Krytus

2 No light, no light


– Vamos? Uma voz soou
suavemente em meu ouvido, no meio daquela multidão festejando, em frente à casa do prefeito, meu aniversário e de Jess.

Era ela, num vestido longo violeta e cabelos soltos:

–Pensei que rasgarias o vestido assim que o visse?

–Mamãe me impediu! Mas vim com uma calça e botas por baixo dele. É só arrancar a saia e ele vira uma camisa “violeta”. E você? Vai se enfiar no meio do bosque de terno?

–Não seja boba. Por baixo do terno estou de camisa e vesti uma calça menos formal. É só remover o terno e colocar as botas que trouxe. Estão debaixo da mesa!

–Então vamos seu lerdo. Ela disse rindo de minha cara enquanto corria para o portão do salão de festas, que ficava ao lado da casa do prefeito (ele permitiu que papai usasse-o para a celebração de nosso aniversário).

Saímos do local onde estavam todos, corremos poucos metros para chegar a nossa casa. Deixamos as roupas que sobraram em frente à porta. Ah, liberdade. Somente nós, as árvores e um luar maravilhoso. Subimos em árvores, pulamos pelos seus galhos gigantescos, rolamos na grama, brincamos próximo ao lago e ficamos observando o reflexo da lua nele.

Mas não continuou assim.

Entreolhamos-nos e corremos para as árvores novamente, mas de maneira desesperada, como se estivéssemos fugindo um do outro. Havia uma expressão diferente naquela hora. Eu olhava os olhos dela e ela os meus. Não víamos os mesmos olhos.

Nos aproximamos, a ponto de ficarmos frente a frente. Nossas pupilas se estreitaram e se alongaram de para cima e para baixo, como as de um felino. Abaixo dos cílios inferiores, descendo até as maçãs do rosto, nossas veias foram se dilatando e ficando levantadas, realçando-se sobre nossa pele clara. Aquela cor verde ficou fluorescente, como se a luz da lua se refletisse na cor de nosso olho e...

O que é isso? Nossas orelhas se afinaram nas pontas superiores e... Corremos em sentidos contrários novamente, mas para o centro do bosque, onde é o ponto mais escuro daquela cidade.

IMPRESSIONANTE! Nunca chegamos perto daquela área por ser muito escura e nós não conseguíamos enxergar.

Por motivos que não sei quais... Enxergávamos! Era um milagre sem igual, conseguíamos enxergar no local mais escuro daquela cidade, talvez até daquele país. Infelizmente o que mais me surpreendia não era o fato da visão noturna, e sim de todas aquelas transformações sobrenaturais que estavam acontecendo conosco.


AAARRRGGG!


Eu e ela gritávamos quando aquela dor imensa surgiu de todo nosso corpo. Nossas unhas se alongavam rasgando a ponta dos dedos das mãos que começaram a sangrar. Gemíamos. Arrancamos
as botas desesperadamente e nossos pés se esticaram mostrando estarem como as mãos. Gritos agudos. A dor aumentou quando os caninos rasgaram a gengiva e cresceram, ficaram pontudos e afiados como se pudessem perfurar uma madeira. Pareciam dentes de... de...

Aquelas unhas grandes que rasgaram a pele, aquelas orelhas pontudas e peludas, aqueles olhos deformados. Não parou por aí. Tampei o rosto para não ver o monstro em que estava me transformando. Péssima ideia. Senti um liquido vermelho escorrer do canto de meus olhos. Eles se esticaram e definitivamente pareciam olhos de um felino, um tigre, um simples gato, um lobo.