Konayuki
1 Flocos Finos de Neve
Notas iniciais
“Na época em que caem flocos finos de neve, a gente sucessivamente se desencontra.”
Você sempre foi do mesmo jeito. Perguntava-me se seria assim até o fim, mas eu não estaria do seu lado até esse dia. Pensar nisso me machucava grotescamente, e isso era o que mais me adoecia o corpo, a mente e até a alma.
Você, que acreditava veemente nas coisas que nunca mudavam, de fato, nunca mudaria. Nunca se transformaria em alguém diferente. Nem por fora, nem por dentro. Continuaria íntegro, perspicaz, admirável e, por que não também dizer, incrível. E se acaso o fizesse, seria com extrema amargura.
“Apesar de ver o mesmo céu em meio à multidão
Tremendo como se tivéssemos sido soprados pelo vento.”
Incrível era uma palavra que se encaixava perfeitamente bem em sua pessoa. Afinal, fostes o único que disputou de igual para igual comigo. Disso, jamais irei me esquecer, nessa e em outras vidas. Foi você aquele a me derrotar... E quem diria que eu teria muito o que aprender ainda para, ao menos, te alcançar.
Mais do que isso, encantei-me por ti completamente. Não sei explicar com exatidão como, nem mesmo quando comecei a perceber que o quê nutria por você era mais do que uma simples raiva que embutia ciúmes, ou até mesmo inveja. Eu queria estar por perto, continuamente por perto.
Queria te observar.
“Talvez eu não conheça tudo de você
Mas te descobri entre cem milhões de pessoas.”
Você era como uma tempestade de neve. Frio, imponente e solitário. Então quando te vi sorrindo pela primeira vez, notei algo escondido atrás daquele aspecto gélido. Mas espantosamente, somente eu percebi. Todos te julgavam ser uma barreira intransponível, contudo encontrei formas de me aproximar. Por que no fim, o que você mais precisava era de um amigo.
As pessoas tinham medo de ti. Alguns demoraram bastante para te chamarem de companheiro. Já eu estava disponível para te perturbar todos os dias. Testava a sua paciência e disciplina, até que um dia, você, cheio das minhas brincadeiras, me enfrentou.
Nossa, como eu te irritava...
“É o que eu acredito, mesmo sem fundamentos.”
O fato, Hajime-kun, era a importância que você representava para mim. Só me dei conta, quando vi que não podia mais viver em paz se não te desse um mísero oi. Ou mesmo se não debochasse de sua altura.
Eu me divertia as suas custas, e você aprendeu a gostar disso. Poderia até negar, mas era óbvio o que estabelecemos entre nós. O que sentíamos. Criamos uma espécie de jogo para que assim, nos conhecêssemos melhor. Logo, éramos como melhores amigos. Sabíamos praticamente tudo um sobre o outro, mesmo que houvesse ainda segredos seus que nunca desvendei.
Mas me alegrava saber que eu, apenas eu, conseguia arrancar um sorriso teu com extrema facilidade que poderia ser invejável. Eu não tinha medo de você. Nem mesmo quando fui ameaçado por sua espada, pelo menos umas vinte e uma vezes.
“É impossível viver o mesmo tempo
Sem discussões triviais.”
E com o tempo, você agia normalmente comigo. Às vezes ficava tenso, mas eu logo dava um jeito de te relaxar. Afinal a vida era muito curta para vivê-la com aquela carranca que você chamava de rosto. Mesmo assim, de cara fechada, você era bonito. Tão bonito que eu sequer ligava para as moças do distrito.
Te ver tomando chá enquanto as cerejeiras floresciam e caiam era uma das coisas que eu mais apreciava no mundo, estando perto ou longe.
“Se não dá para ser para sincero
Será tudo inútil, tanto na alegria quanto na tristeza.”
O que me faz lembrar... Quando nevava, parecia que pintavam um cenário especialmente para você. A neve que se camuflava facilmente em sua pele e deixava seus olhos mais azuis e seus cabelos mais escuros. O inverno era você, por completo.
Todavia, assim como a neve, eras frágil. Apenas não deixava que ninguém soubesse disso.
Seu passado era um total mistério, envolto em névoas cinzas. E parecia que você gostaria de esquecer dele, pela eternidade. Não sei se por tristeza, ou por pura vergonha. Nada perguntei sobre isso, embora certo dia tenha te machucado cruelmente ao levantar essa questão, chegando a insinuar que não eras confiável. Fui idiota.
Mas eu sempre sou um idiota...
“Flocos finos de neve, se tingissem até o coração de branco,
Seríamos capazes de compartilhar a nossa solidão?”
Eu era egoísta. Tão egoísta que cometi loucuras. Tudo por que não suportava a idéia de ser derrotado pela doença que me acometia a cada novo ano que chegava. Eu enlouquecia toda vez que vinham me pedir para descansar... Oras, que samurai fica preso dentro de um quarto em dias de batalha? Eu era honrado e competente, e apesar de se preocuparem comigo, não percebiam no quanto me sentia um animal enclausurado.
Teve noites em que chorei sozinho. E teve noites em que chorei em seu colo.
“Encostando o meu ouvido no seu coração.”
Eu não queria morrer. Queria lutar e seguir assim ao lado de todos. Se fosse parar morrer, que fosse em campo de batalha e não preso a uma cama.
E assim foi...
“Quero seguir essa voz e descer até o fundo
Para a gente se encontrar de novo.”
Desobedecendo as ordens, ultrapassei todos os limites. Não sentia mais as tosses e o gosto metálico de sangue em minha boca. Mas também não sentia meu coração bater. Não sentia mais nada.
Só sentia um grande cansaço. Apoiei-me em minha katana e me dei conta de que não iria nunca mais te ver.
“Queria lhe entender melhor
Mas eu acariciava apenas a parte superficial
Sem saber que bastava apertar sua mão gelada
Para estarmos ligados.”
Você iria viver bem mais do que eu. Cheguei a te odiar por isso. Como eu podia morrer sem cruzarmos nossas espadas uma última vez? Sem saber se finalmente o venceria?
Como eu podia morrer sem dizer que te amava?
“Flocos finos de neve, diante da eternidade, são tão frágeis
E se transformam em manchas sobre o asfalto áspero.”
Nossa última noite juntos foi aquela, antes de seguirem com Kondou-san. Você veio se despedir antes, à sua maneira. Estavas diferente, não só pelos cabelos curtos, mas seu semblante. Estavas mais emotivo. Foi a primeira vez que o vi assim. Desamparado, confuso, angustiado... Triste. Parecia que sentia uma dor tão grande que sua postura não se sustentava mais.
Lembrei-me de tê-lo abraçado e então, você chorou copiosamente. Sabia que não mais teríamos outros dias.
“Flocos finos de neve, o coração às vezes oscila
Mesmo assim quero continuar protegendo-o.”
O que eu sentia por você, e o que você sentia por mim, com certeza ultrapassava qualquer sentimento mundano. Se fosse para dizer algo como “eu te amo” que fosse somente para você e mais ninguém. Mas na situação em que estávamos...
“Flocos finos de neve, se tingissem até o coração de branco
Cobririam a nossa solidão para levá-la de volta para o céu.”
Eu espero agora que um dia possamos nos reencontrar. E que possamos brincar na neve como dois idiotas despreocupados e sem obrigações penosas.
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