Está de tarde, e a chuva cai fraca do céu, no entanto, o ar está submerso numa palidez verde azulada e está frio. Uso uma jaqueta para me proteger do gelo da temporada de chuva e um guarda-chuva para me proteger das gotas frias de água. O mesmo guarda-chuva que eu tinha quando ela foi embora...

Caminho aqui, no mesmo jardim aonde eu a encontrava todos os dias de chuva, e passei aqui muitas outras vezes, aonde me lembrei dela todas as vezes em que desenhava meus sapatos e sentia sua falta.

Muitos estranhos também passavam aqui, se sentavam e falavam comigo, algumas mulheres da minha idade, e interessadas em mim, mas nenhuma delas era ela. Yukino.

Minha formatura foi ontem, consegui passar, mesmo que me saindo mal na maioria dos exames, mas consegui. Também abri minha própria loja de sapatos, um lugarzinho pequeno e humilde em comparação com as lojas grandes que existem por perto, mas que mesmo assim, recebo muitos clientes, e vivo satisfeito com a vida que levo.

Finalmente sou capaz de caminhar para mais longe... Prometi à ela que quando esse dia chegasse, eu iria atrás dela...

Pensando agora é basicamente a mesma coisa que pedir para esperar... Isso foi ano passado... Parece que foi a cem anos.

Falamos muito por telefone, e trocamos muitas cartas, mas ainda assim... Mesmo que estando apenas um ano mais maduro, percebo o quão infantil foi da minha parte pedir que ela me esperasse... Mas ela esperou.

Encontro nosso canto especial, o lugar aonde sentávamos e conversávamos... Não mudou nada... Caminho adiante, até que saio da chuva e me sento no banco.

Fecho o guarda-chuva e o coloco a minha esquerda, e em meu colo, coloco uma caixa de sapatos. Espero ela vir.

Ela me mandou uma carta, dizendo que estaria aqui para comemorar comigo depois que eu me formasse, ela não chegou aqui a tempo, mas combinamos de nos encontrar neste mesmo lugar, só não combinamos que estaria chovendo hoje... Deve ser alguma ironia do destino...

Meu coração está acelerado, minhas pernas sacodem para cima e para baixo sem parar, e abraço a caixa em meu colo, com medo e animado ao mesmo tempo. Mas ela demora a chegar.

Mas de repente, ouço sons de passos vindo nesta direção, e imediatamente levanto o rosto para ver se é ela.

Vejo uma mulher de pé, usando calça preta, uma jaqueta térmica e um cachecol, carregando um guarda-chuva aberto sobre a cabeça. Demoro alguns segundo para reconhecer que é ela... Pois embora não pareça um ano sequer mais velha, seu cabelo está maior.

Mas é ela... Pois eu reconheço seu rosto belo, delicado, feminino e inexpressivo.

Levanto-me rapidamente, deixando a caixa cair no chão sem querer. Ficando de pé, e olhando para ela. Simplesmente feliz.

Ficamos assim, de pé, olhando um para o outro, a pouco mais de dois metros de distância, um tanto inexpressivos, mas totalmente em sintonia um com o outro. Ela de guarda-chuva aberto, debaixo da chuva, e eu debaixo de um teto, protegido da mesma.

Olhamos nos olhos um do outro, e sinto uma alegria misturada de uma tristeza vindo dela. A mesma tristeza que eu senti por todo este tempo, o de saber que ela estava longe de mim, e que eu não podia olhar para ela de perto.

Vejo suas pupilas irem para a caixa no chão, e sorrir ao ver porque eu a derrubei.

Acabo sorrindo como bobo para ela do mesmo jeito.

Sentamos juntos.

Conversamos um pouco, falo para ela como foi a formatura, e ela lamenta por não poder ter comemorado comigo lá, me deixando sozinho com um diploma. Mas fica feliz por eu finalmente ter terminado o segundo grau.

—E agora? – ela pergunta – O que vai fazer? Fiquei sabendo que abriu uma sapataria.

—Sim...

De repente, ela olha para o chão, com olhos tristes.

—E você? O que vai fazer?

—Eu tenho que voltar... Ainda tenho meu trabalho.

Ficamos um tempo em silêncio.

Mesmo com nosso reencontro, sabemos que precisamos seguir caminhos diferentes.

Olho a caixa ao meu lado, e percebo que se eu não entrega-la a ela, a terei trazido por nada.

—Tome – digo colocando a caixa suavemente no colo dela.

