Kupidon
66 Capítulo Quarenta e Quatro
Notas iniciais

Felicity não saiu do quarto desde a briga. Não comeu nada. Não conseguiu, não depois do que houve. Seu estômago só piorou. Tentaram fazê-la comer, mas não conseguiram. Tentaram falar com ela, mas também não conseguiram. Ela só queria que tudo aquilo passasse. Só queria tudo ficasse bem. Que Cooper saísse de sua vida, para sempre. Ela sabia que os amigos estavam certos em dizer que ela não deveria ter escondido o mal-estar de ninguém, em especial de Oliver, mas ela só estava fazendo aquilo para o bem dele. Ninguém parecia entendê-la. Será que Tommy também iria lhe dar um sermão? Ou seu pai? Ela se perguntava se eles ficariam tão chateados quanto seu marido e amigos ficaram. Ela queria ficar sozinha, e por isso não saiu do quarto. Não queria ver ninguém, mas também não trancou a porta para que ninguém ficasse preocupado, já bastava o que tinha acontecido mais cedo. Ela tentou comer o que Laurel levou pouco mais cedo, mas seu estômago não aceitou. Ela tentou dormir, mas não conseguiu. As gêmeas dormiam, e não queria acordá-las e só por isso não estava com suas filhas. Apenas elas poderiam ajudá-la. Elas a ajudaram quando sua mãe faleceu, e ficou no luto por tantos meses. Elas eram sua razão de viver. Elas e Oliver eram tudo para ela. Seus amigos e família também, mas era diferente. Felicity teve seus pensamentos interrompidos ao ouvir o som da porta se abrindo. Como estava de costas para ela, não pôde ver quem era. Ela prestou atenção. Os passos eram calmos, e se não estivesse errada, não era de um adulto. Piscou algumas vezes e se virou, encontrando os olhos tão parecidos com os de Laurel.
Tia. — Ela ouviu a voz infantil, que estava um pouco acanhado.
Pode se aproximar. – Ele o fez rapidamente, subindo na cama, e se colocando debaixo das cobertas. – Não devia estar dormindo?
Não estou com sono.
E suas primas?
Elas não dormiram bem de manhã, e por isso estão dormindo até agora. – Felicity franziu o cenho. – Mamãe deu soninho.
Entendo. E por que não foi para o quarto dos seus pais? – Ele desviou os olhos.
A tia estava gritando mais cedo. – Felicity suspirou. Ótimo, assustei meu sobrinho, pensou. – Está triste, tia? – Ela se surpreendeu com a pergunta. – Por isso gritou?
Mais ou menos isso. Não se preocupe, vou ficar bem.
Tia..., posso fazer uma pergunta?
Claro.
Por que tem medo? – Mais uma vez ela se surpreendeu. – Eu ouvi a tia dizer que sua vida é uma montanha russa, e que tem alguém te colocando medo. – Desviou os olhos. – Pelo menos foi isso que eu entendi. – Ela suspirou. O sobrinho tinha ouvido seu desabafo.
Eu passei por algumas coisas ruins, Lyon. – Ainda estou passando, ela pensou. – Eu não tive uma vida fácil, entende? E eu sinto que tudo está desmoronando.
Como assim? – Ela não estava acreditando que estava falando sobre aquilo para uma criança. – Você tem o tio Ollie. Então não precisa ter medo. – Ela sorriu fraco.
Quando você for um pouco maior..., vai ficar sabendo de tudo. E então vai compreender minha forma de agir.
Estava irritada com o papai e a mamãe. Gritou com eles.
Eu estava desabafando. Entende? – Ele assentiu. – Ás vezes as pessoas fazem isso de forma brusca. Como eu fiz mais cedo.
Tudo bem, tia Lissy. Eu entendo. – Felicity deu um sorriso fraco, e Lyon percebeu que não era de todo verdadeiro. — Não fica triste não, tia Lissy. – A abraçou, e Felicity sentiu uma vontade súbita de chorar. Mais uma vez. – Vai ficar tudo bem.
