Kurama, o amigo imaginário
1 Kurama?!
Os sons dos ponteiros do relógio no fundo da classe eram graves e longos, muito longos. O som do giz movendo-se sobre a lousa era estrídulo. Os sons de lápis, canetas e borrachas em uso sobre as diversas carteiras eram sucessivos e incômodos. Ao fundo do tedioso arranjo, a voz da severa professora de Fundamentos da Biomecânica, Tsunade Senju, declamava sobre os aspectos fisiológicos do tecido ósseo.
O conteúdo, até o momento, estava segmentado em cinco partes na lousa. Ele era novo e, de certo modo, muito assustador. Os alunos do quarto semestre do curso Esportes, principalmente o enérgico aluno Rock Lee, ao menos piscavam ou distraíam-se com a bela visão do campus provida pelo vitral da sala 307, a fim de transcrever todas as ilustrações e definições a frente.
O único aluno distraído e entediado diante deste cenário encontrava-se no último assento ao lado do vitral, observando o início da agitação das pessoas em direção à praça de alimentação central. Ele era Naruto Uzumaki, um dos principais jogadores de handebol do time da Universidade de Konohagakure na posição de ponta. O orgulho de pertencer ao time era evidente a todos, Naruto sempre vestia a jaqueta de cor preta com detalhes em laranja destinada apenas aos jogadores.
Os suspiros saudosos embaçaram o vidro.
Ele a veria apenas no sábado e não a teria em seus braços no almoço ou estaria sob seus olhares repreensivos na biblioteca quando ela o acordava dos breves cochilos. A moça de seus pensamentos e de seu coração possuía olhos verdes-esmeralda, cabelos compridos loiro rosé e corpo esbelto. Ela era linda, geniosa e, graças a Kami, a sua namorada. Sakura Haruno, a sua grande amiga desde a infância, por fim aceitou o seu pedido de namoro sob as estrelas, em frente à loja de dangos nas férias de verão. Precisamente, há dezesseis dias.
Ontem, domingo de manhã, Naruto despedira-se de Sakura no aeroporto. Ela embarcara no voo com destino a Sunagakure para o Congresso de Medicina, onde submetera o seu projeto científico com orientação da professora Tsunade Senju para apresentação oral. “Linda, inteligente e futura médica brilhante”, pensou Naruto, “Minha namorada é foda!”.
— Estão dispensados — disse Tsunade, em voz alta, à classe.
Logo, iniciou-se a movimentação de cadernos e estojos sendo guardados e de alunos erguendo-se de suas carteiras. Os sons de vozes animadas com o horário de almoço despertaram Naruto para o presente e, às pressas, ele jogou dentro de sua mochila o seu caderno e seu estojo com apenas dois lápis, uma borracha e uma caneta, esta emprestada de sua amiga Hinata.
— Naruto! — Rock Lee, o pivô do time de handebol, o chamou. — O treino de amanhã começará às cinco da tarde. O Shikamaru quer nos mostrar uns esquemas táticos antes do aquecimento.
— Ah, certo! E você já avisou os outros? — Naruto o perguntou, ajustando a mochila nas costas.
— Eu acho que falta apenas avisar o Sasuke. Mas, diz aí — animou-se — não está ansioso para as novas armações?! O amistoso contra a Universidade de Suna será daqui um mês e meio! Com esforço e coragem, iremos vence-los de novo!
— O novo goleiro deles, o Gaara, é bom pra caralho — observou Naruto, dirigindo-se à porta com o amigo ao lado.
— Sim! Mas você e o Sasuke são ótimos pontas, o Kiba e o Shino são ótimos meias... Só precisamos continuar nos esforçando nos treinos — Rock Lee ergueu o polegar, em sinal de “jóia”. —Você avisa o Sasuke sobre o horário do treino?
— Pode deixar, eu aviso o Teme.
— Valeu! Vejo você por aí, Naruto! — despediu-se e correu ao encontro de sua amiga, Tenten Mitsashi, aluna do sexto semestre em Esportes.
— Até mais, Gejimayu!
O caminho de pedras para a praça de alimentação central do campus situava-se entre vielas, edificações e árvores altas; os gramados sob o céu aberto eram propícios para piqueniques e cochilos após o almoço ou aulas. Os passos de Naruto eram apressados. Hoje, o restaurante Ramen Ichiraku, pela primeira vez, abriria as portas na praça e, finalmente, ele almoçaria o Super Ramen de Porco todos os dias da semana, talvez... alternasse com o Super Ramen de Frango e Cogumelos.
O brilho de seus olhos azuis apagou-se ao observar a enorme fila em frente ao Ichiraku. O seu estômago logo pronunciou-se irritado, exigindo o seu alimento vital.
— Dois, quatro, seis, oito, dez, doze... — disse Naruto, enumerando os alunos dos diversos cursos presentes na fila. — Foda-se. Eu vou esperar a fila diminuir.
Ele sentou-se na mesa ao lado do pequeno e belo jardim de orquídeas e distante das entradas e saídas da praça. A fim de distrair-se, ele cerrou os olhos com os cotovelos sobre a mesa e imaginou-se ao lado de Sakura...
