Kokoro no Kizu
5 Capítulo 5 - Final
Kokoro no kizu
Capítulo 5
Final
Shun e Hyoga saíram apressados no encalço de Shaila, que parecia carregar a Maria doente no colo. O desespero tomava conta do Cavaleiro de Aquário. A cada passo que dava em meio a densa camada de neve que cobria o solo e a cada novo inspirar do ar quase congelante da madrugada, sentia seu peito arder. A tosse traiçoeira não demorou a ressurgir, por mais que estivesse se esforçando para evita-la ao controlar a respiração.
Os dois pararam e Shun viu sangue tingir as mãos do loiro.
— É melhor você esperar aqui — pediu Shun, ao pararem debaixo de uma árvore. — Eu continuo sozinho daqui.
— Não, Shun — Hyoga discordou rapidamente, limpando o sangue das mãos na roupa. — Você não a conhece. Shaila é extremamente geniosa. Ela nunca aceitou nossa separação. Ela sabia que eu amava outra pessoa. Mas, saber que essa pessoa é um homem, provavelmente a ofendeu. Ela não vai aceitar falar com você. Eu vou junto.
— Mas, Hyoga, sua tosse só vai piorar...
— Eu vou, Shun! — Hyoga respondeu, incisivo. — É a minha filha. Eu atravesso o inferno congelado por ela ser for preciso. — Depois de dizer isso, o loiro passou por Shun e continuou seguindo o rastro da mulher deixado na neve, que iam em direção as montanhas.
Ao compreender a determinação do amigo, Shun decidiu apenas acompanhá-lo.
— Para onde acha que ela esta indo?
— Provavelmente para Chukotka, a procura de um médico.
Os dois aceleraram o passo e não demoraram encontrar mãe e filha atravessando a camada de gelo fino do lago Kiaska.
— Senhora Shaila, pare, por favor! — Shun gritou.
— Me deixe em paz seus imundos! — a mulher replicou, aumentando a velocidade no gelo escorregadio.
— Shaila, por favor, o Shun é médico — Hyoga a informou, há poucos passos de distância atrás dela. — Ele pode examinar a Ma...
— Eu não quero que ele coloque as mãos na minha filha! — a mulher o interrompeu gritando e virou-se para encará-los. — Você e ele dormindo juntos é algo.... tão abominável. Você não me quis, mas se deita com outro homem mesmo estando doente. Você é um nojento, repugnante, Hyoga! — ela o acusou.
— Shaila... Depois conversamos, a prioridade agora é a Maria.
— Esqueça! — ela exclamou, apertando a criança no colo. — Esqueça que tem uma filha de vez por todas. Eu nunca mais vou deixar você chegar perto dela. Nunca mais.
— Senhora Shaila, só está dizendo isso porque está magoada... — Shun entrou na conversa de mansinho. — Mas não pode negar o direito de um pai ver a própria filha.
— Vai para o inferno, seu forasteiro nojento! — Shaila deu um passo para trás e um estalo no gelo fez com que Hyoga e Shun se sobressaltassem.
— Hyoga... vai quebrar! — Shun se apavorou.
— Shaila, por favor, sejamos sensatos, conversaremos depois de cuidar da Maria. Venha, por favor, vamos voltar.
— Não! — respondeu ela, dando um novo passo para traz, aumentando os estalos no gelo. — Eu vou levar a minha filha para cidade e... — A fala da chukchi se interrompeu quando ela sentiu o gelo sob seus pés se rompendo. Shaila não teve tempo de reagir, o buraco que abriu no chão rapidamente as engoliu para dentro da água congelada do lago.
— Shailaaaa! Mariaaaa! — Hyoga gritou desesperado, indo em direção ao buraco, com a intenção clara de pular, mas foi detido por Shun que se agarrou na sua cintura e o empurrou para trás do buraco.
— Não, Hyoga. Se fizer isso no estado em que se encontra será suicídio na certa. Eu vou. — Shun determinou, decidido, já retirando o excesso de agasalhos.
Mas Hyoga não se conformou e tentou impedi-lo também, segurando pelo pulso.
— Você não está acostumado com essa água congelante, Shun. Terá hipotermia.
— Prefere que sua filha, morra? Me solta — Shun puxou o braço que Hyoga prendia e se jogou na fissura.
Restou a Hyoga apenas clamar pela benevolência dos deuses.