Eu queria poder acreditar nisso. – Sussurra, devolvendo o abraço.
Eu te amo, tia Lissy. Todo mundo te ama, tá? – Felicity deixou que as lágrimas descessem pelo rosto. – Pode chorar se quiser, tá tudo bem.
**--**
Barry acordou, e não encontrou Lyon no quarto. Estranhou, e foi procurar pelo filho. Lyon não era de acordar cedo, e muito menos de sumir daquela forma. Quando acontecia de ele perder o sono, ele corria para sua cama. Naquele dia ele não tinha feito aquilo. Procurou por toda a casa, e nada. Sua esposa acordou minutos depois, e se preocupou. O único lugar que não haviam procurado tinha sido o quarto de Felicity. Eles não imaginaram que o filho correria para os braços da tia. O fato é que ele não tinha corrido para os braços da tia para ser protegido, e sim o contrário. Ele queria cuidar da tia. Ficaram surpresos ao encontrar o menino abraçado á tia. Dormia tranquilo; ele e Felicity. Fecharam a porta devagar, e deixou tia e sobrinho descarem, afinal, eles sabiam que a loira não estava muito bem no dia anterior. Laurel tinha percebido que ela mal tinha tocado no jantar, e isso a preocupou.
Barry tinha falado com Oliver depois da conversa que teve com Felicity. Eles exageraram. Todos eles, inclusive Oliver, apesar de ele ter uma certa razão. Ela estava passando por coisas muito pesadas. Tinha coisas demais acontecendo na vida dela, e tudo isso estava afetando não só o corpo, como a mente dela. E isso era preocupante. Oliver tinha que ter todo o cuidado com ela; ele e os amigos. Helena, que também havia dormido lá naquele dia, pela amiga loira, acordou e viu as gêmeas e Killian entrando no quarto de Felicity. Ela teria impedido, se já não fosse tarde demais. Seus gêmeos dormiam quando passou no quarto para vê-los. Quando chegou á cozinha e encontrou os amigos e o noivo, soube que Lyon havia dormido com Felicity. Ela se perguntava o que as crianças poderiam fazer por sua amiga. Felicity tinha acabado de acordar quando viu Lyon correr do banheiro para sua cama. Ele se colocou debaixo da coberta, e ficou quietinho ali. Ela voltou a fechar os olhos, e acabou por dormir novamente.
Lyon percebeu o estado da tia. Crianças eram sensíveis demais. E assim como ele, os primos também perceberam quando entraram no quarto. Amily e April perceberam, ao olhar no rosto da mãe, que ela havia chorado, e isso as preocupou. Baixinho, sem querer acordar a tia, Lyon explicou o que tinha entendido e ouvido no dia anterior. Eles eram crianças, mas eram mais espertas do que qualquer adulto poderia imaginar. Eles não entendiam algumas coisas, como do que Felicity tinha medo, mas entendiam que ela precisava de ajuda, e carinho; em especial a segunda. Devagar, eles saíram do quarto com algo em mente. Tinha ouvido sua mãe dizer na tarde anterior, que sua tia não estava comendo bem, por isso teve a ideia de pedir o café-da-manhã para seus pais, e ele juntos das primas e Killian, levar para a tia. Ao chegarem na cozinha, e explicarem os planos deles, Laurel e Helena prepararam junto das crianças, uma bandeja com coisas que a amiga gostava, achando que aquilo poderia dar certo. Da primeira vez, as gêmeas tinham ajudado a mãe, por que não poderia acontecer o mesmo dessa vez? Lyon pegou a bandeja e seguiu junto dos primos para o segundo andar, entrando no quarto onde a tia dormia. Eles a encontraram ainda na cama. As quatro crianças subiram na cama, fazendo com que Felicity acordasse, achando estranho o som no quarto.
Mamãe. – Ela pisca algumas vezes, e encontra seus sobrinhos e suas filhas.
O que fazem acordados a essa hora?
Tia, já são 10h. – Killian responde. – Está quase na hora do almoço. – Felicity franze o cenho.
