Kuro Note
2 Anjos de pedra
As meninas estavam diante de um quadro da rainha, em uma sala ricamente adornada com móveis antigos e flores, paredes brancas, tapete vermelho e cortinas douradas.
– onde será que estamos? – pergunta Agatha.
– vai saber...
– então, se a Alice fez seu trabalho corretamente nós estamos no século XIX, certo?
– certo. – diz Karen olhando para o quadro a sua frente.
– o que foi?
– fiquei imaginando como conciliar magnatas com ravióli.
– Karen, nós nem sabemos onde estamos e você está interessada nisso?
– algo natural, não?
– você vai ser um sucesso em Harvard... – diz Agatha revirando os olhos.
– É eu sei! – diz a menina com uma risada divertida.
– vamos sair daqui, quero saber se estamos no lugar certo. – diz a garota de aparência gótica puxando a amiga.
– você não acredita na Alice?
– não é isso...
Ao sair da sala passaram por um imenso jardim de pedras brancas, árvores variadas e uma esplendida fonte. Bem no centro, sentado a uma mesa redonda via-se um jovem elegante, cujos cabelos loiros eram banhados pelo sol, tomando seu chá da tarde.
Logo que as viu se aproximar girou levemente a cabeça e logo depois de alguns instantes sua face começou a apresentar algumas linhas que expressavam um misto de medo e espanto. Levantou-se deu alguns passos, correu, atirou-se aos pés das amigas e começou a chorar.
– oh, por favor, escutem-me! Não cometi nenhum crime. Não mereço ser enjaulado como um animal- diz agarrado aos pés de Agatha.
– é verdade! Eu sei que vocês foram enviadas para me matar, mas não é verdade... – diz virando-se para Karen com olhos marejados.
– o que aconteceu?
– escutem-me... – diz o jovem escorregando lentamente até o chão.
– eu faço o que quiserem. Quanto querem?
– não queremos seu dinheiro.– diz Karen.
– esse homem é louco? – pergunta Agatha.
– escute, não sabemos do que está falando. Mas não estamos aqui para matá-lo, acalme-se. – diz a ruiva colando a mão no ombro do rapaz para reconfortá-lo.
– É verdade?
– Sim. – diz Agatha.
– Ah, não querem tomar um chá? Sentem-se! – diz o rapaz desfazendo-se em sorrisos.
– Obrigada, seria uma ótima ideia. Mas não poderia explicar o que está acontecendo? – pergunta a garota.
–posso sim, mas que espécies de trajes são esses, senhoritas?
– qual o problema de nossas roupas? – indaga Karen.
As duas olham rapidamente uma para outra. Agatha usava um vestido preto que ia até o início dos joelhos e botas de cano alto, enquanto Karen estava com uma blusa vermelha de mangas longas, saia preta, meia calça e tênis all star. Aos olhos dele elas deveriam estar muito acima do padrão de indecência.
– depois nós resolvemos isso, vamos aos fatos. – diz Karen.
Os três sentam-se e o rapaz serve o chá.
– eu sou Aleister Chamber, visconde de Druitt. – diz o jovem logo quando Agatha bebia o chá, fazendo com que esta se engasgue.
– v-visconde?
– sim.
– qual o problema, senhor?
– bem, os policiais Londrinos me acusaram de assassinato e envolvimento com o mercado negro. Mas meu álibi é perfeito, não há como eu ter sido culpado.
– mas por que suspeitam de você? – pergunta Karen.
– porque...
– sim?
– estão sendo usados por eles...
– eles?
– não é nada. Apresentem-se agora, por favor.
– eu sou Agatha Harrison e esta é minha amiga Karen Manson. Nós somos detetives e acabamos de chegar da Escócia. – mentiu Agatha.
– muito interessante... Vocês vieram me prender? – diz o visconde pulando da cadeira.
– não mesmo, não se preocupe. – diz a ruiva.
– vocês já estão hospedadas em algum lugar? – perguntou olhando-as.
– não.
– podem ficar aqui se quiserem.
– não queremos incomodar... – diz Karen.
– apenas por enquanto...
– tudo bem.
– olé! Thompson venha aqui, por favor.
Um homem alto vestindo terno preto apareceu.
– leve-as até o quarto de visitas.
– sim, senhor. Por aqui, senhoritas. – diz virando-se.
Ele as levou até a sala, onde subiram uma longa escada viraram à esquerda duas vezes e chegaram ao quarto.
– podem me chamar quando quiserem. – diz ele.
– obrigada. – dizem em uníssono.
Logo depois o mordomo fecha a porta deixando-as sozinhas.
– o que você está planejando? Detetives? Não somos detetives. O que vai fazer quando descobrirem a verdade?
– muita calma, não somos detetives ainda! – diz enfatizando a última palavra- além disso, tenho certeza que está curiosa para saber por que o visconde anda tão preocupado.
