— Shikamaru Nara não é? – Eu estava nervoso. Não gostava de entrevistas de emprego. Todas aquelas perguntas e incisões e... Pessoas. Olhei de maneira afirme para o homem à minha frente tentando passar confiança.

— Isso. – Digo sucinto. Talvez eu devesse me expressar mais em uma entrevista, mas a vaga era pra TI, não preciso ter uma ótima desenvoltura correto?

— Hmm, seu currículo está ok. Tem as qualificações para a vaga senhor Nara. Mas me responda: Por que quer trabalhar em um hotel, mais precisamente neste hotel? — O homem me olhava sério, fazendo meu estômago embrulhar.

Por que eu não posso simplesmente fazer um teste de capacidade? Peça-me para Hackear o sistema de câmeras do hotel, não para mentir.

— Senhor Neji, é... e-eu tenho as capacidades necessárias. Posso fazer qualquer coisa com o sistema... precário do hotel. Antes desta entrevista invadi o sistema central de operações… — Parei de falar quando ele me olhou assustado e tentei reformular minha frase. — O que quero dizer é que... Sei fazer o meu trabalho. Baseando-me no fato de que o recrutador é um advogado que não está em sua função, creio que arrumar uma desculpa filosófica para o motivo de eu querer esta vaga seria irrelevante.

— Como sabe que eu sou um advogado e não faço parte do RH? – Neji me encarou desacreditado, fazendo pouco caso do que tinha dito. Não que ele fosse muito expressivo, mas era a mesma cara que meu pai fazia quando olhava para mim.

— Eu poderia dizer que é porque está usando um terno razoavelmente caro e porque tem uma maleta debaixo da mesa com as suas iniciais gravadas. Mas a verdade é que vi na lista de funcionários da empresa. Além disso, vi também a quantidade de funcionários ativos e inativos, planilhas de despesas anuais e o seu salário também. Eu sugiro que contratem um bom profissional em TI para que isso não aconteça mais. – Ele ainda estava sério, mas a forma como seus olhos estavam um pouco abertos me fez achar que ele ficou impressionado. Fico mais confiante quando penso que, julgando pelos outros candidatos que já passaram por aqui hoje, eu tenho boas chances.

— Ok, senhor Nara. – Ele levantou-se da mesa e eu acompanhei-o por instinto. — Vou ignorar você ter assumido o fato de ter invadido nosso sistema ilegalmente e coletado dados confidenciais e farei o seguinte: Vou lhe contratar! – Um sorriso surgiu no meu rosto. Eu estava feliz. – Porém, essa entrevista foi gravada e enviada simultaneamente para outra conta particular, ou seja, se tentar usar informações do sistema do hotel para benefício próprio ou de terceiros será processado e provavelmente preso. E quando digo provavelmente é porque estou afirmando que você será preso, meu rapaz. – Neji disse de forma, me guiando até a porta com um sorriso suave no rosto de quem está acostumado em ameaçar pessoas todos os dias. – O senhor pode passar no RH para confirmar sua documentação. Começa na segunda. Passar bem senhor Nara... Ah e a propósito, já que sabe o quanto ganho aqui acho apropriado que nossa diferença... Hierárquica baste para que esta informação não venha a público não é?

— Sim, senhor. – Limito-me a concordar, para em seguida ver ele batendo a porta na minha cara.

Suspiro brevemente, me sentindo cansado. Não me importo verdadeiramente com isso, pois agora tenho um emprego com carteira assinada. Obviamente meus rendimentos são bem menores do que quando eu trabalhava... Sozinho. Mas isso vai bastar.

oOOo

Primeiro dia oficial de trabalho assalariado.

Estou feliz.

— Ok, já peguei o resto da papelada para a contratação. Carteira de trabalho, ok. Isso ai garoto, vai ser a primeira vez que alguém escreve em você. – Dizia olhando para aquela caderneta azul, enquanto saia pela porta de meu apartamento do subúrbio. Eu já tinha 25 anos e este era meu primeiro emprego de fato.