Parece que não são nem 7h. – As crianças se olharam.
Sabe, mamãe..., a gente te trouxe uma coisa... – April começa.
É. Uma surpresa.
Agente não fez, mas..., ajudou..., um pouco. – Lyon diz, entre paradas, afinal não era de todo verdade. As quatro crianças sorriram, e Felicity não pôde deixar de sorrir, enquanto se sentava.
É? E o que é? – Killian apontou para a bandeja que ela não tinha percebido em cima da cama. – Oh.
Café-da-manhã na cama, mamãe.
Só a gente. – Lyon completa depois de Amily.
Olha, tem tudo que a mamãe gosta.
Até a panqueca de chocolate que o meu pai faz.
E o meu pai fez a calda de framboesa. – Killian aponta para a calda. – É a melhor, na minha opinião.
Parece estar delicioso.
Então come, tia Lissy.
Mas deixa pra gente, tá, tia? – Ela não pôde deixar de rir, e as crianças sorriram. – Tia Lissy, eu não acho que a senhora deveria tomar café..., não vai te deixar dormir depois.
Eu concordo. – Ela diz, empurrando a xícara. O cheiro estava fazendo seu estômago embrulhar. – Prefiro o suco.
Come tudo, tá mamãe? – Mãe e filhas se olharam.
A tia disse que a mamãe não comeu bem ontem.
A gente não quer que a mamãe fique doente. – Felicity se sentiu mal por deixar suas filhas e sobrinhos preocupados.
Não vou fazer mais isso. – Prometeu. Mesmo que tivesse que forçar. – O que acham disso? – Apontou para o mamão.
Eca. – Dizem juntos. Felicity riu.
Eu também não gosto. – Fez uma careta.
Deixamos o mamão para a minha mãe, tia Lissy. – Killian diz, fazendo Felicity concordar.
Com certeza. Sua mãe come isso. – Afastou a fruta, e colocou um morango na boca.
Eu gosto com açúcar.
E eu com sal. – Ela sorriu.
Eu e as gêmeas também. Muito sal faz mal, Lyon, por que não molha no chocolate? – Ela molhou e levou a boca do garotinho. – Bom, né?
Uhum. – Mastiga. – Melhor que com sal. – Ela riu.
Muito melhor.
Eu prefiro só a panqueca, mamãe.
Eu e a Amy não queremos suco.
Leite? – Ela entregou o copo para uma das filhas.
Tia, cadê o Toddy disso? – Ela riu ao ouvir Killian. – Está muito claro.
Você parece duas pessoinhas que eu conheço. – As filhas riram ao ver o olhar da mãe sobre elas.
Eu também prefiro com mais Toddy.
Depois dizem que eu que sou lombriguenta. – Eles gargalharam, e ela sorriu.
Mamãe, você anda tomando muito sorvete.
Isso não é verdade. – As crianças a olham com as sobrancelhas arqueadas, e ela faz um bico. – Okay, é verdade sim.
Tia Lissy, você tomou um pote de manhã e outro de madruga..., no mesmo dia. – Ela riu da forma incrédula que Lyon disse.
Foram dois dias seguidos.
Vocês duas andam me dedurando? – Eles riram.
O que nenhuma das crianças, ou Felicity tinham percebido, era que os amigos estavam observando pela fresta da porta. Eles tinham ouvido as gargalhadas, e ficaram não só surpresos, como curiosos. Como tinham pensado, as crianças estavam fazendo bem á Felicity. Ela estava comendo, e isso era algo muito bom. Estavam aliviados, além de felizes por verem que as crianças estavam ajudando a tia a melhorar. Ela estava precisando daquela distração. Precisando daquele carinho, para ver se parava de pensar em tudo que estava passando. Não demorou para verem a pequena Kitty entrar naquele quarto. A garotinha tinha ouvido a voz do irmão, e correu para o quarto. Felicity a pegou e a colocou em seu colo, abraçando-a e beijando-a, dando do seu café-da-manhã para a afilhada. Laurel, Barry, Helena e Ray decidiram que o melhor era deixar Felicity sozinha com as crianças. Elas estavam sendo as melhores companhias para ela, afinal de contas. Antes que descessem as escadas, eles puderam ver Adam e Andrew entrarem no quarto também, provavelmente por terem ouvido as risadas.