O baque de livros em colisão com a madeira o assustou.
— Acorda, Dobe!
— Teme, caralho! — disse Naruto, bravo — Por que você adora fazer isso?!
Sasuke deu de ombros.
— Isso me diverte... Por que não está almoçando?
— Olha o tamanho da fila para o Ichiraku. — Naruto o respondeu, triste. — Hoje a vovó Tsunade ultrapassou o horário da aula e eu não pude chegar cedo.
— Esta é a professora que também é orientadora da Sakura?
— Sim. Você soube que a Sakura-chan está no Congresso em Suna? Como eu vou sobreviver ao conteúdo da matéria da vovó sem a Sakura-chan?!
— Dobe... — Sasuke o encarou com a sobrancelha arqueada. — É o primeiro dia de aula do semestre!
— Se você visse o quanto ela escreveu na lousa... — a voz de Naruto apresentou-se temerosa.
— Você é um dobe mesmo...
— Cadê a Hinata?
— Eu não sei... — disse Sasuke, inquieto.
— Vocês não saem das aulas sempre juntos? — Naruto o perguntou, curioso. Logo, preocupou-se. — Ela está doente? Vocês discutiram? Como pôde discutir com a fofura da Hinata?!
Os olhos negros de Sasuke o observavam, descrentes.
— Eu não acredito que você não sabe que ela saiu do curso de Arquitetura! As férias inteiras, ela se sentiu culpada por decepcionar o otou-san dela com a mudança de curso!
— Ei! Acalme-se, Teme! Eu realmente não sabia! — defendeu-se Naruto. — Ela não me disse nada enquanto me ajudava com o pedido de namoro e a compra das alianças.
— Essa Hyuuga... — disse Sasuke, ao sorrir de canto. — Sempre se preocupando primeiro com os outros.
— E... — Naruto sentia-se egoísta, a sua amiga precisou de um ombro amigo e ele não ofereceu o seu. — Para qual curso ela se mudou?
— Artes Plásticas.
— Por que não pensei nesse curso?! — descontraiu-se. — É a cara dela!
— Concordo...
— Teme — disse Naruto, instigado — por que você a chama de Hyuuga até hoje? Você deve ser o único a chamar ela assim...
— E qual o problema de eu ser o único? — Sasuke o respondeu, indiferente.
— Você é muito estranho, Teme... Ah! O treino de amanhã começará às cinco da tarde, o Shikamaru quer nos mostrar alguns esquemas táticos novos...
— Está bem — Sasuke assentiu sobre o aviso. Logo depois, ele avistou uma moça de cabelos pretos azulados, lisos e curtos, com vestido floral longo de mangas curtas e bolsa de couro sintético transversal. Com o seu jeito tímido, ela parecia estar à procura de alguém. — Então... até amanhã, Dobe.
— Até, Teme! — despediu-se Naruto. — Espera! Você não almoçar comigo?
— Não — disse Sasuke, em pé, e dirigiu-se à entrada leste da praça.
— Pelo menos o Ichiraku está sem fila... — disse Naruto a si mesmo e ergueu-se. O seu estômago alegrou-se, porém, agora, ele exigia dois Super Ramen de Porco.
— Ei, Hyuuga — disse Sasuke, logo atrás de Hinata.
— Oh! — O cumprimento repentino a assustou, mas, depois, sorriu. — Ei, Sasuke-kun. Como foram as suas aulas?
— Boas, os professores discutiram sobre a ementa das disciplinas e sobre as datas de provas e entregas de projetos. E.… o seu primeiro dia de aula, como foi?
— Diferente... — disse Hinata, tímida. — Eu gostei dos professores e das disciplinas, mas confesso que senti a sua falta ao meu lado nas aulas, Sasuke-kun.
Em resposta, Sasuke apenas sorriu discretamente. Ele não confessaria, porém sentiu saudades da companhia de Hinata, a manhã inteira.
— Está pronta para almoçarmos?
— Estou, sim… Ah! — Hinata abriu a sua bolsa transversal e entregou a Sasuke um embrulho retangular, quatorze por vinte e dois centímetros. — Eu espero que goste, não o fiz colorido para combinar com a decoração do seu apartamento.
— Por que está me presenteando? — Sasuke olhava o presente, sem jeito.
— Pelo seu apoio no final do semestre passado e nas férias. Arigato, Sasuke-kun! As suas palavras me encorajaram a mudar de curso.
— Tsc… Não me dê todo o crédito. Você sempre teve essa coragem. — Sasuke guardou o presente na mochila. Ele possuía certeza do conteúdo, flores prensadas paciente e delicadamente.
— Onde você quer almoçar? — Hinata o perguntou, olhando para as opções na praça central.
— Eu pensei em irmos ao Yakiniku Q e, depois, à loja de dangos. — Ele a viu sorrir docemente. — Não se acostume, Hyuuga. Você veio de bicicleta hoje?
— Não, o Neji-niisan me deu uma carona.
