Kupidon
86 Capítulo Sessenta e Quatro
Notas iniciais

Havia sido um choque para o casal, ouvir o que ouviram dos médicos, principalmente porque jamais imaginaram que fosse algo tão sério assim, apesar de dor agonizante que a pequena deles havia sentido. O choque havia sido tão grande que não haviam conseguido dizer uma palavra no instante seguinte, mas puderam ouvir e compreender completamente as próximas palavras dos médicos. Eles haviam explicado sobre a situação não estar assim tão grave, e que tudo ficaria bem se ela tomasse o medicamento corretamente e tivesse uma alimentação mais saudável; o que significava retirar comidas gordurosas, alimentos ácidos e refrigerante da lista de alimentação da garotinha, evitar ao máximo comidas de fast-food, o que seria muito difícil para ela, principalmente por comerem tal coisa pelos menos duas vezes na semana, e retirar as coisas de uma só vez não seria nada fácil. E por um momento o casal se culpou por uma das filhas estar em tal situação, e se preocuparam com a outra. Apesar de comerem bastante salada e verdura, elas exageravam no fast-food, assim como eles, todo final de semana, e isso havia sido um erro. Se tivessem agido de outra forma April não estaria com aquela ferida no estômago, tendo que retirar tantas coisas nas quais ela adorava, para que pudesse evitar uma doença realmente muito séria.
“Não que ela não possa nunca mais comer fast-food, mas evite ao máximo”
Foi o que um dos médicos havia dito, depois de explicar detalhadamente tudo que ela deveria tirar de sua alimentação pelas próximas semanas. Seriam dois meses em uma alimentação saudável e com medicamentos realmente fortes, para fazer com que a ferida se fechasse, e mesmo depois da melhora, eles indicavam que ainda continuasse com a mesma alimentação, para que a ferida não voltasse a se abrir. E o casal o faria sem pensar duas vezes, e não seria apenas com April, mas com Amily também, afinal, não queriam que acabasse por adentrar na mesma situação que a irmã.
Felicity e Oliver se preocuparam com a forma na qual a garotinha deles receberia a notícia de que teria que deixar de comer as coisas que ela gostava, e já imaginavam como seria difícil para ela, mesmo que ambos e a irmã fizessem o sacrifício junto a ela, para que soubesse que tinha apoio; principalmente para que soubesse que tinha apoio.
Quando April foi liberada no fim do dia, o casal aproveitou para conversarem com ela sozinhos, principalmente porque pensaram que ela poderia ficar muito assustada, e acabaria por assustar a irmã novamente caso ela também estivesse presente. Eles sentaram-se em um banco de madeira do parque que ficava perto de casa, e explicaram o que havia acontecido e como seria dali para frente para que ela melhorasse. E a pequena realmente havia ficado tristinha por ter de parar de comer coisas que gostava, apesar de que ela ainda pudesse tomar seu adorado sorvete, só que com menos frequência que antes, e eles podiam entender completamente a forma como a garotinha havia reagido. Mas o que a assustou mesmo foi o fato de que a ferida no estômago poderia se transformar em algo mais sério; ela tinha apenas oito anos, mas já tinha ouvido falar sobre aquela doença antes, principalmente porque um garotinho da sala dela tinha.
— É para o seu bem, querida.
— É difícil, eu sei que é, mas eu, o papai e sua irmãzinha estaremos com você. Se você não come todas essas coisas gostosas, nós também não comemos.
A menina deu um sorriso fraco.
— De verdade?
— É claro que sim, somos uma família. – O pai respondeu. – Nós apoiamos você, e dessa forma, também estaremos cuidando de nós.
— Eu não vou poder comer nem mesmo meus biscoitos recheados?
— Quanto menos melhor, filha. – Olhou para o marido por um momento. – Quem sabe uma vez na semana? O médico disse que não há problema, mas o hamburguer, o refrigerante, os alimentos ácidos, ele está fora do seu cardápio.
Ela fez um biquinho, mas balançou a cabeça, entendendo o porquê daquelas palavras.
— Combinamos assim, uma vez ao mês, nós poderemos comer o hamburger. – O pai diz, chamando sua atenção. – Mas terá de compensar com as frutas e os legumes.
— Bastante frutas e legumes. – Completou.
— Tudo bem.
— Isso vai passar logo. Em três meses você volta ao médico, ele faz o exame e então você vai estar bem. – Felicity acreditava fielmente naquelas palavras. – Eu creio nisso.
— Mas mesmo depois que isso passar, vamos continuar com essa alimentação balanceada, para que a ferida não volte.
— E a Amy? Ela vai fazer o exame também, para ver se tem?
— Nós já marcamos com o doutor e no dia seguinte iremos ao médico com ela.
— Agora... – Se levantou, sendo seguido pela esposa. – Vamos? Tenho certeza de que sua irmã está ansiosa para vê-la.
E a garotinha prontamente assentiu.
Ainda não estava muito feliz com tudo que ouviu, principalmente porque já estava acostumada em comer todas as coisas gostosas diariamente, e agora, teria de tirar tudo, de uma só vez, para poder melhorar. Era para o bem dela, e ela compreendia isso, mas nem por isso teria como ficar feliz. Era uma situação complicada, principalmente quando os pais, mesmo que não tivessem dito uma palavra, se sentiam tão culpados, afinal, eles quem deixava tanto ela quanto a irmã a comer todas aquelas besteiras; eles mesmo o faziam, em especial sua mãe.
Os pais podiam ver a tristeza no olhar da filha durante o caminho – não tão longo – até em casa. Ela não havia dito nenhuma palavra, e se não fosse pela música baixinha que tocava, o carro estaria um completo silêncio. Eles sentiam o peito apertar por vê-la daquela forma, mas era o melhor, era para seu bem, e eles não queriam que ela realmente ficasse doente, então mesmo que soubessem que não seria fácil mudar completamente a alimentação de todos eles, em especial das filhas, eles o fariam.
Quando chegaram finalmente, perceberam que o carro do amigo continuava na porta. Tommy havia avisado que ficariam por ali até que eles voltassem; ele havia ido em casa, buscado a esposa e voltado para a casa dos amigos. Quando Oliver ligou para avisar ao amigo sobre a situação de April, o amigo havia avisado que os outros já estavam sabendo e os esperando em casa. E o casal Queen não pode deixar de agradecer, principalmente porque com as crianças por perto, a garotinha deles seria distraída.
No instante em que a pequena desceu do carro, sua irmã gêmea saía de dentro de casa. E tanto os pais quanto o tio Tommy e a tia Laurel puderam ver a garotinha que estava perto de ambos correr para a irmã, abraçando-a forte, dizendo que havia ficado preocupada, e a outra, não só correspondeu seu abraço carinho como também respondeu que estava bem agora. Havia sido uma cena muito fofa. As meninas haviam ficado daquela forma por um tempinho considerável, até que se afastaram, sorrindo uma para a outra. E enquanto aquele momento acontecia Tommy contava aos amigos que Amily havia ficado extremamente preocupada e já não conseguindo acalmá-la, Caitlin e Laurel decidiram que o melhor era contar o que sabiam.
Em outras palavras, sua outra garotinha já estava sabendo sobre a delicadeza da situação de sua irmãzinha. E apesar de o casal querer terem feito eles mesmos, compreendiam completamente as amigas e eram muito agradecidos por terem contado com tamanho cuidado.
A pequena havia ficado um pouco assustada, mas se aliviou quando foi explicado a ela que a irmã ficaria bem contanto que siga a todas as orientações médicas. E surpreendentemente, Laurel contou ao casal que a pequena criança havia dito que a ajudaria.
“Se ela não vai comer todas essas coisas tia, então eu também não vou”
Essas foram exatamente as palavras da pequena garotinha de oito anos. E seus pais ficaram extremamente orgulhosos, tanto quanto os tios; cada um deles.
Quando entraram a pequena foi abraçada, beijada e pajeada por cada um de seus tios e primos. Eles perguntaram como ela se sentia, perguntaram se já não sentia dor, perguntaram se ela já havia se alimentado, e essa última havia sido sua tia Caitlin, a médica da família quem havia questionado. Ela estava preocupada, principalmente porque sabia o que poderia ocasionar uma ferida como aquela, e por isso, junto de Helena e Laurel, haviam feito uma refeição completamente saudável para que todos – sem exceção – pudessem comer.
— Como estão se sentindo? – Tommy pergunta, quando já estavam sentados na sala de TV, enquanto as crianças brincavam no jardim.
— Ainda um pouco preocupados.
