Notas iniciais
Demorei mas... boa leitura, amoras!

“Senhorita White, poderia nos dizer a resposta da questão C? ” – Senhora Nancy perguntou com um sorrisinho brincando no canto de seus lábios.

Levanto a cabeça depressa, coçando com as costas da mão meu olho esquerdo, tentando me acostumar com a iluminação. “Não sei, senhora Nancy. ” – Respondi — Ela riu. “Claro que não, White. Detenção por dormir na minha aula. De novo. ” Droga. Olhei para o lado e Lillith estava me encarando preocupada. Ela olhou para baixo, depois para frente e para mim novamente. Era nosso código. Olhei para baixo da mesa e lá estava o bilhete. “Não liga para ela, se quiser posso ficar te esperando. ” Sorri em resposta, escrevendo no verso: “Estou ok, Lily. Vou ficar bem, obrigada. Viu o Órion? ” Passei discretamente meu bilhete enquanto senhora Nancy estava distraída. Ela deu de ombros. A última vez que o vi havia sido a uma semana atrás quando fui em sua casa, desde então não deu notícias como prometido.

O sinal bateu e a professora foi embora. A próxima aula seria Matemática como. O nosso professor, o senhor Abe, é um asiático magrinho que aparenta ter dezessete anos e não consegue manter o controle sobre a turma. A aula dele era muito boa, porém nunca consegui entender direito sua matéria desde que perdi algum tempo no hospital e depois não pude assistir as aulas. Depois da fuga eu não gostava de sair do quarto, mamãe e a Doutora Altman eram as únicas que eu via, Savannah me lembrava ele demais.

O senhor Abe entrou na sala assim que o primeiro sinal tocou, deixou a sua bolsa com um baque surdo na mesa e começou a escrever no quadro a data novamente, ignorando a que já estava lá. Seria um longo dia.

***

Estava parada na frente da porta de madeira escura do diretor. Durante o intervalo havia ligado para a minha mãe para falar que chegaria um pouquinho mais tarde hoje e que explicaria tudo assim que o fizesse. Pude escutar o suspiro dela do outro lado da linha, ela já sabe o que houve. “White! ” – Gritou o diretor de dentro de sua sala quando uma mulher nova abriu a porta pelo lado de dentro para que eu entrasse. Sentei na cadeira da direita de frente para ele.

Sua mesa estava uma completa bagunça, as paredes estavam repletas de fotos de si mesmo em diversas ocasiões especiais da escola, a sala era pequena e com uma grande janela adornada por pesadas cortinas negras à direita. A mulher que aparentava ser alguns anos mais velha que eu continuava esperando ao lado da porta, o diretor pigarreou. “Se retire, Elisabeth, vá buscar o senhor Occidere” – falou em seu tom naturalmente alto – “Sim, senhor. ” – Elisabeth respondeu se retirando logo em seguida, sem antes ponderar um tanto.

O diretor rodou sua cadeira giratória fixando seus olhos âmbar em mim, então suspirou: “Por que não estou surpreso com sua visita, White? – Falava escondendo um sorriso em seu tom sarcástico. – O que houve dessa vez? ” “Pergunte a senhora Nancy” – respondi revirando os olhos. – “Tem certeza que é isso o que quer, Heaven? ” – White, pensei. – “Não, diretor. ” “Quer que converse com seus pais? ” “Não, diretor. ” “Gostaria de falar algo? ” “Não, diretor. ” – Falei como pela milésima vez. Não, não tinha nada para falar com ele. Sentia uma leve dor de cabeça e as palmas das minhas mãos suando. Só queria ir para casa logo. – “Você sabe que pode contar comigo não sabe, Heaven? Eu conhecia seu pai e sei o quão apegado eram...”. Meu sangue ferveu em minhas veias. “O que você entende disso? O QUE? ME DIZ! Eu era a filha dele, EU! ELE FOI EMBORA, ME DEIXOU AQUI SOZINHA! NÃO ME INTERESSA QUE CONHECESSE ELE, VOCÊ NÃO ENTENDE NUNCA VAI ENTENDER...! ” “atrapalho? ” – Disse uma vozinha vindo da porta, foi quando reparei o meu estado: Havia levantado da cadeira e dado uma volta na sala, os lábios entreabertos procurando ar e minhas mãos mexiam no meu cabelo freneticamente, em sinal de irritação.

