Kowai no Ai Suru
3 Nostalgia
Notas iniciais
Já havia passado exatos dois dias desde a fuga da sala da Suzuki. E depois disso, todas as aulas dela eram iguais. Bem, pelo menos o começo... Ficávamos nos encarando como no primeiro dia de aula, como se fosse um jogo... Quem desviar primeiro perde, sabe? E nenhuma pretendia desviar tão cedo.
E em apenas dois dias o nosso olhar ficou tão famoso que até inventaram um nome para ele! Pó de Diamante, incrível, né? Transformaram um fenômeno meteorológico em um nome para uma encarada. É impressionante a capacidade desse povo pra inventar nomes.
A porta foi aberta quebrando a tensão e fazendo Suzuki e eu olharmos para a entrada, onde uma ruiva muito bonita, vestida de enfermeira, olhava fixamente para o fundo da classe. Ela encarava, surpresa e divertida, o novato. Que por sua vez a olhava com olhos arregalados de horror, em uma expressão bem cômica, na verdade...
- O que deseja? – Perguntou Suzuki, chamando a atenção da mulher.
- Ah... Perdão. – Ela disse, claramente sem graça, mas animada – Eu sou a nova enfermeira da escola. Estou avisando que o Fujimoto-san está na enfermaria, e só voltara para aula depois do almoço.
- Obrigada, por avisar.
Depois da ruiva sair, e a sensei explicar sobre seno, cosseno e tangente, enquanto eu desenhava na cara dela apenas para irritá-la, causando várias brigas entre nós, fomos para a Educação Física. A aula mais inútil e ridícula existente. E com o professor mais retardado possível: Ootsuka Taro. Sabe, aquelas pessoas animadas, idiotas e sem o mínimo de sentido? Bem, ele é assim.
Quando todos estavam trocados e arrumados em uma roda na quadra do colégio, começamos a fazer alongamento. Não me pergunte o porquê de eu estava fazendo. Afinal, eu nunca fazia nada nessa merda de aula. Ficava apenas em pé, olhando para os idiotas correndo atrás de uma bola, enquanto outros idiotas corriam atrás deles.
- Hoje, não vamos fazer uma atividade física muito exaustiva. Mas, é sempre bom fazer alongamento! Assim podemos ter mais energia! – Ootsuka completou depois de ver as expressões de irritação dos alunos. – Como é começo do ano letivo faremos um exercício de confiança. Vocês se juntarão em duplas. Um deve se jogar, de costas, nos braços do outro, que por sua vez deve segurá-lo. Fácil e simples! Sem medo pessoal!
As pessoas corriam de um lado pro outro tentando achar uma dupla ou um lugar vago na quadra. Estava até calmo para a primeira aula de educação física, normalmente sempre ocorriam brigas por causa das duplas...
- Matsuda-kun! Posso ser o seu par? – Perguntou Nomura, a presidente do fã clube do novato. Acredita que em apenas três dias de aula o cara já tinha conseguido um fã clube, e mais de dez brigas de garotas por ele?
- Nem pensar! O Kaa-chan vai ser o MEU par! – Gritou Saito, a novata. Ela surpreendentemente não fazia parte do fã clube, simplesmente porque nele, as garotas tinham que seguir regras, como não chamar o novato por apelidos.
- Kaa-chan? Quem você acha que é para ter essa intimidade? – Questionou a presidente – Além do mais, o convidei primeiro!
- Eu sou melhor com você! – Rebateu – E ele também nunca faria par com você, então não gaste saliva, baby!
- Huh! Quem você acha que é?! Pirralha!
- Pirralha? Olha como fala! Sua baranga! O KAA-CHAN VAI TREINAR CO-MI-GO!
- COM VOCÊ O CARAMBA!
Apesar, de ser uma completa idiotice, e elas serem ridículas. Não posso dizer que a briga delas não era engraçada.
- Calma, garotas. Tem Kaa-chan para todas!
Novato idiota! Depois reclama porque as retardadas roubam as suas coisas, inclusive as cuecas! Não, não estou brincando, ouvi elas fazendo um tipo de ritual macabro, no banheiro, para ele se apaixonar por elas.
- Matsuda-kun!
- Kaa-chan!
Ahhh... Que idiotice! Me matem, por favor!
- Parem com isso! E, Matsuda, pare de ficar se insinuando! – Disse, quero dizer, gritou Taro. Finalmente alguém coloca ordem nessa sala. Quem sabe eu poderia respeitá-lo mais de agora em diante? Sim, sim, eu vou respeitá-lo – Kyoko! Você vai fazer com ele! – Cretino filho da mãe.