— Não tem o porquê, Oliver, a April ficará bem se fizer tudo que o médico instruiu.
— Eu sei, eu sei disso, mas mesmo assim, é preocupante. Eu não esperava por tal diagnóstico, Cait, muito menos a minha esposa.
— O importante é que vocês descobriram a tempo. – Lena diz, pegando na mão da amiga.
— Eu mal consegui agir, sabe. Quando ouvi seus gritos, eu pensei que fosse pesadelo, por um momento, mas então, quando já estava desperta o suficiente..., percebi que eram gritos de dor. Ela estava suada, ao mesmo tempo estava com febre, tremia tanto e gritava e chorava, e eu e Oliver não podíamos fazer nada para ajudá-la.
— Me senti um inútil.
— Eu sei como é. Toda vez que Lyon tem uma crise de asma, eu fico tão desesperada. Quem age primeiro é Tommy e Barry, e eu me sinto tão impotente.
— Mas não é porque nós agimos primeiro que é mais fácil para nós. É extremamente angustiante vê-lo puxar o ar, ficar mais branco do que já é, e mal conseguir se manter de pé, porque se sente fraco.
— É, não é fácil. – Tommy concordou com o amigo. – A alguns dias atrás eu e Barry nos desesperamos porque não estávamos encontrando a bombinha em lugar algum.
E Felicity se preocupou, apesar de saber que havia passado e que o garotinho estava bem.
— Caitlin e Laurel ficaram com ele, tentando tranquilizá-lo. – Completou. – Por sorte, encontrei uma dentro de sua mochila.
— Killian também tem crises, então eu e Helena sabemos como é, e definitivamente compreendemos o sentimento de impotência. – A esposa concordou. – Eu não sei quantas vezes me desesperei com meu filho, principalmente estando sozinho.
— Foi assim que nos conhecemos. – A morena se lembra, olhando-o. – Vocês estavam no parque, eu estava passando por ele, e me aproximei quando percebi que Killian estava com dificuldade para respirar.
— Nunca contou isso para nós. – Felicity comentou.
A Palmer deu de ombros, sorrindo.
— Eu não sei porquê, mas nunca tive a oportunidade, eu acho.
— Se ela não tivesse se aproximado, não sei o que teria sido do meu filho, porque eu estava sem a bombinha e meu carro estava longe demais.
— Eu consegui acalmá-lo e então os acompanhei até o hospital.
— Eu imagino seu desespero. – Oliver diz ao amigo.
— E eu imagino o seu.
— Ser pai não é fácil. – Barry comenta, tendo o apoio dos outros.
— Eu não sei o que é isso, mas imagino que deva ser desesperador passar por tudo isso, ver um filho passar mal e não poder fazer nada para ajudar, além de entregar aos médicos e deixarem eles fazerem o trabalho deles.
— Roy, é a coisa mais difícil e desesperadora do mundo. – Tommy diz.
— Você fica em choque por um momento, mesmo sabendo que tem que agir, que eles precisam de nós. – Olive completa.
— Eu já estive em uma das crises de Lyon, e estava sozinha, então eu sei como é sentir esse desespero, essa angustia e a impotência. E é por isso que eu não sei o que faria se estivesse sozinha com a April quando ela passasse mal da forma como passou. – Thea confessou. – Eu já peguei as gêmeas com febre, com dor de ouvido, que foi a coisa mais dolorosa do mundo, tanto que eu não sabia quem chorava mais, elas ou eu...
E os outros sorriram ladino, compreendendo-a completamente.
— Já peguei ambas com gripe, mas é diferente quando elas realmente precisam de um hospital com urgência. Em todas as vezes em que as meninas tiveram que ser levadas para o hospital, ou meu irmão estava, ou meus pais estavam, então eu não me desesperava tanto porque tinha alguém para me ajudar.
— Thea, é muito pior quando você sabe o que fazer, mas você, que é pai e mãe, não pode fazer nada para aplacar a dor ou o choro. April chorava e mesmo que eu cantasse, ela não se acalmava, e eu me sentia cada vez mais impotente. É como se todas as pessoas naquele hospital pudessem fazer algo, menos você, menos o pai e a mãe que o ama mais que tudo e que deseja de toda forma ajudá-lo a se curar.
E todos concordavam completamente com a Smoak–Queen.
Cada um deles já se sentiram daquela forma, e por isso compreendiam completamente o que o casal havia sentido naquela madrugada.
Apesar de os amigos terem passado a madrugada e a manhã inteira no hospital, eles tiveram a presença dos amigos até o final de tarde, e por mais que estivessem cansados, não se incomodaram nenhum pouco, principalmente porque seus sobrinhos faziam companhia a filha deles e a distraiam das coisas que haviam acontecido naquele dia, o que era ótimo, pois dessa forma ela não ficava tão sistemática com sua nova alimentação.
Oliver e Felicity seriam sempre muito agradecidos a cada um dos amigos, e haviam confessado isso quando chegaram e quando eles estavam já se despedindo. Mas mais que a eles, ambos eram também agradecidos a cada uma das crianças que apesar de não terem seu sangue – a grande maioria, já que Lyon era sobrinho verdadeiro de Felicity – por terem não só apoiado April naquele dia, como também a distraído com brincadeiras durante toda aquela tarde.
**--**
Quando acordou, a primeira coisa que seus olhos viram foi seu marido deitado com o rosto virado para ela, dormindo calmamente. Não era a primeira vez que acordava primeiro que ele, mas aconteciam tão poucas vezes que ela podia contar nos dedos. Ele estava sempre a observando, acariciando sua barriga, tendo as conversas de bebês, e ela adorava quando acordava e o via todo focado em seus filhos, falando com eles como se eles realmente os entendesse, e ela achava que sim, eles entendiam o pai, por tantas vezes eles responderem da maneira como Oliver queria ou desejava. E era incrível.
Tocou seu rosto suavemente, sabendo que ele não acordaria, não com aquele toque suave. Ele estava exausto e quando estava assim era muito difícil ser acordado, e por saber que ele precisava de descanso, tomou cuidado para que ele não despertasse. O tempo todo, mesmo antes de engravidar, ele cuidava para que ela tivesse um bom sono, principalmente por conta dos pesadelos, e por isso sempre que podia e conseguia, fazia o mesmo por ele. Eram um casal, afinal de contas, o amava, e assim como ele lhe cuidava e lhe queria bem, ela também o fazia e o queria para ele, tanto quanto, apesar de que se confessasse isso ao amado, ele diria que sentia-se de forma ainda maior por ela, e por esse motivo não pode deixar de sorrir.
Sentiu os braços dele apertá-la mais, e então se lembrou da primeira vez que sentiu aquele mesmo aperto carinhoso depois que voltou de seu inferno particular; havia sido extremamente angustiante, principalmente porque acordou gritando, empurrando-o de maneira assutada para longe de si, e só depois de olhar nos olhos azuis que percebeu que era o homem que amava e não o outro quem a tocava. Havia ficada envergonhada em um primeiro momento, e no outro, estava chorando pedindo desculpas enquanto ele a abraçava carinhosamente ao mesmo tempo em que afagava seu cabelo.
Está tudo bem, meu amor, está tudo bem. Sou eu aqui, apenas eu.
Se lembrava de ele repetir aquelas palavras várias e várias vezes, tentando acalmá-la, tranquilizá-la, e aos poucos ela foi parando de chorar, e cansada, acabou por voltar a adormecer, com a voz suave de seu marido em seu ouvido. Se lembrava de como havia ficado extremamente envergonhada quando acordou e se lembrou do que houve; mais do que na madrugada; mal conseguiu olhar em seus olhos. Mas ele a conhecia como ninguém, sabia o porquê de ela estar tão estranha com ele, de uma maneira que não seria, e por isso questionou o porquê, mesmo que já soubesse.
E Oliver havia sido tão ou mais carinhoso que da primeira vez, tocando seu rosto com carinho, beijando seus lábios com delicadeza e suavidade, dizendo palavras de tranquilidade e consolo. Ele havia sido fofo, e ela havia confessado isso a ele alguns dias depois, quando já estava mais calma com relação ao que houve. E toda vez que tinha um pesadelo, lá estava ele, ao seu lado, para mostrar que estava fora de perigo, que estava em casa a salvo, que era ele ao seu lado, tocando-a, beijando-a, colocando a ela e aos bebês para dormir. E ela sabia que se não fosse por ele, não teria um sono tranquilo por algumas horas, não conseguiria nem mesmo fechar os olhos.
