O sorriso de Arrietty ao receber a caneca de chocolate quente é indescritível. Parece guardar toda a felicidade do mundo. Fico olhando para ela. Seu rosto sujo, as roupas rasgadas, o pescoço e os braços cobertos por curativos. Ela acompanha a direção do meu olhar e ri.

“Tomei uma surra na última missão.”

Balanço o rosto de leve, concordando.

“É. Estou vendo.”

Não pergunto onde está o Kurapika. Sei que ela não sabe. Ou, se sabe, não irá me responder. Deixo que Arrietty durma na minha cama e me recolho no sofá. Passo a noite em claro. Por volta das sete, desisto de dormir e preparo o café. Para minha surpresa, ela se levanta bem cedo. Surge na cozinha bocejando e toca meu braço de leve ao fitar a sanduicheira. Se queria comer algo mais elaborado, não reclama.

Conversamos sobre banalidades. Ela conta sobre os lugares que tem visto e faz carinho em Kurode. Eu conto sobre a faculdade e os romances que tenho lido.

“Não entendo nenhum deles.”

Ela ri. No final da tarde, cuido de seus ferimentos. Arrietty quase dorme enquanto me observa enrolando as bandagens em seu braço. Pretende ir embora no dia seguinte.

Durmo como uma pedra. Não percebi que estava tão cansado. Quando acordo, Arrietty está preparando o café. Ela vai embora logo em seguida, deixando para trás um Kurode choroso. Antes de fechar a porta, olha por cima do ombro. Diz algumas poucas palavras. Sempre foi assim; nos momentos mais importantes, Arrietty atém-se ao essencial:

“Ele ama você. Por isso foi embora.”

Olho para ela. Não quero responder.

“Eu sei.”

Arrietty fecha a porta, e mais uma vez estou sozinho com Kurode. Procuro no armário, mas não encontro o brinco. Deve ter caído em algum canto difícil de alcançar.

Saio para um passeio. As ruas são as mesmas de quando estava com Kurapika. Um lado meu nega isso. Mas, não. Elas são realmente as mesmas. Quase nada mudou. Só o gosto de andar por elas. A mudança sou eu.

Não demora muito para a Doutora Michelle arranjar mais uma de suas missões loucas. Desse jeito, eu nunca vou me formar! Mas enquanto estou aqui, nesta cidade de fim de mundo, ajudando as pessoas carentes e brincando com as crianças, eu me sinto feliz.

Você ainda não respondeu meus e-mails. Você não atendeu nenhuma das minhas ligações. E eu parei de te ligar há mais de um mês. Sim, eu sinto saudades de quando estávamos juntos. Sim, eu ainda estou bravo por você ter ido embora sem dizer nada. Sim, eu ainda estou te esperando. E aquela pergunta ainda me assombra de vez em quando, mas eu não sei respondê-la.

Porque, mesmo depois de todo esse tempo, Kurapika, eu ainda não consigo me questionar por que amo você.

Notas finais
Eu sei que é maldade dizer esse tipo de coisa, mas queria muito ter visto as reações de vocês ao ler este capítulo! Para ser sincera, até eu fiquei surpresa com este final enquanto escrevia a Kokoro. Bom, com isso, mais uma etapa das minhas fanfics se encerra. Agradeço de coração a todos que acompanharam esta história desde o começo. No próximo fim de semana, voltarei a postar a Tamashi. Só faltam dois capítulos! Beijos! :*
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!