Kraus Rostova No 02
21 Rastejar
Notas iniciais
Eu fui acordando aos poucos, sentindo um enjôo forte tomando conta das minhas entranhas. Um sabor amargo dominava a minha boca e meu corpo permanecia dormente. Levantei minha visão e meus olhos arderam com a claridade do dia no meu rosto. Olhei ao redor e vi homens parados: alguns à distância e três bem próximos, com cigarros entre os dedos. Eles conversam entre si, com metralhadoras penduradas em seu corpo. Minhas mãos estavam amarradas para trás, olhei por cima dos meus ombros e percebi que elas estavam presas por algemas.
Naquele momento, eu ouvi um barulho de carro e olhei para o lado. Se aproximando, vi duas land rovers preta. Os carros pararam e um homem, de traços argelinos, me encarou e abriu a porta do outro veículo. Eu já sabia que era desgraçado do Kraus que desceria do veículo...
...pois bem, eu acertei. Aquele doente apareceu com um sorriso no canto da boca, e com seu jeito demonstrava uma euforia diabólica e cheia de satisfação. Um dos homens pegou uma cadeira e colocou de frente pra mim e Kraus sentou-se.
— Onde está a agente Keen? Questionei
— Bom ela pode estar muito próxima ou muito longe. Isso só depende de você.
Eu continuei a encará-lo e ele gesticulou algo para um dos capangas, que estava atrás de mim. Em alguns segundos, senti o dito cujo tirando as algemas e então pude colocar minhas mãos para frente. Senti um alivio e meus braços que já estavam dormentes por causa da posição, relaxaram.
— Reddington eu tenho uma condição para você. Caso aceite, você terá Elizabeth Keen de volta; caso não...
Rostova nem terminou, mas aproveitou para sorrir e olhar para cima como se pensasse em algo e depois balançou a cabeça negativamente. Por fim, voltou a me encarar.
— Pobre Elizabeth...Desde sempre uma amaldiçoada.
— Vá ao ponto, Kraus! Diga logo o que...
Naquele momento, um dos homens socou o meu rosto e eu cai para o lado. Logo em seguida, senti um golpe forte no meu estomago. Um dos desgraçados havia acabado de me dar um chute. Eu tossi com a dor forte que parecia estar dilacerando minha entranhas.
— Sentem esse desgraçado de novo e o algemem.
Senti dois brutamontes me puxando novamente e me sentando na cadeira. Meus braços foram colocados para trás e novamente fiquei preso. Kraus se levantou, tirou seu sobretudo e ficou esfregando os punhos. Eu senti medo naquele momento. Senti que ali já não se tratava somente de mim. Senti que eu poderia morrer se a questão fosse somente a figura de Raymond Reddington em jogo...mas não era. Era Liz que estava nas mãos de Rostova. Eu sabia que ela estava viva...mas bem...obviamente que ela não estava.
— Sabe Red, o desgraçado do meu pai não deveria ter entregue todo aquele reinado para Katarina. Eu era o merecedor de tudo.
Eu senti o sangue escorrer na lateral do meu rosto e o ferimento arder, por causa do suor.
— Mas não, aquele velho me deserdou. Ele me chutou feito um lixo!
Kraus gritava e agora olhava para mim com fúria nos olhos. Acho que por desespero, eu comecei a rir da situação. Ele franziu o cenho, incrédulo com a minha reação.
— Você é uma criança mimada, Kraus. Frustrado porque tudo que você toca vira excremento.
Naquele instante, Kraus pegou uma magnum calibre 44 e apontou para minha cabeça.
— Red foi com essa arma aqui que eu matei sua mulher. Devo fazer o mesmo com você, ham?
Rostova pressionou a arma na minha cabeça e me encarava com os olhos cheios de raiva. Eu fechei meus olhos e lembrei da imagem de Liz, segurando Alice nos braços. Percebi que a felicidade parecia um pouco complicada, quando se tratava de homens iguais a mim.
