Acordo e me deparo com uma igreja. Para minha surpresa, consigo enxergar sem nenhum problema desta vez. Sinto como se tivesse sonhado de novo, porém um sonho mais doloroso que os de costume.

Percebo que não visto nenhuma camisa. Estou seminu. A única peca de roupa em meu corpo é minha calca.

Resolvo me mover em direção à escada da igreja e percebo que mais doloroso o sonho não poderia ter sido. Olho para meu peito e vejo uma cicatriz. Tenho consciência de que toda vez que me transformo fico com o corpo todo arranhado. Normal, ainda estou aprendendo a controlar, porem esta risca vermelha em meu peito é uma novidade. Novidade esta que arde como se o corte do sonho tivesse ocorrido.

OI? Eu acabei de perceber que o sonho me afetara. Sonho? Será mesmo?
Confuso, resolvo procurar minha irmã. Seus gritos ainda ecoavam em minha cabeça, como se tivesse sido real.

Eu e Jess tínhamos muita consideração um pelo outro, apesar as brincadeiras, a privacidade e as vontades e gostos de cada um eram os fatos que nunca eram desrespeitados. Confesso que fiquei boquiaberto, sem reação. Um calor imenso subiu pela minha face e um arrepio pela espinha. Por quê?

Não era o único quase sem roupas. Vi Jess se levantando, meio tonta, próxima a algumas arvores ao lado da igreja. As únicas pecas que cobriam seu corpo eram sua calça e seu sutiã. Credo! Ela era minha irmã! Mas me senti surpreendido, porem submisso ao ver seu corpo com tão poucas roupas.

Caiu. Aproximei-me rapidamente para ajuda-la a levantar. Irresistível a sensação que tive, mas percebi uma cicatriz em seu peito. Como a minha, mas ela não havia percebido e nem sentido. Ela agradeceu. Larguei-a e virei meu rosto envergonhado, mas pude sentir que no momento em que eu observava-a, ela fazia o mesmo.

Virou o rosto ao mesmo instante que eu. Falamos juntos:

– Desculpe! Eu... eu... desculpe!

Ela abraçava a si mesma, como se estivesse com os braços cruzados. Procurava encobrir o sutiã à mostra. Não entendo. Se for isso que chamam de “atração”, como posso sentir isso pela irmã que cresceu ao meu lado?

Perdi o foco por alguns minutos, mas retornei a escada d igreja. Subi e entrei no local. Descalço, meus pés sentiam o frio do chão com intensidade. Os ruídos causados pelo vento pareciam gritos desesperados. Próximo a um pequeno altar no fundo, duas cruzes grandes e abaixo delas manchas de sangue assim como nas paredes onde estavam penduradas.

Ajoelhei, imagens atormentadoras e ruídos insuportáveis surgiram. Além da dor senti a mão de Jess sobre meu ombro e suas palavras preocupadas “Jay, o que houve?” soavam abafadas em relação aos sons agudos e trêmulos.

Era o meu sonho. Sangue, vozes, a cicatriz. As imagens eram seres borrados e escuros, encapuzados que foram os autores do meu sofrimento. Estávamos-nos presos às cruzes por cordas molhadas de sangue. Uma faca mergulhada em sangue atravessara meu peito em direção as costelas. Por uma interrupção, o coração deixou de ser o alvo. A faca tinha uma inicial.... K!

Outra imagem estava mais afastada, erguendo um pedaço de papel e discutindo com aquele que torturava Jess. Um papel rasgado ao meio, provavelmente, a maldita carta que achamos junto ao facão quando acordamos a primeira vez no porão.

– A carta... esta aqui... a maldita... eles... procurar a carta.

Estava ofegante. Jess estava com suas mãos em meus ombros. Tentava fazer com que eu recuperasse os sentidos. Um pouco antes de voltar ao normal, sai cambaleando em direção ao altar, sem conseguir me equilibrar muito bem, cai algumas vezes ate apoiar os braços no pequeno palco próximo a cruz que julgaria que fosse a “minha”.

Dei um soco na parede e tentei derrubar... Não a estrutura do local, mas a cruz na qual fui amarrado. Aquela imagem me perturbava e foi isso que aumentou minha raiva pra fazê-la cair. E caiu.

Atrás dela... Uma cruz menos virada para esquerda. Virei-me e atrás de um quadro velho vi algo. Papel velho que seu cheiro era fácil de ser identificado.

– Ah, achei que teria que derrubar a igreja para acha-la!