Konseki
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Capítulo 1
Ruki’s POV
Odeio quando isso acontece...
Essa lata velha idiota!
-Ei, não é permitido cachorros dentro do estabelecimento – um brutamontes, que parecia fazer o papel de atendente daquele lugar imundo, protestou assim que dei um passo para dentro daquilo que chamavam de oficina mecânica.
Como se qualquer coisa que Koron-chan pudesse fazer ali dentro fosse piorar o estado daquela coisa. Eu deveria era estar temeroso por Koron acabar pegando uma infecção por colocar as patinhas naquele chão.
-Ele é um bom cachorro, não vai fazer nada, e se fizer, eu mesmo limpo – retorqui impacientemente, bufando de raiva quando o homem sorriu debochado.
Como se eu já não estivesse estressado o suficiente pela porcaria do pneu do carro decidir estourar e acabar com a minha roda... eu não deveria ter calibrado-o tanto... e nem estar correndo tanto também.
Ao menos consegui não bater em nada... aquilo já me sairia caro o suficiente, para um mês tão não proveitoso quanto este estava sendo.
-Do que está rindo? – rugi
-O problema não é ele sujar nada, será um problema se ele escapar da coleira e acabar perdendo uma pata aqui dentro – o brutamontes de mais de 1,80 e músculos exagerados para um oriental respondeu ainda em deboche.
Juro que meu sangue gelou ao imaginar meu pobre Koron-chan , tão pequeno, tendo sua patinha decepada ou esmagada por alguma daquelas coisas nas paredes e espalhadas pelo chão. Me abaixei e o agarrei com meus braços, retirando-o do chão e mantendo-o junto a mim... Isso que dá por não ir a uma oficina de classe, mas o preço das outras estavam absurdos e este mês não tinha sido nada bom... ainda mais agora, com essa porcaria de acidente.
Ser pobre é fogo!
-Eu só quero que alguém dê um jeito na suspensão e na roda do meu carro e troque o pneu – avisei logo, desejando que minha estadia ali fosse a menor possível.
-Seu carro está ai fora?
-Sim! É o Corolla 2008, azul escuro – apontei a o automóvel que comprei parcelado em trocentas vezes... eu ainda nem tinha terminado de pagar!
-Uh! Você conseguiu ferrar a suspensão toda! – o homem exclamou ao olhar por cima da minha cabeça, provavelmente notou o fato do carro está pendido para um lado.
-Vai sair muito caro? – perguntei de uma vez, afinal era aquilo que me interessava.
-Bem, isso quem vai dizer é o Reita – respondeu apressadamente, virando-se para trás, só agora eu notava bem o ambiente amplo com meia dúzia de carros ali, alguns erguidos, outros já deixados de lado, percebi três homens trabalhando lá dentro, imaginei qual deles seria o tal “Reita”. Poderia ser o baixinho metido a afro-americano asiático no fundo do galpão, dentro do capô de uma lata velha, o careca esquisito , com cara de Yakuza que mexia em um dos carros suspensos, ou a pessoa desconhecida debaixo de um Mustang laranja e preto... como o dono de um carro daqueles tinha coragem de deixá-lo numa espelunca daquelas?
-Reita, o baixinho aqui ferrou a suspensão do Corolla 2008 ali! – o cara que pretendia ser uma espécie de atendente do local gritou para o meio da oficina, atraindo a atenção para mim.
Juro que se não estivesse em minoria, iria quebrar uma daquelas coisas da parede na cabeça daquele brutamonte metido a esperto...
Koron rosnou concordando comigo e eu pensei seriamente em deixá-lo saltar em cima da garganta do cara, mas fiquei com medo de que meu pobre bebê se intoxicasse.
Por sorte o tal Reita pereceu chegar bem antes de eu começar a me aproximar dos canos de escapamento.
-Pois não! – ele falou em uma voz grave e até simpática, o que me fez parar de fuzilar o maldito que me chamou de “baixinho” e olhar para o recém-chegado
-O meu carro... – comecei rapidamente, perdendo a voz assim que consegui visualizar direito a figura do tal “Reita”
Nesses meus 29 anos de vida eu só tenho uma coisa a dizer:
“UAL!”
Não sei se já deixei claro, mas eu sou gay... e sei apreciar um bom homem, por isso... posso garantir: AQUELE homem era MUITO BOM!
