Kukushka

2 Skazhy, kukushka


Notas iniciais
Mais um capítulo pra vcs, espero que gostem :)

Durante o caminho até o abrigo que Katarina havia lhe dito, Katarina manteve-se calada. O loiro tentava conversar com ela, mas as tentativas eram em vão, a única coisa que obteve como resposta foi: "Cale a boca, vai atrair mais mortos". O sol estava quase se pondo quando ela avistou as altas paredes metálicas e um portão coberto na entrada.

O portão foi aberto e em passos lentos e, ainda receosa, Katarina adentrou o local olhando atenta cada detalhe do lugar, já montando uma estratégia para fugir caso fosse necessário. Algumas pessoas a abordaram assim que a viram e começaram a encha-la de perguntas, pegaram seu facão e ela ficou tensa.

– Rick, ela me salvou na floresta, o nome dela é Katarina — Aaron disse para o homem que parecia ser um dos líderes. Ele tinha cabelos castanhos e olhos claros, era bonito porém intimidador, podia ver pelo jeito dele que ele havia passado por muita coisa.

– Então você é a Katarina? — Rick perguntou firme enquanto se aproximava dela, que não o respondeu. Ele a encarava como se quisesse ler seus pensamentos — Quantos zumbis já matou?

– Muitos.

– Quantos homens?

– Um.

– Por que?

– Era matar ou morrer — Ele assentiu e olhou para Aaron, sinalizando para que ele cuidasse dela.

Aaron lhe explicava como as coisas funcionavam na comunidade, tanto nos aspectos de convivência, quanto no âmbito de segurança. Ele também lhe passou algumas orientações e a levou para uma casa que ele disse que seria dela, o que lhe soou no mínimo utópico.

– Há quanto tempo não dorme em um colchão? — Perguntou tentando arrancar-lhe um sorriso.

– A pergunta mais correta seria: Há quanto tempo não dorme? — Ela respondeu e ele riu levemente tentando quebrar a tensão.

– Bom, sinta-se à vontade — Disse abrindo a porta da casa dela — Você tem tudo o que precisa ai e alguns luxos extras... Tome um banho, descanse, mais tarde alguém vai vir lhe deixar comida.

– Obrigada — Ela respondeu sendo gentil pela primeira vez em muito tempo.

Entrou na casa e deu uma rápida olhada em tudo o que lhe era oferecido: uma casa enorme, de graça e com eletricidade, uma cozinha grande, sala espaçosa, quartos e banheiro, tudo somente para ela. Ainda não se sentia segura, mas se aquilo lhe era oferecido no momento ela iria aproveitar.

Subiu para o seu novo quarto e passou a ponta dos dedos pelos lençóis limpos e cheirosos, pensou que nunca mais teria tal sensação de novo. Colocou sua bolsa num canto e foi para o banheiro tomar um banho.

Quando sentiu a água quente tocando seu corpo foi uma sensação de êxtase, nem se lembrava da sensação da água morna e nem de como era tomar um banho decente. Depois de muito tempo ela sorriu de novo, havia se esquecido completamente o que estava acontecendo lá fora e do, talvez, risco que corria. Riu ao ver a poça escura de sujeira caindo de seu corpo e seus cabelos, finalmente estava livre do suor, terra, sujeira e sangue impregnados em sua pele.

Saiu do chuveiro, se enrolou na toalha e procurou por algo que pudesse dar um jeito em seus cabelos. Olhou por algumas gavetas e, bem no fundo da última, encontrou uma tesoura. Começou a cortar as madeixas, que passavam da cintura, numa altura um pouco abaixo da metade das costas. Assim que terminou, penteou os cabelos e se trocou vestindo uma roupa limpa. Por último, deu um trato num corte que tinha em sua perna, limpando-o bem e fazendo um curativo nele.

Suspirou e pegou a sua bolsa, retirando dela o pequeno retrato que lhe restava de sua vida normal. Ela fitava bem cada rosto na foto, seus pais e seu irmão mais velho. Sentiu um aperto no coração e sentiu algumas lágrimas embaçando sua visão. Era nesses raros momentos que ela sabia que ainda era humana, sentia saudade deles, saudades dos momentos, das conversas, das brigas, dos abraços... Havia se despedido deles há milhares de quilômetros dali, no aeroporto internacional de Moscou. A última vez que teve notícias deles foi bem no começo do fim, quando ligou desesperada para seu irmão, que também estava na mesma situação que ela. Ele tinha lhe prometido que cuidaria dos pais, os levaria para a casa de campo que tinham na Sibéria, e que passaria o recado dela para eles. Ambos sabiam que nunca mais se veriam, então se despediram um do outro, choraram e sabiam que o fim deles chegaria mais cedo ou mais tarde e, com certeza, com muita dor.