Eu havia sobrevivido bem sem um emprego formal até então. Trabalhar sozinho era produtivo e eu gostava de ser meu próprio chefe. No entanto, minha mãe não entendia como eu conseguia me sustentar e, apesar de eu morar sozinho, não queria preocupar minha mãe.

Ela vivia recortando vagas de emprego no jornal para me mostrar. A vaga que consegui no hotel havia sido indicação dela e resolvi fazer a entrevista para agradá-la. Apesar de tudo, eu estava animado para trabalhar naquele lugar, ao menos por enquanto.

Mais algum tempo de caminhada e chego ao hotel. Fora a minha mãe, o outro motivo que me fez querer trabalhar no hotel era para ter uma vida decente ou talvez eu só quisesse ficar longe de confusão. Já fiz alguns trabalhos para pessoas perigosas. Um hotel não teria muito perigo a oferecer.

— Bom dia, Senhor. – Cumprimento o porteiro e sigo até a recepção. – Olá, bom dia... É... – A recepcionista de cabelo rosa me encara sorridente. Por que um hotel de 5 estrelas tem uma recepcionista de cabelo rosa com cara de adolescente na puberdade? Quantos anos essa menina tem?

— Pois não, Senhor? – Ela me chama de maneira atenciosa. Parece uma boa recepcionista. Olho para ela um pouco constrangido por estar perdido.

— Perdão, eu sou o novo técnico em informática contratado pelo hotel e tenho que entregar alguns documentos no RH antes de começar. – Ela parecia ir compreendendo quem eu era à medida que eu falava. Ela era bem... Expressiva corporalmente, mexendo os olhos e sobrancelhas a cada palavra que eu falava.

— Óh, claro. Por favor, me siga, eu te levo lá. – Ela rodeou o balcão da recepção e pus-me a segui-la. – Agora que somos colegas de trabalho, poderia me dizer o seu nome? – Ela falava enquanto caminhava por entre os corredores do hotel. Ela devia ter no máximo 1,60 de altura e me lembrava um dos elfos de um jogo de RPG.

— Meu nome é Shikamaru, e o seu? – Perguntei já mais tranquilo, em geral não me preocupava em me socializar, mas ela era agradável.

— Sou a Sakura, Sakura Haruno. Você vai gostar de trabalhar aqui. – Ela afirma entusiasmada. Limito-me a assentir em concordância.

— Sakura, quem é esse cara?

Eu e a Sakura nos viramos em direção a voz que havia chamado ela. Era um homem de cabelos pretos.

— Ah, oi Sasuke! Esse é o Shikamaru, o novo contratado. Estou levando ele até o RH. Shikamaru este é o Sasuke, ele está sempre por aqui. – A menina de cabelo rosa nos apresentava enquanto o tal Sasuke encarava-nos com um semblante fechado.

— É... Prazer? – Ele me cumprimentou brevemente com a cabeça e retornou o olhar para a Sakura.

— Volte para a recepção. Eu levo ele até o Rh. – Disse o Sasuke e começou a andar logo à nossa frente. Eu fiquei parado no lugar não sabendo muito bem a quem seguir.

— Ah, que isso, eu levo ele até lá, não precisa Sasuke. – A garota de cabelos rosa disse e Sasuke se virou meio irritado encarando-a, mas parece que ela não notou.

— Acho melhor voltar para a recepção Sakura, ouvi alguns murmúrios sobre o Kakashi visitar o hotel pela manhã. – Sasuke disse aparentando desinteresse e a Sakura ficou meio... Surpresa, para não dizer desesperada.

— Oh droga! Desculpa Shika, mas tenho que voltar. O Sasuke te leva até lá, não se preocupe! Tchau. – Ela dizia enquanto se afastava rapidamente pelo corredor por onde viemos. Fiquei olhando para onde ela tinha ido quando ouço Sasuke me chamar.

— Vem, eu te levo lá. – Disse enquanto voltava a seguir pelo corredor, andando de forma apressada.

