Koné
3 Quando Não Consegui Manter a Boca Fechada
Notas iniciais
Já faziam trinta minutos que eu estava deitado na cama, no escuro. Collin achava que eu estava dormindo, provavelmente, mas isso seria impossível agora. Tudo que eu conseguia fazer era encarar o teto e me perguntar porque, porque diabos, eu tinha decidido que era uma boa ideia dizer a Collin como eu me sinto.
Bem, ok, era uma boa ideia. Collin disse que gostaria de saber. E nós moramos juntos. Não seria justo continuarmos dividindo a casa e esconder isso, se era algo que ele queria saber caso se aplicasse a alguém próximo. E eu estou bem próximo. Moramos juntos, trabalhamos juntos…
Quando decidi contar, foi tudo muito simples na minha cabeça. Sonhei que ele ia sorrir, se declarar e me beijar? Sim. É claro. Mas eu sabia que o mais provável era que Collin ia, educadamente, dizer que não se sentia da mesma forma. Acertaríamos em ser amigos, e seria isso. O tempo iria curar o resto.
Mas nada disso tinha acontecido. Collin tinha segurado minha mão, pedido um tempo, me beijado no rosto como se fosse meu irmão. Nada fazia sentido. Eu não conseguia entender o que estava se passando na cabeça dele agora, e meu maior medo era que eu teria estragado tudo.
Talvez eu tenha estragado. Talvez as coisas entre Collin e eu iam ficar tão estranhas que ele ia simplesmente voltar para a América para não me ver mais.
Eu me sentei, no susto, o coração saltando. Voltar para a América? Ah, não… E se Collin resolvesse fazer isso? Ele não tinha vindo para Londres para procurar namorado, tinha vindo para jogar, e eu podia ter estragado tudo para ele…
Me deitei, afundando o rosto no travesseiro. Me sentia com quinze anos novamente. Que desastre. “Eu gosto de você”, sério? Não havia uma escolha de palavras mais adulta para expressar meus sentimentos? Não era surpresa que a resposta de Collin tinha sido segurar minha mão e beijar meu rosto.
Mas aí, também, o que eu ia fazer? Era completamente incapaz de seduzir uma pessoa. Já tinha percebido que tinha o apelo sexual de um ursinho de pelúcia no que dizia respeito às minhas atitudes. Eu sequer era interessado em sexo como a maioria das pessoas da minha idade. Não que não gostasse, mas às vezes era tão natural para as pessoas, e para mim era muito mais complicado. Eu tinha que realmente gostar de alguém, e ainda assim levava tempo.
Certamente não era o tipo de relacionamento que Collin, nos seus vinte e cinco anos, ia querer. Eu sou um tédio. Não gosto de baladas, não gosto de festas, não bebo muito e tenho uma frequência sexual surpreendentemente baixa. Nada disso deve ser interessante para alguém tão jovem, animado e bonito como ele.
De repente, me sentia péssimo. Como eu pude ser tão egoísta? Contar isso para Collin, assim, desse jeito, do nada… Mesmo ele tendo dito que queria saber… Eu devia ter pensado nas consequências. Isso pode arruinar a passagem dele por aqui.
Suspirei, me sentando. Não ia conseguir dormir de qualquer forma, precisava fazer alguma coisa. Estava começando a me sentir muito, muito ansioso. Talvez fosse um ataque? Não sabia dizer.
Um banho. Um banho parecia uma boa ideia.
Fui ao banheiro, levando pijamas limpos uma vez que começara a suar demais. Esperava que um banho quente fosse me fazer relaxar, mas não estava acontecendo. Receei que o barulho do chuveiro ligado fosse acordar Collin, e a última coisa que eu queria era o atrapalhar ainda mais pelo dia. Mas, no fim das contas, o apartamento tinha paredes grossas.
Me encostei contra o vidro do box, tentando pensar com calma.
Não tinha porque surtar. Não ainda. Collin não estava bravo, dava para perceber. Mesmo alguém tão gentil como ele acabaria dando algum sinal, nem que fosse a testa franzida, caso tivesse se irritado.
Não estava triste, isso também era claro. Ele parecera genuinamente confuso. É claro que parecera… Eu nunca o disse que sou gay. E ao que indica, fui muito bom em disfarçar isso, dele ou de qualquer outro. Uma boa notícia, ao menos.
Collin iria mesmo querer falar comigo no dia seguinte? E se decidisse fingir que nada tinha acontecido? Isso não parecia muito algo que ele faria, mas… Bem… Eu poderia continuar como estávamos antes. Vinha lidando bem com o que sinto. Poderia continuar assim, se fosse melhor para ele.
Poderia seguir de qualquer forma, se fosse melhor para ele. Poderia me mudar para outro apartamento, também. E a janela de transferências estava aberta… Eu não queria que ele saísse do Legends, mas se eu recebesse outra oportunidade, e ainda pudesse ajudar minha família, e fosse melhor para ele também…
Não. Não, isso não. Nem assim não conseguia me ver deixando o time. Me apegara muito a Kristina para isso. Ela me deu uma oportunidade incrível. Se fosse difícil demais para Collin ficar perto de mim, teria que ter outro jeito.
Fechei o chuveiro, saindo do box e pegando a toalha. Estava projetando demais. Podia ser que nada disso acontecesse. Pelo que conhecia de Collin, a maior chance era que ele fosse pedir, no dia seguinte, que continuássemos bons amigos. Talvez até pedisse desculpas por não retribuir meus sentimentos.
E sim, eu seria amigo dele. Gostar de Collin significa que eu o quero perto de mim, e mesmo que eu fosse gostar que fosse de forma romântica, se ele quiser de outra forma, para mim estaria bom também. Desde que ele estivesse feliz.
Não quis voltar para a cama. Não achava que ia conseguir dormir, e não queria continuar rolando de um lado para o outro no colchão. Acabei indo bem devagar e silenciosamente para a sala.
Não acendi nenhuma luz. Realmente não queria chamar atenção de Collin, ou fazê-lo acordar, ou qualquer coisa do tipo. Fui até a sala, seguindo o caminho familiar no escuro, até chegar à janela.
A abri um pouco, me apoiando no batente e sentindo o vento frio na cara. Aquilo certamente seria bom para relaxar.
O vento de Londres era muito mais frio do que na minha casa, e as luzes noturnas eram muito, muito diferentes. Achei o ambiente daqui esperançoso e animador desde que cheguei, mesmo que sentisse falta de casa. O tipo de paz que esse lugar passa eu não tinha em meu lar.
Mas meu lar também era mais quente. Não só na temperatura, mas nas pessoas também. Tudo era mais acolhedor, mais caloroso. Aqui em Londres os vizinhos não conversam tanto. Talvez em cidades menores, mas não aqui na capital. Isso teria tornado o meu dia-a-dia muito isolador, se não fosse por Collin morando comigo.
Eu estava me atormentando por antecipação, sabia disso. Mas não conseguia suportar a ideia de fazer Collin se sentir mal, pressionado, triste ou culpado de qualquer forma, e temia que isso estivesse acontecendo agora.
Tudo bem, ele disse que queria saber. Mas mesmo assim, eu realmente devia ter mantido a boca fechada.
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