Kuro Contos
4 O Conto da Boneca Perfeita
O Conto da Boneca Perfeita
Havia naquela cidade um fabricante de bonecas.
Homem sofrido e trabalhador, que tinha apenas duas grandes paixões na vida: sua esposa e os brinquedos que ele mesmo fazia na pequena loja. Ele e sua esposa moravam no andar superior da loja junto com seu pai. As coisas não estavam muito boas para os três naquele ano, o qual estava sendo três vezes pior que os quatro anos anteriores.
O pai do fabricante de bonecas era viciado em jogo e perdera uma fortuna que não possuía. Por mais que o filho lhe implorasse para ser sensato, de nada adiantava. A jogatina é mais sedutora e vil que qualquer cortesã. O pai jogava, noite após noite, todas as economias da família, na esperança de que, daquela vez, ele conseguiria a carta certa. A carta que lhe daria a vitória e o dinheiro para comprar de volta sua dignidade. Mas a única coisa que conseguia era aumentar sua dívida cada vez mais.
Consequentemente, o fabricante de bonecas era sempre visitado pelo dono da casa de jogos, que vinha cobrar as dívidas de seu pai sempre com juros cada vez mais altos. A venda das bonecas nunca era o suficiente para pagar as contas. As pessoas preferiam comprar os brinquedos de fabricas, aqueles expostos nas vitrines bonitas e requintadas das grandes lojas. Por mais que aparecesse um ou outro que preferia comprar as bonecas artesanais, o dinheiro nunca era suficiente para cobrir todas as necessidades e, por vezes, eles não tinham o que comer. No inverno daquele ano, a esposa do fabricante acabou ficando muito doente e ele não tinha nenhum tostão para comprar remédios.
Como de costume, o dono da casa de jogos veio até a pequena loja do fabricante de bonecas para cobrar-lhe a dívida. O fabricante implorou para que o homem esperasse mais um pouco para receber o pagamento e explicou que sua esposa estava doente e precisava de medicamentos. O dono da casa de jogos fez-lhe uma proposta então.
Havia algo que o dono da casa de jogos amava mais que o dinheiro, sua pequena filha Elizabeth. O homem explicou ao fabricante que ainda não havia comprado um presente de natal para a filha e que queria presentear a menina com algo especial.
– Faça uma boneca semelhante a minha filha. Nos mínimos detalhes. Se me fizer a boneca perfeita, para minha pequena Elizabeth, pagarei o suficiente para cobrir a dívida de seu pai e poderá comprar remédios para sua esposa. Mas apenas se for a boneca perfeita – disse o dono da casa de jogos.
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O fabricante tinha duas semanas antes da véspera de natal para terminar a boneca e dispunha apenas de uma fotografia da pequena Elizabeth para criar a cópia perfeita em porcelana. Ele se dedicou o máximo que podia para terminar o mais rápido possível; quanto antes terminasse a boneca, mais rápido poderia pagar um médico para cuidar de sua esposa, cuja pneumonia piorava cada vez mais com o ar frio do inverno. Mais que isso, ele tinha apenas duas semanas para criar sua obra prima, a boneca mais linda e perfeita que jamais existira, uma que se assemelhasse aquela linda menininha.
Trabalhou horas a fio, sem comer, sem beber, sem parar para descansar um minuto que fosse. Um dia após o outro, testando a melhor porcelana, a melhor tintura, o melhor tecido, o vestido mais bonito. Comprou os materiais fiado, convencido de que conseguiria pagar tudo com o dinheiro da boneca. No final das duas semanas, ele parou e olhou para a boneca, exausto.
– Você conseguiu meu filho – dizia seu pai. – É a boneca mais linda que já vi. Parece uma menina de verdade.
– É perfeita.
O fabricante de bonecas passou o resto da noite ao lado de sua gélida esposa, confortando e aquecendo-a. Estava esperançoso e feliz. Mostrou a boneca a sua esposa, que sorriu com muito esforço. No dia seguinte, assim que recebesse o pagamento pela boneca, ele poderia pagar todas as dívidas e poderia levar a esposa a um hospital que a curasse, onde ela ficasse aquecida.
Quando o dono a casa de jogos veio buscar a boneca, ele a observou admirado e surpreso com o talento do fabricante, e falou:
– Sinto muito, mas não posso pagar o valor total pela boneca. Darei apenas a metade.
– Como? Por quê?
– Não é perfeita – disse o homem mostrando a foto da filha. – Vê? Não tem o sorriso da minha Elizabeth. O sorriso é a marca principal dela. Você fez uma boneca séria, como todas as outras. Não é a boneca perfeita. Tínhamos um acordo. Mas como sou generoso, vou pagar a metade do prometido; infelizmente isso salda apenas metade da sua dívida. Para não dizer que sou um homem sem coração, cobrarei o restante apenas no próximo mês.
– Mas e minha esposa, senhor? Por favor, só preciso do suficiente para comprar o remédio, pode ficar com o resto. Eu devolvo mês que vem...
– Não posso fazer isso. Você disse a mesma coisa no mês passado. Estou te fazendo um favor. Amanhã mandarei meu mordomo vir buscar a boneca. Tínhamos um acordo, sinto muito, mas não é perfeita.
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Um sorriso.
Era o único defeito da boneca. A boneca não estava sorrindo como a menina da foto.