**--** **--**
Como prometido, Barry havia ligado para Oliver que queria saber como as filhas e a esposa estavam, em especial a última. Ele pôde pensar muito naquela noite, e pôde perceber que passou um pouco do limite. Sabia que a esposa estava passando por muitas coisas, e isso a estava deixando estressada, exausta. Ela desabafou, e ele disse que estava ali para ela, sempre. E ele a mandou para casa. Só queria o bem dela. Queria que ela comesse e dormisse melhor, e foi por preocupação que a mandou para a casa dos amigos. Eles cuidariam melhor dela. E isso a deixou não só estressada, como totalmente desgastada. Desabafou outra vez, gritou, jogou coisas que ainda estava engasgado dentro dela. Ele não devia ter dito todas aquelas coisas, não daquele modo. Se arrependia, mas sabia que tinha sido o certo fazê-la ficar com Barry e Laurel.
E ela comeu hoje? – Perguntou, preocupado.
Comeu. As crianças levaram para ela.
Então eles estão fazendo bem a ela.
Mais que isso. Estão com ela até agora no quarto.
Ela não saiu? – Novamente a voz preocupada.
Não. Ela não quis. Mas as crianças não saíram também. Estão com ela desde manhã. – Sorriu. – Lyon dormiu com ela.
Devo agradecer á ele então?
Acho que sim. Ele, Killian, as gêmeas, os gêmeos..., Kitty..., estão fazendo ela se distrair. Estão fazendo ela comer. Eles levaram o almoço, e comeram junto dela.
E ela comeu tudo?
Comeu sim.
Eu queria falar com ela, mas acho melhor deixar para mais tarde.
Ela está bem, Oliver. Está menos..., triste.
É insuportável não poder estar aí para ajudá-la.
As crianças estão fazendo isso por todos nós.
Laurel e Helena conseguiram conversar com ela?
Não. Ela não quis ver ninguém além das crianças. Mas elas tentarão mais tarde. Não deve demorar muito para as crianças dormirem.
Qualquer coisa me avisa.
Não se preocupe, eu ficarei de olho.
Obrigado.
Não precisa agradecer. Somos amigos. E ela é como se fosse uma irmã para mim.
Eu ligo mais tarde para falar com ela.
Vou avisar á ela. – Se despediram, e Barry desligou o celular.
**--** **--**
Felicity observava as crianças dormirem. Eles tinham tentado a todo custo a ficarem acordados com ela, mas como estavam acostumados a dormir a tarde, acabaram não suportando o sono. Ela tinha se divertido com eles. Tinha se distraído, e era agradecida a cada um deles. Kitty dormia em seu colo, deitada com a cabeça em seu peito, os outros estavam em sua volta, e pegavam em alguma parte em seu corpo. Seus pensamentos voltaram ao que estava acontecendo com ela, mesmo que não quisesse. Ela queria poder esquecer aquilo tudo, mas era impossível. E era por isso que se sentia exausta. Danificada, até. Se perguntava se o marido ainda estava irritado com ela. Ele tinha certa razão, mas ela também não estava de toda errada. Suspirou, balançando a cabeça. Por que tudo tinha que ser complicado para ela? Por que ela passava por todas aquelas coisas? Ela não conseguia entender. Parecia que o mundo estava contra ela. Parecia que Cooper estava conseguindo tudo que queria, e só faltava uma coisa. Ela. Ele a queria, e ela tinha certeza de que ele conseguiria levá-la de algum modo. Temia esse dia. Tinha pesadelos com isso, e para não deixar Oliver preocupado, ela escondia aqueles pesadelos dele. Estava errada em fazer isso. Ela sabia disso. E estava decidida a contar assim que ele voltasse para casa. Felicity confiava no marido, mas mesmo ele dizendo que Cooper nunca conseguiria levá-la, ela não tinha tanta certeza. E era isso que ela sabia, incomodaria Oliver. A porta se abriu e ela viu Barry entrando devagar.