Dentro da água, não demorou Shun encontrar mãe e filha descendo rapidamente para o fundo, ascendeu o seu cosmo ao máximo, tentando se aquecer e conseguiu alcançá-las e apanhá-las.
Hyoga, na superfície, andava de um lado para o outro, até que viu o primeiro corpo surgir, era filha. Shun emergiu rapidamente, deixou Maria, inflou os pulmões de ar e voltou para dentro da água. Enquanto isso, Hyoga correu e amparou a pequena menina em seu colo, levando-a para a margem do lago, em terreno mais seguro. Em seguida fez respiração boca a boca e depois que ela tossiu e começou a chorar, confirmando estar viva, ele a envolveu com seus próprios casacos.
— Maria, minha Maria. Graças a Deus! — ele se animou ao ver a criança tossindo e chorando, abraçou-a com força.
Entretanto, nem Shaila e nem Shun saíram da fissura, começou a ficar preocupado.
— Deus... Não me castigue desse jeito, por favor. Por favor. Mamãe, Athena, qualquer um, por favor, ouçam minhas preces. Não permita que Shun morra. Não permitam que eu o perca.
Tendo suas preces ouvidas, Hyoga sorriu ao ver Shun aparecer na fissura, mas ele estava chorando e tossindo muito. Hyoga deixou a filha na margem do rio.
— Fique aqui um pouco, princesa. Não se mexa. O papai já volta.
E correu até Shun para ajudá-lo a sair da água.
— Ela me mordeu, me empurrou, se debateu dentro da água, Hyoga. Ela quis morrer. Eu tentei, mas ela não quis voltar comigo — Shun chorava desesperado, tentando se explicar em meio ao pranto.
Hyoga lhe estendeu a mão e ajudou o amigo a sair de dentro da água. Então Shun puxou a camisa, a qual havia amarrado no pulso da ex-mulher do amigo, para não perdesse seu corpo, e juntos, os dois a retiraram de dentro da água, em estado de petrificação.
— Ela quase não me deixou pegar a Maria — Shun justificou. — Ficou se debatendo na água agarrada à criança. Eu tive que praticamente arrancar a Maria dos braços dela e quando a deixei na superfície e voltei para tentar resgatá-la, o corpo de Shaila já boiava inerte, sem vida. Ela está morta, Hyoga.
— Shun, pare de chorar, por favor. A culpa não foi sua.
— É claro que foi, Hyoga! — Shun replicou, soluçante, esfregando as mãos no rosto vermelho. — Se ela não tivesse nos visto juntos, ela não teria agido dessa forma. Eu queria salvar vidas, Hyoga. Salvar! Não queria que mais ninguém morresse por minha culpa.
— Shun — Hyoga o chamou, apertando seus ombros, — se quer mesmo salvar vidas, então salve a da minha filha. Se ficar aqui se lamentando, perderemos a Maria também. Por favor, estou pedindo, me ajude a resgatar a minha filha.
O japonês ergueu seus olhos inundados de lágrimas para o amigo e finalmente compreendeu, respirou fundo, fungou e concordou com um aceno.
...
Três semanas se passaram desde o incidente. O funeral de Shaila fora feito na aldeia dos Chukchis. Os pais da jovem permitiram que Hyoga ficasse com a guarda da criança, desde que ele se dedicasse a cura da doença que o combalia.
Hyoga concordou e, acompanhado de Shun, fez todos os exames em Chukotka, dando início ao tratamento.
O tempo em que esteve em Kohoutek, Shun prestou serviços tanto na Vila de Hyoga quanto na aldeia dos Chukchis, já que em ambos os lugares não havia médico, o que deixou os moradores contentes.
A pequena Maria, que estava totalmente recuperada dos ferimentos, se apegara demais ao jovem japonês na ausência da mãe. Duas vezes por semana, Shun e ela visitava a aldeia dos Chukchis para que ela revisse os familiares e aproveitava também para examinar as crianças do local. De início, os curandeiros não gostaram da ideia de um forasteiro medicando seus moradores, porém, o jeito gentil e dócil de Shun logo cativou os nativos e ele acabou ganhando a confiança deles.
Enquanto a Shun e Hyoga. Depois daquela primeira noite os dois resolveram conter seus desejos. A morte de Shaila ainda era um fantasma na mente deles, além disso, a pequena Maria dormia grudada com eles.
