Kokoro (oneshots)

3 O Ponto de Ônibus


Notas iniciais
Essa é uma história que escrevi para um concurso, que, infelizmente, não aconteceu. Por esse motivo, eu resolvi postá-la aqui para vocês lerem. Espero que gostem! :D

Yukio caminhava calmamente ao longo da beira da estrada, assobiando uma velha música infantil.

A brisa suave balançada seus longos cabelos escuros, que, vez ou outra, teimavam em cair em seu rosto, o que obrigava o rapaz a afastá-los para o lado, e colocá-los atrás da orelha.

Fazia uma bonita manhã de primavera. Alguns pássaros cantavam alegremente, e os raios do sol que despontavam no horizonte ofuscavam um pouco a visão.

Depois de alguns minutos de caminhada, Yukio chegou ao ponto de ônibus, que ficava ao lado de uma velha árvore de sakura. Ela estava incrivelmente florida. As pétalas das flores que ela havia deixado cair com o vento haviam formado um bonito tapete cor de rosa no asfalto da estrada.

Yukio sentou-se no banco e, enquanto esperava o ônibus chegar, pegou o novo livro que havia comprado no dia anterior e abriu-o na primeira página.

E leu:

“Era para ser mais um dia normal de uma rotina chata para Hiroshi.

Escola de manhã, curso à tarde, dormir a noite... essa era sua rotina desde que adentrara no Ensino Médio, e ele imaginava que continuaria sendo sempre assim, até o fim de seus estudos.

Porém, aconteceu algo naquele dia que nem ele mesmo poderia imaginar que poderia ocorrer.

Algo que iria quebraria essa rotina por completo.”

– É... com licença, por favor... –

O rapaz levou um susto. Enquanto lia, uma garota havia se aproximado silenciosamente do ponto de ônibus, sem ele se dar conta.

Não era para ter pessoas ali por perto. Ninguém nunca utilizava aquele ponto de ônibus naquela hora da manhã.

Bom, pelo menos até agora.

– Por um acaso, passa algum ônibus nesse ponto que vai até Miamo? – perguntou ela.

– Bom, é... – respondeu o rapaz, enquanto recuperava-se do susto e tentava se lembrar dos horários dos ônibus. – Hum... ah, sim, tem sim um ônibus que vai para Miamo. Ele deve chegar em... – Yukio olhou para seu relógio – Aproximadamente uns cinco ou seis minutos.

A garota sorriu.

– Que bom! Muito obrigada.

– De nada.

– Bom, então... – disse ela, olhando para o banco. — Se me der licença, eu...

– Ah, sim, sem problemas. – respondeu Yukio prontamente, achegando-se mais para o lado para ela poder se sentar.

– Obrigada mais uma vez.

– Não tem de quê.

A garota sentou-se e então retirou um pequeno caderno e um lápis de dentro da sua mochila. Olhou para o horizonte durante alguns segundos e, em seguida, começou a rabiscar nele.

Yukio, vendo que ela estava concentrada naquilo e não iria perguntar mais nada, resolveu então continuar a ler seu livro.

“Hiroshi nunca poderia imaginar que, naquela manhã, a caminho do colégio, ele reencontraria com alguém que há muito tempo não via.

Alguém muito especial.”

Yukio desviou a atenção da leitura novamente. Ele não conseguia concentrar-se no que estava lendo.

Havia algo naquela garota que o estava deixando perturbado.

Ela possuía um rosto muito familiar... será que já não a tinha visto antes alguma vez?

Olhou discretamente para ela.

Ela possuía olhos castanhos escuros, um nariz levemente arrebitado e cabelos pretos e lisos, cortados na altura do queixo (que eram incrivelmente mais curtos que os dele).

Olhando mais atentamente, ele percebeu algo mais:

Uma pequena cicatriz na sobrancelha esquerda.

Yukio sentiu algo esquisito no seu estômago. Aquilo o fazia lembrar-se estranhamente de algo.

Então, como se fosse um filme, uma cena começou a surgir em sua mente:

– FLASH BACK ON –

(Oito anos atrás)

“Duvido que você me alcance, Yuki-kun!!” gritou ela.

“Há! Você duvida é?! Espere só, então!”

Yukio pedalou mais rápido ainda.