Ei. — Ela o olhou. — Eu imaginei que eles tinham dormido.
Faz alguns minutos. — Desviou os olhos para as filhas.
Oliver ligou. — Ela o olhou. — Vai ligar novamente para falar com você.
Como ele está?
Está bem. Robert tem ficado com ele, e disse que a médica avisou que vai refazer os exames amanhã de manhã e se estiver tudo bem, ele tem alta amanhã mesmo.
Que bom. Finalmente.
Vocês ficarão aqui até o corte cicatrizar. Helena e Ray vão ficar com Tommy e Caitlin, para o caso de eles precisarem. — Ela assentiu. — Ainda está chateada?
Não. — Balançou a cabeça. — Eu sei que estavam um pouco certos, mas isso não quer dizer que eu estivesse errada. — Foi a vez dele de assentir. — Oliver ainda está chateado comigo?
Não. Mas vou deixar vocês conversarem para você saber de tudo. — Ela franziu o cenho. — Quer que eu os leve para o quarto deles?
Não. Deixem eles aqui.
Kitty também? – Ela assentiu, olhando para a pequena. – Tudo bem, então. – Estendeu o celular. – Ele vai ligar em alguns minutos.
Obrigada. — Pegou o aparelho, e em seguida ele tocou. — É ele.
Bom, vou deixar vocês sozinhos. — Ele saiu e ela atendeu.
Oi, sou eu. — Se pronuncia.
Ei. Estava preocupado com você.
Eu estou bem. — Não era de todo verdade. — Barry disse que provavelmente será liberado amanhã.
Sim. Se os exames derem o mesmo de hoje, amanhã estarei com você e as gêmeas. — Ele não ouviu nenhum som vindo da boca dela, e suspirou. — Eu queria me desculpar pela forma que falei com você ontem. Eu..., passei um pouco do limite.
Eu não ajudei. Foi culpa minha. — Tudo é culpa minha, ela pensa. — Eu o deixei irritado. — É isso que eu faço com as pessoas, pensou. — Se eu tivesse apenas aceitado sua vontade, você não teria aberto os pontos. — Eu sempre machuco as pessoas, esse pensamento veio a sua mente mais forte que qualquer outro.
Eu pensei um pouco, depois que a preocupação passou..., eu entendo que você escondeu seu mal-estar por mim. Sei que não estava confortável em me esconder isso, mas o fez para que eu não fizesse o que fiz. E acabasse me machucando, o que aconteceu. — Ela respirou fundo.
Eu estava um pouco..., desesperada. Por conta de todas as coisas que estão acontecendo, em especial o que houve com você, meu irmão e meu pai.
Eu sei.
Está sendo difícil para mim, aguentar tudo isso.
Você não precisa aguentar tudo isso sozinha. — Ela ficou em silêncio, e por isso ele decide voltar a falar. — Você está esgotada. Todas essas coisas que estão acontecendo, mais o fato de você ficar preocupada a todo momento com todos nós..., isso te deixa exausta, e te faz fazer o que fez ontem. — Ela franziu o cenho. —Barry me contou do seu desabafo.
Claro que contou. — Revirou os olhos.
Eu pedi para que ele me contasse quando eu liguei. Pedi para falar com você, e ele disse que você não queria falar com ninguém.
Estava irritada. — Balançou a cabeça, enquanto passava a mão no rostinho da afilhada. — Fui um pouco...
Você precisava daquilo.
Até o Lyon escutou o que eu disse. Também, foi aos gritos. — Bufou. — Estava cansada de todos me darem sermão. Até parece que entendem pelo o inferno que é ter Cooper fazendo da minha vida um inferno.
Você ainda está irritada com eles?