— Então vamos, a picape está logo ali — disse Sasuke, a conduzindo com a sua mão esquerda sobre as costas dela.
Os dois Super Ramen de Porco eram iguais aos do restaurante principal, situado no centro de Konohagakure, com o mesmo gosto, aroma e apresentação. O sonho tornara-se real, o seu prato favorito com disponibilidade para saborear no intervalo longo entre aulas, depois de treinos de handebol e descansos na biblioteca central. Sakura era, agora, a sua namorada e Ichiraku presente na universidade. O que mais ele poderia pedir?
Após o almoço, Naruto rumou-se para casa com o seu Jeep Wyllis amarelo, pertencido ao seu falecido otou-san. Hoje, ele não permaneceria na universidade, e, sim, descansaria em seu quarto com os pensamentos em Sakura e nos futuros treinos com o seu time para o amistoso contra Suna. Definitivamente, ele precisava praticar os seus arremessos, ou, como ele próprio denominava, os seus “Rasengan”.
O seu doce lar encontrava-se silencioso, o que revelava a ausência de sua oka-san. Naruto dirigiu-se diretamente à sua suíte, depositou as suas chaves e carteira sobre a escrivaninha e a mochila, no chão. Seguidamente, banhou-se e acomodou-se em sua cama de solteiro. De estômago cheio e feliz, o sono não se demorou e as suas últimas palavras sussurradas foram “ Sakura, volta logo”.
— Criança... — uma voz grave incomodava Naruto de seus sonhos sobre quadras, piquenique e lousas.
— Eu estou dormindo, ‘ka-san — disse Naruto, ainda disperso no piquenique com Sakura o ensinando sobre tecido ósseo, no meio da quadra poliesportiva.
— Criança..., acorda — novamente a voz grave e incômoda sussurrou.
— Não, ‘ka-san...
— Acorda, fedelho!
O grito, semelhante a um rugido, espantou Naruto de seus sonhos e o fez cair de sua cama.
— Mas que porra! — disse Naruto, removendo o lençol sobre o seu rosto. — É você, Teme filho da...
— Como vai, pequeno? — disse a raposa de pelagem lisa, curta e laranja, com preto ao redor dos olhos. Os caninos brancos e compridos visíveis no sorriso divertido, próximo ao rosto de Naruto.
— Ca-caralho! — esgoelou-se Naruto, e, logo, ergueu-se assustado. — Quem... ou o que é você?!
— Ora, você não se lembra de mim, pirralho? — A raposa, de porte pequeno, sentiu-se ofendida.
— O que?! Eu não, não... — De súbito, as lembranças de sua infância despertavam. — Kurama?! — A raposa assentiu, impaciente, revirando os olhos vermelhos. — Mas você não existe!
— Eu sou imaginário — o corrigiu. — E eu estou aqui para ajudar você a cumprir a promessa que fez em nosso nome. — Disto isto, saltou sobre a cama e aconchegou-se.
— Que promessa?! — Naruto o perguntou, afastando-se da cama.
— A promessa de ajudar a pequena Hyuuga no amor. — disse Kurama, impaciente.
— Eu ajudaria a Hinata com o maior prazer..., mas que promessa?
— Você se lembra, criança, da festa de aniversário de nove anos da pequena Haruno? — disse Kurama, deitado com as suas caudas balançando demoradamente de lá para cá, direita e esquerda.
— Eu me lembro do beijo que a Sakura-chan deu em meu rosto — sorriu de modo bobo. — Eu fiquei feliz pra caralho e acreditei que, depois do beijo, nós estávamos namorando.
— E antes de você receber o soco dela quando você a beijou nos lábios... — disse Kurama, o encorajando a se lembrar.
— Eu... prometi a Hinata que agora que estava namorando a Sakura-chan, eu a ajudaria com o seu amor... Já que ela me ajudou a comprar o presente perfeito. — disse Naruto, surpreso ao se recordar.
— Você prometeu em nosso nome, pirralho. E promessa de amigo imaginário é um compromisso mágico e sério.
— Por que não pediu para realizar a promessa na época? — indagou Naruto, confuso.
— A circunstância da promessa era você estar namorando a pequena Haruno.
— Caralho... e, só agora, eu estou, de fato, namorando a Sakura-chan! — Naruto sentou-se na cama, admirado. — Como vamos fazer isto? Quem é o amor de Hinata?
— Você realmente não suspeita de ninguém, criança?
— Não... — disse Naruto, sincero. — Seria o Kiba? O Shino?
— Você nunca foi dos mais espertos, não é criança? — disse Kurama, sentando-se. — O amor da pequena Hyuuga é o pequeno mal-humorado Uchiha.
— O Sasuke?! — bradou Naruto, surpreso.
— Ele mesmo.
— Quem imaginaria... — Naruto coçava a cabeça, pensativo.
— Outra coisa, criança... — avisou Kurama. — Os dois precisam confessar os seus sentimentos e se beijarem em quatro dias.
— Estamos ferrados... — decretou Naruto.
Notas finais
Obrigada pela leitura! :)
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