Kupidon
79 Capítulo Cinquenta e Sete
Notas iniciais

Felicity abriu o chuveiro, entrando debaixo dele, passando as mãos nos cabelos, na intenção de molhá-los antes de jogar o shampoo. Com os olhos fechados, ela sentia a água quente cair em seu corpo, esquentando-a do tempo frio. Ela não sabia quanto tempo estaria sozinha, e por isso tentava relaxar ao máximo, o que não era fácil, estando na situação em que estava. Tremia de medo só de imaginar em ter a companhia de Cooper no banho, mais uma vez. Ela precisava daquele momento a sós, precisava de um momento no qual não estaria morrendo de medo, tremendo dos pés à cabeça, chorando incessantemente por ter as mãos dele por todo seu corpo. Suportar aquela situação estava impossível. Ao abrir os olhos, pode ver o corpo inteiro pelo vidro do box. Pôde ver as marcas, tanto as avermelhadas quanto as que começavam a se arroxear. Ela sentia dores por todo o corpo, só não sabia se era apenas por conta das marcas ou também por conta da tensão que estava passando. Se virou de costas, fixando os olhos na parede, enquanto terminava de enxaguar o cabelo. Queria poder se esquecer do lugar em que estava, de com quem estava, mas era impossível.
Quando acordou, a primeira coisa que sentiu foi a mão de Cooper em volta dela, e em seguida, os chutes dos bebês. Ela se encolheu por senti-lo ainda ao seu lado, fechou os olhos novamente, implorando para que ele não acordasse. Estava faminta, mas não o acordaria de jeito nenhum. Ela aproveitaria aquele momento de paz, aproveitaria para tomar um banho relaxante, já que não tinha um que lhe desse essa sensação gostosa desde que foi sequestrada. Mesmo temendo que ele acordasse, ela retirou o braço forte de cima de si, se sentou devagar e sem olhar para trás, se levantou, seguindo para o banho — não sem antes pegar uma roupa para poder se vestir sem que saísse do banheiro. Naquele momento, durante o banho, ela tentava se concentrar no sonho bom que teve com Oliver, mesmo que em seguida, o sonho se mostrou um verdadeiro pesadelo. Ela se negou a se lembrar da parte em que ele aparecia. Só o que a importava era os olhos azuis do homem que amava, o belo sorriso, o carinho que ele a fazia no rosto, a forma carinhosa e cuidadosa que ele a olhava, a forma como ele olhou para os bebês. Sim, ela estava sonhando com o nascimento dos três bebês. E estava tudo perfeito, até a imagem de Cooper aparecer em um dado momento, fazendo-a se assustar e acabar acordando de forma ofegante.
O corpo pequeno estremeceu de forma imediata, no momento em que ouviu a porta do box se abrir. Os olhos dela se fecharam no mesmo instante, temendo pelo que viria. Estava sendo tão bom ter aquele momento só dela, estava relaxada como não se sentia a tanto tempo, e tudo desabou no momento em que ouviu aquele som. Ela sabia que era ele, e teve a certeza quando sentiu as mãos rodeando sua cintura. Ela continuou de olhos fechados, implorando para que ele não a machucasse mais uma vez, e sabendo que ele não a deixaria tomar banho sozinha, ela pediu para que pelo menos ele não a tocasse como das outras vezes; o nojo que sentiu ao se lembrar fez seu estômago revirar. O corpo inteiro ficou tenso ao sentir os lábios dele tocar a pele exposta e molhada de seu pescoço, depois de jogar os cabelos para o lado direito de seus ombros. Ela quis chorar quando sentiu os beijos nojentos, quando sentiu as mãos “acariciarem” sua cintura e coxa.
Você acordou cedo. – Comentou, em sussurro, enquanto continuava com as “carícias”. – Deveria ter me acordado para te acompanhar. – Ela engoliu em seco. – É tão gostoso ficar assim, juntinho de você. – Ela tentou se afastar, mas ele não deixou. – Onde pensa que vai?
T-Terminei meu banho. – Gaguejou, mesmo que tivesse tentado não o fazer.
Mas eu só cheguei agora. – Ela queria dizer: E eu com isso?
Cooper... – Ela se soltou e ele franziu o cenho. – Eu já terminei meu banho.