Jacob fingia-se de desentendido. Mas não demorou descobrir o que estava acontecendo entre o mestre e seu amigo, ao flagrá-los trocando beijos no sofá da sala as altas horas da madrugada quando levantou pra beber água certo dia desses. Sentiu algo estranho ao ver dois homens se beijando, algo que imaginou ser repulsa, mas não dera muito importâncias para aquilo. Eles eram adultos e imaginou que soubessem muito bem o que estavam fazendo.
Além disso, seu mestre estava feliz como nunca o vira antes, e isso era o que realmente importava.
Porém, as férias de Shun estavam chegando ao fim, e as dúvidas do que fazer passaram a plainar sobre sua cabeça. A vida ali em Kohoutek era tudo o que sempre quis: uma pessoa que o amava de verdade, uma vila tranquila, trabalhar como médico. Porém, levar adiante aquele romance com Hyoga ainda parecia imoral aos costumes. E se as pessoas da vila começassem a perceber que aquilo que existia entre eles não era apenas de uma bela amizade?
E se ligarem a morte de Shaila ao fato do que eles sentem e julgá-los?
Não suportaria ver Maria crescendo ouvindo acusações de que o pai e o amigo, dois pervertidos, deixaram a mãe morrer pra ficarem juntos. Seria algo horrível. Por esse motivo, Shun começava a pesar a ideia de que o melhor a se fazer seria ficar longe.
Assim, naquele dia, enquanto Hyoga estava fazendo novos exames, no Hospital de Chukotka, decidiu ligar para o Japão, mais precisamente, para Sayume.
— Onde você está, Shun? — gritou a voz ao telefone assim que foi atendido. — Ninguém sabe ao certo do seu paradeiro. Quer me matar do coração?
Shun suspirou fundo, tinha a impressão de que a voz gritante da colega seria facilmente ouvida por quem passasse ali por perto. Ele também não percebeu, pois estava de costa, mas no momento que a amiga o atendeu, Hyoga saiu da sala de exame e se deteve próximo suficiente para ouvir o que ambos falavam.
— Desculpe-me, Sayume-san? — Shun pediu, no seu tom comum de paciência. — Mas eu tive que viajar às pressas para ajudar um amigo.
— Que amigo, Shun? Liguei na fundação e disseram que você foi pra Sibéria? Sibéria? A Sibéria é enorme! Quem você conhece na Sibéria que nunca mencionou?
Shun suspirou mais uma vez.
— O nome dele é Hyoga, eu o conheci criança, quando vivíamos no orfanato.
— Estranho, não é? — a voz do outro lado continuava soando magoada. — Como você sai correndo pra socorrer um amigo que nunca mencionou?
— Sayume-san...
— Desculpe-me eu, Shun. Mas é que você disse que tinha algo importante para me falar. Tínhamos marcado de nos encontrar no seu primeiro dia de férias, mas quando vou procurá-lo descubro que está no meio da Sibéria. Fiquei um pouco decepcionada.
— Say-...
— Shun... — ela o interrompeu novamente. — Eu sei o que você quer me dizer. Há muito tempo eu sei que você gosta de mim. E eu também gosto de você. Sempre gostei, desde que o conheci. Não importa o que a minha família pensa. Shun, eu aceito seus sentimentos. Vamos ficar juntos.
— Sayume-san...
Hyoga ouvira o suficiente, decidiu esperar por Shun do lado de fora.
O retorno para Kohoutek fora bem estranho. Depois de Shun procurar pelo amigo na sala de exames e descobrir que ele já havia saído fazia um tempo, o encontrou sentado no jardim. Depois que o loiro lhe sorriu, estranhamente forçado, mostrou para si os exames e sua opinião acabou sendo a mesma do profissional do hospital: Hyoga estava se recuperando rápido.
Depois disso, um estranho silêncio se instaurou entre eles. Hyoga agora sabia o motivo de Shun não corresponder seus sentimentos: ele já amava alguém. Porém, ainda não entendia porque ele havia se entregado tão intensamente naquela noite se ele já tinha uma garota.
— Hyoga, eu tenho algo para dizer — disse Shun de repente, quebrando o silêncio.
— Eu sei — o loiro antecipou-se. — As suas férias estão chegando ao fim e você tem que retomar sua vida no Japão. — Hyoga respondeu, fazendo Shun se impressionar. — Eu acho mais do que justo, Shun. Já perdeu muito tempo aqui, trabalhando, enquanto deveria estar descansando.
— Não é isso, Hyoga. Tudo que fiz aqui foi muito satisfatório.