Encarei a porta escancarada. Elisabeth estava lá com os olhos arregalados como quem não sabe o que fazer. Atrás dela estava um garoto, ele era moreno e estava afastado o suficiente para não conseguir definir a cor de seus olhos. Possuía os traços do rosto bem delineados, firmes. Os lábios eram cheios e o cabelo liso lhe caia pela testa. Soltei o ar pela boca levemente, sem lembrar de o estar prendendo, olhei para o diretor que se mantinha largado em sua cadeira de espaldar alto com as sobrancelhas arqueadas, criando linhas de expressão pela idade. “Claro que não, Elisabeth. Sente-se senhor Occidere. ” Ele se dirigiu a cadeira que antes eu estava e se sentou. O diretor pediu para que eu fizesse o mesmo antes de retomar a palavra. “White, esse é seu novo colega de classe. Sua detenção por seu pequeno descuido na aula da professora Nancy será lhe mostrar o colégio e como tudo funciona por aqui. Em breve ligarei para sua mãe para planejarmos o que os atuais acontecimentos lhe acarretarão. ” – Ótimo, tudo o que eu precisava. – “Vocês estão liberados das próximas aulas, divirtam-se.”

Levantei rapidamente, era como se anos houvessem se passado desde que havia entrado naquela sala, peguei minha mochila e sai me despedindo de Elisabeth com um olhar e um pequeno sorriso, sentia um pouco de pena dela. Podia sentir ele me seguindo, o conduzi para o ginásio atravessando poucos corredores, era um local amplo e não muito arejado com duas portas ao fundo que levavam aos vestiários. Me sentei nas arquibancadas e ele se uniu a mim, pela primeira vez o encarei calmamente. Seus olhos eram fascinantes, um deles verde e o outro castanho, demonstrava claramente o desprazer que sentia por estar ali comigo.

“Não sei direito como fazer isso, mas meu nome é Heaven, muito prazer. ” – Disse calmamente sem estender a mão para que o mesmo apertasse. — “Sou Stephan. ” – Ele falou simples e direto. – “Que bom que disse, achei que precisaria o chamar de senhor Occidere o resto do ano. ” – Disse tentando ser engraçada, ele não riu, só continuou me encarando com o mesmo olhar perdido como se não estivesse lá por completo. Achei que usando um pouquinho de humor poderia causar uma boa primeira impressão, mesmo sem saber o porquê de querer isso. – “Quer falar como veio parar nessa cidade no meio do nada que estamos? ” – ele acenou negativamente com a cabeça – “Tudo beeeem. ” – Fiquei algum tempo sem falar nada, encarando a parede oposta, contando quantos degraus havia subido, tentando colocar meus pensamentos em ordem. Stephan se moveu levantando, mexendo em alguma coisa em sua mochila. “O que está procurando? ” – Tentei mais uma vez. – “Você verá. ” – Ele tinha uma voz grave, que combinava com seu rosto, era profunda e ressonante. Tirou de sua mochila uma foto, era uma mulher com um garotinho de cabelos lisos no colo e uma criança que aparentava ser da mesma idade em um berço no fundo. Alguns brinquedos estavam espalhados no chão e a mulher apresentava um sorriso rasgando seu rosto. “Quem é? ” “Não sei. ” “Não sabe? ” “Não. ” “É você no colo? ” “Acho que sim. ” Um silencio perturbador seguiu, tentei não me importar enquanto ele colocava a foto em seu devido lugar e se sentava novamente. Entendi o que seu olhar carregava, ele não estava amargo. ‘Mas estava triste. Era uma espécie de tristeza esperançosa. O tipo de tristeza que passa com o tempo. ’ “Não sei de nada, nada do meu passado. Morei nessa cidade por algum tempo e agora voltei para procurar respostas. Acho que pode ser útil, White. ” “Pode chamar de Heaven. ” “Como quiser, Heaven. ” “Por que seria útil? ” “Acho que podemos encontrar algumas respostas juntos, inclusive essa. ” – O odiei por essa última fala, o fitava com os olhos entreabertos enquanto ele não me dava atenção. – “Até agora só respondi suas perguntas. Está nervosa, Hev? ” “Não! Por que estaria? ” Ele olhou para mim, deu um pequeno sorriso e voltou a olhar para algum outro lugar. “Não parou de mexer as mãos até agora ”