Eu não perguntei se terminou. – Ela estremeceu com a forma que ele disse. – Você vai ficar aqui, comigo, até a hora que eu quiser. – Mais uma vez o corpo dela estremeceu quando ele a pressionou na parede. – Eu quero você. – Ela balançou a cabeça, já se desesperando. – Aqui, debaixo desse chuveiro.
Não.
O empurrou com força, fazendo o corpo dele bater contra o vidro do box, e mesmo com cuidado para não se machucar, ela correu para fora do banheiro. Ela sabia que ele se vingaria pelo que fez, mas ela não conseguiria suportar ser tocada mais uma vez por ele. Puxou a toalha, saindo do banheiro, fechando-a rapidamente antes de se enrolar e seguir para a porta de saído do quarto, mas ela não conseguiu chegar até ela, pois a mão forte de Cooper a puxou pelo braço direito, com força, fazendo o corpo dela bater contra o dele. A respiração dela estava irregular, o corpo tremia, e os olhos ameaçadores faziam com que ela temesse pelo que viria.
O que eu disse? – Ela ouve antes de sentir o rosto esquentar. – Você faz o que eu quero, quando eu quero, onde eu quero. – Outra bofetada, dessa vez, mais forte, fazendo-a cair no chão. Ela sentiu o gosto de ferrugem na boca, e tocou o machucado, com as mãos trêmulas. Ela o viu se abaixar diante dela. – Quando vai aprender a me ouvir e fazer o que eu digo?
Nunca. – Seus olhos faiscaram de raiva, por conta da bofetada que levou.
Você realmente precisa de uma lição, não é?
Vai fazer o que? Me bater? Usar de violência para me ter para você? – Ela não sabia de onde havia ganhado tanta coragem.
Controle-se. – Rosnou.
Vai para o inferno. – Gritou, já cansada de toda tortura em que estava passando. – Estou cansada de ter suas mãos me tocando, cansada de ter você perto de mim, cansada de ouvir você me chamando de amor. Eu não sou seu amor. – Gritou a última frase. – Eu tenho nojo de você, seus beijos me dão vontade de vomi... – Ela não pode terminar, pois a próxima bofetada a interrompeu. No instante seguinte, ela o cuspiu. Cooper passou a mão no rosto e a olhou de forma furiosa.
Não..., faça mais isso. – Avisa. – Para o seu bem e dos fetos que você carrega... – Apertou a mão direita no rosto dela, machucando-a. – Nunca mais faça isso.
Suas ameaças já estão me cansando. – Rosnou, tentando fazê-lo soltar seu rosto. – Você não vai fazer nada a eles, porque precisa deles para me controlar. – Ela o viu trincar os dentes. – Você é só um maldito, desgraçado, que não tem mais o que fazer da vida a não ser me infernizar.
Cala a boca, Felicity. – Ele a soltou de forma brusca, mas ela não se importou, por mais que sentisse dor, e que sentisse o sangue na boca.
Não vou me calar. – Volta a gritar. – Você fez com meu corpo o que queria, não é? O violou de todas as formas mais nojentas, sem escrúpulo algum...
Que se dane. – Gritou, depois de dar mais uma bofetada, na qual a fez quase voltar para o chão. – Você é minha de qualquer forma. Faço com você o que eu quiser. – Volta a repetir, ainda gritando, empurrando-a em direção a parede, fazendo-a arfar de dor.
Isso é o que todo violador faz. Isso é crime, se você não sabe. Matou minha mãe, quase matou Oliver...
Não diz o nome desse desgraçado. – A interrompeu, rosnando.
Quase matou minhas filhas... – Continuou. – Ameaçou três crianças, me sequestrou... – A mão fechada em punho batendo contra a parede de forma brusca a fez se calar enquanto fechava os olhos.
Deveria ter matado cada um deles. – Ela abriu os olhos ao ouvir a voz dele.
Você é louco. E não pode controlar a vida das pessoas.
Eu posso sim! – Ela engoliu em seco com a forma bruta que ele a respondeu. – Eu posso e eu fiz. – Rosnou. – Eu fui bonzinho demais até agora, Felicity...
O que vai fazer? – Perguntou ao vê-lo se afastando.
Vai ficar o dia todo sem se alimentar. – Ela arregalou os olhos ao vê-lo caminhar até a porta.
Cooper... – Ele a olhou da porta.
Sem água, sem comida, até amanhã à tarde.