— Mas não...eu não vou matar você. Porque eu sei o que realmente mata você, Raymond. E não vai ser um tiro na sua cabeça.
Naquele instante, Kraus guardou a arma e ordenou para seus homens.
— Tragam-na!
Senti meu corpo arrepiar naquele momento. Não demorou muito até os homens trazerem Elizabeth, arrastada pelo chão como um animal morto. Eu senti uma raiva descontrolada dentro de mim. A mesma raiva que eu senti quando minha mulher e minha filha morreram. Ambas assassinadas por Kraus; que pagaria muito caro por toda as atrocidades que ele vinham fazendo a mim e às pessoas que amei um dia; e para aquelas que me fizeram amar novamente.
Os homens soltaram Elizabeth, que caiu de bruços no chão, a poucos metros de onde eu estava. Fiquei estupefato e percebi que Rostova se satisfez ao ver minha expressão. Ele caminhou devagar até onde ela estava e ficou de pé, sobre o corpo jogado de Liz. Naquele momento, Kraus sorriu e ergueu a cabeça de Liz, segurando em seus cabelos. Seu rosto estava marcado, com um corte profundo abaixo do seu olho direito. O outro esquerdo estava entreaberto, demonstrando tamanha era a sua fraqueza. Apesar o sangue em seu rosto, Liz estava medonhamente pálida. Eu senti ódio e impotência. Olhei para baixo e me deparei com um misto de miséria e fraqueza, ali, diante de mim.
...
Kraus soltou Liz, que voltou a cair no chão.
— Raymond, pela situação que está Liz, eu acredito que ela não aguentará muito tempo.
Naquele momento, Kraus sentou-se.
— Vou ser piedoso com você, porque sua morte não me renderia boas coisas...acredite. Enquanto Liz, bom...se ela morrer, não fará diferença. Afinal, todo mundo quer ela morta. Eu quero seu império, Red. Quero o acesso a todas as suas contas, tudo que você roubou, suas informações preciosas e suas sociedades.
Um dos homens se aproximou de Rostova e o entregou um aparelho celular.
— Bom, posso ligar para o seu fiel escudeiro?
Red levantou a cabeça e Rostova sorriu.
— Imagino que seja um sim.
O homem se manteve com o celular no ouvido e cruzou as pernas. Demonstrando muita tranquilidade diante de toda aquela situação. Red mantinha um olhar fixo e frio, em um nível de ódio extremo. Porém, precisava ser cauteloso. Ele não poderia arriscar a vida de Lizzie.
— Olá Dembe, acho que seu amigo quer dar uma palavra com você.
Naquele momento, Rostova colocou o celular próximo a Red.
— Dembe...preciso que vá até Billrou e peça a ele a maleta com três selos.
— Raymond...
—Não discuta, Dembe! Apenas me obedeça.
— Dembe, meus homens pegarão a encomenda em um ponto especifico e em vinte minutos. Não faça nenhuma brincadeira, nem acione seus amigos da Polícia. Porque se isso acontecer, vocês terão dois cadáveres para recolher...e se esta encomenda não estiver com os meus homens, dentro do tempo que falei...vocês também ganharão dois cadáveres. Foi um prazer negociar com você...
Rostova desligou o celular e o guardou, enquanto encarava Red.
— Vinte minutos, Red. Disse ele sorrindo.
Red olhou para Liz, que permanecia jogada no chão. Seus braços também estava envolvidos por correntes e sua respiração estava fraca.
...
Eu estava sem muitas opções naquele momento. A única coisa que eu precisava era salvar a vida de Liz, nem que isso valesse a minha.Quando ergui a cabeça para olhar para Kraus, senti uma dor fina no meu pescoço. Um dos homens acabara de aplicar novamente uma maldita injeção em mim. Praguejei por dentro, enquanto vinha me contorcendo pela dor de sentir, uma maldita agulha, penetrar os músculos do meu pescoço.