Corro um pouco para alcançá-lo, me sentindo perdido naquele hotel enquanto passavamos por várias portas.

— É... Esse Kakashi é o gerente do hotel não é? Sabe me informar a que horas ele pode estar aqui? Gostaria de falar com ele. – Teria que falar com o gerente para resolver algumas brechas no sistema e apontar algumas falhas graves que identifiquei logo de cara.

— Ele não vem. Está de férias, tente falar com o Neji ou com a Shizume quando ela voltar. – Ele andava e falava rapidamente. Fiquei confuso.

— Mas... Você disse para a menina de cabelo rosa que ele viria hoje pela manhã.

— Chame-a de Haruno. E eu sei o que eu disse. – Ele me disse de maneira áspera. Eles são um casal? Ou esse cara é estranho mesmo? – Chegamos, entre naquela porta à esquerda. Adeus.

E assim ele desapareceu antes que eu pudesse agradecê-lo. Não que eu me importasse, é claro. Ainda eram 9h da manhã.

oOOo

Eram por volta das três da tarde quando terminei de avaliar os sistemas de segurança do hotel. Ele estava com alguns problemas, mas a resolução seria simples. Ao menos poderia fazer alguns reparos iniciais antes de pedir a autorização do Kakashi.

Comecei por instalar alguns coordenadores de dados na recepção, já que assim seria mais fácil estipular um cronograma de funcionários mais eficiente conforme o fluxo de hóspedes.

— É, oi Sakura. – Preferi começar pela pessoa que eu conhecia ali. – Eu preciso instalar algumas coisas aqui embaixo, é... Se importa? – Nossa bela articulação Shikamaru! Você tem 25 anos e não consegue falar com uma garota decentemente? E ela parece ter 16 anos! Patético.

– Oh, é claro Shikamaru, deixa eu te dar um pouco de espaço. – Ela distanciou a cadeira um pouco para a esquerda de modo que eu pudesse entrar embaixo do balcão. Havia apenas duas recepcionistas no Hall naquele momento, então eu não passaria por esse constrangimento por mais de duas vezes. Pensei derrotado.

— Ei Temari, me conta sobre você e Gaara, nunca imaginaria que ele tem uma irmã... – Eu já estava ali há alguns minutos quando as duas recepcionistas começaram a conversar.

— Na verdade ele tem dois irmãos. Eu e o Kankuro. – A voz de quem eu suponho ser a recepcionista loira diz a Sakura. Pelo seu tom de voz, ela parecia estar meio desinteressada na conversa.

— Jura?! – Sakura falou soltando uma risada anasalada. – Sempre quis ter irmãos. Deve ser tão divertido! — Ela disse empolgada.

— E é, enquanto somos pequenos e imaturos. – A loira responde meio amargurada. Já estava me sentindo uma daquelas minhas vizinhas velhas futriqueiras por escutar a conversa das duas.

— Já acabei aqui, Sakura. – Digo após sair de baixo da mesa e indo até a cabine ao lado. – Desculpa, posso? – A loira se afasta sem dizer nada, nem expressar nada, nem nada. Guardo minha frustração para mim. Qual é o seu problema Shikamaru?

Comecei a fazer a instalação rapidamente, estava desconfortável ali, não por ficar agachado e a moça parecia meio incomodada também.

— O que você está fazendo? – Me assusto pela pergunta repentina. Viro meu corpo de lado para encará-la. Ela estava curvada em minha direção, olhando por baixo do balcão. Os olhos verdes brilhando em minha direção. Ela parecia estar interessada com os fios.

— É... Uma instalação. – Respondo brevemente e ela revira os olhos. Mas era o que eu estava fazendo!

— Isso eu percebi! Mas que tipo de instalação? – ela pergunta interessada e meio irritada?

— É um coletor de dados, para aperfeiçoar o sistema do hotel sabe? – Volto a me concentrar na instalação enquanto falava. Estava concentrado... até ela trazer a cadeira para mais perto e deixar suas pernas na altura do meu rosto.