O que? – A voz dela quase não saiu.
E se você perder esses malditos que tem o sangue daquele puto..., vai ser um bônus. – Fechou a porta em um baque, trancando-a por fora.
Felicity sabia que não deveria ficar sem se alimentar, e sabia que ao falar tudo que falou ocasionaria na fúria de Cooper, mas não se arrependia, por mais que estivesse faminta. Seu corpo desabou no chão. Ela estava aliviada por não o ver pelo resto do dia, mas estava preocupada como que poderia acontecer com seus filhos. Pelo menos ela teria a pia. Não se importaria de beber daquela água, pelo menos dessa forma, não ficaria desidratada, ou passaria mal, então ela aguentaria. Ela suportou aquele homem por todos aqueles dias, então suportaria ficar sem comida por um dia e meio. Ela era forte.
Por favor, sejam fortes também, okay? – Pediu, com ambas as mãos na barriga, sentindo os chutes em seguida. Ela sorriu. – Nós vamos conseguir. E logo-logo estaremos com o papai.
**--**
Felicity acordou sentindo mãos acariciando seu corpo e lábios beijando seu pescoço. Por acabar de acordar, ela ficou confusa, mas não demorou ao se lembrar de onde estava e quem era a pessoa que a acariciava. Por estar de lado e com um dos braços de Cooper apertando-a contra o tronco dele, ela não pode se afastar de imediato. Começou a se debater nos braços dele, mas ele não se importou. Ele a virou, surpreendendo-a, mas antes que ela pudesse dizer uma palavra, a mão livre pousou sobre a boca dela. Ela podia ouvir a própria respiração desesperada. Tentava afastá-lo, mas ele era mais forte. Fechou os olhos, deixando as lágrimas descerem pelo rosto alvo. Não, não, não, ela pensava em aflição. Como todas as outras vezes em que havia sido violentado por aquele homem, ela usava toda força que tinha — mesmo que pouca, mesmo que não fizesse efeito — para afastá-lo. Ela se angustiava por estar passando por tal situação, se desesperava por saber que ele não ouviria seu pedido, chorava em desesperança, por saber que ele continuaria machucando-a, violentando-a, não importando com seus gritos e lamentos, o sentimento de amargura também passava por ela, enquanto era violada brutalmente.
Os beijos no pescoço eram tão ferozes quanto os apertos da mão grande na coxa esquerda. Ele não estava se importando com a forma que a machucava, a marcava, como todas as outras vezes, e isso a deixava tão irritada quanto amedrontada. Chorava em desanimo, em irritação, em amargura, em apavoramento. Eram tantas sensações que ela sentia naquele momento. Ela estava sonhando com o marido, sonhando com as filhas, e então tudo foi apagado, destruído, jogado para o fundo do poço, quando percebeu que era tudo fruto de sua imaginação. Pareceu ser tão real, por um momento, ela estava tão feliz. Chorava por não ter certeza de quanto tempo teria que passar por aquela maldição.
O susto que levou ao perceber que ele rasgava suas roupas, a fez abrir os olhos de imediato. A mão já não estava sobre a boca dela, a mão que a “acariciava”, já não tocava seu corpo como antes. Ela estava quase completamente nua. E não demorou, para seu desespero, para vê-lo rasgar a única peça que faltava, enquanto a olhava de forma maliciosa. Ela engoliu em seco, percebendo o que o não conseguiu perceber antes, por conta do pavor que foi acordar sentindo as mãos daquele homem sobre si; Cooper estava completamente nu. Ela estremeceu, a respiração começou a se tornar anormal, era como se ela não conseguisse puxar o ar para os pulmões, de tamanho medo que sentia. O corpo dele em cima do seu, o sorriso malicioso, a voz dele dizendo “o quanto a amava, o quanto ela era linda, o quanto o corpo dela era delicioso”, enquanto voltava a tocava, e tudo que ela fazia era pedir, implorar, para que ele não fizesse o que estava prestes a fazer. Como todas as outras vezes, não adiantou, mas ela não parou. Ela não conseguia parar. Parar, para ela, era como se estivesse consentindo tal violação. Mas seu corpo já se tornava fraco, já não tinha mais forças para gritar — Mesmo que a mão dele tivesse voltado a tampar sua boca –, já não tinha mais forças para lutar contra aquela ação brutal.