Senti uma sonolência imediata,mas havia algo errado. Aquilo não era entorpecente qualquer...
— Podem soltar ele...contagem regressiva para que ele se torne um inútil.
Eles me soltaram e eu permaneci sentado. Meu corpo começou a ficar dormente, minhas mãos pareciam estar sendo mergulhadas em um mar de agulhas.
— Red, o continente africano é o local mais incrível do mundo...e você o conhece muito bem não é mesmo? Aquele lugar cheio de vida para todos os lados, mas você sabe que a vida sempre vem acompanhada da morte. Isto que Ozin acabou de aplicar em você, foi o veneno de uma mamba negra. É uma das cobras mais venenosas do continente africano e se seu amigo Dembe não for rápido, o soro antiofídico não chegará as suas mãos.
Eu cai no chão, com minha respiração pesada. Meu corpo começava a paralisar e minha visão passou a escurecer. Tentei me acalmar um pouco, pois morrer já era quase uma certeza, mas antes da hora...não estava previsto por mim.
...
Em outra região da cidade, Dembe recebia, das mãos de Billrou, uma maleta.
— O que Raymond está pretendendo?
Dembe não respondeu, mas olhou para o homem com feições preocupadas. Naquele momento, o celular dele tocou.
— Avenida B, em frente a Starbucks.
Dembe saiu imediatamente da loja onde havia marcado com Billrou e seguiu em direção a Mercedes, que estava estacionada em frente ao local.
...
Reddington agora estava de bruços e se ergueu um pouco para vomitar. De sua boca, agora saia um liquido de sabor forte, decorrente do envenenamento que preenchia suas entranhas. Naquele instante, o celular de Kraus tocou. Ele atendeu e apenas o colocou no ouvido.
— Muito bom! respondeu ele encerrando a ligação.
O homem se levantou e gesticulou que todos entrassem em seus carros e se preparassem para sair.
— 2x0 para mim, Raymond!
Kraus gargalhou enquanto Red esforçava-se para respirar.
— Você consegue sentir suas pernas, Red? Não consegue responder né?
Naquele momento, ele pegou um canivete e enfiou na coxa de Raymond e tirou. Red não sentiu, mas Kraus pareceu se divertir com aquilo.
— É, o veneno é forte mesmo.
O homem entrou um dos carros e baixou o vidro. Ele tirou uma seringa de dentro do seu sobretudo e atirou para longe de Raymond.
— Aí está Red...acho que você só tem 3 minutos. É bom rastejar até lá...feito uma cobra.
Depois disso, o comboio de veículos saiu de dentro do galpão e o enorme portão foi fechado, tornando o lugar escuro e pior para a visão de Red.
...
Meu corpo estava morto e eu estava quase me sufocando. Fui rastejando, com tudo que eu ainda tinha até um ponto brilhoso, a cerca de 15 metros. O sangue que escorria da minha perna fazia meu corpo escorregar e exigia mais do meu esforço. Eu tentei pensar que ali não se tratava só de mim...se tratava da minha família e de todos os riscos que havia exposto Liz e Alice.
Houve um momento que eu não conseguia mais. Eu virei para cima e o oxigênio me faltou. Estava tudo escuro...nada mais tinha brilho...voltei para o lugar de onde eu nunca deveria ter saído. Aquela caverna escura onde vivi anos, antes de conhecer novamente a luz. Uma lágrima escorreu dos meus olhos e eu fui fechando-os...me entregando para a morte. Abraçando-a como uma velha amiga.
— Eu não vou deixar você morrer...
Ouvi uma voz fraca e longe, a medida que senti um corpo pender sobre o meu. Dentre os borrões escuros na minha frente, na pouca sensibilidade que eu ainda tinha, senti uma agulha perfurar meu pescoço.
— Liz...
Depois disso, eu apaguei.
Fale com o autor