Controle-se, Kyoko! Controle-se! Você não pode os matar aqui. Existem muitas testemunhas. Espere o fim da aula. Aí sim você poderá matá-los. Controle a vontade de matar o notavo e o idiota sem o mínimo de sentido. Respira, inspira, respira, inspira...
O novato também não ajuda! O que ele está fazendo? Ele realmente quer acabar com a minha paciência?! Ele está vindo em minha direção SORRINDO! SORRINDO! Aquele sorriso estúpido que ele dá para as retardadas, que se jogam nos pés dele.
- Então, Kyoko-chan. Vamos começar? – Ele disse.
- Primeiro: não me chame de Kyoko-chan. A não ser, é claro, que queira ser asfixiado enquanto dorme. – Avisei, o encarando. É claro que o negócio de asfixia é brincadeira. – E segundo: você me segura.
Me posicionei na sua frente e caí em seus braços. Você não faz idéia de como falar isso, e principalmente fazer, está sendo difícil para mim, principalmente quando eu percebo a ambiguidade dessa frase.
- Como você é leve Kyoko-chan. – Mas, se bem que matá-lo com um travesseiro não seria tão difícil – Mas então, por que todos têm tanto medo de você?
- Quem sabe você não descobre. – Respondi secamente enquanto me levantava – E já disse para não me chamar com esse apelido ridículo.
- Mas fica tão fofo. As outras garotas gostam quando eu as chamo no diminutivo.
- Acontece, Kaa-chan, que eu não sou como as outras garotas.
Novamente me joguei em seus braços.
- Com certeza, não é. – Ele sussurrou para si mesmo – Bem... Você namora o tal do Yuki-senpai?
- E se namorar? O problema vai ser seu? – Falei, tentando conter os impulsos do travesseiro. – Agora é a sua vez.
- Certo. – Ele foi para a minha frente enquanto perguntava. Kami-sama, ele nunca cala a boca? – E a sua família? Como é? – Agora ele passou dos limites. Acho que eu poderia deixá-lo cair no chão.
E foi isso que aconteceu.
Ele agora estava sentado, rodeado de garotas, que perguntavam coisa como “Matsuda-kun você está bem?”, “Matsuda-kun, quer ir para a enfermaria?”, “Matsuda-kun, não morra!”.
- Kyoko-chan, por que fez isso? – Ele disse em uma voz chorosa contendo irritação.
Apenas lhe dei um olhar de nojo e ódio. E fui em direção a saída.
- Estou passando mal. Vou para a enfermaria. – Falei para Taro, sem ao menos o olhar.
Garoto idiota. Quem ele pensa que é para fazer essas perguntas? Quem ele pensa que é para se meter na minha vida? Quem ele pensa que é para me chamar com aquele apelido idiota? Ele só pode estar procurando um modo de morrer, aposto que é isso! Afinal, quem em sã consciência vai falar com a Dama Negra, se meter na vida dela, e ainda por cima sorri, se não estiver procurando uma forma de morrer sem ser acusado se suicídio? Bem... Quem sabe, eu realize os desejos dele? Com certeza as garotas vão ficar tristes pelo Kaa-chan.
Fui para a classe, peguei o meu caderno de desenhos, e fui para os fundos do colégio. Sentei na sombra sakura, e comecei a desenhar. Quem sabe esquecia do imbecil.
Logo, o sinal bateu e eu voltei para a classe. Assim, que a porta abriu, todos ficaram em silêncio, esperando eu sentar, para voltarem a falar. Dei um pouco do meu famoso olhar para Kaoru e me sentei.
- Bom dia, queridas borboletinhas! – Disse Ueda Arisu, a professora de biologia. Já deu pra perceber que ela é meio retardada, né? – Então, hoje vou falar sobre um trabalho em trios! Mas, me desculpem, pãezinhos de mel, eu terei que escolher os grupos.
A classe, suspirou em decepção e medo. Afinal, um teria que ficar comigo...
- Bem, aluninhos, a tarefa é a seguinte, eu escolherei um animal para vocês, e então, vocês pesquisarão sobre ele. Mas, meus queridos pãezinhos de mel – Como ela consegue nos chamar por coisas tão toscas? – eu quero o trabalho bem completinho! Com fotinhos, e redações fofinhas, ok? – Mas que mulher tapada!
- Professora, quando teremos que entregar? – Perguntou uma garota qualquer.
- Bem, Saito-chan. Vocês terão três semanas de prazo. – ela respondeu – Agora, os trios! Saito Hikari, Hara Hideki e Oono Ichiro. Nomura Ai, Shimada Akemi e Miyamoto Isao. – Depois de mais muitos trios. – Matsuda Kaoru, Sakai Kei e Satoko Miyuki. Nakamura Kyoko, Matsui Maki e Hirano Ayame. É só isso!