Não. Mas também não quer dizer que eu queira falar com eles, por enquanto. Estou querendo..., um pouco de paz. E está sendo difícil ter isso ultimamente.
Não diz isso.
É a verdade. – Os olhos dela começam a lacrimejar, e ela se repreende por isso. – É cansativo pensar o tempo todo que a qualquer momento ele pode tirar mais alguém que eu amo de mim. Exaustivo pensar que a qualquer momento ele pode fazer mais alguma coisa que me vá fazer perder o sono. – As lágrimas desceram pelo rosto pálido, e ela teve que respirar fundo, para que ele não percebesse que estava chorando, mas foi impossível. Oliver percebeu pela voz. – E o meu medo e os pesadelos só têm aumentado com a possibilidade de ele... – Ela se interrompeu. Oliver não precisava que ela continuasse, ele sabia o resto da frase.
Isso não vai acontecer.
Eu sinto muito, mas eu sei que vai.
Felicity...
Eu sinto isso. – O interrompeu. – Como senti que minha mãe ia morrer. – Oliver engoliu em seco. Não gostava quando ela falava daquele jeito. – Ele só está esperando o tempo certo. Deve estar planejando como fazer isso, de um jeito que..., você não impeça. Ou os seguranças.
Odeio quando fala desse jeito.
Obras do meu pesadelo. — Ela passa a mão livre nos cabelos.
Nós não vamos falar sobre isso. Não por telefone. — Ela reprimiu um soluço. — Vou estar em casa amanhã.
Uhum. — Como não confiava na própria voz, não disse mais nada.
Está tendo pesadelos novamente? — Ela ficou em silêncio, não por não querer responder, e sim por conta do choro que vinha forte, pela garganta. — Contou a mais alguém?
Não. — Respondeu minutos depois.
Por que?
Porque eu sinto que se eu falar deles..., eles vão se concretizar. — Oliver sentiu seu peito apertar ao ouvir a voz embargada, e trêmula da esposa. Ele queria estar em casa para poder abraçá-la, e fazer aquilo tudo que ela estava sentindo passar.
Amanhã estarei em casa. — Prometeu. Ele faria de tudo para ter aquela alta.
Okay. — Limpou as lágrimas com a mão livre.
Tente dormir.
Oliver, os problemas começam com isso. Eu não sei o que é ter um sonho normal..., nem sei quando foi a última vez. — Bufou.
Bom, dessa vez vai ser diferente. Eu não vou desligar até que eu saiba que dormiu. — Prometeu. — Feche os olhos, e confie em mim.
Ela o fez, apenas porque ela confiava nele, com todo seu ser, apesar de temer dormir e ter aqueles pesadelos horripilantes. Oliver cumpriu sua palavra, ele sussurrava coisas boas do outro lado da linha, tentava tranquilizá-la. Fazê-la sentir que tudo ficaria bem, e não demorou muito para ela finalmente cair no sono. E aquele dia tinha sido a primeira vez, desde que aconteceu o acidente, que Felicity dormia tranquila.
**--**
Oliver teve alta naquele dia. Já estava na casa de Barry á cinco dias. Desde então ele passava todo o tempo de repouso como a médica havia ordenado. Não podia subir e descer escadas, mas podia caminhar. Ele dividia seu tempo com as gêmeas e Felicity, que começava a melhorar da exaustão e dos surtos. Ela ainda tinha pesadelos, e cada vez piores, mas estavam vindo com menos frequência. Os amigos ainda se preocupavam, mas sentiam-se aliviados por vê-la alimentando melhor. Ela e as amigas haviam conversado, e se entendido. Elas sempre foram o apoio uma da outra, não poderiam ficar chateadas para sempre. Felicity, apesar de entender as amigas, não achavam que elas a entendiam, e isso foi deixado claro quando conversaram. Helena, Laurel e Caitlin compreendiam a forma como Felicity estava lidando com tudo aquilo, e as duas primeiras, estavam realmente arrependidas por terem dado o sermão, quando não sabiam como era estar na pele da amiga. Deveria ser apavorante. Irritante, até, ficar temerosa a todo momento. Era mesmo uma montanha russa, como a amiga disse. Ela estava passando por altos e baixos; mais altos que baixos.
