Elizabeth sentiu-se tonta ao ver o desenho. Apagou a luz e foi até o seu quarto, com a cabeça sendo bombardeada por pensamentos sobre Reddington.

E se ele tivesse voltado? Pensou

A agente nunca havia comentado sobre Red para Alice. Não fazia ideia onde os dois poderiam ter tido contato. Afinal, ela sempre tomou muito cuidado com a garota, e sempre dava mil e uma recomendações para a babá. Depois de alguns minutos, ela entrou no banheiro e tomou uma chuveirada para esfriar a cabeça, mas o pensamento a atormentou durante a noite inteira.

...

Reddington havia feito o primeiro contato com Alice, e a partir de agora não seria diferente. Ele não ficaria longe, e paulatinamente se aproximaria cada vez mais da garota. Por alguns dias ele ficou observando os passos dela. Percebeu que sempre durante a tarde, a babá saía para passear pelo parque, com Alice.

No período vespertino de uma quarta-feira, Red decidiu ficar em um local estratégico e parou para comprar um café em um food truck. Ele havia avistado a babá chegando com Alice e por isso continuou parado de pé, olhando de relance. A garota parecia ansiosa para soltar-se da mão da mulher e correr para brincar no parquinho.

Quando finalmente pôde correr, Alice parou por um instante e ficou observando o homem, que estava de costas a alguns metros de distância. Ela o reconheceu pelo casaco preto e pelo chapéu. A garota lembrou que aquele mesmo homem havia falado com ela outro dia na escola. Naquele momento, ela correu, se aproximou dele e o cutucou.

Red virou-se intrigado e se deparou com Alice, vestida com um casaquinho azul e um gorro branco. Seu sorrisinho meio traquina encheu Reddington de felicidade.

— Olá Alice, que surpresa vê-la novamente. Cumprimentou ele surpreso, e ficando de cócoras para falar com a garota.

Naquele momento, a babá veio correndo desesperada.

— Alice, pelo amor de Deus!Não faça mais isso!

— Moça, está tudo bem. Conheço Alice da escola, sou do corpo docente. Disse Red se levantando — Me chamo Kenneth...

Naquele momento, ele olhou de relance para Alice, que parecia muito astuta e percebera que o nome dele era outro e não aquele dado por Red.

—...Kenneth Red.

— Ah, me desculpa Sr. Kenneth, é que a gente fica sabendo de tantos casos e é preciso tomar cuidado com as crianças.

— Sim, você tem razão. Como você se chama?

— Kate.

— Aceita um café, Kate?

A mulher sorriu e aceitou.

— E você, Alice? Quer beber o quê?

— Um chocolate quente! Respondeu a garota com alegria nos olhos.

— Seu pedido é uma ordem, Srta.

E dessa maneira, Red foi se aproximando cada vez mais de sua filha. Não era sempre, mas pelo menos duas ou três vezes na semana, ele se encontrava com Alice e Kate pelo parque. No fim do encontro que antecedia o próximo passo de Red, Alice deu-lhe um abraço tão forte, que pela primeira vez em muitos anos, ele havia sentido novamente o que era a sensação de paz. Ele ficou a observar a garota ir embora com a babá, e concluiu que aquela distância estava próxima de acabar.

Depois disso, ele entrou no carro, onde Dembe o aguardava.

— Quando você pretende aparecer para Elizabeth? Questionou.

— Muito em breve, Dembe. Muito em breve...

...

Naquela noite, Elizabeth havia chegado um pouco mais cedo. Donald, que também havia sido liberado juntamente com a agente, decidiu ir jantar com ela. Os dois foram comer em um restaurante e tomaram uma garrafa de vinho do Porto. Ela não havia comentado com Ressler sobre o desenho de Alice. Achou melhor deixar as suspeitas quietas, até mesmo porque havia sido um caso isolado.

Depois do jantar, Ressler levou Elizabeth até em casa. Antes que ela pudesse descer do carro, ele a puxou e deu-lhe um beijo.

— Posso entrar e ficar mais um pouco? Perguntou ele migrando os beijos para o pescoço dela.

— Não, Ressler. Respondeu sorrindo, por causa das cócegas causadas pelos beijos. – Tenho que resolver algumas coisas amanhã cedo. Não posso dormir tarde.

Donald fez uma cara de frustração ao ouvir a desculpa de Lizzie.

— Tá bem. Hoje você escapa, mas amanhã não.

Elizabeth sorriu.

— Tá, boa noite. Despediu-se dando um selinho em Ressler.