— Uau! Que interessante! – Ela exclama, mas não. Não era interessante. Eu até olharia para o seu rosto para ver sua expressão, mas preferi continuar meu trabalho, já que para chegar ao seu rosto teria de passar por suas pernas. – E que tipo de dados seriam coletados com isso ai? – Ela estava chegando mais perto enquanto falava.

— O chek-in e chek-out dos hóspedes. Sabe, para poder identificar o fluxo e estipular o perfil dos hóspedes... – Estava quase terminando, só mais um pouco.

— Hmm, intendi. Você é o novo contratado não é? O técnico em informática certo? – Ela estava com a voz animada, o que era bem contraditório com a sua reação de quando cheguei ali.

— Sou sim, comecei hoje. – Digo me levantando após concluir a instalação.

— Legal! Meu nome é Temari, mas pode me chamar de Tema. Qual é o seu? – Ela estava com um sorriso estranho no rosto, parecia meio... Dolorido.

— Shikamaru. – Digo meio anestesiado, impressão minha ou as mulheres daquele hotel eram todas simpáticas? – É um prazer Shika! Também sou nova aqui, podemos nos encontrar no fim do expediente? Sabe pra trocar experiências e tudo mais?

— É-é claro, po-podemos sim. – Me amaldiçoo por ter gaguejado e provavelmente ter ficado rubro, tento sair de lá rapidamente, mas ainda consigo escutar uma leve risada vinda dela.

oOOo

Eram pouco mais de 6 da tarde quando cheguei ao ponto de ônibus. Naquele horário de pico não passava sequer um ônibus que fosse para o meu bairro. Estava desanimado pelo dia entediante de trabalho, apoiado na barra de ferro da lateral do ponto de ônibus quando escutei a voz feminina me chamar.

— Ei! Shika! Por que não me esperou? – Reconheço a voz da Temari e fico meio incrédulo por constatar que ela estava falando sério quando disse que nos encontraríamos.

— O-oi, achei que já estivesse saído. – Como qualquer uma faria no seu lugar, ela ri meio forçada e fico um pouco constrangido com a situação.

— Ora, eu disse pra nos encontrarmos não disse? Mas como foi seu trabalho hoje? Você não terminou de explicar como funcionam os coletores. – Ela estava com aquele sorriso estranho no rosto novamente e eu não conseguia entender o seu interesse por aquilo.

— Ah, me desculpe. — Digo me recompondo. — Então.. os coletores que instalei vão coletar os dados de todos os cadastros e fechamentos feitos no dia, assim como outros dados específicos com os quartos agendados, o montante gasto na estadia, o perfil do hóspede, essas coisas. Assim o Kakashi poderá ter uma planilha mais detalhada de como o hotel está funcionando e o que fazer para melhorar algumas falhas. – Enquanto eu explicava a ela me olhava atenta e não estava mais sorrindo.

— Nossa! Que genial! Sabe, sou super interessada em tudo isso, é tão legal! Você parece o James Bond. – Ela soltou um riso forçado e voltou a ostentar aquele sorriso estranho. – Sabe se não for pedir demais você poderia me mostrar como funciona tudo isso, eu sempre quis aprender, mas nunca nenhum cara legal esteve disposto a me ensinar... – Ela havia chegado mais perto de mim enquanto falava, eu apenas concordei com a cabeça. – Ai que incrível você é Shika! Obrigada. – Ela me abraçou e eu fiquei sem reação. – Agora tenho que ir, mas vou cobrar as aulas, em! – Ela disse ainda meio abraçada a mim. Beijou meu rosto e se despediu. – Tchau Shika!

— Tchau... – Respondi depois que ela já tinha desaparecido na multidão, ainda sentindo seus lábios em minha bochecha esquerda, me sentindo mais confuso do que há dois minutos.

Acho que o primeiro dia de trabalho assalariado não foi tão entediante assim.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.