“Você não consegue me alcançaaar, na, na, na, na, na!!” cantarolou a garota, sorridente, olhando para trás.

“Ayane!!” gritou ele.

“O quê?!”

“Olhe pra frente!” berrou Yukio, vendo o perigo que se aproximar.

“O quê?!?”

“Olhe pra frente!! A ÁRVORE!!!”

– FLASH BACK OFF –

O rapaz mal podia acreditar.

“Então ela é... ela é a Ayane!” pensou ele, triunfante. “Sim! É ela! Ayane! Quem mais poderia ser?”

Yukio voltou-se para a garota, sorrindo.

Sim, era realmente ela.

Aquele olhar curioso, aqueles cabelos lisos esvoaçantes, aquela pequena cicatriz na sobrancelha que havia se formado depois do acidente...

Eram os de Ayane.

Seu primeiro amor de oito anos atrás.

– Quanto tempo, Aya-chan... – murmurou ele, pensando alto.

A garota parou de desenhar e olhou para ele por um instante.

– Hãã... falou comigo? – perguntou.

– Êh? Eu? Não, não, é que... – respondeu Yukio, tentando de explicar, e, ao mesmo tempo, recuperando-se da incrível descoberta que tinha acabado de fazer. – É que... bom, será que você... será que você por um acaso se lembra... – porém, o rapaz não terminou a frase. Nessa mesma hora, o som do ônibus chegando abafando sua voz.

A porta se abriu.

E o motorista disse:

– Vão subir? –

– É este o ônibus para Miamo, não é? – perguntou a garota para o motorista.

– Este mesmo. –

Enquanto ela ia embora, o rapaz não sabia como reagir. Sua mente dizia para ele fazer algo, mas seu corpo simplesmente não correspondia.

Então, ele finalmente gritou:

– Ei, espere! –

Porém, o ônibus já tinha dado a partida e começado a andar.

– ESPERE!! – gritou o rapaz novamente, correndo atrás do ônibus. – Ayane, sou eu, YUKIO!! –

A garota parou por um momento.

Então, ela arregalou os olhos.

– Yukio?! – murmurou ela, sem conseguir acreditar. – YUKIOO!! – ela tentou gritar algo em resposta, porém, o ônibus pegou velocidade e, aos poucos, Yukio foi ficando cansado e foi parando de segui-lo.

A garota continuou a olhar para ele pela janela, enquanto sua figura ia diminuindo aos poucos.

Então, uma lembrança veio à sua mente:

– FLASH BACK ON –

(Sete anos atrás)

“Oi!”

“Oi!!”

“Eu posso ir com você?” perguntou Yukio.

“Pode sim.”

Os dois começaram a andar juntos e, durante um trecho do caminho, ficaram em silêncio. Então, Ayane começou a falar:

“Meu pai arranjou um emprego, finalmente.”

“É? Que bom!” disse o garoto, sorrindo.

“Pois é...” respondeu ela. “É em Kime. E ele disse que vão pagar bem pelo trabalho. Muito mais que antes. Só que nós...” ela parou por um momento. “Só que nós vamos ter que... que...” e foi diminuindo a voz. “...nós vamos ter que nos mudar...”

Yukio olhou para ela, surpreso.

“O quê?!”

Os olhos da garota se encheram de lágrimas.

“Eu não quero ir, Yukio! Não quero!” gritou ela.

Ela o abraçou e começou a chorar.

Yukio ficou em silêncio, sem saber o que dizer. Apenas abraçou-a também e ficou ali, parado, com o olhar perdido.

A garota chorava e soluçava cada vez mais, contudo, depois de algum tempo, ela foi se acalmando. Então, quando havia parado de chorar, ela desvencilhou-se dele e disse:

“Yukio, eu... eu...” ela olhou para ele por um momento, pensando se deveria ou não dizer aquilo. Então, falou rapidamente: “Eu... gosto de você.”

E começou a correr.

Yukio ficou em estado de choque.

Quando se deu conta do que havia acontecido, ele já tinha perdido ela de vista.

“AYANE!!” gritou ele, em vão. “Ayane!!”

– FLASH BACK OFF –

A garota nunca mais voltou a vê-lo depois daquele dia.

Ao lembrar-se disso, uma pequena lágrima correu pelo seu rosto.

“Yukio...” pensou ela, enquanto sentava-se no banco do ônibus. “Yukio... quanto tempo...”