O toque na campainha da casa a tirou de seus devaneios fazendo-a enxugar as lágrimas e ativar o modo sobrevivência novamente. Desceu as escadas com certa pressa e assim que chegou à porta tentou ser o mais gentil possível. Abriu a porta e viu uma moça de cabelos castanhos e curtos e olhos claros.

– Oi, meu nome é Maggie — Ela disse com um sorriso gentil.

– Katarina — Respondeu sorrindo, mas sem mostrar os dentes.

– Eu vim trazer isso para você — Disse entregando-lhe uma cesta com vários ingredientes. Há poucas horas atrás, aquilo era comida para mais de uma semana para Katarina — Bem vinda à Alexandria, se precisar de algo estou na casa ao lado.

– Tudo bem, obrigada, Maggie.

Assim que a moça de cabelos curtos foi embora, Katarina entrou e foi diretamente para a cozinha, estava faminta e precisava comer algo. Colocou a cesta sobre o balcão e olhou os produtos que estavam dentro dela, frutas, verduras, legumes, alguns enlatados a algumas garrafinhas de água. Pensou no que faria para comer e imaginou se ainda se lembrava como fazer pelmenis e se conseguiria improvisar com aqueles ingredientes, mal podia imaginar por comer um prato que a lembrasse suas origens.

Com paciência, ela começou a preparar tudo com calma e cuidado. Quando terminou, comeu devagar e saboreando cada pedaço. Só naquela noite, comeu melhor do que tinha comido nos últimos dois ou três meses, que vivia de frutas e pequenos animais que caçava. Terminou de comer, lavou a louça e foi descansar.

Deitou na cama e rapidamente apagou, o cansaço era muito grande. O seu sono foi tranquilo até certo ponto, mas algumas horas depois ela sonhava com o que estava acontecendo lá fora, sonhava que estava sendo perseguida por uma horda e que havia sido cercada por eles. Quando virava para o outro lado para ver se o pesadelo passava, sonhava com sua família, todos felizes e bem às margens do Baikal, sobrevivendo do que a natureza local os proporcionava.

Acordou chorando e decidiu levantar e tomar um ar, uma tentativa de fazer esses pensamentos, felizes e tristes ao mesmo tempo, saírem de sua cabeça. Sentou-se nas escadas da entrada da casa, apoiou a cabeça, fechou os olhos e lembrou-se de uma música que sua mãe gostava de ouvir, "Kukushka".

Песен еще ненаписанных, сколько?

Canções ainda não escritas, há quantas?

Скажи, кукушка, пропой.

Diga, cuco, cante.

В городе мне жить или на выселках,

Devo viver na cidade ou na rotatória das estradas,

Камнем лежать или гореть звездой?

Jazer como uma pedra ou arder como uma estrela?

Звездой.

Como uma estrela.

Ela cantava a música baixinho, só para ela, tentando se lembrar da voz de Aleksandra ou "Sasha", como era conhecida sua mãe, morena de olhos azuis, assim como ela.

Солнце мое — взгляни на меня,

Sol meu, olhe para mim

Моя ладонь превратилась в кулак,

Minha mão espalmada se transformou num punho

И если есть порох — дай огня.

E se há pólvora, que haja fogo.

Вот так...

Bem assim...

Кто пойдет по следу одинокому?

Quem vai andar no rastro solitário?

Сильные да смелые

Fortes e ousados

Головы сложили в поле в бою.

Entregaram as cabeças no campo à batalha.

Мало кто остался в светлой памяти,

São poucos os que restaram com a memória clara,

В трезвом уме да с твердой рукой в строю,

Com a mente sóbria, e com o braço firme em formação

Где же ты теперь, воля вольная?

Onde você está agora, vontade livre?

С кем же ты сейчас

Junto com quem você, agora,

Ласковый рассвет встречаешь? Ответь.

Encontra a carinhosa aurora? Responda.

Хорошо с тобой, да плохо без тебя,

É bom estar contigo e ruim sem você,

Голову да плечи терпеливые под плеть

A cabeça e os ombros pacientes sob o chicote

Под плеть.

Sob o chicote.

– Não entendi o que a música diz, mas ela não parece ser das mais animadas — Ela se assustou ao ouvir a voz masculina. Era RickEstá tudo bem? — Ela assentiu e sorriu sem mostrar os dentes — Não minta para mim, já estive na mesma situação que você, sei das coisas que acontecem lá fora... Isso está te tirando o sono, não é? — Ela olhou para ele.

– Sim.

– Ficar pensando sobre não vai ajudar muito.

– O que você sugere então?

– Estou sem sono e curioso para saber como você sobreviveu todo esse tempo.

– É uma longa história.

– Não tem problema.

– Foi assim...

Notas finais
O que acharam? Devo continuar????