Konoha Before The Time — Arco 1: Instinto
1 CAPÍTULO 01 — O Verdadeiro Teste
Notas iniciais
Asami levantou do sono num salto, sem nem esperar o sol atingi-la no rosto ou o primeiro cântico das aves. Rodopiou sobre os pés sem fazer barulho, num passo gracioso que a preparava para o dia que viria em seguida. Um sorriso formou-se em seus lábios e durou a rotina inteira; não deixou o rosto durante o banho silencioso e nem enquanto trajava-se como uma futura kunoichi.
Assim que se viu vestida, percebeu que faltava o equipamento. Olhou para o corredor, ouviu alguns bocejos. Sabia que a família estava prestes a se levantar e ela, prestes a sair escondida. Saltou janela afora, e assim que o vento atingiu seu rosto, usou o chackra nos pés para se fixar à parede. Então, escalou até alcançar a ponta de uma das calhas da casa. Lá era onde guardava sua pochete e seu guarda-kunais, e assim que alcançou-os, anexou-os ao corpo sem preocupar-se em ficar agachada numa parede vertical.
A menina avistou a mãe ao longe, voltando do mercadinho, carregando um embrulho com uma das mãos e apoiada numa bengala com a outra. Trazia a primeira refeição do dia. Notando isso, a estudante escondeu-se no telhado pontudo, observando a mulher pelas brechas que haviam entre uma telha e outra. Assim que a mulher adentrou a casa, despertando a todos com um grito, Asami soube que era hora de partir. Saltou do telhado de sua casa, avançando em direção ao seu sonho. Em sua cabeça, algo martelava sem parar:
O quê acontece se eu me graduar mesmo? Como eu conto pra eles que desejo ser uma kunoichi?
Esperava que o dia respondesse as perguntas por ela.
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Misashi enfiou os pergaminhos dentro da mochila, sem se importar em amassá-los no processo. Também guardou uma shuriken maior do que as outras, segurando-a pelo aro de metal e empurrando as quatro lâminas até uni-las. Bufou uma indignação, apertando a mochila nas costas e acertando suas roupas. O casaco verde o inchava, a bermuda larga deixava-o desleixado. Antes de sair, caçou seu certificado de ninja, e assim que o encontrou pendendo da mesa de cabeceira, também o amassou dentro da bolsa.
Ainda não acreditava que havia sido admitido na graduação, mesmo escolhendo falhar em todas as questões. Como poderia ter zerado e ainda assim ter passado nos testes?
Pelo menos dá pra conseguir algum dinheiro, pensou enquanto saía de casa, sem esperar o café da manhã preparado pela mãe. Ela não gostaria de vê-lo sair para ganhar uma bandana.
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— A prova de graduação foi essa semana, então imagino que hoje seja o dia que nos colocarão em nossas equipes de três. Após a entrega das bandanas — falou Kusaku.
Sua postura estava ereta. O pai, de pé de frente a ele, gostava de vê-lo assim, assumindo responsabilidades e se comportando como um profissional deveria se comportar. A mãe, ao lado do marido, encarava-o com olhos mais afetados pela emoção. Por um segundo, Kusaku compadeceu-se dela, esperou que pudesse abraçá-la. Contudo, o pai agiu primeiro, dizendo o que precisava em seu tom gravíssimo.
— Chegue adiantado, veja tudo antes que te vejam.
— Certo, pai — o garoto confirmou com a cabeça. — Trarei a bandana para casa.
— É o mínimo — cuspiu o sujeito, fitando-o de cima para baixo.
A mãe lhe entregou um embrulho pequeno. Em cima, havia um origami de um pássaro com grande pescoço e um bico pontudo. Um Tsuru, desejando-o boa sorte. Kusaku agradeceu com um aceno de cabeça, arriscou um sorriso curto e virou de costas para os dois, mirando a estrada que levava até a pagoda de seu clã.
Precisava de mais do que sorte, precisava ser esperto.