Felicity comia da salada verde com vários tipos de molho, que Barry havia feito. Pelo menos a salada tem ajudado nos enjoos irritantes que ela estava tendo. Lyon, Killian, as gêmeas e os gêmeos a acompanhavam. Eles estavam fazendo bem a ela, e todos puderam perceber isso. Naquele dia estavam todos almoçando na casa dos Allen. Oliver poderia ir com a família para o próprio apartamento no final de semana. Malcom tinha tido alta naquele mesmo dia, e isso deixava Felicity mais aliviada. Ele estava sabendo dos desabafos da filha, e compreendia totalmente o modo como andava absorvendo tudo aquilo. Apesar das conversas altas na cozinha, Felicity não prestava atenção no que falavam. Sua atenção estava na salada, e nas crianças a sua volta, em especial Kitty, que comia um macarrão na maior alegria, se sujando inteira. Ela riu quando a menina passou, sem querem, molho no nariz. Como estava ao seu lado, limpou com a fralda que estava apoiada no cadeirão.
O que você acha, Lis? — Ela piscou algumas vezes e olhou para Caitlin, que havia lhe chamado.
O que?
Você não estava ouvindo?
Não. Foi mal. — Desviou os olhos para Kitty. — Sobre o que estavam falando?
Sobre o Natal. Está chegando novamente.
Passou rápido. — Ela comentou.
Muito. Estávamos pensando em fazer na mansão do nosso pai, esse ano.
Por mim tudo bem. — Os outros se olharam. Ela não parecia muito entusiasmada com a festa.
O que acha de nós mesmos decorar a mansão? — Ela os olhou.
Por acaso vocês estão querendo fazer isso para me distrair?
Não. — Ela franziu o cenho. Oliver sabia que ela não ia cair naquela mentira.
Okay. É isso mesmo. — Todos olham para Thea. — O que? Ela não acreditou na nossa mentira, não viu a cara que ela fez? — Eles reviram os olhos. — Estão todos preocupados, e querem te distrair com coisas divertidas.
Claro. Decorando uma mansão de três andares. Olha, eu não preciso que me distraiam, até porque isso não vai durar por muito tempo. — Os amigos voltam a se olhar. — Mudamos de assunto? Mudamos de assunto. — Ela se volta para Kitty. As crianças tinham ouvido a conversa, e haviam ficado muito confusos. Por que distrair a tia? E do que?
Então..., amanhã eu já vou poder ir para o meu apartamento.
Não sei para quê a pressa. — Laurel diz.
Vocês precisam descansar, e nós gostamos do nosso cantinho. — Olhou para a esposa, que tinha sua atenção todinha para Kitty e Natty.
Queria que ficasse aqui mais um pouco. — Felicity ouviu Lyon e se virou para ele.
Vamos nos ver sempre. — Sorriu. — E eu prometo vir te visitar mais vezes.
Eu vou cobrar, tia Lissy. — Os outros riram. Ela beijou os cabelos do sobrinho.
Tudo bem. — Diz sorrindo.