E surpreendentemente, já tinha alguns dias que não se importava em ser tocada por ele. Depois que havia tentado ser dele outra vez, depois de insistir que conseguiria, passou algumas semanas para então perceber que já não se importava quando sentia os beijos mais urgentes, os toques mais ousados, e por um momento, imaginou-se se entregando a ele novamente, e se perguntou, se dessa vez, não teria a sensação de que estivesse novamente naquele lugar horroroso, com aquele homem asqueroso no lugar do homem que amava.
Balançou a cabeça, se impedindo, se negando a voltar a pensar em Cooper.
Ouviu o respirar pesada do marido e sorriu.
Ele era lindo de qualquer forma, mas dormindo, era tão fofo, que chegava a parecer um menino, e isso ela não havia confessado a ninguém. Era como se fosse uma criança novamente, e se perguntava se ele não imaginava o mesmo quando a observava a dormir.
Seus bebês se mexeram e ela entendeu que era hora de comer.
Estava faminta, e por isso desceu da cama sem fazer barulho, caminhou em direção ao banheiro e ligou o chuveiro após se despir. A água quente batia contra seu corpo de maneira gostosa e relaxante e apenas por sentir-se bem naquele momento, como não se sentia a tantos dias, decidiu por ficar por mais alguns minutos. Não soube quanto tempo ficou, mas quando saiu já passava das 8h30, e seu amado já não se encontrava adormecido; seu corpo estava meio deitado, com as costas apoiadas na cabeceira e seus olhos presos a porta na qual havia saído apenas de toalha, já que havia se esquecido da roupa e da lingerie.
— Você acordou cedo hoje.
Ela sorriu, se aproximando e lhe dando um beijo rápido, e no instante seguinte foi puxada calmamente para sentar-se ao lado do amado.
— Algo a incomodou?
Ele estava preocupado, ela tinha certeza absoluta.
— Não, eu estou bem. – Balançou a cabeça. – Eu na verdade estou ótima, só muito faminta.
E o loiro não pode deixar de sorrir.
— E os bebês concordam, pois não param de mexer.
Imediatamente a mão direita do amado chegou até sua barriga avantajada, sentindo o que havia contado a pouco.
— E o que nossos bebês e a mulher que eu amo querem de café da manhã?
— Hum... – Mordeu o lábio. – Algo diferente.
— Diferente? – Arqueou uma das sobrancelhas.
— Uhum! – Balançou a cabeça vagarosamente. – Ovos mexidos, bagels, suco de laranja e bacon.
— Tudo muito saudável, não é? – Debochou, recebendo um tapa em seu peito.
— Você perguntou. Vai negar isso aos seus filhos?
— Okay! – Diz bem devagar, nada surpreso por ouvir tal frase; ela sempre a dizia quando não achava que conseguiria o que queria. – Já entendi. – Murmurou, beijando seus lábios rapidamente. – Me dê dez minutos para eu tomar um banho e já me encontro com você na cozinha.
Apesar de ter seguido o amado com seus olhos até o cômodo a frente, Felicity se viu imersa em pensamentos nos quais a estavam deixando um pouco agoniada. Quanto mais os bebês se mexiam, mais ela pensava sobre a chegada deles, e consequentemente que não faltava muito para isso acontecer. Ela havia presenciado a melhor amiga se angustiar de dor quando entrou em trabalho de parto, presenciou o desespero de Laurel quando sua filha estava vindo ao mundo, e ouviu várias histórias sobre como não só era doloroso, como também angustiante estar em uma sala de parto esperando que os médicos dissessem se era a hora ou não de empurrar, e por nunca ter passado por tal experiência, ela tinha um pouco de medo; e isso ela não havia confessado a ninguém. Não por vergonha, mas por medo de que as palavras saíssem de seus lábios e o medo só a deixasse mais angustiada. Preferia acreditar que era apenas uma bobagem e que tudo daria certo, que teria o marido ao seu lado e que os bebês nasceriam completamente saudáveis.
Se proibiu em ficar voltando a pensar naquele medo bobo, e depois de se vestir seguiu até o quarto de suas garotinhas, que ainda dormiam tranquilas, cobertas por um edredom fofinho cheio de flores de cerejeira estampado nele. Sorriu por ver que ambas abraçavam o coelho de pelúcia no qual haviam ganhado quando ainda nem eram nascidas, de sua mãe biológica. Apesar de terem já seus oito anos, elas ainda adoravam aquele bichinho, e a mulher podia compreender completamente, afinal era um presente dado pela mãe que elas não puderam conhecer.
Se aproximou cautelosamente, afim de acordá-las com delicadeza. Elas teriam aula naquele dia, mas apenas até as 10h manhã, e por já saber que o marido não conseguiria buscá-las por conta da reunião que teria naquele mesmo horário, pediu na tarde anterior para que Barry as buscasse, já que seria ele a buscar o garotinho que o chamava de pai; Tommy estaria na reunião junto de seu marido, então o outro pai quem buscaria Lyon naquele dia.
O seu dia seria extremamente chato se não fosse pela presença de sua irmã e de seu cunhado, que lhe fariam companhia até a chegada das crianças. Ela ainda odiava ter de ficar sozinha, então quando Oliver precisava comparecer a empresa, um dos amigos ou dois, ficavam com ela até que ele chegasse. Aquele era o primeiro dia que ela estaria sozinha com as gêmeas, depois que voltou daquele inferno, e só havia aceitado e fingido estar tudo bem com aquele arranjamento porque não queria que sua irmã deixasse o compromisso que tinha às 11h só porque ainda tinha medo, um no qual ela tentava se convencer de que era bobagem já que o culpado por aquele medo estava em coma a mais de três horas da cidade na qual morava.
Tocando o rosto de ambas as filhas enquanto chamava baixinho por suas pequenas, Felicity começou a acordá-las para poderem tomar um banho rápido e se vestirem para a escola. Na noite anterior havia arrumado ambas as mochilas das filhas, colocando o remédio de sua pequena dentro dela junto da lancheira. Como haviam prometido ao médico, ela e o marido haviam mudado a alimentação de April e consequentemente de Amily também, e por isso desde que descobriram a úlcera no estômago — o que não fazia mais de cinco dias –, ambas levavam o lanche e não mais compravam da lanchonete da escola, e por mais que isso estivesse sendo muito difícil para ambas, elas compreendiam, afinal, não gostariam de ficar mais doentes do que estavam; no caso, estava, já que apenas uma delas estava com a ferida no estômago.
— Bom dia, mamãe.
— Bom dia, meus amores. — Lhes deu um beijo na bochecha. – Hora de acordar.
— Está tão quentinho aqui. – Amy diz, tendo o apoio da irmã.
E a mulher sorriu.
— Eu sei, querida, mas vocês têm aula. – Ouviu um resmungo vindo de ambas. – Pensem pelo lado bom, estarão em casa mais cedo hoje.
No instante seguinte pode ver ambas fazerem um biquinho fofo, se virando na cama enquanto balançavam a cabeça, concordando com as palavras da mãe, e se dirigindo tão logo para o cômodo a frente após a mãe pedir mais uma vez que o fizessem rapidamente para não chegarem atrasadas a aula.
Enquanto ouvia o som do chuveiro Felicity colocava ambos os uniformes sobre a cama infantil, junto dos laços de cabelo e no chão, a frente de cada um deles, os tênis nos quais elas usavam sempre.
Apesar de não ter ouvido os passos do marido, já imaginava que ele estivesse na cozinha preparando o delicioso café da manhã no qual havia pedido, e claro, o que as filhas deveriam comer; estava grávida e naquele dia comeria algo diferente do que comia normalmente desde que descobriu sobre a úlcera no estômago de uma das filhas. E só de imaginar sua boca salivava. É, ela estava com desejo, só esperava que não passasse mal depois. Olhou para a barriga redonda, tocando com uma das mãos, pedindo aos bebês que a deixasse passar bem com aquele desejo cheio de gordura.
Sentou-se a cama esperando que ambas as filhas saíssem do banho, e então não muito depois elas o fizeram, só de toalha, com os cabelos levemente molhados. E por um momento pensou que deveria ter pedido para que elas não os molhassem, principalmente sendo que aquele dia estava um pouco frio, apesar do solzinho que começava a aparecer.
Não precisou ajudá-las como fazia antes, mas ainda ficou ali, a espera delas para poderem descer juntas, e então se surpreendeu com o pedido para que ela lhes fizesse duas marias-chiquinhas naquele dia, e só entendeu quando April explicou que teriam uma pequena gincana no final das aulas com o professor de matemática.
