“Heav?” – ouço a voz de Stephan claramente vindo de algum lugar a minha direita. O local estava escuro, fui tateando até encontrar algum lugar para me apoiar. Sinto a presença de alguma coisa atrás de mim. Com receio, viro lentamente encontrando ele me encarando com aqueles olhos incríveis que pareciam brilhar na escuridão, me confortando. “Está com medo, Heav?” “Não.” – respondo prontamente. Eu estava. “Tem medo do escuro.” “Não, não tenho.” “Não precisa ter, estou aqui com você.” – Stephan disse enquanto enlaçava seus braços em minha cintura, apoiando o queixo na ponta da minha cabeça. Sua respiração estava pesada, seu tórax subia e descia rapidamente apoiado no meu. Ele foi se afastando suavemente com somente o ruído de nossas respirações quebrando o silêncio. Ele manteve a mão direita no meu quadril, seus olhos já não brilhavam mais, estavam negros, sem luz, me senti gelar por dentro em um calafrio. “Não preciso temer, estou aqui para te proteger.” – sua voz saia por seus lábios grossos ainda mais grave do que o comum, com um leve tom de riso. Os traços de seu rosto também estavam mais fortes, quase brutos.

Estava próximo o suficiente para sentir seu hálito doce em meu rosto. “Stephan, seus olhos.” – foi a única coisa que consegui falar, ele parecia ter algum tipo de poder sobre mim que fazia com que sempre ficasse sem palavras. “Shh, shhh.” – ele se aproximou ainda mais, me pressionando contra uma parede que antes não sabia que existia. “O que esta fazendo?” “Calma, Heav, você vai gostar. Já fez isso antes?” – falou acariciando a lateral do meu corpo, trilhando um caminho de fogo com suas mãos grandes do meu quadril para minha cintura. “Para, Stephan, por favor.” – implorei. Ele avançou contra mim ainda mais enquanto começava a empurrar-lhe o peito tentando o afastar, sem sucesso. “Stephan, não, a Lily...” – senti meu corpo despencar no chão e minha face queimar do lado esquerdo. “Cale a boca, Heaven! Pare de falar dos seus amiguinhos! Eles não ligam para você!” “Você... me bateu?” – minha voz saiu baixa, rouca, como um ruído longo e desafinado. “Orion me contou sobre o hospital, não precisa mais se esconder. Realmente achava que eles gostavam de você? – ele apontou para o meu braço – acha que alguém gosta da garota com cicatrizes? Você é louca, e sabe que se nunca tivesse fugido ainda estaria lá, apodrecendo com os loucos, sozinha como sempre foi” – falou de uma vez só.

Me sentia fraca, pequena, traída. Meu rosto ardia pelo tapa, me perguntava insistentemente como Orion poderia ter feito isso comigo, ele sabia que assim como não gostava de falar sobre o hospital, não gostava de que os outros soubessem sobre isso. Os olhos de Stephan estavam negros como ébano, encovados e fundos, não era o mesmo garoto que conheci a alguns dias na escola. Ele se abaixou para o lugar onde eu estava, sussurrando: “Deveria ter morrido naquele dia, nua e ensanguentada, naquele quarto, aposto que ninguém sentiria sua falta, nem Savannah, nem sua mão, nem os seus amiguinhos, muito menos eu.”

E antes de receber um novo tapa reparei uma coisa que ainda não havia notado. Seus olhos faiscaram novamente em um brilho suave. Eu já conhecia o Stephan.

*~*

Acordei assustada, suando, com Savannah me sacodindo. “Acalme-se, Heaven, e pare de gritar se não quiser levar um novo tapa.” – me sentei na cama, apoiando as costas na cabeceira e a mão no criado-mudo, tentando enxergar as horas. Enquanto tentava acalmar minha cabeça e minha respiração, secando o suor na minha testa e as lágrimas que escorriam livremente pelo meu rosto perguntei o que havia acontecido. “Você me pergunta? Acordei com você gritando igual louca, alguma coisa sobre parar, sobre o Orion...” – ela me encarava atentamente, a camisola estampada tinha uma alça caindo por seus ombros, as longas madeixas escondiam sua nudez, continuava costumeiramente bela. Me levantei de um salto, calçando meus chinelos e colocando meu chapéu.