Deliciosa. – Repete várias vezes, enquanto beijava o pescoço, descendo pelo colo, seios e barriga, fazendo esse mesmo trajeto por algumas vezes, enquanto repetia a mesma palavra. – Como sentia falta de tê-la assim... – Ele apertou mais a mão contra a boca dela. – Eu ouço seus gemidos, amor. – Gemeu depois de voltar a se pronunciar. Felicity balança a cabeça, querendo dizer que ele estava louco, mas não conseguiu fazê-lo. – Eu quero sentir seu toque. – Ela arregalou os olhos quando ele usou a mão livre para levar a mão dela até seu membro. Não sabendo de onde havia criado forças, ela puxou a mão da dele e o empurrou com ambas, fazendo-o soltar sua boca e se afastar consideravelmente de seu corpo.
Não. – Praticamente gritou. – Não vou te tocar. – Ele trincou os dentes, olhando de forma furiosa. – Você não pode me obrigar.
Eu posso. – Puxou a mão dela com brutalidade, fazendo-a gemer baixinho. – Eu posso o que quiser. Eu mando e você obedece. – Fechou os olhos, fazendo-a massagear o próprio membro, e Felicity sentiu nojo. – É tão gostoso. – Abriu os olhos devagar. – Eu fico deliciado por saber que vou ter seu corpo para mim pelo resto da minha vida. Vai ser minha, para sempre. – Gemeu a última palavra, voltando a beijar o pescoço exposto. – Sentir esse cheiro para sempre, sentir o gosto dessa pele, sentindo essa gostosa sensação que me faz... – Ele parou de falar, gemendo, dessa vez de dor. Felicity havia cravado a unha no membro dele, com força. – Desgraçada. – As mãos dele se direcionaram a cintura não tão fina, por conta da gravidez, apertando com força. E foi a vez de ela gemer de dor.
Eu te odeio. – Ele a olhou nos olhos. – Tenho nojo de você. – A bofetada que veio em seguida não foi uma surpresa para Felicity. Ela sabia que no momento em que dissesse o que estava segurando desde que ele começou com as carícias, poderia ser castigada.
Nojo. Nunca mais repita essa palavra. – Rosnou.
É o menor dos sentimentos que sinto por você nesse momento.
Mesmo? – Pegou nos cabelos dela com força, puxando-os, fazendo-a gemer mais alto que da última vez. – Desde que chegou só o que tem feito foi me deixar irritado. Não me toca, não me beija, não me ama..., não me respeita.
Nunca vai ganhar nenhuma dessas coisas de mim.
Ah, eu vou sim... – Aproximou o rosto do dela, mordendo o lábio dela com fúria. Ela fechou os olhos, sentindo o gosto de sangue. – Eu sei que vou, de alguma forma. – As mãos começaram a apertar os seios dela de forma furiosa, fazendo-a gemer de dor, encolhida nos braços dele, sem conseguir conter o medo que sentia do que ele faria em instantes. – Vou conseguir cada uma dessas coisas. Quer saber como? – As mãos desceram até a as coxas fartas, onde apertou. – Pelo medo. – Ela tremeu dos pés à cabeça, da forma que ele disse. – Eu sei que me teme..., e por mais que isso às vezes me irrite... – Sorriu de forma diabólica. – Isso também me diverte. Me excita. – Riu, enquanto apertava as mãos contra as coxas vez ou outra. Ela não conseguiu conter um soluço. Era a verdade. Por mais que ela o retrucasse, por mais que tentasse ser forte, ser audaciosa, replicar tudo que ele dizia, ela tinha pavor daquele homem. Do que ele poderia fazer com ela, com seus filhos, com seus sobrinhos.
E você diz que me ama. – Não consegue segurar.
Ah, eu amo. Mas meu amor é diferente. Eu tentei te mostrar de um jeito e você não aceitou... – Apertou as coxas com força, fazendo-a reprimir um gemido, mas que ao fechar os olhos, fez com que as lágrimas que haviam se juntado nos olhos, descessem pelo rosto pálido. – Então mostrarei do pior jeito. E você me amando ou não, gostando ou não..., você vai ser minha pelo resto de nossas vidas. Vou ter você quando eu quiser, na hora em que eu quiser... – Mordeu o pescoço com força, deixando a marca e Felicity gritou de dor. – E seus gritos só me darão mais excitação na hora de te foder... – Ela já não conseguia segurar as lágrimas, que agora caiam como cascatas. – Bem gostoso.