E não era só pelo macacão azul escuro sem mangas e sujo, ou pelos músculos discretos dos braços e do tórax a mostra, ou ainda o cabelo loiro escuro arrepiado e meio bagunçado, posso afirmar que não era só pela faixa estranha que cobria o nariz ou pelas manchas de óleo e graxa que pareciam se distribuir pela pele de um modo tremendamente sexy, era o conjunto todo em si.
ELE era TODO BOM.
E até mesmo a altura, uns dez centímetros a mais que eu, era a ideal para ser másculo sem parecer um troglodita bombado que nem esse maldito atendente que está estragando toda a paisagem.
“Por que ele apenas não desaparece?”
-Vamos ter um pouco de trabalho! – a voz grave e melodiosa mais uma vez invadiu minha audição e eu quase senti meu estresse se desfazer. Comecei a segui-lo enquanto ele saia para a calçada e começava a avaliar o estrago no meu carro
-Ah! O pneu estourou, eu estava em alta velocidade, não bati em nenhum lugar, mas invadi um canteiro e a roda amassou, quando consegui parar, a suspensão estava assim! – narrei, acrescentando uma pequena coisa: a suspensão não estava tão ruim assim quando eu parei o carro na hora do acidente... como pode estar tão torta?
-E você o forçou a vir até aqui no tranco – e de repente a voz melódica dele se tornou... repreensiva?
Eh! Estava bom demais pra ser verdade!
-Bem, eu não ia gastar dinheiro com um guincho! Não sou rico, sabe... e esse mês está meio complicado! – revidei, ofendido, imaginando que ficava óbvio a minha profissão pelo adesivo de propaganda no carro
-Sinto informar que a suspensão está toda comprometida, ou nós a refazemos, ou você compra outro carro – foi o diagnóstico dele, assim, direto, frio... Acho que minha fantasia toda se desfez bem agora.
-E quanto isso vai custar? – perguntei, já começando a aceitar que na verdade aquele gostoso não passava de um imbecil sem educação
-Mais do que custaria se tivesse chamado um guincho! – respondeu no mesmo tom direto, dessa vez até um pouco de desprezo era visível em sua voz
Pronto! O conto de fadas já era! Ele é um idiota e eu não tenho dinheiro para pagar um concerto caro.
Merda! Eu preciso do carro, é o meio de transporte que eu utilizo para trabalhar!
-E isso seria... – tentei, na esperança de que o preço fosse acessível, ou que o gostoso grosso ali fosse aberto a coisas novas e suscetível a sedução, por isso joguei um dos meus melhores olhares
- 100 000 ienes para desamassar a roda, ajeitar a suspensão e trocar o pneu – respondeu em um tom que deixa duas coisas bem claras:
Primeira, ele não era aberto a coisas novas e muito menos a sedução
Segunda, não sei de onde eu iria tirar tanto dinheiro, eu sequer tinha terminado de pagar o financiamento do Corolla!
-Você aceita parcelamento? – tive a ousadia de perguntar, um pouco constrangido e sem graça
-Por que não pede para o papai pagar pra você, garoto! – o tal Reita cuspiu em ironia... quantos anos ele acha que eu tenho?
-Ah! Sim, seria muito lindo um adulto de quase 30 anos pedir mesada para o pai! – revidei em um grito alterado... talvez se não fosse os problemas com a minha família eu realmente pudesse fazer tal coisa... se meu pai não fizesse questão de fingir que não tem mais filho... mas isso não é algo para se pensar agora
-Quase 30? – ele perguntou em total surpresa, eu até que me senti orgulhoso por aparentar ser mais jovem
-Faz um preço mais em conta que eu te digo como mantenho minha aparência desse jeito – joguei, tentando qualquer coisa que o fizesse abaixar o preço... que já estava mais baixo do que nas últimas três que eu fui, mas ainda não estava dentro da minha realidade deste mês
Deliciei-me e cheguei até mesmo a me acalmar com a gargalhada linda que ele deu, o que não é normal, geralmente eu fico uma fera quando sorriem de mim
-Vamos fazer o seguinte... – começou em uma pergunta óbvia pelo meu nome... tinha esquecido que no adesivo não tinha essa informação
-Matsumoto, Matsumoto Takanori, mas prefiro que me chamem de Ruki – respondi de maneira estranhamente gentil, equilibrando Koron em um braço enquanto usava minha mão livre para procurar um dos meus cartões em meu bolso e entregá-lo a Reita, que o leu rapidamente.