Andou até o guarda-roupa afim de pegar duas xuxinhas brancas que mais pareciam pompons, e então voltou-se para onde estava para poder fazer como suas garotinhas haviam pedido. Ambas estavam tão idênticas, que provavelmente quem não as conhecesse por um determinado tempo poderia se confundir. Era o mesmo uniforme, o mesmo tênis, a mesma pulseira, na qual havia ganhado da mãe de aniversário daquele ano, no qual estava escrito o sobrenome Smoak com letras trabalhadas, e claro, as xuxinhas da mesma cor e formato. Mas havia o colar que elas ganharam do pai, também de presente daquele ano, no qual estava escrito com médias e detalhadas letras, o nome delas.
— Bom dia, minhas princesas. — Beijou o rosto de cada uma quando ambas entraram no cômodo junto a mãe.
— Bom dia, papai.
— Bacon. — Felicity diz com os olhos brilhando, se dirigindo até a mesa e pegando um, levando a boca rapidamente.
— Pensei que não pudéssemos comer coisas gordurosas. – April comenta, olhando para o bacon.
— A mamãe está com desejo, então deem um desconto. – Lhes sorriu e as meninas corresponderam, ainda que olhassem para a mãe. – Eu fiz waffles caramelizados e leite com achocolatado para vocês duas.
— E o nosso lanche?
— Já está dentro da lancheira, Apple. – Sentou-se ao lado da esposa, que não havia parado de comer, mesmo ouvindo a conversa das três pessoas que amava. – Também coloquei dinheiro para o suco, já que não consegui fazer muito e provavelmente vocês tomarão ele todo agora... – Olhou para a esposa que tomava em um copo grande de vidro.
— É, eu concordo.
E o pai riu ao ouvir Amily.
— Pensei que os desejos tinham parado.
— Eles ainda acontecem, filha, mas com menos frequência. E finalmente, não mais de madrugada.
As garotinhas riram com seu último comentário, e ele não pode deixar de acompanhá-las.
— Eu estou ouvindo vocês falarem sobre mim.
— Eu pensei que estivesse concentrada no seu bacon, meu amor. – Lhe beijou a bochecha. – Não se esqueça dos ovos.
E ele não precisava dizer, pois no instante seguinte a viu colocar em um pão junto do bacon e do queijo que havia em cima da mesa, gemendo deliciada ao morder um pedaço.
— Delicioso.
E o marido sorriu ladino.
— Sabe o que faltou?
E o outro junto das filhas franziu o cenho.
— Torradas com geleia de morango.
— Tem geleia na geladeira, mamãe. – Amy diz,
— E o papai pode fazer as torradas. – April completa.
— O que eu não faço por você, nossos filhos e o desejo de vocês. – Diz já se levantando para poder preparar as torradas.
— Eu pego a geleia. – April se pôs a andar até a geladeira. – Tem de framboesa também.
— Oh, pega para mim.
E Oliver revirou os olhos com o entusiasmo da amada.
— Que delícia. – Diz em forma de ironia.
— Eu ouvi, Oliver Queen, e não gostei. – Diz emburrada, fazendo suas filhas rirem. – O que estão achando tão divertido?
— Provavelmente seja por você estar parecendo uma criança, maninha.
E cada um dos presentes olharam para a entrada da cozinha, encontrando Thea e Roy, lado a lado, com um sorriso.
— Imagino que esteja com desejoso.
— Cruzes, e nós quem estaremos lhe fazendo companhia pelas próximas horas.
— E eu posso infernizar sua vida nessas horas.
E os outros riram com a ameaça da grávida, inclusive as pequenas.
— Não seja má, eu faço o que você quiser, até mesmo suas nojeiras. – Sorriu amarelo. – Quer dizer, suas comidas excêntricas, cunhadinha.
— O tio Barry está certo quando diz que o tio Roy não tem medo de morrer.
E o pai das meninas riram ao ouvir uma delas falar; April.
— Não, querida, ele não tem. – A mulher que agora estava completamente morena diz, fazendo um biquinho.
— Maninha, não se preocupe que eu estou aqui para o que precisar. Mas por favor, meu estômago é fraco, então poderia pensar na sua querida irmã mais nova quando for pedir por comida?
E Oliver riu junto das crianças.
— Ela vai pensar em todos nós, não vai, meu amor? – Pergunta, colocando o prato com seis torradas a frente dela, lhe dando um beijo na bochecha em seguida.
— Eu sou uma boa pessoa, então sim. – Mordeu um pedaço da torrada com as geleias misturadas, gemendo em seguida. – Ai, como isso é bom. – Mordeu mais um pedaço, olhando para o marido em seguida. – Vocês não estão atrasados?
— Droga! – Oliver exclama ao olhar no relógio da parede. – Meninas, se despeçam de sua mãe e de seus tios e vamos. – Beijou sua esposa rapidamente, e antes de seguir para o elevador já com as mochilas de suas garotinhas em seus ombros, beijou a bochecha de sua irmã. – Harper, fica de olho nela para mim.
— Pode deixar, cunhado. – Diz, batendo dois dedos na testa, como uma “continência”.
— April, amor, não se esqueça do remédio, está bem?
— Não se preocupe, mamãe, a professora vai me lembrar. – Diz saindo correndo para fora do cômodo junto da irmã.
— E eu espero mesmo que ela o faça.
— Coma sua torrada melecada, maninha, e para de querer ameaçar as pessoas. – Pede rindo, sentando-se a sua frente junto ao namorado.
— Coitado dos nossos sobrinhos.
E no instante seguinte o jovem de cabelos castanhos escuros e olhos esverdeados não pode deixar de rir ao sentir os olhos fuzilantes de sua cunhada sobre si.
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Enquanto Felicity tomava mais um banho, o casal que havia ficado de cuidá-la e estar com ela para que ela não ficasse sozinha tratavam de fazer algo para que a mulher se distraísse, e sabiam que o que mais a distraia ultimamente era comida, por isso preparavam aqueles cookies que ela adorava, com cacau, aveia e pedaços de chocolate. Havia se passado poucas horas desde que Oliver havia saído com as crianças, e por mais que a loira estivesse se divertindo com as brincadeiras do cunhado, ela não podia deixar de sentir-se agoniada por ficar tantas horas sem seu marido. Era algo que ela ainda não sabia como controlar. Sentimentos angustiantes tentavam atormentá-la e era por não querer pensar em besteira – que na verdade eram lembranças dos momentos horríveis que passou com seu perseguidor – que se obrigava a se manter distraída com comida. Não era algo recomendável, e ela tinha certeza de que sua melhor amiga não aprovaria, mas era algo incontrolável, e por saber que precisava ser saudável para que seus filhos também o fossem que ela colocava junto das besteiras que comia, os alimentos saudáveis recomendados por Caitlin.
Por mais que os banhos já não acontecessem sempre, ela não conseguia se conter quando seu amado não estava em casa com ela, e por isso aquele havia sido o terceiro banho em menos de uma hora; não ficava tanto tempo para não deixar sua irmãzinha e seu cunhado esperando sozinhos, afinal, eles haviam se prontificado em ficar com ela para que não ficasse sozinha e sentisse aquele medo angustiante por não ter ninguém que a fizesse sentir-se protegida. Ela gostaria de poder controlar melhor seus sentimentos, as lembranças ruins ou até mesmo o medo gigantesco que sentia, mas era impossível para ela. E de uns dias para cá, ela sentia um outro tipo de medo, um no qual ela não conseguia nem mesmo respirar quando se lembrava das palavras de Cooper quando esteve com ele por mais de uma semana.
E era por esse motivo que naquele momento, já vestida com um moletom vinho, sendo que a parte de baixo não era calça e sim short, tocou a barriga avantajada, sentindo seus bebês se mexerem de forma agitada. Eles sentiam o que ela estava sentindo e isso a angustiava também. Não queria passar seus sentimentos ruins para eles, e por isso começou a sussurrar para que se acalmassem, por mais que eles o fizessem de forma mais rápida quando era seu marido quem o fazia.
Sentada sobre a cama, Felicity sentiu seus bebês se acalmarem, finalmente, e por isso se aliviou, pelo menos por saber que não estavam mais tão agitados por conta de seus sentimentos conturbados.
— Me desculpem por ficar pensando em coisas ruins. – Murmurou para eles. – Fico tão angustiada quando o papai não está. – Confessou abertamente. – Eu estou com medo. – Confessou em sussurro. – Medo de não conseguir dar conta no parto, sabe, mas não contem isso para ninguém, nem mesmo ao papai. – Sentia-se angustiada com suas próprias palavras. – Sinto tanto medo de acabar acontecendo algo ruim com vocês, que mal consigo conter minha vontade de querer que fiquem aí por mais um tempinho. – Sentiu um chute forte, e outro e mais outro, e por isso sorriu; era como se eles dissessem: está tudo bem; e ela realmente sentiu que era isso; seu coração se aliviou e ela se surpreendeu por isso. – Eu amo tanto vocês... – Frisou a terceira palavra, dando um longo e alto suspiro, se levantando. – Bom, melhor irmos ver seus tios. O que será que estão aprontando?