– é verdade... Por que será que estão acusando ele?
– e quem seriam as pessoas que estão controlando os policiais?
– é isso que eu quero saber... – diz a ruiva.
* * *
Arredores de Londres
– por que vocês são tão imprestáveis? – diz um jovem de olhos azuis gritando com os três criados.
– eu pedi chá Earl Gray, não “suave odor”!
– d-desculpe senhor! – diz o cozinheiro.
– chamem meu mordomo! – diz o jovem furiosamente.
– sim, senhor! – dizem os três saindo rapidamente de onde estavam.
Depois de alguns minutos ouvem-se batidas na porta.
– entre!
– aqui está seu chá, senhor... – diz fazendo uma pausa –... E o jornal.
O rapaz pega a xícara levando-a a boca e depois abre o jornal, depois de alguns instantes seu rosto ganha aparência de surpresa.
– o visconde de Druitt foi acusado pelos assassinatos da rua principal...
– sim, senhor. – diz o mordomo fazendo o jovem rir.
– muito interessante...
– pretende investigar?
– Talvez. Não acredito que tenha sido ele.
– está muito bondoso hoje.
– não é isso! Apenas estou dizendo que aquele idiota não teria sido capaz de comandar crimes tão bem organizados.
– então...
– prepare a carruagem para hoje à noite.
– sim, meu senhor.
* *
Os relógios já marcavam 18h00min horas, quando Thompson bate a porta.
– pode entrar. – diz Agatha.
– o visconde está chamando as senhoritas para o jantar.
– o jantar? – diz Agatha surpresa, fazendo a amiga cutucá-la.
– tenha modos. – diz Karen.
– sim, obrigada.
– mas antes disso... – falando isso o homem pega uma mala que estava junto a ele e estende as duas.
– o que é isso?
– são vestidos, o mestre quer que os usem. Aqui está Mary para ajudá-las a se vestirem, quando terminarem vocês podem descer. – diz deixando-as sós.
* *
Terminado o jantar o visconde e as garotas vão para o salão de jogos, pois este as tinha convidado para jogar xadrez. Ele acabou perdendo quatorze vezes para Karen e como combinado iria contar o razão pela qual estava sendo acusado.
— ah, isso é terrível, como pode tão pequena mocinha ter tamanha capacidade? – diz colocando a mão na testa e fazendo tom melodramático.
— não vamos mudar de assunto. Conte-nos a verdade.
— vejo que não posso fazer mais nada...
Depois de alguns segundos refletindo ele resolve falar.
– eu sempre fui um grande colecionador... Compro de tudo, desde joias a antiguidades. Um dia um vendedor disse que possuía muitas peças para mim e dentre elas, uma coleção de estátuas. Fiquei tão fascinado por não ter nada parecido em meus pertences e logo as adquiri...
– não vejo nenhuma relação com os assassinatos... Aí! – diz Agatha levando uma cotovelada da amiga.
–... E todos que me visitavam acabavam admirados por elas. Oferecendo-me grandes quantias por elas, maiores até que seu valor original. Mas não aceitei, eram meus lindos rubis... Até que...
– até que...
– até que aquelas coisas acabaram tomando conta de mim e me levando até o inferno! – diz gritando.
Nesse momento eles veem as velas e as lâmpadas piscando enquanto uma espécie de névoa tomava conta do salão de jogos.
– o que é isso? – grita Karen.
– são eles! – diz o visconde – vieram de novo, e dessa vez querem nos matar.
– quem são eles? – diz Agatha. Enquanto uma sensação estranha toma conta deles.
– eles...
– senhor, – gritam Mary e Thompson chegando – está acontecendo de novo.
* * *
Não muito longe dali um rapaz de olhos azuis, cabelos, capa e cartola igualmente negros ordena a seu mordomo que conduza os cavalos mais rapidamente.
– estou fazendo o máximo que posso. – diz o homem.
– esqueça a brincadeira...
– vamos deixar tudo mais divertido... – diz o mordomo rindo.
– vá logo para a mansão Druitt, é uma ordem.
– sim, senhor.
* * *
Na mansão Druitt o medo e a curiosidade tomavam conta de todos.
– eles estão chegando, primeiro apagam as luzes e depois cortam nossas gargantas como fizeram com todos os que me ofereceram dinheiro pelas estátuas. – diz o visconde. – acho que vou desmaiar...
– não desmaie. – diz Karen o segurando – se não vai acabar morrendo também.
– o que são eles? Fale! – diz Agatha segurando-o pela camisa.
– são os anjos!
Notas finais
Gostaria de avisá-los que o conde de Druitt é um sujeito meio maluco e que tenham cuidado com ele, pois é alérgico a chocolate. Antes de ir, só gostaria de avisar que se virem alguma estátua de anjo não apaguem as luzes e não pisquem de forma alguma!
Respeitosamente,
Melissa Baudelaire River N.
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