. Mas, eu cresci e não quero te perder de novo. – eu voltei a encará-lo novamente de modo que queria enxergar através dos olhos dele se ainda havia sobrado alguma coisa de sua antiga alma.
Ele abaixou os olhos e ficou pensativo. Por fim suspirou e pendeu os ombros:
–Quando for a hora certa, eu lhe chamarei... My lady. – ele me olhou e balançou a cabeça com uma expressão sincera.
Segurei o entusiasmo disfarçando com uma expressão fria e balancei a cabeça em resposta. Me afastei dos dois e sentei novamente na cama, voltada para o lado da janela.
–Aliás, Lizzy... – ele disse antes de desaparecer. – Quando você desabafava com esse anel, eu escutava tudo. Desculpe não ter estado presente quando você mais precisou.
Antes que eu dissesse alguma coisa, os dois sumiram num amontoado de penas negras que se dissiparam no ar logo em seguida. Deitei atravessada na cama e quando fitei o teto a luz se apagou finalmente.
A batalha se aproximava.
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