Com um sorriso nos lábios, mais aliviada por ter aquela conversa com seus bebês, ainda que eles estivessem dentro de si, desceu as escadas vagarosamente, principalmente porque a barriga pesava e suas costas começavam a incomodá-la um pouco, e encontrou o casal discutindo sobre algo que ela não conseguiu entender ainda. Curiosa, continuou ali, em frente a entrada da cozinha, encostada na parede – mesmo que tudo que precisasse era sentar-se –, sem deixar que fosse percebida. E então pode descobrir que eles falavam de si e de sua alimentação.
— Por mais que eu entenda que esteja querendo animar minha irmã, isso não é o jeito certo de fazer isso.
— Como não? Ela ama doce, deixa ela se empanturrar com eles.
E a grávida segurou uma risada.
— É perigoso, Roy. – Diz revirando os olhos. – Não ouviu Caitlin falando que ela precisa de alimentos saudáveis, pelo bem dos bebês e dela mesma?
— E não ouviu o seu irmão dizendo que grávidas sempre tem razão? E que nunca devemos negar nada a elas?
E então a morena começou a rir baixinho, colocando a mão sobre a boca.
— Por isso dê tudo que ela quer. – Diz puxando o pote de sorvete e a calda de chocolate das mãos da namorada.
— Não. – Tomou de volta. – Ela come os cookies e fica feliz, está de bom tamanho.
— Ela está grávida, meu amor, só cookie não vai deixá-la feliz. – Retrucou, tomando de volta para si as coisas que estavam na mão da namorada. – E falta o M&M.
— De jeito nenhum. – Praticamente rosnou. – Você quer ser morto pelo meu irmão? Por ambos meus irmãos? E levar um sermão da minha cunhada?
— Eu sobrevivo diante disso.
E novamente Felicity estava rindo, enquanto balançava a cabeça; aquela cena estava realmente engraçada.
— Eu não sobrevivo se ela não estiver feliz e com tudo que quer. – Completou, fazendo com que a grávida franza o cenho de imediato; estava demorando o cunhado começar com suas implicâncias. – Ela vai nos torturar, e em menos de meia hora estaremos pedindo arrego e ainda assim não seremos salvos.
— Ei! – Se pronunciou, indignada.
E outros dois olharam para a mulher, completamente surpresos por vê-la diante deles; ela tinha os braços cruzados e a feição nada feliz.
— É assim que fala de mim pelas costas, é?
— E quando está presente também.
E Thea riu, não se contendo.
— Irmãzinha, a quanto tempo está aí?
— A tempo suficiente para ver vocês discutindo se eu devo ou não tomar sorvete. E eu pude escutar muito bem meu próprio cunhado falando mal de mim.
— Me perdoaria se eu te entregasse todo o pote de sorvete... – Ergueu a mão direita, mostrando o tal. – A calda... – Ergueu a outra mão, fazendo o mesmo que fez a pouco. – O M&M e bastante amendoim triturado? – Tinha um sorriso enorme nos lábios, e a namorada teve de segurar uma risada, principalmente ao ver que a feição da irmã ficava cada vez pior.
— Você é um manipulador de primeira.
— Mas deu certo? – Pergunta, esperançoso.
E então Thea gargalhou, não conseguindo se conter.
— Me dê isso. – Tomou tudo que estava em sua mão, levando para a mesa. – Vou contar tudinho ao meu marido. – Murmurou enquanto abria a tampa do sorvete e jogando bastante amendoim triturado dentro do pote.
— Vai ter que contar também que comeu tudo isso.
E então a morena fuzilou o outro com os olhos.
— Cookies? – Ofereceu demonstrando um sorriso aberto, quando já estava segurando a travessa de alumínio onde continha os deliciosos cookies nos quais havia feito junto de sua namorada.
— Por que acha que vai me comprar com comida? – Pergunta, levando uma colher cheia com sorvete de Sensation na boca.
— Realmente precisa de uma resposta?
— Roy, deixe minha irmã em paz. – Diz ainda que segurasse uma risada. – Vou deixar que se delicie com o sorvete e o cookie, mas quando for pedir pelo almoço, vai pedir algo saldável.
— Só porque estava com desejo de pizza.
E os outros dois riram; por mais que ela tenha murmurado, ambos puderam ouvi-la perfeitamente.
— Vai negar o desejo da sua irmã? – Pergunta, olhando-a fixamente, e Felicity fez o mesmo, por mais que não tenha deixado de tomar seu precioso sorvete junto de seu cookie.
— Tudo bem. – Diz depois de um suspiro, vendo a moreninha sorrir grandemente. –Mas terá de comer algo mais saudável antes dela, para compensar.
— Eu como feliz da vida.
— Grávida feliz, cunhado vivo. – Sussurrou para a amada, mesmo que seus olhos estivessem sobre a mulher que não havia deixado de comer nem por um segundo; Thea segurou uma risada.
— Eu ouvi.
E os outros dois riram, principalmente porque mesmo que a Queen estivesse indignada, ela não havia deixado de colocar uma grande quantidade de sorvete com bastante calda e M&M dentro da boca.
**--** **--**
No instante em que Oliver adentrou na casa, ele foi prontamente agarrado por ambas as filhas, que corriam de Shasta. Ele praticamente arregalou os olhos ao perceber que a cadela estava dentro de casa. Dentro de casa! Rapidamente as meninas haviam explicado que sem querer sua amada e grávida esposa acabou chamando a atenção do Rusk Siberiano com uma enorme e quentinha pizza, quando foi chamá-las no jardim para comer. Se preocupou quando ouviu dizerem que a amiguinha correu para cima de Felicity, e que por pouco não a derruba junto da comida; sua amada havia conseguido correr para dentro do banheiro, e era por esse motivo que havia algumas mensagens dela no seu celular dizendo que estava com problemas com a cadelinha de suas filhas e que no momento se encontrava trancada no banheiro que havia no andar debaixo. E por um instante, enquanto corria atrás de Shasta junto de suas filhas, ele pensava no tempo que sua esposa estava trancada no cômodo a poucos passos no qual estava naquele momento; a sala de TV.
Por mais que tentasse, a amiga das gêmeas insistia em continuar dentro de casa, arrastando as coisas, quebrando outras, procurando por algo que ele tinha certeza de que era a pizza, mas ele tinha certeza que naquele momento ela estava toda dentro do estômago de sua amada. Com esse pensamento ele riu, até que viu suas filhas serem jogadas no tapete felpudo pelo Rusk Siberiano. Gritou o nome da cadela, quase em um rosnado, se aproximando para ver se as meninas estavam bem; e elas estavam para seu alívio.
Aquela cadela estava endiabrada, ou o quê? Pensou enquanto corria para a cozinha afim de pegar algo que a fizesse voltar para o jardim. Pensou na ração, mas sabia que poderia não dar certo. Suspirou, ouvindo os gritos de suas garotinhas, os latidos altos de Shasta e mais coisas caindo no chão, e ele novamente suspirou, imaginando como seria complicado e cansativo limpar tudo. Encontrou um hambúrguer caseiro dentro da geladeira e seus solhos brilharam; sua mente gritou um “é isso”, e então correu para a sala, encontrando Shasta em cima do sofá.
Arregalou os olhos, gritando o nome da cadelinha mais uma vez.
O sofá, não, porra!
Imediatamente os olhos da cadela se voltaram para a carne em sua mão, e Oliver começou a apressar o passo até o jardim, tendo a cadela acompanhando-o e quando jogou longe, viu a amiguinha de suas filhas disparar para onde a carne havia parado, e imediatamente fechou a porta, soltando um longo suspiro, se deixando escorregar até o chão.
— Ufa!
Ouviu das gêmeas.
— Muito bom, papai, você conseguiu.
— Deveríamos ter pensado nisso, né, Amy?
E a outra prontamente concordou.
Oliver, que ainda tinha os olhos nas garotinhas, balançou a cabeça.
— Olha a destruição! – Sua voz chamou a atenção das meninas. – Vai ser extremamente cansativo limpar tudo.
— Foi mal, papai. – Dizem juntas, encolhendo o corpinho.