— Boa noite.

A agente entrou em casa e liberou Kate, a babá. Alguns minutos depois, ela subiu para verificar como estava Alice, que já dormia em sua cama. Ela entrou no quarto calmamente, acendeu o abajur e sentou-se na ponta da cama. Elizabeth ficou observando a garota por alguns minutos, e acariciou-lhe delicadamente os cabelos. Pouco tempo depois, ela apagou a luz e saiu do cômodo. Quando ela estava entrando em seu quarto, lembrou-se que havia deixado o distintivo e a pistola em cima do balcão, no andar de baixo.

— Droga! Praguejou.

Ela desceu as escadas e acendeu somente a luz da cozinha. Naquele momento, ela sentiu que havia algo estranho. Por algum motivo, ela havia sentido a presença de alguém. Com calma, ela sacou a arma e foi até a sala. A agente sentiu um calafrio enorme percorrer todo o seu corpo. Com a mão direita, ela tateou a parede em busca do interruptor da lâmpada, até que finalmente conseguir acendê-la. A pistola, que até então mirava para o breu, agora estava com o alvo de forma visível. Lizzie perdeu as forças das pernas quando viu de quem se tratava. Ali, sentado na poltrona e a alguns metros de distância, estava o homem que havia sumido de sua vida há quatro anos.

— Reddington! Disse ela quase com um sussuro.

Red a encarava com seriedade. Ele estava ciente do que estava por vir, por isso optou por não usar qualquer sarcasmo ou ironia. A agente baixou a arma, mas ficou encarando o homem de forma altamente incrédula. Ele se levantou e colocou o chapéu sobre a mesa de centro.

— Olá Lizzie.

Elizabeth largou a arma sobre um móvel que estava ao seu lado, e foi se aproximando calmamente do homem. Red estranhou a reação, mas não disse sequer uma palavra. Ela estava com os olhos cheios de lágrimas e com a mão direita, começou a tocar o rosto de Raymond com a ponta dos dedos. Era como se não acreditasse que estava vendo-o novamente, depois de todos aqueles anos.

Naquele momento, de forma repentina, Elizabeth estapeou Red com força. Depois, pressionou as mãos em seu peito e o empurrou.

— Como você tem coragem de voltar aqui? Gritou – Seu desgraçado!

Naquele momento, ela tentou bater em Red, mas ele a segurou.

— Calma, Lizzie, por favor. Pediu Red

— Me solta, seu filho da mãe. Protestou Elizabeth, desvencilhando-se das mãos do homem. – Red, nem pense em tentar se explicar, porque eu não quero saber de nada.

Elizabeth gritava e apontava o dedo na cara de Raymond.

— Você me abandonou um dia depois que Alice havia nascido. Você nos abandonou!

Naquele momento, ela começou a chorar copiosamente e quase não conseguia falar.

— Você tem noção do que eu passei? Não, você não tem, Raymond Reddington. Sabe por quê? Porque você é a pessoa mais sem coração que eu conheço. Aqueles criminosos que você entregou... Aqueles nomes da sua lista negra... você não é muito diferente deles. Com o que você fez a mim, eu to te julgando muito pior do que julgaria qualquer um deles.

Red não falava uma palavra, mas eram visíveis as lágrimas em seus olhos. Elizabeth deu as costas e sentou-se no sofá. Com o rosto nas mãos, ela caiu de vez no choro.

— Lizzie...

Naquele momento, Elizabeth levantou-se e virou a mesa de centro que estava a sua frente.

— Vai embora, Red. Sai de vez da minha vida e da vida da Alice! Berrou aos prantos.

— Mamãe? Chamou uma voz baixinha.

Quando Elizabeth olhou para trás, era Alice que estava de pé próximo a uma coluna. Ela segurava um urso de pelúcia e parecia estar demasiadamente assustada.

— Minha filha...

Naquele momento, a agente foi tentar pegá-la nos braços, mas ela correu para onde estava Red. O homem a colocou nos braços, diante do olhar incrédulo de Elizabeth.

— Calma, meu amor, está tudo bem.

Alice o abraçou.

— Eu tive um pesadelo, Red.

— Não se preocupe, eu estou aqui para protegê-la. Vou colocar você para dormir, está bem?

Naquele momento, Red passou por Lizzie e a encarou. A agente parecia não acreditar na cena que estava se passando diante dela. Pela primeira vez e de uma forma como ela nunca esperou que acontecesse, Red estava sendo o pai cujo ela havia desejado que ele tivesse sido durante os quatro anos que se passaram.