Hyoga não conteve o sorriso amargo que brotou em seus lábios “Então é isso, Shun? A nossa noite de sexo também foi apenas satisfatória?”, ele pensou consigo mesmo, sentindo aquela dor no peito aumentar. “Poderia ser uma pessoa egoísta agora e usar de vários meios para fazê-lo ficar. Poderia dizer que ainda não estou bem. Que Maria precisa de você. Tantos e tantos motivos. Tão diferente daquela época em que eu não sabia formular nenhum argumento, quando você interpretou minha declaração como um mero “eu te amo” entre irmãos. Sinto inveja dessa garota que falou com você de um jeito tão espontâneo.”
— Hyoga?
— Shun, — Hyoga de repente juntou forças e depositou as mãos sobre os ombros de Shun, apertando-os firmemente. — Esquece o que houve entre a gente. Não dá pra coisa ir só de um lado. A Shaila e eu não demos certo por causa disso. Só ela queria e eu não. Eu não quero atrapalhar sua vida. A Maria, o Jacob e eu ficaremos bem. Sua vida é outra. Você largou tudo para realizar seus sonhos, não seria justo você simplesmente largá-los de lado pra viver um relacionamento manco.
— Mas quem disse que eu não...
Hyoga o calou depositando o dedo indicador sobre seus lábios.
— Psiu. Não diga nada. É melhor que termine assim.
— Terminar se nem começamos... — Shun constatou, movendo o dedo do loiro em sua boca.
— Mas você não quer começar. — Hyoga replicou, se afastando. — Você me ama somente o como um irmão, Shun. Eu não posso tê-lo desse jeito.
— Como pode responder isso por mim?
— Estou errado? — Hyoga o desafiou.
Shun fechou o cenho, como se buscasse entender o que se passava em seu interior e, procurando ser honesto, respondeu:
— Talvez meu sentimento não seja exatamente como o seu, mas... sinto que o amo o suficiente para entender que não é mais só como irmão.
— Então, porque você ligou para o Japão, então?
— Você estava ouvindo minha conversa ao telefone?
— Isso importa?
— Tenho assuntos pendentes lá.
— Então vá resolver seus assuntos!
— Eu vou! — Shun respondeu no mesmo tom ríspido, mas logo se acalmou, retomando o seu tom mais ameno. — Mas, eu...
— Volta? — Hyoga completou a frase, sarcástico. — Duvido. Duvido que depois que você chegue ao Japão você se lembre de ou de qualquer coisa desse fim de mundo. Foram nove anos, Shun. Nove anos. E foi preciso uma doença pra te trazer aqui. Mas eu juro, pela alma da minha mãe e dos meus mestres mortos, eu vou me cuidar muito a partir de agora. Não haverá mais doença, ou motivo algum para você voltar se não quiser. Eu te garanto. — Ao concluir, o homem loiro deu as costas para o amigo, e continuou seguindo o caminho de volta ao vilarejo.
Shun ficou estagnado por um tempo, sentindo o vento frio queimando ainda mais seu rosto, enquanto as lágrimas desciam e os soluços estremeciam seu corpo. Ao menos as palavras ferinas de Hyoga o forçaram a tomar sua decisão.
...
— Eu não acredito nisso, Senhor Shun! — Jacob irrompeu explosivo mais uma vez. — Eu achei que você e o mestre estivessem juntos!
— Não sei de onde você tirou esta besteira, Jacob — Shun se fez de desentendido enquanto continuavam arrumando as malas.
— De onde eu tirei? — o rapaz perguntou, a revolta crescendo. — Nos olhares de bobo apaixonados que os dois trocam? Na forma doce como vocês falam um com o outro? Por Zeus! Só seu eu fosse um cego pra não enxergar algo tão óbvio.
O japonês terminou de fazer a mala e a fechou.
— Você está vendo coisas onde não existe, Jacob-kun. Eu sou homem e seu mestre também. Uma família se constitui de pai, mãe e filhos. Não de pai, pai e filhos.
— Isso não é desculpa! — o garoto gritou, inconformado. — Não existe regras para o amor. Estamos falando de sentimento e não de convenções humanas idiotas.
— Jacob, se você amasse um homem, você viveria com ele o resto da sua vida sem se preocupar em constituir uma família?
— Eu sei que não seria hipócrita em construir uma família sem base naquilo que é o mais importante de tudo: o amor.
— Você é só uma criança...