Savannah me seguiu enquanto desci as escadas pulando de dois em dois degrais. “Para onde pensa que está indo?” – ela parecia eletrizada – “Não te interessa.” – falei sem virar para olhá-la, passando pelo batente da porta. “Mamãe vai matar você.” – teria rido por estar usando a mesma frase que havia lhe dito nas férias, porém estava cansada demais para qualquer coisa. A ansiedade que queimava em minhas veias me fez chegar rápido como nunca antes.

Não me surpreendi quando empurrei a porta da frente com o ombro e ela se abriu em um barulho gutural. Repeti o que havia feito em casa a pouco, a escada chiava enquanto subia, só parei de correr quando parei na frente do seu quarto, de frente para a porta entreaberta, luzes dançavam na parede azul que conseguia enxergar pela pequena fresta, não conseguia vê-lo lá dentro. Comecei a pensar sobre o que estava fazendo, e se ele tivesse mesmo contado ao Stephan? Foda-se, é só o Orion. Escancarei a porta de uma vez, fazendo ela bater no trinco. Ele me encarou assustado, com os olhos arregalados pisando lentamente. O quarto estava uma bagunça como bem conhecia, as sombras vinham da televisão, ainda ligada. Dei uma rápida olhada no relógio digital sobre a mesa, os grandes números em vermelho me informavam que já passava das três. “Heaven? – ele perguntou se levantando da cama cambaleando, tentava se apoiar na cômoda. – O que faz aqui... vestindo isso? ” – Foi aí que notei meu estado, meu baby-doll deixava minhas pernas eriçadas pelo frio, a blusinha marcada minha cintura fina, o chapéu pendendo nas pontas dos meus dedos. Comecei a pensar o quão sem sentindo minha visita estava sendo, foi só um sonho certo? Certo?

Mas de qualquer forma as palavras do Stephan do pesadelo continuavam ecoando em minha cabeça: “Orion me contou sobre o hospital.” “Realmente achava que eles gostavam de você?”. De repente Ory quebrou o silêncio, rindo desesperadamente. “Eu sei o que você quer, Heaven.” “O que? Orion! Não! A gente precisa conversar... – ele desceu da cômoda onde havia se sentado e se aproximou — eu tive um pesadelo, você não contou para o Steph sobre o hospital, contou?” – disse abaixando a cabeça, estava sendo idiota, sonhos são só sonhos. Ele levantou meu rosto segurando levemente o meu queixo. “Sei que não veio aqui correndo me falar isso, bambini – ele usou o nome que sempre o chamei – Sabe que nunca faria algo assim.” – teria ficado relaxada com essa fala, se não fosse pelo cheiro forte que podia sentir Orion exalando, assim tão perto. “Orion, está drogado.” – foi uma afirmação. “Não, amor, não estou.” – ele acariciou meu lábio inferior com seu polegar que antes segurava meu queixo, sua outra mão foi para os meus cabelos, embrenhando-se neles, fazendo uma carícia gostosa. Ele aproximou os lábios da minha orelha direita sussurrando: “Confia em mim?”.

Sua voz fazia cocegas no meu ouvido, acenei afirmativamente com medo do que viria em seguida. De todas as teorias que se formaram em minha mente, não estava preparada para quando ele apoiou a cabeça em meu ombro e começou a chorar. Nunca fui muito boa para lidar com essas situações, então o abracei e o conduzi lentamente para sua cama onde Orion colocou a cabeça no meu colo, pedindo que eu fizesse carinho em seus cabelos. De quando em quando sussurrava algo sobre como as coisas estariam bem novamente pela manhã.

Longos minutos se passaram até ele se deitar ao meu lado enlaçando os braços em minha cintura, me sentia sonolenta. “Sabe, Heaven, você foi a melhor coisa que já aconteceu na minha vida. – sorri de leve com o canto dos lábios. – Eu te amo.” – eu ri. “É o efeito da droga, Ory, daqui a pouco vai passar.” – ele tocou meu rosto com a ponta dos dedos, como se fosse frágil e não quisesse me quebrar. “Você não entende, Heaven. – disse com uma sombra de tristeza cobrindo seus olhos, mesmo com o sorriso em seu rosto. – nunca vai entender.” “Por que não me explica?”

Orion olhou no fundo dos meus olhos, como se tentasse decifrar todos os meus segredos, como se enxergasse além do meu corpo, pendeu a cabeça para um lado como se pedisse permissão. Meu coração falhou numa batida quando o rosto dele se aproximou um centímetro a mais, tocando nossos narizes com os lábios a centímetros de distância. Ele fechou os olhos, ainda mais perto e então, me beijou.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.