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Ainda estou no tempo, até cheguei um pouquinho atrasada, mas acho que tá tudo bem, pensou Asami ao aterrissar no quintal da Academia. O cercado estava abandonado, os balanços mal balançavam ante ao pouco vento que sacudia os arbustos e a placa da escola. Acima, o prédio escolar parecia solitário, sem o tumulto infantil que costumava abrigar. A garota apressou-se pela lateral do prédio, utilizou uma borda como impulso e alcançou uma das salas do segundo andar, entrando pela janela. Ao confirmar que não havia nenhum outro aluno, a garota estranhou.
— Ninguém? Eu sei que eu chego cedo mas... que estranho.
O relógio na parede marcava às 8h30, meia hora antes do horário marcado no comunicado. A garota avaliou a sala à procura de pistas, talvez um aviso, ou algum indicativo de que haveria um atraso. Subiu cada degrau da classe, pois cada fileira de carteiras era mais alta que a outra, e ainda assim, não encontrou nada. Entretanto, antes que pudesse desistir da busca, ouviu um guincho de madeira vindo da porta principal. Uma pessoa abria a passagem com cautela, e a garota reagiu sentando-se numa das carteiras. Era um Jounin, trajava o colete verde repleto de bolsos, além de uma prancheta, uma caneta e uma série de papéis em branco. Ele carregava algo a mais, balançando em cima de tudo, se destacando como uma luz no fim do túnel: um protetor de testa com o símbolo de Konoha. Seria o dela? A mente começou a rodar sozinha, fazendo um círculo em volta de si mesma.
— Bom dia — o homem disse, educado. — Aqui é a sala cinco, certo? — havia uma certa vergonha dele por não saber.
Asami confirmou com a cabeça, apressada. Estava a metros de seu futuro, e mal podia esperar.
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— Sala 05, por que tinha que ser tão longe? — resmungou Misashi, procurando o setor de graduação.
Estava no fundo do corredor de salas. Agora com vinte e cinco minutos de atraso, aproximou-se sem pressa do lugar indicado e abriu a porta. Que merda, vão reclamar do meu atraso, pensou caminhando sala adentro com as mãos levantadas em rendição, ameaçando um pedido de desculpa.
— Foi meu pelo atraso, pess... — começou, porém interrompeu a fala ao perceber que não havia nenhum outro aluno junto dele. — O quê? Ninguém? Eu fui o primeiro? — estranhou.
Confuso, Misashi moveu a cabeça para o quadro-negro de frente aos assentos e percebeu uma figura de pé, sorridente e cumprimentando o recém-chegado.
— Bem-vindo, Misashi-san, estava esperando por você.
O sujeito era um Jounin, um que o garoto nunca havia visto. Tinha um rosto alegre e de poucas rugas, com um cabelo espetado para trás por cima da bandana. Dobrava as mangas da camisa azul escura, e usava luvas com proteção de metal sobre a mão. Acima da mesa, além de alguns papéis espalhados, havia uma bandana de Konoha.
— Sou só eu hoje? — perguntou de canto de boca, se colocando a frente do Jounin.
— Queríamos dar a bandana a cada aluno separadamente. Vocês merecem.
Após um sorriso largo, o sujeito segurou o protetor de testa, preparado para amarrá-lo na cabeça do estudante.
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— Individual? Isso é incomum... — afirmou Kusaku, um pouco sem jeito com a opção.
Estava desconfiado de que algo deveria ser diferente, porém, ainda mantinha o pensamento que precisava cumprir as ordens de seus superiores. Então, levantou-se da carteira e foi em direção ao Jounin. Uma análise rápida do sujeito já entregava o quanto aquele tipo de atraso e atitude fazia parte de sua personalidade. Isso era um alento, mas ainda não servia como alívio de sua preocupação.
— Então, depois nos moveremos para nossas equipes, certo? — perguntou o garoto, descendo as carteiras, fileira após fileira.
— Sim, exato — disse o sensei.
O estudante caminhou até ficar a pouca distância. Encarou o superior, reclinou sua cabeça e aguardou para receber o prêmio dos anos de estudo dedicado.