- Com licença. – Levantei o meu olhar para uma ruiva, a que estava falando, e outra morena do seu lado, à minha frente – Sou Matsui Maki, e essa é Hirano Ayame. Somos as suas parceiras.
Dei um leve aceno com a cabeça.
- Bem... Sobre o trabalho. Que tal nos encontrarmos na minha casa, no sábado? Podemos começar lá. – Começou Matsui.
Estava tudo combinado para o trabalho. As aulas passaram normalmente, sem problemas ou preocupações, e então, finalmente elas acabaram! Saí da escola e fui em direção ao meu trabalho.
- Kyoko-san! Kyoko-san! Ahhhh!
Caploft! Sim, essse foi o som patético que eu ouvi.
Olhei para trás e consegui ver o relance de uma garotinha de 13 anos correndo e gritando o meu nome, e logo depois caindo de cara no chão. Por pura piedade da figura andei até ela e me abaixei, apesar de não conhecê-la.
- Está tudo bem?
A garotinha levantou o rosto corado e deu um pequeno sorriso envergonhado.
- Está sim. – Falou Arata. Aparentemente a garotinha desajeitada de 13 anos era o Arata.
Ajudei-o a levantar e fomos juntos em direção ao trabalho. Durante quase todo o caminho ele alimentara a conversa, enquanto eu apenas respondia suas perguntas empolgadas com palavras monossilábicas. Não estava realmente prestando atenção e ele deve ter percebido isso.
- Algum problema? – Perguntou
- Não nenhum. Só estou com uma dúvida. – Disse – Arata-san, você se veste bem, e tem a aparência e o comportamento de alguém rico, então por que você está trabalhando?
- Ah. Eu... Bem, você está certa – Confessou envergonhado – venho de uma classe social muito privilegiada. Mas, eu saí de casa. Meus pais não confiavam em mim e quis buscar os meus próprios sonhos. Então, simplesmente saí. E você? Têm sonhos que quer realizar? – Mudança um tanto brusca de assunto... Mas tudo bem.
- Ah, eu quero ter uma loja de roupas. Jigoku no Yume.
Percebi que Arata era uma ótima pessoa. Inteligente e gentil. Quem sabe, pode ser, talvez, em um futuro distante, ele possa ser mais um amigo?
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Estava na sessão de macarrão instantâneo. Era impressionante o número de variedades... Coreano, é esse que eu quero, nunca entendi como o Akira consegue comer algo tão apimentado como isso.
- Okaa-san! Okaa-san! Leva esse! – Uma menininha, de mais ou menos sete anos, gritava animada segurando um pacote colorido de macarrão.
Logo a mãe e o pai vieram, acompanhados de um garoto de doze anos. A mãe pegou o macarrão da mão da garota e o colocou na cesta, enquanto a garotinha pulava no colo do irmão.
- Oto-san! Oto-san! A gente pode levar esse chocolate? – Disse uma pequena e linda garotinha.
- Claro, querida. – Respondeu o pai. Sorrindo carinhoso para a menina enquanto acariciava os negros cabelos da mesma.
- Ah! Otoo-san! Que tal a gente pegar moti? – Falou um garoto um pouco mais velho que a irmã, mas tão lindo quanto ela. Com uma aparência confortadora, assim como a do pai.
- Parem com tanto alvoroço! O que os outros vão pensar vendo dois pivetes gritando em um mercado? – Repreendeu uma bela mulher, envelhecida pela expressão de descontentamento e seriedade em seu rosto.
- Querida. Não fale assim. Não importa o que os outros vão pensar...
Balancei minha cabeça, tentando dispersar a lembrança que deveria ser feliz. Voltei para o macarrão apimentado o pegando e logo depois me virando para o lado. Percebi que não era a única que olhara a cena da pequena. Um garoto bonito, com cabelos loiros claros e olhos escuros amendoados ainda olhava para a família. Ele percebeu que eu o observava e me deu um breve e pequeno sorriso.
- Amoooooooor!
Uma garota loira de olhos cor mel havia chegado correndo no corredor e pulado nas costas do garoto.
- Achei o chocolate! – ela disse, infantilmente, o beijando.
- Que bom, moranguinho. – Moranguinho? Fala sério.
O mercado era um lugar pouco aconchegante para mim. Afinal, tinha as enormes filas, o tempo gasto entre as prateleiras de comida, e também era um lugar onde as famílias decidiam o que fariam no jantar. Um típico momento. Muito simples e até sem importância. Mas são momentos como esse que devem ser sempre lembrados. Momento felizes, sem nada. Momentos em que você se dá conta do tamanho da sua sorte por ter uma família, amigos ou simplesmente pessoas que o amam.