— É sempre assim que os adultos colocam pontos finais nos assuntos para os quais não querem enxergar a resposta. Acusando os outros de imaturo. Senhor Shun, o mestre vai adoecer se você se for...
— Ele não vai — o japonês garantiu. — Ele me prometeu. — Shun concluiu, dando uma última observada no quarto onde ficara durante quase um mês. Depois, olhou o rosto abalado do novo Cavaleiro de Cisne a sua frente. — Jacob-kun, escuta, é para o seu bem e o da Maria também. Eu e o Hyoga não tivemos família e sabemos o quanto essa realidade é dolorida, por isso nos importamos em estruturar uma família de forma correta.
— Não fale pelo meu mestre, Senhor Shun. Família não precisa ter laços de sangue, são apenas entes que se amam. Ele também acredita nisso, senão ele não teria cuidado de mim com tanto carinho, como se eu realmente fosse o filho dele.
Shun não podia negar aquilo, mas precisava manter-se firme em sua decisão, então suspirou mais uma vez, fechou a última bolsa e transpassou-a no peito.
— Vamos nos despedir por enquanto.
— Se está tão certo do que diz, porque não está feliz? — Jacob ainda o desafiou, fazendo os olhos de Shun dobrarem de tamanho. — Eu não estou, a Maria também não, o mestre também não, nem mesmo o senhor... — Jacob de repente engasgou e esfregou os olhos, sentindo raiva das lágrimas traiçoeiras que escorreram por seu rosto sem permissão. — Merda!
Shun precisou se segurar o máximo que pode para não chorar também. Mas aquela não havia sido uma decisão só sua. Hyoga também estava de acordo. Ainda não existia cura para certas feridas. Já estava decidido. Shun repousou uma das mãos sobre o ombro do jovem e, tentando parecer sincero, sorriu.
— Eu voltarei para visitá-los.
Jacob abaixou a cabeça, vencido.
Ao abrir a porta do quarto Shun foi agarrado pela pequena Maria.
— Aonde você vai, tio Shu?
— O tio Shu vai pra casa, Maria — ele a informou, deixando a mala de mão no chão para apanhá-la no colo.
— Mas a sua casa não é a casa da Maria também?
Shun apertou os lábios e tentou mais uma vez segurar o choro que queria dominá-lo. Sorriu, apertou o nariz da pequena em seu colo e se despediu dela com um beijo na bochecha.
— Cuida bem do papai, está bem?
— Fazer ele tomar os remédios, né?
Shun assentiu.
— Isso mesmo — afirmou e a entregou nos braços de Hyoga que estava encostado na parede do corredor.
— Então, é isso. Eu estou indo.
— Escreva para avisar que chegou bem — Hyoga pediu, olhando-o nos olhos.
— Certo.
— Certo.
Sem mais delongas, os dois se despediram, achando por bem não trocarem mais que meros “fique bem”. Então, cada um retornou ao seu mundo. O mundo que escolheram viver e as verdades que decidiram seguir.
...
Assim, algum tempo depois, Shun havia retomado sua rotina como médico e havia também decidido sua especialidade.
Com vocês, as palavras do Dr. Shun:
Tem certas coisas que o tempo não muda, que o vento não leva, que os corretivos não apagam, que a brisa não molha, que o fogo não consome, que o mar não afoga, podem até imaginar que estou me referindo ao ‘amor’, mas não. Este também é tão forte quanto, porém o amor ameniza, ele não machuca, ele acalenta, ele faz bem.
Sobre o que estou me referindo, na verdade, são as feridas do coração. Essas não. Elas ficam para sempre. São eternas. Pode pesquisar aí, no seu interior, pense: quantas coisas boas você já ouviu e de repente o vento levou? Quantos “eu amo você”, “eu te admiro”, “eu gosto de você” já ouviu e simplesmente ficou eufórico naquele momento, mas depois isso passou e você já nem lembra ao certo o rosto de quem lhe disse.
Agora, pense em quantas coisas ruins você já ouviu. Pense nas pessoas que as disseram. Agora pense nas coisas que terceiros já fizeram pra te magoar. Enumere quantas feridas já ganhou se ferindo a si mesmo. Você se lembra de todas ou da maioria, não é mesmo? E os rostos? São claros na sua mente como água, não são? As marcas ficam, não ficam?