E no instante seguinte, Felicity grudou as mãos nos lençóis, fazendo nós nos dedos ao mesmo tempo em que gritou tão alto, que imaginou que havia sido ouvida por toda aquela casa, ao sentir o membro dele adentrar de forma brutal para dentro de sua cavidade. Os beijos dele eram ásperos, ferozes, violentos. Deixava marcas por todo o corpo, sem pensar na dor que estava causando a mulher abaixo dele, que já não tinha mais forças para se debater, para tentar fazê-lo parar, para gritar. Ela estava completamente inerte sobre aquela cama, os soluços eram ouvidos por ele, as lágrimas continuavam a descer, mas os olhos dela estavam opacos. Era como se não tivessem mais “vida”. Ela só pedia para acabar de uma vez, enquanto o ouvia dizer que “ela era dele” enquanto a estocava com brutalidade. Ela não conseguiu definir quando apagou, mas soube que aconteceu quando já não sentiu mais nenhuma dor.
Quando acordou, ele já não estava no quarto, e ela suspirou em alívio. Seu corpo estava completamente dolorido. Olhou para o próprio e percebeu as marcas, umas piores que as outras. Seu sexo parecia queimar, e ela sentia muita dor naquela região. Ele tinha sido mais bruto que nas outras vezes, ela percebeu. Se sentou de vagar, olhando ao redor. Teve de fechar os olhos ao sentir a vertigem. Suas mãos estavam apoiadas no colchão enquanto ela esperava a vertigem passar. Começou a controlar a respiração, tentando melhorar de uma vez. Ela não sabia como, mas daria um jeito de encontrar uma saída. Pelo bem dos filhos. Ela abriu os olhos de forma imediata ao se lembrar dos três. Colocou a mão na barriga, e pela primeira vez não os sentiu chutar.
Meus amores? — Chamou. – Filhos? – A voz embargou, quando continuaram sem chutar. – Por favor, por favor, chutem pra mamãe. – Os olhos lacrimejaram. – Me diz que estão bem? – Chorou ao não sentir nada. Fechou os olhos, com medo. Os braços envolveram as pernas, o rosto se escondeu entre os joelhos unidos. – Eu não posso..., não posso ter perdido vocês. – Ela respirou fundo, levantou a cabeça, e se arrumou na cama de um modo que pudesse ver o próprio sexo. Havia um pouco de sangue e isso a fez tremer por inteira. – Não, eu não aceito. – Ela se levantou, rapidamente. – Não aceito isso. – Colocou a mão na barriga. – Eu sinto que ainda estão aí..., só muito temerosos para se mexer. – Ficou séria. – Vou encontrar uma maneira de nos tirar desse lugar...
Andou até a porta, abrindo-a devagar. Olhou em volta e não encontrou ninguém. Ótimo, ela pensou, enquanto começou a andar para fora do quarto. Tinha pouco tempo, afinal, não sabia quando Cooper a procuraria. Ele ficaria furiosos por ela não estar no quarto. Chegou a sala de jantar, e novamente, de forma cuidadosa, cautelosa, e muito, muito temerosa, ela voltou a olhar em volta. Ninguém. Não havia ninguém ali, então era a chance de ela procurar por uma chave ou qualquer outra coisa que pudesse ajudá-la a voltar para casa. Um celular já ajudaria bastante, ela pensou, enquanto olhava nas gavetas e em cada porta de armário. Talheres, copos, pratos, mais copos, ela dizia mentalmente, para si mesma, observando cada armário de forma minuciosa. Ao abrir uma das gavetas, suas mãos tremeram por um momento, mas seus olhos não deixaram aquele objeto nem por um segundo. Sem pensar muito no que fazer, ela pegou o objeto que estava na gaveta, arrumando entre a mão, sem tirar os olhos dela.
Minha única saída é essa. – Sussurrou. – E eu vou usá-la para nos tirar daqui. – Diz para os filhos. – Por vocês, sou capaz de qualquer coisa. – Ficou mais séria do que já estava. – Mesmo que eu tenha que matar Cooper.