O dono da casa de jogos ficou realmente surpreso como a boneca se parecia com sua filha. Ficou até espantado com a semelhança, mas seu orgulho o impediu de admitir isso. Como poderia admitir que um simples e paupérrimo fabricante de bonecas podia ter feito tão excelente trabalho? E a promessa que havia feito; pagar o suficiente para cobrir a dívida. Só prometera isso porque acreditou que o fabricante jamais conseguiria. Mas ele conseguiu. Não poderia perdoar uma dívida assim. Uma boneca não valia tanto dinheiro. Mesmo que fosse a boneca perfeita.
Não valia tanto dinheiro. Não valia seu orgulho.
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O fabricante de bonecas ficou arrasado.
Naquela mesma noite sua esposa morreu. Fria como a neve. Primeiro ele chorou por horas. Depois ficou profundamente zangado. Sua primeira vontade foi destruir a boneca. Mas ela era a coisa mais bela que suas mãos já haviam criado.
Ele ficou sozinho com a boneca. Seu pai, incorrigível, saíra para jogar novamente. Sentiu-se tão culpado pela morte da esposa do filho, que a única maneira que encontrou para afogar sua mágoa e vergonha foi atirar-se na mesa de jogos.
– Tudo teria dado certo se você tivesse um sorriso.
Lamentou-se o fabricante de bonecas. Ele admirou os cachos sedosos da boneca e seus brilhantes olhinhos verdes. Era uma grande injustiça. Com ele e com ela também. Dizer que ela não era perfeita apenas por não ter um sorriso.
– Eu daria qualquer coisa para que você fosse capaz de realizar um desejo meu. Tirar daquele homem o que ele tem de mais valioso, assim como ele tirou o que eu tinha... Se ao menos você pudesse sorrir, pequena Elizabeth.
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Na véspera de natal, o mordomo do dono da casa de jogos veio buscar a boneca. O pai da pequena Elizabeth disse que lhe comprara o presente mais maravilhoso do mundo, mas que ela só poderia ver na manhã seguinte.
– O que é papai? O que é?
– Não seja curiosa, minha pequenina. Saiba apenas que é o presente perfeito para a menina perfeita. Amanhã teremos uma grande surpresa.
Despediu-se da filha e, assim que a menina pegou no sono, desceu até a sala de visitas e deixou a boneca na poltrona ao lado da árvore de natal.
Em meio aos seus sonhos infantis, Elizabeth acordou no meio da noite. Tinha certeza de que ouvira alguém a chamando. Deitou novamente a cabeça no travesseiro convencida de que o chamado viera de seu sonho.
– Lizzy.
Uma voz cantarolou o seu nome. Não fora sonho. Ela ouvira sim.
– Lizzy.
– Estou indo.
A menina respondeu. E desceu da cama lentamente. A voz tornou a chamá-la, mas Elizabeth não sabia de quem era. Pegou uma vela e seguiu pelos corredores da casa. As sombras bruxuleantes, que a luz da vela criava nas paredes, a assustava um pouco. Pensou em desistir e voltar para o quarto, mas a chama da vela se apagou. Ele estacou no escuro, sem coragem para seguir e sem coragem para voltar. Então ouviu a voz chamá-la novamente e uma luz fraca surgiu ao pé da escada. Ela seguiu a luminosidade até chegar à sala de visitas.
– Lizzy.
– Quem é?
A menina indagou, mas logo se assustou ao ver a boneca idêntica a ela sentada no sofá. Tão parecida que podia até dizer que tinha uma irmã gêmea.
– Foi você quem me chamou?
A boneca permaneceu em silêncio. Elizabeth começava a achar que tinha imaginado.
– Fui eu sim.
Elizabeth podia ouvir a boneca, embora esta continuasse com o semblante sério e com a boca de porcelana fechada.
– Você é o presente que meu pai falou?
– Sim. Você gostou?
– Muito! Você é incrível! A boneca perfeita!
– Não sou perfeita, falta-me um detalhe.
– Oh, não vejo a hora de podermos brincar amanhã.
– Por que esperar pelo amanhã, podemos brincar agora.
– Agora?
– Sim, porque não?
– Do que você quer brincar?
– Vou te ensinar uma brincadeira nova. Chegue mais perto. Não tenha medo. Chegue mais perto. Vou lhe dizer como é...
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Na manhã de natal, quando o dono da casa de jogos e sua esposa acordaram, foram logo para o quarto filha, mas ela não estava lá.
– Que danadinha, não esperou nem o dia raiar direito. Aposto que já abriu todos os pacotes lá embaixo.
O casal desceu as escadas sorrindo e assim que chegou a porta da sala de visitas, a casa inteira foi preenchida pelo grito de espanto da mãe e das empregadas, que chegavam para organizar o lugar. O mordomo deixou a andeja com o jogo de chá cair no chão e o pai ficou paralisado.
A pequena Elizabeth estava pendurada pelo pescoço no meio da sala, por uma corda presa ao lustre. Seu queixo e seu pijama branco estavam cobertos de sangue. Sua boca havia sido costurada.
Todos ficaram chocados com o ocorrido e nem imaginavam quem teria sido capaz de tal ato. Mas ao lado do corpo da menina, ali, sentada na poltrona, o dono a casa de jogos viu a boneca que mandara fazer semelhante a sua filha. Ela estava na exata posição que a deixara na noite anterior, mas com uma única diferença.
Ela esboçava um perfeito e inocente sorriso.
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