-Bem, ficamos assim então, Ruki-san... – iniciou mais uma vez, e eu não pude deixar de notar o quanto meu apelido ficava lindo em sua voz... acho que a fantasia está voltando novamente — vou tentar conseguir as peças por um preço melhor e não vou cobrar a mão-de-obra, mas... em troca, terá que nos ajudar – finalizou
-E essa ajuda, seria...?
-O senhor revitaliza e decora ambientes de acordo com a propaganda do seu carro e pelo seu cartão, acha que pode fazer algo pela minha oficina? – ditou, retornando a sua voz grave e pondera de antes
Sei que a proposta era muito boa e que eu deveria aceitar logo de cara, mesmo assim voltei meus olhos para dentro do local imundo e quase caindo aos pedaços... ia ser um trabalho difícil!
-Se eu aceitar, quanto ficaria o concerto? – perguntei de uma vez
-Acho que consigo abaixar para 30 000 ou 40 000, o que acha?
-Fechado! Em quanto tempo fica pronto? – falei, exasperado, não conseguiria preço melhor que aquele
-Cerca de uma semana e meia, acha que termina a oficina nesse tempo também? — falou em um sorriso mínimo e satisfeito
- Sim, na verdade, acho que uma semana é mais do que o suficiente – respondi, retribuindo o sorriso, até que um barulho estranho veio de dentro do galpão e eu me virei para olhar o que tinha sido, visualizando o atendente brutamontes no chão, enquanto o tampo de madeira do “balcão de atendimento” estava visivelmente quebrado — ... talvez eu precise de uma semana e meia mesmo
E a risada gostosa dele mais uma vez chegou aos meus ouvidos
-Negócio fechado, Ruki-san, me mostre um orçamento amanhã e coloque o Corolla para dentro, vamos avaliar o quanto pode ser concertado e o quanto vai ter que ser comprado
Eu apenas acenei afirmativamente, animado por finalmente encontrar uma solução. Na animação acabei por praticamente jogar Koron-chan nos braços do loiro gostoso ali e me apressar em pegar minhas chaves para dar partida.
Assim que entrei no carro senti meu coração se aquecer com a visão que tive.
Koron-chan estava todo feliz nos braços do tal Reita que o levantava no alto como se fosse uma criança e o deixava lamber o rosto sujo enquanto sorria amplamente e balbuciava palavras fofas para o meu pequeno chiuaua
“Que fofo! Koron-chan, seu sortudo!”
Deixei um sorriso se abrir em meus lábios e dei partida no Corolla, levando o carro que parecia galopar que nem cavalo para dentro do galpão
“Acho que vou adorar a próxima uma semana e meia”
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Aoi’s POV
Odeio quando isso acontece...
Se eu contrato um serviço de internet é porque quero que ele funcione, não?
Como se eu não estivesse pagando caro por essa merda!
O pior é ainda ter que ligar e ser enrolado por esses malditos atendentes de telemarketing.
Primeiro toque.
Eu vou xingar muito a pobre garota de voz doce que me atender e vou descontar toda a minha raiva na coitada!
Segundo toque.
È agora...
“Seja bem vindo ao portal de atendimento...” – Merda! Esqueci que essa porra de atendimento eletrônico vinha antes, e eu que já tinha até enchido a boca para gritar
Digitei a droga do número referente a reclamações, que estrategicamente era o último a ser dito, e esperei mais um toque antes de finalmente ser atendido.
Agora eu xingo!
“SoftBanck,reclamações e suporte técnico, Uruha-san, boa tarde! Com quem falo?”
Eu sei que eu falei que iria xingar, mas ao contrário do que eu pensei não era nenhuma daquelas atendentes de voz fina, era a voz grave e calma de um homem, quer dizer, que acho que é homem, apesar desse nome feminino... e ...Kami!... Que voz linda! Era impressão minha ou ela parecia até mesmo ter sido um pouco gemida?
“Com quem falo?” a voz repetiu, e foi ai que eu percebi que estava feito bobo no telefone, sem falar nada
-Ah! Me chamo Shiroyama Yuu, assinei o plano de internet banda larga com vocês para a minha loja, mas desde hoje de manhã que ela não está funcionando – respondi educadamente, toda a minha ira e estresse se dissipando... agora sei porque colocaram uma pessoa como ele na central de reclamações...
“Shiroyama-san, poderia me informar o número de seu documento cadastrado?” – o dono da voz perguntou gentilmente e eu me perguntei seriamente se alguém tinha tido a coragem de gritar com ele alguma vez.