Por mais que tentemos esquecer a dor dessas feridas, o mínimo que conseguimos é não pensar mais nelas para não a sentirmos. Mas, todas às vezes que nos lembrarmos a dor voltará e aquela ferida que parecia cicatrizada, se reabrirá, machucando-nos novamente.
Sim, isso é ser humano. É da nossa Natureza. Então, porque somos tão teimosos e deixamos as feridas abertas? Porque não nos esforçamos para curá-las?
— Eu também queria entender...
— Dr. Amamya, sala oito. Dr. Amamya, sala oito.
— Dr. Amamya, o senhor está dormindo? — Shun sobressaltou com o chamado do enfermeiro e levantou o rosto que havia deitado na mesa um pouco para descansar um pouco.
— Não. Eu não peguei no sono, só estava distraído.
— Estão te chamando, doutor. A sala de cirurgia já está pronta.
— Certo.
Os dois saíram apressados pelo corredor. Shun entrou na sala de cirurgia após vestir as roupas de cirurgião e se esterilizar.
— Ela não teve dilatação, doutor — ouviu de uma enfermeira assim que entrou na sala.
— Certo. Então, vamos operar. Está tudo bem, mãe? — ele perguntou para paciente, passando a mão na fronte suada da mulher, que tinha um olhar assustado. — Não se preocupe, você e o bebê vão ficar bem.
A mulher balançou a cabeça e sorriu, perante a confiança do médico.
— Anestesia?
Como curar essas feridas? A resposta é bem simples. Há alguns passo, o primeiro é fazer o que se gosta, fazer com o coração e fazer bem feito.
— Pressão arterial estabilizada...
— Ótimo. Tudo correndo muito bem — Shun disse, enquanto fazia a incisão.
Segundo passo é ver sempre a vida acontecer. É, o professor Sakomotto tinha razão, é na sala de cirurgia que presenciamos o milagre acontecer: o milagre da vida.”
O choro irrompeu o ambiente e Shun entregou a criança no colo da enfermeira ao seu lado.
— É um lindo menino. Parabéns, mamãe.
A mulher sorriu, as lágrimas inundando seus olhos.
Mas o passo mais importante é tomar sempre o remédio adequado para curar qualquer ferida, por mais infeccionada que ela esteja.
Shun deixou a ala de cirurgia, desfazendo-se das roupas, luvas, enquanto um a um da sua equipe vinham parabeniza-lo pela ótima cirurgia, dando-lhe tapinhas nos ombros.
— Vai pra casa, doutor?
— Sim, agora meu plantão acabou. Minha família está me esperando. Até depois de amanhã, pessoal!
— Até, doutor!
— Até!
Shun saiu pela porta principal do hospital e inspirou o ar colorido da primavera ainda borrada em tons brancos. Aprendera gostar do branco. Significava paz. Lembrava-o da sua profissão. Lembrava-lhe o recomeço. Pois é sempre em uma tela branca que o artista começa a dar cor e vida a sua obra.
Cruzou o portão de saída e aquela linda menina de tranças veio correndo na sua direção, direto para o seu colo, apanhou-a e a apertou junto ao peito.
— Papai Shun!
— Como você está, Maria?
— Com fome.
Ele sorriu. Hyoga se aproximou, cumprimentando-o com um beijo nos lábios.
— Como foi a cirurgia?
— Correu tudo bem. Foi um menino desta vez — respondeu, sorrindo. — E o Jacob-kun?
— Ficou em casa preparando assado de rena, mas ficou boquejando, sabe que ele não gosta de cozinhar.
Todos os três sorriram.
— É, eu sei. Então, vamos né? Antes que o almoço esfrie.
— Vamos! — A pequenina pulou eufórica no colo de Shun.
— Você está ficando pesada pra ir no colo, não acha não, Maria? — Hyoga a advertiu.
— O papai Shun que está me carregando não está reclamando — ela contestou, fazendo careta para o pai loiro.
— Ah, sua!
— Hyoga?!
Ah, sim, ia me esquecendo de terminar de prescrever a receita. O remédio que mencionei e que cura todas as feridas por mais profundas que elas sejam: é o amor. Tome-o em doses diárias, não moderadas, esse remédio não tem contraindicação.
Ué, estão estranhando? Acharam o quê? Que eu iria viver em Tóquio enquanto a ferida em meu coração fosse crescendo e se infeccionando até virar um câncer? Gente, pelo amor de Deus, eu sou médico.
Shun sorriu e os três seguiram conversando de volta ao lar, de volta para Kohoutek.
Fim.
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