—O que é isso?

—Uma coisa que já devia ter recebido a muito tempo.

Ela abre, e se surpreende com um leve sobressalto.

São os sapatos que fiz para ela.

—São lindos Takao... – diz segurando eles.

—Que bom que gostou...

Ela os coloca no chão, tira o sapato que está usando e calça uma das sapatilhas.

Aproximo-me para ver como fica.

—Coube perfeitamente...

Ela olha para eles sorrindo, e depois olha deles para mim.

Quando nos damos conta, nossos rostos estão extremamente próximos. É quando olhamos um nos olhos do outro e sentimos a respiração um do outro, o hálito quente um do outro.

É quando de repente, nos beijamos.

Toco sua cabeça, aproximando seu rosto ainda mais do meu, e ela toca meu rosto suavemente. Nosso primeiro beijo...

Não sei quanto tempo nossos lábios se tocam, nem quando minha língua tocou a dela, só sei que depois disso tudo, nós paramos para respirar, e nossas testas ficam coladas. Ela ainda me tocando no rosto, e eu tocando na nuca dela.

De repente, percebo que ela está chorando.

E com voz de choro, ouço ela dizer: “Eu não quero me afastar de você de novo.”.

—Eu também não...

—Mas... E agora... O que vamos fazer? Você tem sua loja, eu tenho meu trabalho... E não posso trabalhar aqui como professora...

Olho nos olhos cheios de lágrimas dela, e percebo a dor que há em seus olhos, e aos poucos uma lágrima surge nos meus.

Nos separamos, e olhamos cada um para um lado... Ficamos em total silêncio quando de repente, uma luz surge em minha mente, e eu digo: “Eu vou com você...”.

—O quê? – ela pergunta se virando bruscamente para mim, vejo suas lágrimas brilharem no ar quando ela me olha – Não! Não posso deixar que faça isso! E a sua loja? E o seu sonho de ser sapateiro?

—Meu maior sonho tem sido ficar ao seu lado! – digo com convicção.

—Mas você se esforçou tanto... Não quero que jogue todo seu esforço no lixo.

—Tudo o que eu fiz foi para encontrar você de novo... Eu trocaria todas as sapatarias do mundo só para ficar com você...

Ela me olha novamente com lágrimas nos olhos.

—Mas eu não quero que você faça isso... – ela diz abaixando a cabeça.

Aproximo meu rosto do dela, e a pego com os dedos pelo queixo, levantando a cabeça dela, e fazendo-a olhar para mim.

—Lembra daquele dia... No prédio do seu apartamento? – sinto lágrimas escorrerem de meus olhos – Você disse que eu a salvei... Desde que você foi embora, eu não encontro mais alegria, pelo menos não tanta quanto no dia em que eu a perdi... E todos os dias só penso em compartilhar uma vida com você... Agora eu preciso que você me salve...

Lágrimas seguem a escorrer de seus olhos enquanto me olha, e num ímpeto, ela me abraça, e eu correspondo ao seu abraço.

E ficamos juntos, enquanto aos poucos para de chover, e os pássaros começam a cantar.

Não faço muita coisa antes de partir, coloco minha loja a venda, e me despeço da minha mãe, do namorado dela – embora eu não tenha qualquer proximidade com ele – do meu irmão e da namorada dele. Eles obviamente estranham quando descobrem que vou morar com a Yukino, e a Yukino se sente um tanto desconfortável com os olhares deles, mas nada disso importa.

Chega o tempo de irmos. Sentamos nas cadeiras do aeroporto. Fico sentado ao lado dela, e esperamos o nosso voo.

—Takao, nos chamaram para o nosso voo.

Nos levantamos e caminhamos juntos, puxando nossas malas, Yukino usa os sapatos que dei à ela.

—Yukino – chamo-a sem virar o rosto.

—Sim – ela responde da mesma forma, sem virar o rosto.

—Obrigado por me salvar...

Enquanto caminhamos, ela permanece em silêncio, e nem sequer vira o rosto. No entanto, logo depois, ela responde: “Eu te amo.”.

Me surpreendo ao ouvir sua resposta, mas sorrio.

—Eu te amo – digo para ela.

Ela não responde, mas sinto sua mão ir em busca da minha, e caminhamos de mãos dadas, olhando um para o outro vez ou outra, e vendo o rubor e o sorriso na bochecha um do outro.

Ficamos assim até que entramos no avião.

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