— Tudo bem, tudo bem... – Suspirou. – Não foi culpa de vocês, ou da mãe de vocês, foi um acidente. – Franziu o cenho. – A mãe de vocês ainda está trancada?
— Ela correu para lá e não saiu mais. – Amy diz, rindo junto da irmã. – Ela disse que só sairia quando pudesse ter a certeza de que estaria...
— Sã e salva. – A irmã completou, rindo tanto quanto a outra, e o pai não pode deixar de acompanhá-las. – Precisava ver, papai.
— Ela correu, e em nenhum momento deixou a pizza cair. – Ambas acabaram completando juntas.
E mais risadas ecoaram pelo cômodo. O Queen imaginava a cena e ria ainda mais, sabendo que sua esposa não daria nenhum pedaço da pizza para a cadela, mesmo se ela não tivesse corrido atrás dela e feito aquele estrago. E que estrago. O que os desejos grávidos de sua amada não faziam, não é?
— Eu vou tirar a mãe de vocês daquele banheiro. – Se levantou. – Enquanto isso, vão pegar um saco de lixo grande.
E elas correram em direção oposta a si.
Ao chegar ao cômodo onde Felicity se encontrava até aquele momento, girou a maçaneta, mas como imaginava, estava trancada. O que ela achava? Que a cadela iria abrir a porta depois de completamente fechada? Riu com o próprio pensamento, antes de chamá-la, duas vezes.
— Meu amor, você já pode sair.
— Tem certeza?
Ele riu, balançando a cabeça.
— Sim, Lis, eu tenho, a Shasta voltou para o lugar dela.
E então ouviu o som do trinco e em seguida a porta se abrir; sua esposa estava com os cabelos desgrenhados, apesar de eles serem extremamente lisos, a roupa amassada e ainda pode ver em cima da bancada, a caixa de pizza, completamente vazia; e ele não estava nada surpreso por isso.
— Eu nunca mais apareço perto dela com comida.
E Oliver não conseguiu deixar de rir.
— Isso, ria da sua esposa, que quase foi morta por uma cadela morta de fome. – Cruzou os braços, fazendo um biquinho.
— Desculpe, baby, mas a forma que falou foi engraçado. – Beijou sua testa. – Você está bem, e os bebês?
— Sim, estamos bem, eles ficaram mais calmos depois que eu comi.
E ele segurou uma risada.
— E o pior é que eu não consegui deixar nenhum pedacinho para as gêmeas.
— Eu colocarei outra no forno. – A puxou para fora do cômodo no qual ainda se encontrava. – Agora, me explica uma coisa, baby... – Seus olhos se encontraram, mesmo que andasse até onde as filhas se encontravam. – Você achou que Shasta iria usar a pata dela para pegar na maçaneta e abrir a porta? – Ao final da pergunta ele começa a rir.
— Odeio você. – Puxou sua mão, seguindo a sua frente, com um biquinho nos lábios, chateada; apesar de não conseguir realmente ficar chateada com o amado.
— Eu sei que é mentira. – Diz, seguindo-a. – Você não vive sem mim. E os bebês concordam, aposto que estão chutando como se estivessem em um campo de futebol. – Sorriu ao vê-la tocar a barriga com uma das mãos, confirmando suas palavras. – Ainda bem que ficaram bem, poderia ter sido algo muito ruim para vocês.
— Nem me fale! – Se virou para olhá-lo nos olhos. – Eu fiquei apavorada quando vi que ela me seguia.
— E não pensou em deixar a pizza? – Provocou.
— Ela era minha! – Praticamente rosnou, voltando a se virar, ouvindo o marido rir. – Era só o que me faltava, ela come pizza e eu como o quê? Arroz? Ou a ração dela? – O olhou ao ouvir mais risadas. – E você está se divertindo as minhas custas!
— É divertido vê-la defender a sua comida. – Diz rindo. – Mas agora... – Olhou em volta ao chegar ao destino. – Hora de trabalhar.
— Uau! Ela fez isso?
Seus olhos se encontraram mais uma vez e Oliver balançou a cabeça, assentindo. No instante seguinte ele a viu ir até a porta do jardim, olhando de forma fix na cadelinha que ainda comia da carne, demonstrando toda sua irritação com os olhos e a gesticulação que fazia com as mãos.
— Você vai ficar sem carne por muito tempo, sua destruidora. – Brigou, fazendo até mesmo as filhas rirem. – E ai daquele que passar por cima da minha decisão. – Diz, se virando com as mãos já na cintura para olhar para sua família, que jogaram as mãos para o alto, ao mesmo tempo.
— Ninguém faria isso, mamãe.
— É, nós gostamos de viver.
E Oliver riu ao ouvir April, mesmo que sua esposa o fuzilasse com os olhos.
— Não que a senhora nos mataria, né?
— Mas ficaríamos sem nosso sorvete! – Amily diz, arregalando os olhos ao mesmo tempo que a irmã. – Isso seria ruim.
— Muito ruim. – A irmã concordou.
— Muito engraçadinhas. – Diz enquanto as ouvia rir.
— Okay, parem de implicar com a mãe de vocês. – O pai das meninas diz, ainda que sorrisse. – Vamos lá, me ajudem a arrumar tudo isso.
— Eu posso ajudar também.
— Não mesmo, mamãe! – As gêmeas dizem juntas, levando ambas as mãos para frente do corpo, como se parasse a loira com elas.
— A senhora deve descansar.
— É, passou por um susto agora a pouco. – Amy diz após a irmã.
— Eu concordo com elas. – Diz ao sentir os olhos da amada sobre si. – Sente-se e veja seu marido e filhas se divertindo. – Ironiza, ouvindo a grávida rir, enquanto caminhava até o sofá-cama, onde poderia descansar as pernas. – Enquanto isso, por que não me contam como foi o dia de vocês?
Começou a pegar alguns vidros dos porta-retratos que estavam sobre o chão.
— Foi maravilhoso. – Dizem juntas, com um sorriso, colocando os objetos não quebráveis de volta em seu lugar, já que os pais não gostavam que elas tocassem em vidro.
— Tivemos gincana, e nossa turma venceu novamente. – Amy contou.
— Nós somos incríveis.
— Nossa sala é a mais inteligente.
E os pais sorriram.
— Todos os alunos ganharam um vale-presente da Cacau-Show. – April contou em animação.
— Legal!
Oliver pode ver os olhos da amada brilharem e por isso sorriu.
— Dividimos com você, mamãe. – Amy diz, sorrindo.
E o pai não pode deixar de sorrir mais uma vez.
— Eu agradeço, meus amores, mas não é preciso. – Diz, sorrindo.
— O que mais aconteceu na escola?
— Nós tivemos uma prova de matemática e uma de história.
— E eu e a Amy tiramos A.
— Killian tirou A-, e ficou muito triste.
— Não é uma nota ruim. – Felicity diz, sorrindo. – Ainda assim é um A. Ele deveria estar orgulhoso de si mesmo.
— Sim, foi o que eu disse!
E imediatamente o Queen mais velho dirigiu o olhar para sua filha, April; a forma como ela havia dito o fez ficar desconfiado. Muito desconfiado.
— Eu tentei fazer ele se animar, mas não adiantou, mamãe. – Diz, triste. – Ele acha que deveria ter se esforçado mais. E mesmo que ele tenha passado de ano, assim mesmo ele não está conformado com sua última nota.
— E você está triste... – A voz de Oliver chamou atenção das outras três. – Por que ele está triste? Isso não faz sentido.
Felicity segurou uma risada ao perceber os ciúmes do marido.
— Sou sensível, papai, como a mamãe.
E novamente a grávida sorrindo, vendo o marido espremer os olhos, desconfiado.
— Sei. E eu vou fingir que acredito nisso.
As meninas ficaram confusas.
— Vou ficar de olho no mini Palmer. – Sussurrou para si mesmo, voltado a fazer o que fazia antes.
— Não entendi, papai.
— Amor, seu pai está com ci-ú-mes. – Diz rindo, olhando para o marido. – Ele sabe que Killian é importante para você.
— Ele é para todos nós, não só para a April.
Oliver olhou para sua outra garotinha. Ela também gostava do Palmer?
— Apesar de que minha irmã tem mais intimidade com ele.
— Intimidade? – Reclamou em murmúrio, apesar da esposa ter ouvido; ela segurou outra risada.
— Eles sempre fazem trabalho em dupla na sala de aula, sendo que eu sempre faço com o Lyon. Ele se abre com ela tanto quanto se abre com os irmãos e Lyon, ele tem gostos em comum e tem estudado juntos.