-Ah! Sim... – respondi de bom gosto, fornecendo todos os dados que ele me pediu logo em seguida
“Shiroyama-san,aparentemente sua conexão foi cortada por falta de pagamento” – sentenciou de um jeito tão amável que nem mesmo eu tive coragem de contestar
-Ah! O pagamento atrasou porque eu sumi a primeira via da conta e tive problemas para imprimir a segunda via, mas ontem mesmo pedi para um amigo ir pagá-la – respondi pacientemente, desejando que ele continuasse a falar mais
“Bem, o pagamento não consta em nosso sistema, poderia confirmar com esse seu amigo o número do recibo?”
-Sim, poderia aguardar um minuto? – pedi, temeroso de que ele passasse para outro atendente... de alguma forma... acho que me apaixonei a primeira vista, ou primeira ouvida, pela voz de alguém
Peguei meu outro celular e digitei rápido o número do Ruki, esperando nervosamente até o quarto toque para ser atendido. Quando o baixinho atendeu, eu fui capaz de sentir na pele a diferença de voz e do sentimento que elas me passavam
“Aoi! Que bom que ligou! Vou passar aí mais tarde, preciso do seu...” Takanori começou... e minha falta de paciência se fazia presente novamente
-Não quero saber, Ruki, pagou a conta que te pedi ontem?
“Conta?”
Era só o que me faltava!
-Sim, de telefone e internet, lembra? Te dei a 2ª via e o dinheiro ontem – expliquei rudemente, aquele vagabundo escalador de formigueiro não era o meu anjo de voz doce e sexy
“Ah! A conta...Yuu...” – desconversou descaradamente de modo infantil... e isso só significava uma coisa: Ele tinha feito merda! “Ontem eu sofri um acidente, meu carro está no conserto e... eu acabei esquecendo!”
-Seu filho de uma... boa senhora que teve o azar de te ter como filho,não se pode mesmo contar com um amigo inútil, anão e gay!”- vociferei, então o motivo de todo o atraso nas vendas hoje era aquele idiota?
“Ei! Eu sofri um acidente, ok? E a culpa foi sua por se esquecer a data de vencimento, perder a primeira via e se enrolar todo para tirar a segunda, para um microempresário você está muito desorganizado, não acha?”
- Olha só quem fala! Seu decoradorzinho de uma... não vou perder meu tempo com você, tchau! – sentenciei, desligando na cara daquele nadador de aquário. Melhor voltar para a voz linda do meu doce desconhecido.
-Desculpe a espera, o idiota do meu amigo esqueceu de pagar a conta, se eu pagá-la hoje, quando a conexão seria refeita? – expliquei, tentando aparentar menos alteração possível
“Assim que o pagamento constar em nosso sistema a linha será liberada automaticamente para o senhor”
E novamente,ouvir ele falando... ah! Era como um calmante natural
-Ah! Sim, agradeço muito... Uruha-san! Um nome estranho para um homem, não acha? Que dizer.... você é homem? – sei que pareceu meio idiota, mas eu tinha que perguntar e eu nunca fui do tipo tímido. Fiz bem, a risada dele foi a risada mais linda que eu já tive o prazer de ouvir nesses meus 32 anos de vida
“ É um nickname de trabalho, acho que não poderia informar coisas assim,mas eu gostei do senhor... e sim, eu sou homem... decepcionado?”
Kami! Isso devia ser proibido! Eu estava sendo seduzido por telefone? Ah, cara! Senti uma fisgada bem agora!
-Pelo contrário,eu adorei...e você? Decepcionado? – respondi e rebati a pergunta.
“De forma alguma... Shiroyama-san...”
Ele gemeu meu sobrenome... ele gemeu meu sobrenome...
“...Eu adorei falar com o senhor, mas se seu problema já está resolvido, eu vou ter que desligar, já passou da hora de troca de turnos, a seguir será informado o número do protocolo, por favor, peço para que anote-o e...ligue mais vezes,se houver problemas”
Tenho certeza de que essa última parte era totalmente por ele... quer dizer que não sou apenas eu que fiquei interessado ?
-Posso pedir para falar com você? – investi.
“Ah! Pode sim, é só pedir para ser atendido pelo Uruha, trabalho no turno da tarde, de segunda a sábado, agradeço pela atenção, Shiroyama-san, tenha um ótimo final de dia!”
E antes que eu pudesse falar qualquer coisa, fui redirecionado ao atendimento eletrônico,onde uma voz gravada e fina me fornecia um número enorme de um protocolo que eu sequer me dei o trabalho de ouvir... estava ocupado demais sonhando com o meu anjo de voz doce e sexy.
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