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Oliver abria cada porta daquele corredor a procura da esposa. A equipe que agora estava completa, já que o antigo-chefe estava também naquela missão, havia se espalhado pela casa. Assim que entraram, se encontraram com alguns dos capangas de Cooper, mas nada que não pudessem resolver, sem chamar atenção, claro. Queriam pegar todos os outros, inclusive Cooper e o traidor de surpresa. Mas isso não queria dizer que havia sido fácil. Eles estavam todos armados, e a grande maioria lutava bem demais para a surpresa dos agentes. Oliver, mesmo sabendo que ouviria um sermão mais tarde, se separou do grupo em que estava no instante em que se livraram dos primeiros homens que encontraram na entrada daquele mausoléu. Mike só percebeu quando já era tarde demais, e tanto ele quanto o ex-chefe bufaram em desgosto. Eles esperavam que o Queen não fosse interceptado por ninguém, já que tudo que ele queria, era encontrar a esposa e se vingar de Cooper.
Abriu uma das portas e seus olhos se arregalaram. Primeiramente, Oliver ficou abismado, depois, o sentimento mudou para revolta e em seguida, ficou completamente e absolutamente possesso. Não conseguiu conter o trincar dos dentes, imaginando o horror da esposa ao ver aquele quarto, seus punhos se fecharam, com força, imaginando seu desespero, seu temor, e por último, deixou escapar um rosnado de ira e fúria de seus lábios, imaginando a esposa sofrendo todo tipo de abuso no quarto tão idêntico ao que era deles no apartamento em que moraram por tanto tempo. Apesar de sua irmãzinha contar sobre aquela barbaridade, apesar de ouvi-la contar que o quarto tinha todos os detalhes do que tinham no apartamento, ouvir não era um terço do que era ver. O sentimento também era outro. Era muito maior, muito mais forte.
A vontade que sentia de pôr as mãos no maldito, de matá-lo ele mesmo, só cresceu ao ver aquele horror, ao pensar no quanto a esposa deveria ter sofrido, se angustiado, se machucado, estando aquele lugar, estando nas mãos daquele homem – se é que podiam chamá-lo assim. E então ele sentiu o sentimento de inutilidade, de impotência o abateu com muito mais força por pensar, imaginar, presumir, o que a esposa passou naqueles dez dias com Cooper Sheldon. Ela havia passado por um inferno, disso ele tinha certeza. A mulher de sua vida, foi mais uma vez marcada – e não é fisicamente –, por aquele “homem”, e ele não pôde fazer nada para impedir. Ele, o marido, o que prometeu protegê-la, o que prometeu jamais deixar que o ser que a fazia ter pesadelos, voltar a tocá-la. Ele não conseguiu cumprir suas promessas. Não a deixou protegida, não impediu que Cooper a levasse, não impediu que ela sofresse mais uma vez toda a violência e o abuso que sofreu.
Ao se virar pela porta, completamente irado, encontrou o “homem” culpado de fazê-lo passar por um inferno naqueles dez dias, o culpado de fazer suas filhas e sobrinhos terem pesadelos, o culpado de transformar a vida de sua amada esposa mais uma vez em um verdadeiro tormento. O “homem” que Oliver queria pôr as mãos desde que soube da história de Felicity. Seu corpo tremia, suas mãos suavam, seus olhos faiscavam. Ele não conseguia conter o ódio, a fúria, a aversão, a hostilidade, o nojo, a repulsa. Eram tantos sentimentos ruins que ele nem mesmo conseguia definir o mais forte naquele momento em que seus olhos estavam fixos nos do outro. Só o que sabia, era que o faria sofrer como a mulher que amava sofreu.
O que você faz aqui? – Rosnou, palavra por palavra, devagar, depois de passada a surpresa por ver Oliver Queen a sua frente.
Surpreso por me ver? — Provoca apesar de estar tremendo de forma raivosa. — Eu vim buscar a minha mulher. — O outro trincou os dentes, fechando as mãos em punhos.
Isso se eu deixar. — Retrucou.
E o que você vai fazer? Hein, seu desgraçado? — Altera ao falar a última palavra, não se intimidando com o modo como o outro se comportava. Oliver sentiu o sangue esquentar, a respiração alterar e as mãos suarem em expectativa pelo que estava prestes a fazer.
Talvez eu mate os bebês que ela espera. — Diz de forma maldosa, se aproximando do Queen que estava no meio do quarto. Oliver trincou os dentes ao ouvi-lo ameaçar seus filhos. — é o que eu mais quero, e não compreendo como ainda não o fiz.