Oliver realmente não esperava ouvir o que ouviu, e por um momento ficou tentado a ir a casa do pequeno Palmer e ter uma conversa muito sério com o garoto. O que ele queria com sua princesinha, afinal de contas? O que era aquele contato todo que não estava sabendo, e a quanto tempo vinha acontecendo? E o pior de tudo é que sua filha parecia estar bem feliz enquanto sua irmã contava sobre a "relação" dos dois.
Não, não, sua filha tinha oito aninhos, ela não estava apaixonada, tentava se convencer.
Os olhinhos dela brilhavam, e ele não achava que ela tinha noção disso, e por isso não conseguiu se convencer de que ela não sentia nada por Killian Palmer. Aquele garoto tiraria sua garotinha de si, em algum momento, se não ficasse de olho.
Os ciúmes estavam aflorando e ele não estava mais conseguindo se concentrar no que fazia por simplesmente perceber que sua filha de apenas oito anos, estava apaixonada.
Desviou os olhos para Amily, se perguntando se ela não já se sentia como a irmã, e não pode deixar de se perguntar, que se isso estava acontecendo, por quem?
Ah, ele teria de ficar mais alerta agora!
E ele ficaria, ah, se ficaria!
E por todo o momento em que ele ficou em silêncio, apenas observando suas garotinhas, que continuavam a falar sobre a escola, Felicity não havia perdido nenhumas de suas reações, e ela se divertia com aquilo. Imaginava que ele surtaria quando elas enfim começassem a namorar. E já se preparava para uma possível discussão, porque ela ficaria do lado de ambas, com toda a certeza. De maneira nenhuma deixaria que ele as colocasse em uma bolha e as impedisse de viver aquele momento mágico que é o primeiro amor. Não mesmo, principalmente sendo que os garotinhos eram as pessoinhas que ela mais se encantava, depois de suas filhas e as filhas de Barry; não que ela também não tivesse um encanto pelos gêmeos Bertinelli-Palmer; ela tinha um amor grandioso por cada uma daquelas crianças.
— E como você se sentiu hoje, querida? Sentiu dor?
Oliver voltou a si, afinal, também era algo que ele iria questionar se não estivesse tão preocupado com o fato de suas filhas estarem se apaixonando.
— Não, o remédio está fazendo efeito.
E ambos os pais se aliviaram.
— Papai, podemos comer couve-flor gratinada mais tarde?
— É claro que sim.
Apesar de estarem ainda muito agoniadas por não estarem comendo todas as coisas que ambas tanto gostam, elas estavam se acostumando com as saudáveis. Ele havia ido para a internet afim de achar coisas gostosas e que não faria mal a nenhuma das duas, principalmente a April, que já estava com aquela ferida no estômago, na qual ambos os pais se lembravam a todo instante, ainda muito preocupados, apesar de os médicos dizerem que não era necessário se desesperar e ficarem sistemáticos com aquele diagnóstico. Eles sabiam o porquê de os médicos pedirem para agirem de forma normal com relação aquela situação. April era uma criança ela precisava se sentir apoiada. Além disso, ela não podia se estressar, essa havia sido uma das exigências de ambos os médicos que a atenderam, a mais importante, porque a ferida poderia ficar maior.
E por isso, mesmo preocupados, eles agiam normalmente.
O restante do dia eles haviam passado assistindo filmes, principalmente porque Felicity estava incomodada com o inchaço das pernas.
Durante uma hora Oliver percebeu que algo incomodava sua esposa, mais do que apenas as pernas e compreendeu completamente quando a viu subir as escadas, pela segunda vez. Seria o terceiro banho desde que chegara, pois ela havia subi pouco depois de terminarem de limpar o que Shasta havia destruído, e ele se perguntava quando aquilo iria acabar. Era agradecido por ela estar fazendo aquela ação com menos frequência, mas mesmo assim não deixava de se preocupar por ela ainda continuar com os banhos em excesso. Fazia mais ou menos uma semana que ela ia ao banho cinco vezes ao dia, e para ele era uma grande vitória, afinal, no começo eram tantos que mal podia contar.
Havia ficado tão curioso que não conseguiu deixar de perguntar as suas filhas quantos banhos a mãe delas havia tomado nas horas em que esteve trabalhando, e realmente ficou surpreso ao ouvir a resposta. Três. Haviam sido então seis banhos no dia, e ele se perguntava se haveria mais algum. Ainda faltavam algumas boas horas para anoitecer e por isso não pode deixar de se sentir irritado, não com ela, mas com as coisas que ela sentia por culpa daquele homem. Quando achava que ela estava bem e que ela estava melhorando, se curando, sua esposa voltava a ter suas crises.
Felicity ainda não sai sozinha, o que é completamente normal, ainda odiava ficar sem ele, mesmo que ás vezes não confessasse isso a ninguém e quisesse demonstrar que tudo estava bem, que ela estava, quando não estava, ainda tinha os pesadelos, que Oliver agradecia aos céus por não acontecer tantas vezes mais, e os banhos, apesar de não acontecer mais tantas vezes no dia, ainda aconteciam, e de vez enquando, infelizmente, ela se perdia em meio a lembranças horríveis, de tal forma que ninguém além do marido conseguia trazê-la de volta de sua dor inimaginável, e isso havia começado a acontecer pouco depois dos banhos, surpreendendo cada um dos amigos e familiares.
Mas ao contrário do que imaginavam que aconteceria depois de uma crise, ela não se escondia em seu quarto pelo resto do dia, ela tomava um banho e se esforçava a se manter de pé, mesmo que tudo que ela gostaria era correr para debaixo de sua coberta com o marido ao seu lado; ele a deixava se sentir segura, em paz, a deixava sentir-se livre.
Os amigos compreendiam que ela queria se manter forte, mesmo que não estivesse, que não queria ser um peso para ninguém, ou preocupar os familiares e amigos, e que por esse motivo ela se obrigada a sorrir, mesmo que as vezes não quisesse. As crianças, por mais que fossem extremamente curiosas, nunca fizeram mais nenhuma pergunta sobre os sentimentos da tia, ou a forma na qual ela vinha agindo, mas sempre estavam presentes para distraí-la, o que era muito bom, pois ela realmente precisava.
Quando Felicity voltou, após quase quarenta minutos, seus cabelos estavam completamente molhados, tanto que as pontas pingavam, vestia-se com um vestido soltinho estampado com borboletas azuis e lilás e descalça. Em suas mãos uma toalha branca, na qual ela usava para enxugar seus cabelos.
— Está sentindo-se bem? —Não conseguiu deixar de perguntar.
Felicity prometeu a si mesma que nunca mais mentiria ou esconderia seus sentimentos do marido e por isso negou com a cabeça.
— Um pouco nervosa, um pouco angustiada.
— Quer dizer o porquê?
E os olhos claros dela caíram sobre as gêmeas, que pareciam concentradas no filme infantil, mas ela sabia, elas escutavam a ambos.
— Ás vezes não consigo controlar as lembranças, os sentimentos ruins, o arrepio... – Suspirou. – Não sei, mas acho que não deveríamos ter assistido aquele filme.
E então Oliver compreendeu ao ouvir tal afirmação. O filme que haviam assistido a pouco, que havia sido de escolha dela mesma, era sobre uma mulher que era casada com alguém que a batia constantemente, ela foge dele e se apaixona depois de um tempo por outra pessoa, mas o homem acaba a encontrando e quase a mata. Ela se vê livre dele, mas depois de muito custo, depois de finalmente conseguir tirá-lo de seu caminho. E ela se viu naquela mulher, por mais que sua vida tivesse sido completamente diferente e muito mais horripilante que a dela.
Aquele havia sido um filme que sua esposa, ou mesmo ele, nunca tinham assistido antes, apesar de ser um dos filmes românticos mais assistidos na Netflix. Aquele havia sido a primeira vez que assistiram, e entendeu completamente o porquê de ela ficar desconfortável com o enredo do filme.
— Por que não disse antes, Felicity?
— Curiosidade, eu acho. – O olhou nos olhos. – Estava desconfortável, mas queria saber o final, queria saber se ele iria pagar pelo que fez. Eu sei que é apenas um filme, mas para mim...
— Eu entendo. – Diz após um tempo em silêncio.
— Mas foi um erro. Esse filme mexeu comigo, e de forma ruim, Oliver, e eu não imaginei que fosse acontecer, mesmo após eu ler a sinopse.
— Bobagem. Não tem porque se sentir assim, porque você também está livre do seu perseguidor, e agora está comigo. Está a salvo, e nada e nem ninguém pode te machucar.