— Aqui está — o sujeito anunciou, pedindo que o rapaz se levantasse. Depois, apoiou a parte de metal da bandana na testa de Kusaku. Antes que pudesse amarrá-la, completou: — Agora você é um Genin. É o primeiro passo na sua vida como ninja.
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As palavras eram encorajadoras, Asami sabia o quanto. Aquilo era, de fato, o seu primeiro passo, a sua primeira investida como uma kunoichi. O Jounin entregou a ela em mãos, e a garota sabia aonde colocá-la, e não seria na testa como todos os outros. Ela a colocaria no pescoço. O professor estranhou por um momento, porém logo sorriu quando viu a expressão orgulhosa da criança.
— Obrigada — a menina arfou. — Pra... é... pra mim é u-uma honra, você n-não tem ideia do quanto...
O instrutor manteve-se sorrindo, olhando-a com um orgulho latente. Por um momento, a menina compreendeu que era aquele sorriso que esperava receber dos pais, assim que descobrissem o que a pequena havia tramado nas manhãs dos últimos anos. Em algum ponto, poderiam ficar daquele jeito, com aquele mesmo sorriso amplo.
Asami seguiu olhando-o, até que num piscar de olhos, viu a expressão do Jounin mudar, já que uma dupla de kunais o acertou na lateral do pescoço.
O sangue vazou pela abertura, o sorriso do sujeito morreu, algumas gotas mancharam sua bandana. A garota estremeceu, apavorada. O corpo caiu seco no chão, enquanto suas pernas não paravam de balançar, desesperadas para fugir dali. Os olhos continuaram vidrados ao ver o ninja sufocar no próprio sangue, descontrolado. Não havia mais chance para ele, mesmo que arrancasse as facas dali.
De súbito, a menina pôde encarar o que havia acontecido, procurando a direção do ataque. Viu uma figura pairar na janela.
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— Eu pego, não precisa — disse Misashi, colocando a mão sobre o protetor, levantando o cabelo, e apertando a amarração na testa, deixando grande parte de suas mechas cobrir a marca da Aldeia da Folha.
A testa ardia, não pelo metal e pano que o tocavam agora, mas pelo que significava estar marcado como um ninja. Sabia o que viria a seguir, e sabia que não era bom.
Misashi ergueu sua cabeça para falar ao Jounin, entretanto, viu-o receber duas kunais no centro de seu peito, empurrando-o na direção do quadro-negro.
O garoto arregalou os olhos, tentando segurar o corpo antes de vê-lo cair no chão, porém, não tinha força para segurar um homem adulto, ainda mais pesado devido a frieza imediata de sua morte.
Trêmulo, o garoto sacou uma kunai de seu protetor, tentando ver a proveniência das armas. E lá estava, no fundo da classe.
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Kusaku recebeu a bandana, sentindo um arrepio. Ter sido posta por um superior melhorou a sensação, seu coração mal se aguentava dentro do peito. Era como se o Jounin tivesse lhe feito um favor, um que duraria por toda a sua vida.
Antes que pudesse agradecê-lo, entretanto, uma kunai perfurou sua testa.
O Genin parou, apenas para reagir com um susto em seguida. Não segurou um grito, não havia espaço para ter uma postura perfeita com uma morte diante de seus olhos. A sua primeira morte.
— Não é possível... ele era um Jounin... — exclamou Kusaku ao observar a morte do sensei, preso ao quadro negro, escorrendo sangue da faca que matara seu líder.
Abalado, tentou virar o pescoço na direção da arma, porém, só conseguiu quando agarrou o próprio peito, na cobertura de couro que usava em frente a sua camisa.
E com isso, viu a figura.
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Ao mesmo tempo, os três notaram do que se tratava ao observarem os trajes que o assassino usava. Roupas marrons, militares, de ombreiras pontudas. Por baixo, vestia-se de vermelho sangue, e no rosto, as feições eram cobertas por uma máscara ANBU. E o símbolo estampado na mesma, seguido da pintura de guerra, indicava a proveniência daquele que transformara a graduação no horror de luto.
— Iwagakure (Aldeia da Pedra)? — questionaram, em uníssono.
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