Estava sentado à mesa com uma xícara de café repousando ao lado do papel que estava observando há tantos dias. Lia e relia aquelas palavras, esperando encontrar alguma resposta escondida em seus espaços, e sabia que fazia isso em vão, sentindo-se um completo idiota. Sabia que aquela resposta que procurava dependia dele, e somente dele; dependia de suas vontades atuais, e no que ele acharia melhor para o seu próprio futuro. Mas de alguma forma, toda vez que observava aquele pedaço de papel, algo o impedia de simplesmente dizer "sim" para si mesmo.

Exatamente o quê, Daisuke não sabia explicar.

Não passava das duas da tarde, e já se sentia completamente exausto novamente. Era seu dia de folga, então era justo que ficasse o dia todo deitado em sua cama, tragando um maço de cigarro, ou simplesmente pensando em nada. Mas toda vez que tentava se desligar de seus problemas, a imagem do maldito "convite" vinha à sua mente, e não o deixava em paz. Nem mesmo se quisesse, não podia negar que aquele era um convite muito tentador. Além de ser um ótimo cachê, sabia que trabalharia bem menos. Menos trabalho. Menos estresse. Mais dinheiro. O emprego perfeito.

Então por qual motivo imbecil ele não aceitava?

O barulho da campainha adentrou seus ouvidos, fazendo sua cabeça parecer que ia explodir. Não tinha idéia de quem ousava o perturbar quando estava com aquele humor tão ácido a não ser... Kaoru. E foi o rosto do amigo guitarrista que ele encontrou ao abrir a porta, com o sorriso mais estúpido que já vira estampado em seus lábios. O olhava com uma expressão quase infantil, parecida com a de uma criança que espera ganhar um doce dos pais. Estava pronto pra dizer algo que provavelmente o faria reclamar alto como a campainha que ele ainda apertava, muito provavelmente porque sabia que o ruivo não estava num dos seus melhores dias. Mas o Líder simplesmente adentrou o pequeno apartamento do amigo, como se fosse dele próprio, ignorando a expressão nada amigável que o guitarrista possuía na face.

–Por Deus, Daisuke, tá de ressaca? Porque só de olhar pra você eu me sinto dentro de um bar de madrugada...

–Muito engraçado. O que você quer?

–Não posso visitar um amigo meu num raro dia de folga? -Kaoru sentou-se no sofá branco em frente ao televisor, e retirando um cigarro dos bolsos, usou o isqueiro de Die que estava em cima da mesa de centro para acendê-lo.

–Não quando você convive com esse "amigo" pelo menos vinte e três horas por dia. Anda, diz logo o que você quer.

Die não saiu do lugar onde Kaoru o encontrou, em pé, com a mão na maçaneta redonda e dourada da porta que permanecia aberta. Só agora o Líder resolveu observar melhor o amigo e percebeu que este ainda estava de "pijama", com sua bermuda velha e o roupão cobrindo parcialmente o tórax desprovido de camiseta alguma. E não conseguiu conter uma gargalhada que provavelmente ecoou pelo andar inteiro do apartamento, fazendo um Daisuke bater a porta furioso e se dirigir à cozinha para procurar algum remédio que fizesse sua maldita dor de cabeça sumir.

Foi quando passou pela pequena mesa com o café e a "carta" depositados em sua superfície. Olhou para o papel por alguns segundos, meio pensativo, tentando se lembrar o que devia fazer com ele, em vão. Só conseguiu se lembrar quando ouviu a voz de Kaoru se aproximando da cozinha, o fazendo pegar a folha e enfiar na bermuda de um jeito totalmente desajeitado, tentando esconder qualquer vestígio de sua existência do amigo.

Foi o que bastou para ver a face completamente surpresa de Kaoru de encontro à sua. Estava preparado para mais uma das risadinhas irritantes e alguma piada imbecil devido ao volume que o papel fizera em sua bermuda, e num lugar não muito apropriado para o momento. E talvez por estar esperando tanto por algo idiota assim, Kaoru fez justamente o contrário. Imediatamente, sentiu sua face aquecer-se, sabendo que estava extremamente vermelho, denunciando sua vergonha extrema, e virou-se rapidamente em direção à pequena sala, tentando esconder em vão o que sentia no momento.

–E-eu acho que... você deveria fazer isso em outro lugar, Daisuke...

O ruivo mais uma vez observava as costas de Kaoru, estando completamente confuso. No entanto, ficou contente em saber que o amigo nem sequer desconfiara de que havia algo ali dentro da bermuda (e que não era seu órgão sexual, obviamente). Deu um sorrisinho um tanto maldoso, e rumou para seu quarto finalmente.

–Me desculpe... Kao-chan.

Notas finais
Capítulo curtinho, não? '8D