Pode parecer estranho. Mas, eu não lembro muito dos meus pais e principalmente não lembro como eles morreram. Apenas sei que meu pai era amável e extremamente carinhoso, e que minha mãe era rigorosa e muito preocupada com as aparências. Nunca entendi como ele casara com ela. Eu o amava, eu a odiava. Sei, que eles morreram, e que depois disso sobrou apenas meu irmão para cuidar de mim. Só que sempre que eu pergunto sobre a morte deles Akira muda de assunto...
- Akira? Posso te perguntar uma coisa? – Perguntei para ele, enquanto jantávamos.
Ele deu um aceno com a cabeça e eu começei.
- Como que... Como que nossos pais morreram?
- Isso não é importante. O que aconteceu, aconteceu, não deve ser relembrado. – Eu já sabia que ele responderia isso, mas... Vale à pena tentar, não?
- Por favor. Eu quero muito saber. Se você não estiver contando para me proteger de algo, por favor, não proteja. Eu...
- Eu estou cansado, Kyoko. Hoje foi um dia exaustivo. Mas, não se preocupe com isso, se preocupe com o agora. Ele que é importante. – Akira me disse fazendo um pequeno carinho na minha cabeça e indo dormir.
Lavei a louça e fui para o quarto. Não queria dormir. Não queria sonhar, ou tem que enfrentar a escuridão novamente. Olhei para o quarto simples, em tons pastéis, sem muita coisa enfeitando. Apenas uma cama, um armário e uma escrivaninha. Na última estavam Arlete, Emmeline e Apollon. Meus robôs. Me sentei em frente a mesa, pegando Emmeline.
- Emmeline. Hoje foi um dia cansativo. – Disse enquanto a consertava. – Tive aqueles momentos nostálgicos, sabe? Eu não gosto deles. Me fazem perceber que eu não me lembro de nada. Que eu sou uma total ignorante quando se trata da minha própria família. Nem lembro como eles morreram...
“Mas, hoje me lembrei de algo. Um momento como sempre estragado pela Kaori, minha mãe. Aquele mulher sempre tão artificial, falsa e mesquinha. Nunca se importou comigo e o Akira... Quero dizer, deve ter se importado... Mas, a sua obsessão pela boa imagem era maior. Sempre querendo que fôssemos impecáveis. Nos batendo quando não nos comportávamos bem... Já que a envergonhávamos... Ela era horrível, Emmeline. Me lembro que quando menor chorava por medo dela... Por medo das suas unhas compridas e vermelhas que nos arranhavam... Medo do olhar de raiva e ódio dela...
“Nunca entendi... Nunca, nunca. Como alguém tão bom, tão doce e gentil como meu pai, Noboru, se casou com uma velha megera como ela... Ele a amava, eu sei que amava. Ele mesmo nos falava e era possível ver nos olhos dele o tamanho da paixão que ele tinha por ela. Mas, ela nunca deu importância... Ela bateu nele quando ele a beijara em público, por causa da vergonha que aquilo causara a ela... Uma mulher estúpida...
“Sempre tão grande, imponente e distante... Era assim que eu a via... Como algo a ser temido. Às vezes penso que ela nunca poderia ser mãe. Eu sei, cruel. Mas, uma mãe não tem que ser pelo menos, um pouco compreensível? Nas fotos, ele sempre está com um doce sorriso nos lábios, nos abraçando, ela sempre em pé, fria e raivosa...
“Depois da morte deles, Akira e eu ficamos em um orfanato. Era grande, enorme. Uma casa no interior em Kyoto. Onde nasci. No orfanato havia tantas crianças, todas com personalidades diferentes, todas com sorrisos diferentes. Mas, eu nunca quis me aproximar delas. Nunca. Depois da morte deles, era como se eu apenas quisesse afastar as pessoas.
“Com Akira era diferente. Lembro que ele tinha muitos amigos, sempre me convidava para brincar com eles. Eu nunca aceitei, ficava na biblioteca. Foi aí que adquiri minha enorme paixão por livros. Me chamavam de estranha, bizarra, e muitas outras coisas. Acho que apenas não faziam coisas piores por causa de meu irmão. Todos o respeitavam muito. Ele adquiriu a sensação de confiança que o nosso pai exalava. Todos ficam a vontade com ele.
“Foi tudo muito frio, distante... Às vezes me pego pensando se não seria melhor ter esquecido mesmo. Se eu deveria mesmo lembrar. Quem sabe, aceitar o conselho de Akira não seja melhor? Pensar no agora... Apenas no agora. O que acha, Emmeline?”
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