**--** **--**
Mesmo que soubesse que todos dormiam, e que a casa não era dela, ela não se importava por estar assaltando a geladeira dos amigos. Ela precisava. Não conseguia dormir, não conseguia parar de pensar em bobagens, não aguentava mais ter pesadelos. Era um inferno para ela, mas ela se esquecia de tudo quando estava distraída. Já que não tinha com quem conversar, ela se distrairia com o beijinho de coco que Helena tinha feito mais cedo, e o pote de sorvete que Ray tinha comprado para ela quando foram almoçar com eles mais cedo. Procurando mais a fundo, na enorme geladeira, ela encontrou a calda de morango que Barry tinha feito no dia anterior para colocar em um bolo que Laurel tinha feito, e que tinha sobrado. Pegou tudo, colocou na bancada, onde se sentou, e começou a comer. Ela precisava se distrair, então por que não fazer isso, comendo tudo que ela estava com vontade naquele momento? Na verdade, estaria perfeito se tivesse a torta de maracujá que Oliver sabia fazer como ninguém. Provavelmente o marido perceberia seu sumiço, mas ela não se importaria. Lambeu um dos dedos ao sentir um pouco da calda nele. Colocou a colher com a calda grossa de morango na boca, quando encontrou um pote de doce de leite, do seu lado esquerdo. Inclinou um pouco o corpo para poder pegá-lo, e então abriu a tampa. Ela não se importava por estar se empanturrando de doce, para ela, era a única forma de fazê-la ficar tranquila, e menos inquieta. Colocou um pouco do doce de leite na colher que tinha um pouco do sorvete e colocou na boca, fechando os olhos, e gemendo, degustando da mistura que fez. Ela ouviu passos, mas não se importou, continuou comendo. Ela olhou para o lado, com uma colher na boca e encontrou quem ela tinha certeza que era. Seu marido.
Insônia? — Perguntou ainda com a colher na boca. Ele franziu o cenho.
Eu quem deveria perguntar isso á você.
Um pouco. — Diz, pegando o sorvete e colocando na boca, junto do beijinho de coco.
Você não devia fazer essa misturada, e muito menos comer esse doce todo.
Por que? — Diz com a boca cheia.
Porque faz mal.
Eu não faço todos os dias.
Claro que não. Você faz dia sim, dia não. — Ele riu do modo que ela o olhou. — O que é isso?
Calda de morango que o Barry fez para o bolo de ontem.
E você aproveitou que sobrou para fazer essa meleca.
Não é meleca. — Retrucou.
Okay, Felicity, agora é sério..., chega, né?
Eu não terminei. — Ela reclamou quando ele tampou o doce de leito e tirou a calda de morango de suas mãos. — Oliver.
Eu não sei por quanto tempo está aqui..., comendo tudo isso... — Se voltou para ela, deixando a geladeira aberta. — Mas nós vamos dormir.
Espera. — Ela pede quando ele pega a panelinha com o doce coco, não sem antes ela pegar uma colherada. — Eu não estou com sono.
Não está com sono..., ou está com medo de dormir? — Ela desviou os olhos. — Felicity, eu já disse para me acordar quando tiver pesadelos.
Eu não queria te acordar. Está muito cansado. — Colocou uma colherada de sorvete na boca.
Não importa. Eu não me importo. – Ele fez ela o olhar. – Você é minha mulher, e se eu tiver que ficar a madrugada inteira acordado, por você..., eu fico. – Ela balançou a cabeça. – Vamos lá, você vai dormir um pouco. – Tirou o pote de sorvete de suas mãos.
Espera. — Ele parou de se afastar. — Só mais uma colher. Por favor? — E ele balançou a cabeça, não conseguindo negar ao olhar naqueles olhos perfeitamente brilhantes. — Obrigada.
Vem. — Ele a pega pela cintura e a coloca no chão.
Não devia ficar fazendo esse tipo de esforço. — Ele beijou sua testa.
Estou ótimo, meu amor. — A puxou pela mão, e a levou para o quarto que Barry e Laurel tinham disponibilizado para eles. Ele esperou que ela se deitasse, e se deitou ao lado dela, trazendo-a para deitar com a cabeça em seu peito.
Não te machuca? — Ele percebe a preocupação em sua voz.
Não. — Beijou os cabelos loiros. — Na verdade, eu não sinto mais dor. — Ela o olhou, com o queixo apoiado no peito dele. — E eu não consigo dormir sem ter seu corpo por cima do meu. — Ela sorriu.
Eu te amo, Oliver.
Eu também te amo. – Beijou os lábios dela de forma carinhosa, e lenta. – Durma, está bem? – Ela suspirou e voltou a apoiar a cabeça em seu peito. – Vou estar aqui o tempo todo..., zelando por seu sono.
Fale com o autor