Enquanto isso, o rapaz, ofegante, olhava o veículo se distanciar mais e mais pela estrada, até o momento em que ele sumiu completamente de vista.

– Ayane… —

Ao final do dia, depois do término das aulas, a garota voltava de ônibus para casa. Enquanto ele deslocava-se pela estrada, ela apoiou a cabeça contra o vidro da janela, e fechou os olhos. Havia sido um dia bastante cansativo.

Quando o ônibus parou, a garota acordou, se levantou e desceu.

E, para sua surpresa, ali de pé, estava Yukio, esperando por ela.

A garota ficou perplexa.

“Como?” pensava ela.

Os dois ficaram se olhando em silêncio por um tempo, sem saber o que dizer.

– Olá... – disse Yukio, por fim.

– O-olá... – respondeu ela, um pouco nervosa.

Novamente, ficaram em silêncio.

– É... quanto tempo, né? – Yukio sorriu, meio sem jeito.

– É, pois é... – disse a garota, sem graça, sorrindo de volta também. – Bastante tempo... –

– Está tudo bem com você? –

– Sim, tudo bem... E com você? –

– Tudo bem também... –

– E... e os seus pais, estão bem? –

– Sim, estão. E os seus? –

– Bem também... –

– É... vocês se mudaram pra cá, agora? –

– Sim. Meu pai foi transferido para essa cidade. Estamos voltando pra cá, novamente. –

– Haha, que legal. –

– Haha, pois é... –

– Hum... e seu irmão, veio com vocês? –

– Não. Ele ficou na outra cidade, já que ele já tinha começado a faculdade lá... –

– Ah, entendo... uma pena... –

– É mesmo... –

Ayane olhou para ele por um momento. Yukio havia mudado muito.

O rapaz havia crescido bastante, assim como o seu cabelo, e estava bem mais alto do que ela. Sua voz havia ficado mais grave e bonita, porém, ele continuava tendo aqueles traços levemente femininos de sempre.

– Você mudou bastante, Yukio... não tinha te reconhecido de primeira. – disse a garota, meio sem graça, referindo-se ao encontro que tiveram de manhã.

– É, você também... levei um certo tempo até ter certeza de que era você mesma... – respondeu ele. – Eu te reconheci através disso aqui – e apontou para a cicatriz da garota.

Ayane sorriu sem jeito.

– Ah, então foi isso... –

– Haha, pois é... –

– Você se lembra daquele dia, né? –

– É claro que lembro! Fui eu quem teve que socorrer você, oras. Minha nossa... eu me lembro você não parava de chorar. –

– É lógico! Eu estava sangrando... –

– É, mas você tem que admitir que eu fiz um bom atendimento. –

– Bom, para um garoto de oito anos de idade, até que sim... –

Yukio sorriu.

Ayane sorriu também.

Era como se os dois tivessem voltado a serem os velhos e bons amigos de antes.

– Bom, eu... eu preciso ir indo agora. – disse a garota, um pouco sem graça por ter que interromper a conversa.

– Ah, sim, sem problemas. Desculpe-me, eu não tinha percebido que já está tarde.

– Não, que isso. Foi... foi muito bom reencontrar você, Yukio. –

– Haha, e eu digo o mesmo, Aya-chan. –

A garota olhou para ele e sorriu.

Yukio franziu as sobrancelhas.

– Que foi? – perguntou ele.

– Eu... eu gostava de quando você me chamava de Aya-chan... – respondeu ela.

Ayane olhou para seus sapatos. Então, continuou:

– Na verdade, eu ainda gosto... –

Yukio ficou surpreso com aquilo, mas deu um sorriso.

– Hum, então... se quiser, eu posso continuar te chamando assim. –

Os olhos de Ayane brilharam.

Yukio riu.

– Bom, então... – disse a garota. — Até logo. –

– Até mais, Aya-chan. –

Os dois então deram as costas um para o outro e seguiram cada qual um caminho diferente.

Eles sabiam agora que, mesmo seguindo rumos diferentes, eles ainda se cruzariam muitas e muitas vezes mais.

– Fim. -

Notas finais
Agradecimento especial: - Ao meu amigo Makura, que serviu de inspiração e me ajudou a escrever essa história (mesmo que de maneira indireta ^.~).
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.