Que bom que falou em morte... — Não esperou um segundo para se pronunciar em um rosnado.
Ah é, por que? — Debochou, mostrando um sorriso sádico.
Porque eu vou te matar!
No instante seguinte Oliver estava em cima de Cooper, socando-o várias vezes no rosto, com toda a força que tinha, querendo fazê-lo pagar por todas as coisas que a esposa passou não só naqueles dez dias em que ficou à mercê dele, mas por todos os outros anos em que ele a infernizou, ameaçou, a apavorou. Queria que ele sangrasse, que ele sentisse dor jamais sentida antes, que ele sentisse na pele tudo o que fez com a mulher que amava. Ele era movido pela raiva, pelo ódio, pela amargura, pelo sentimento de impotência que sentia por deixar a esposa ser levada pelo homem abaixo dele. Eram vários sentimentos que o tomava, ao mesmo tempo. Oliver o queria implorando pela própria vida, enquanto o desfigurava completamente. E era só por esse motivo que ainda não havia atirado nele ainda. A fúria que sentia era transmitida por seus punhos. Não queria parar de surrá-lo, de tirar sangue daquele rosto que fazia Felicity ter pesadelos. E por estar cego de ódio, ele não percebeu o “homem” abaixo dele não se importar com o que ele fazia. Ele sorria de forma provocativa, não se debatia, ou pedia para ele parar, não se importava com a dor que era causada pelos vários socos que levava no rosto. Oliver xingava-o enquanto o surrava. Ele trocava de mão durante os golpes contra o rosto de Cooper, e por isso ambas estavam machucadas, por conta da força que usava para surrá-lo. Mesmo vendo o sangue, ele não parou, nem por um segundo. Queria que ele sofresse. Seus dentes trincaram voltando a imaginar o inferno que a esposa passou, e por isso não viu o momento em que pegou a faca explorer invictus que estava presa a sua cintura, levando-a ao abdômen do homem que estava abaixo de si, ouvindo gemer alto de dor. Aquele som fez Oliver sorrir, e querendo ouvir mais sons como aquele, empurrou a faca mais a fundo, lentamente, fazendo o outro perder o ar por um momento.
Isso não é um terço da dor que ela sentiu.
Rosnou, enquanto retirava a faca de uma vez, ouvindo o respirar anormal do outro. No instante seguinte, empurrou a faca, de uma só vez, com força, na região da costela, girando-a, duas vezes, antes de empurrar até chegar ao fim da lâmina, ouvindo o outro gritar um “filho da puta” em rosnado. Oliver levou o punho direito em direção ao rosto dele novamente, várias e várias vezes, enquanto que a outra mão continuava no cabo da faca, apertando-a vez ou outra, enquanto o surrava, deixando todo o ódio que sentia passar pelos punhos. Depois de vários golpes, um provável nariz quebrado, um olho completamente roxo e vários hematomas, além do sangue em seu rosto e abdomen, Cooper conseguiu empurrar Oliver com um dos pés, afastando-o de cima de si, jogando-o a alguns passos dele com certa força, dando um sorrisinho macabro, enquanto se colocava de pé, com a mão no local onde havia tirado a faca pouco antes de se levantar.
Minha vez.
Cooper.
Ele se virou de forma imediata ao ouvir aquela voz. A voz da mulher que ele havia deixado no quarto a alguns minutos e que por algum motivo já não estava mais. Oliver, que se sentava, fez o mesmo. Haviam sido tantos dias sem ouvir aquela voz, sem ver aqueles olhos, mas não pode sentir a emoção completa por vê-la completamente diferente do que veria normalmente. Ambos os homens arregalaram os olhos ao vê-la séria, compenetrada, olhando para Cooper de forma severa, com uma arma nas mãos, na qual era apontada na direção do homem que a violentou por todos aqueles dez dias — tempo esse que ela não fazia ideia. Felicity não tremia, não sentia medo por estar apontando aquela arma para aquele homem, nem mesmo sentia que se arrependeria, ou que em algum momento vacilaria. Não. Ela sentia que era o certo a se fazer. Que ela precisava fazer aquilo para poder viver em paz, ser feliz com sua família, para que todos que amava, inclusive os bebês que nem mesmo havia nascido ainda, não estivessem em perigo a cada ação feita por aquela pessoa. Havia um motivo para ela ter pedido ser treinada pelos agentes, e era para se proteger e proteger os que amava. Oliver e Cooper não esperavam vê-la tão determinada com a arma em mãos, principalmente o primeiro, apesar de se lembrar das aulas de tiro. Não achou que um dia ela precisaria usar o que aprendeu com os agentes, ou que ela teria coragem de atirar contra outra pessoa, mesmo que ela fosse quem a fazia viver um completo tormento.