A morena respirou fundo e soltou, bem devagar.
— Eu sei. – Diz bem devagar. – Eu sei. – Suspirou. – Eu só queria que esse tormento passasse. Quando acho que vou ficar bem, quando acho que os pesadelos passaram, que a angústia me deixou e que estou ficando menos tempo nos banhos, tudo volta, de novo e de novo, mais forte.
— O que a sua psicóloga disse sobre isso? – Pergunta, puxando-a para seus braços.
— Diz que é normal. Em algum momento isso tudo vai me deixar, mas que não é de uma hora para a outra, que eu devo me concentrar na luta de apenas um dia, e não dos próximos.
— Um dia de cada vez.
— Um dia de cada vez. – Repetiu.
— Então é isso, meu amor. – Beijou sua bochecha. – Pare de pensar na luta dos próximos dias e se concentre no hoje. É difícil, é angustiante, mas eu estou com você.
Ela apenas assentiu.
— E enquanto se sentir assim, por favor, não deixe de falar comigo.
— Prometo. – Murmurou, colando mais seu corpo ao dele.
— Mamãe?
Os olhos dos casais se focaram nas gêmeas, apesar de ter sido a mais parecida com Oliver quem havia se pronunciado.
— Sim, Amy?
— Nós também estamos aqui por você.
E Felicity não pode deixar de se emocionar; seus olhos até mesmo lacrimejaram.
— Não deu para não escutar. – A irmã completou. – Pelo menos um pouco, já que falavam tão baixinho...
E o pai sorriu ladino.
— Mas te amamos, e não gostamos quando está triste.
— Ou angustiada.
Ambas já estavam viradas para os pais, ainda sentadas sobre o tapete felpudo.
— Nós somos apenas crianças, é o que você e o papai dizem, e por isso não falam nada para nós, mas escutamos coisas.
— E vemos também. – April completa. – Só queremos que a mamãe saiba que pode contar comigo e com a Amy também.
A Smoak-Queen sorriu.
— Venham aqui. – Pede, erguendo o dedo indicador da mão direita, mexendo-o devagar, fazendo as meninas sorrirem, antes de se levantarem e sentarem uma de cada lado da amada mãe, sendo que Amily havia ficado entre ambos os pais. – Eu amo vocês. – Abraçou a ambas, bem apertado, beijado seus cabelos, puxando o marido também para aquele abraço familiar.
**--** **--**
Fazia algumas horas que Felicity dormia tranquila, o que era raro, já que ela vinha tendo novamente os malditos pesadelos. Ao seu lado, ainda acordado mesmo que passasse de meia noite, estava seu marido, que acariciava a barriga avantajada carinhosamente, por cima da camisola rosada na qual batia nos joelhos da mulher. Mesmo que tudo indicasse que ele não precisava se preocupar com ela, não conseguia deixar de fazê-lo, principalmente quando ela se angustiava cada vez mais naqueles sonhos nos quais a fazia se relembrar de tudo que passou com o Sheldon. Oliver queria poder apagar aquele horror da mente de sua amada, queria poder ajudá-la mais do que já o fazia, queria poder ter o poder de fazer com que aqueles pesadelos a deixassem em paz, mas infelizmente ele não tinha nem um e nem outro. Sua esposa tentava se manter forte, tentava a todo custo mostrar que estava tudo bem, quando não estava, para que não o preocupasse, mas ele a conhecia bem demais para saber quando deveria acreditar em suas palavras, e naquele dia, quando ela havia dito que ficaria bem com Thea e Roy e que ele deveria seguir para a empresa sem problemas, ele sabia ao olhar nos olhos esverdeados que não era a verdade. Ele queria poder ficar, queria poder deixar o que fosse para estar em casa com ela, passando a tranquilidade e a proteção que ela precisava, mas infelizmente não havia sido possível e por esse motivo que mal havia conseguido se concentrar no trabalho, por ficar pensando em como ela estaria.
Sua amada não sabia, mas havia ligado para a irmã uma hora após sua saída, perguntando sobre como ela estava, e havia descoberto, não muito surpreendente, que ela se encontrava em mais um banho. Sempre que não se encontrava em casa, mesmo que ela tenha a presença dos amigos, ela tinha suas crises e isso incluía o banho e os insistentes pesadelos; eles se tornavam mais recorrentes mesmo que durante o dia. Já havia conversado com sua esposa sobre, quando ela lhe confessou que sentia-se mal por sentir tudo mais intenso mesmo que tivesse seus amigos e irmãos para cuidá-la, principalmente porque parecia que não confiava em nenhum deles para protegê-la, e por descobrir que aquele sentimento estava atormentando-a, foi firme ao dizer que era bobagem e que nenhum dos amigos, o que incluía os irmãos, acreditavam naquilo, e que ela também não deveria; ela não conseguia conter seus sentimentos de tudo que passou e por isso não deveria colocar mais culpas e sentimentos ruins para dentro de si do que já tinha.
Ele se preocupava que isso fosse o que acarretou ao recomeço dos pesadelos, e se preocupava ainda mais com o fato de ela estar escondendo de si mais sentimentos sobre qualquer outra coisa que vêm atormentando-a.
Seus sentimentos pareceram chegar até seus filhos, pois eles começaram a se mexer de forma agitada, ainda mais do que quando a mãe ficava nervosa ou tinha os pesadelos e por isso se pôs a olhar para a amada, com medo de que aqueles movimentos a despertasse de seu sono tranquilo. Se aliviou quando nao aconteceu, e por perceber que os três bebês não parariam tão cedo, colocou a boca mais próxima da barriga de sua amada e se pôs a falar.
— O papai preocupou vocês, não é? – Sussurrou sem deixar de acariciar a barriga com os dedos de sua mão direita. – Eu sinto muito por isso, mas eu estou tão preocupado com a mamãe que não consigo conter. – Sentiu três chutes um atrás do outro e por isso levantou os olhos até o rosto de sua amada. – Eu sei que também se preocupam, baby’s, mas precisam se acalmar, para que a mamãe não desperte. Ela merece ter uma noite de sono tranquila, não concordam? – Sorriu ao sentir três chutes novamente, como em acordo. – Obrigado. – Sussurrou, já com os olhos sobre a barriga. – Estou tão ansioso pela chegada de vocês três, mal posso esperar ver se parecem comigo ou com a mamãe, ou se tem um pouco de nós dois. – Sorriu novamente, sendo levado á imaginação de cada detalhe de seus filhos. – Espero que tenham os olhos da mamãe. – Confessou para os bebês. – Mas não digam a ninguém, okay? – Sorriu ao sentir seus bebês chutarem novamente, dessa vez, bem mais leve que das outras vezes. – Sei que posso contar com a discrição de vocês.
Riu em seguida; era divertido ter aquela conversa com seus bebês; era como se eles realmente entendessem cada palavra dita a eles. Já havia ouvido falar sobre aquele tipo de conversa, e nunca acreditou que realmente acontecesse da forma como os papais que conhecia na época em que apenas namorava Sara diziam. Havia confessado que os achava estranho e que eles deveriam se preocupar por realmente pensarem que seus filhos o compreendiam ainda na barriga de suas esposas. E então pagou língua quando sua primeira esposa ficou grávida e consequentemente começou a falar com suas filhas. Era indescritível sentir cada gesto delas, mesmo que fossem apenas chutes agitados e incontroláveis, como se respondessem suas perguntas e conversas. E agora acontecia o mesmo com os trigêmeos. E era uma sensação tão maravilhosa quanto havia sido com as gêmeas.
E então Oliver percebeu que os bebês se aquietaram completamente, e por imaginar que fosse o fato de que agora seus pensamentos estavam mais tranquilos que sorriu ladino.
— Boa noite. – Sussurrou para seus filhos. – Amo vocês, baby’s.
Mesmo que tivesse passado algumas horas na empresa não estava nenhum pouco cansado; na verdade, não dormiria tão cedo e provavelmente acordaria tarde, mas como não trabalharia naquele dia e suas filhas também não teriam aula, não estava nenhum pouco preocupado. E por isso continuou fitando o belo rosto de sua amada, pedindo mentalmente para que aquele sono tranquilo, leve e relaxante pudesse durar toda a noite. Sua esposa merecia um sono como aquele depois de tantos dias tendo pesadelos angustiantes, merecia um pouco de paz, depois de dias sentindo aquela sensação de que estava novamente passando por aquele horror.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!E esperava que assim que a mulher que tanto amava se sentisse confortável, ela lhe dissesse o que mais a preocupava e a deixava angustiada, além daquelas terríveis lembranças com Cooper Sheldon.
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