Você não vai querer fazer isso, meu amor. — Oliver não conseguiu conter a irritação ao ouvir aquele homem chamar sua esposa daquela forma.
Não. Você não me conhece. — Ela deu dois passos para dentro do quarto. — Não sabe do que eu sou capaz.
Eu sei que armas de fogo não deveriam estar em mãos tão delicadas como as suas, Felicity.
Você acha que isso é uma brincadeira. – Ela gritou, revoltada. – Acha que não teria coragem de atirar? – Ela balançou a cabeça. – Eu quero fazer isso. Eu desejo isso a tanto tempo que você não faz ideia. Sinto esse desejo desde a primeira vez na qual me sequestrou.
Eu te fiz mulher. — Oliver estremeceu de forma raivosa. — Eu te dei todo o amor que eu podia dar alguém.
Amor? Amor?! – Ela tremia agora, mas não era por medo de estar segurando a arma de fogo nas mãos, era por ouvir tal expressão vinda do homem que causou calafrios nela por tantos anos, que a violentou tantas vezes que ela havia perdido a conta. – Você nunca me amou. Você não sabe o que é amar, não sabe o que é esse sentimento tão grande e tão lindo, que faz as pessoas se sentirem realizadas. O que você deu a mim não foi amor..., foi nojo, asco, repulsa, horror. – Ele trincou os dentes, dando um passo para frente o que fez Oliver o seguir, temendo pelo que ele poderia fazer a Felicity. – Se der mais um passo, eu juro que atiro em sua cabeça, e acredite, eu não vou errar. – Oliver tinha certeza disso. Mike e Gregory haviam dito que ela realmente tinha uma mira espetacular.
Se tivesse coragem, já teria feito.
Ao ouvir aquela frase debochada e provocativa, Felicity começou a se lembrar de tudo que passou nas mãos daquele homem. Se lembrou da morte de sua mãe, se lembrou da perseguição de carro, na qual suas filhas poderiam ter sido machucadas seriamente, se lembrou da forma cruel na qual sua irmã e seu cunhado foram encontrados por ela, se lembrou da tentativa de assassinato contra o homem que ela amava, se lembrou dos abusos, cada um deles, inclusive os últimos. Ela se lembrou do quanto sofreu, não só fisicamente, mas emocionalmente, e por esse motivo a respiração dela se tornou descontrolada, completamente ofegante – era possível ouvir por todo o cômodo –, o peito dela subia e descia de forma irregular, o corpo dela tremia completamente – apesar de ela continuar segurando a arma com segurança –, e então, para a surpresa dos dois homens, ela atirou.
Cooper caiu no chão em um baque, não conseguia respirar, seus olhos começavam a se fechar, lentamente, enquanto a mão se dirigia até o peito. Ele realmente não acreditava que ela faria tal coisa. Dirigiu os olhos até ela, que continuava impassível, não demonstrando nenhum resquício de arrependimento, e então seus olhos se fecharam. Oliver, que estava a poucos passos atrás do homem, desviou os olhos dele para a esposa, que abaixava a arma. Ele estava totalmente surpreso, tanto, que não conseguiu dar um passo até ela, mesmo sentindo saudades de tê-la em seus braços. Percebeu o mesmo que Cooper; a esposa não tinha resquício de arrependimento, não olhava para a arma, sem acreditar que havia feito mesmo tal ação. De repente os olhos dele se arregalaram ao perceber o corpo com uma barriga grande demais para o corpo pequeno, começar a tombar para o lado, fechando os olhos claros, lentamente. Ele não pensou duas vezes antes de correr até ela, pulando o corpo de Cooper, segurando-a segundos antes de a esposa grávida desmaiar, sentindo seu coração bater rápido demais por conta da preocupação, do medo, da agonia que sentia, por vê-la excessivamente pálida e inconsciente em seus braços.
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