Kokoro no Kizu
2 Capítulo 2
Kokoro no Kizu
Revisado por Vane
História escrita para o Amigo Oculto de Fanfics 2009, promovido pela comunidade Saint Seiya Superfics Journal.
Capítulo II
Shun saiu do elevador bocejando. Acabara comendo na rua, mesmo não gostando de fazê-lo. Mas sua fome era tanta, e o cheiro que vinha da barraquinha de lamen estava tão bom, que ele não resistira. Agora, só lhe restavam duas preocupações: tomar banho e dormir.
Assim, entrou em seu apartamento, fechou a porta atrás de si e depositou a bolsa no chão. Porém, quando começou a descalçar os sapatos, sentiu um estalo na fronte. Foi tomado imediatamente por um intenso calafrio que fez seu coração disparar e o ar engasgar em seu peito. Sabia muito bem o que era aquela sensação: o choque da sua cosmo-energia – a fonte de força dos cavaleiros — com a de outro guerreiro.
Havia um cavaleiro no seu apartamento. Não precisava enxergar através do escuro para ter certeza. Ademais, as janelas do lugar estavam todas vedadas; então, o que mais seria aquele ar frio que circulava ali dentro?
Não era a energia de nenhum guerreiro que ele conhecia. Além de tudo, era bem mais intensa que a sua. “Será um inimigo?”, inquiriu-se mentalmente.
Porém, não teve tempo de pensar em uma resposta, pois houve um deslocar rápido de ar. E no que ergueu a mão para encontrar o interruptor na parede, ele sentiu-a ser agarrada, e em um piscar de olhos ele foi puxado, derrubado e imobilizado no chão de sua sala.
O baque fez Shun bater a cabeça. A dor lhe causou tontura, e enquanto tentava recobrar-se da queda e do susto, ele sentiu um hálito quente roçar seu rosto e uma voz sussurrada lhe perguntar:
– Andrômeda, estou certo?
– Quem é? — o ex-cavaleiro de Athena quis saber, antes de fazer a confirmação.
– Preciso de sua ajuda – a voz de repente lhe falou.
Shun abriu os olhos e, mais acostumando ao breu do ambiente, conseguiu visualizar um par de olhos verdes brilhantes a encará-lo. Foi só então que analisou melhor a energia da pessoa que o estava paralisando. Não parecia hostil.
– Esse é um modo bem estranho de se pedir ajuda...
– Perdoe-me? – a pessoa pareceu ter se dado conta do que fazia e levantou-se, dando a mão para ajudá-lo a se reerguer também. – É que o senhor ficou tão parado me analisando quando entrou, que pensei que iria me atacar.
– Eu, atacar? – Shun soltou suas mãos das dele e passou-as em suas roupas para alinhá-las. – Eu só ia acender a luz – justificou, indicando o interruptor na parede. – Aliás, será que posso? Ou tem algo contra ambientes iluminados?
– Não, por favor. Acenda.
Shun foi até o dispositivo perto da porta, e ao acender da luz, os dois fecharam os olhos, para em seguida reabri-los devagar, acostumando-os à claridade. Shun então pôde vislumbrar aquela figura vestida de uma forma bem diferente: camisa branca de mangas cavadas, calça jeans, polainas de pele de urso nos tornozelos, cabelos castanhos claros e olhos muito verdes. Era um adolescente, talvez de dezesseis ou dezessete anos. Franziu a sobrancelha.
– Você é um cavaleiro de Athena?
– Sim, senhor – o jovem confirmou, sorridente. — Sou o Cavaleiro de bronze de Cisne.
Shun sentiu novamente um arrepio, desta vez acrescido de uma forte nostalgia. Estava diante de um cavaleiro da nova geração. Sentiu as lágrimas margearem seus olhos e suspirou, tentando conter uma saudade que jamais imaginou que voltaria a sentir. Seu coração apertou no peito; e as lembranças de um passado que desejava tanto esquecer se reavivaram em sua mente, como se tudo tivesse ocorrido havia um mês.
Sentiu uma leve tontura, e levando o dedo indicador e o médio à testa, fez uma massagem circular, o que chamou a atenção do jovem guerreiro, que perguntou preocupado:
– O senhor está bem? Desculpe-me? Eu não quis assustá-lo, muito menos empregar força ao derrubá-lo. Só pensei que, o senhor sendo um dos lendários guerreiros de Athena, pudesse me transformar em poeira cósmica antes mesmo de eu me apresentar.
– Tudo bem... – Shun ergueu os olhos para ele. E meio que sorriu internamente ao ser nomeado daquela forma tão pomposa: “guerreiro lendário de Athena”? O que era aquele termo? O que aquele garoto queria dele? – Você disse que veio pedir minha ajuda... – observou. — Mas tenho que lhe dizer que há algum engano aqui, eu não sou mais um cavaleiro, sou um desertor – informou, observando o jovem entreabrir os lábios, monstrando-se confuso.
– Desertor?
– Sim – Shun confirmou, apontando o sofá. – Sente-se, por favor – pediu ao jovem.
O garoto sentou-se na poltrona de um lugar, e Shun acomodou-se na poltrona de três, e voltando a fitar o jovem com interesse, perguntou:
– Cavaleiro de Cisne, por uma acaso, seu mestre é...
– É um lendário como o senhor! – o menino respondeu animado e orgulhoso, sem se importar com o fato de Shun ter-lhe dito que era um desertor.
– Um... lendário?
– Sim! – exclamou ele com um grande sorriso. — Meu mestre, o atual cavaleiro de ouro de Aquário: Hyoga. Um dos sobreviventes da batalha de Elíseos. Assim como o senhor, o cavaleiro lendário de Andrômeda; Seiya, o cavaleiro lendário de Pegasus; Shiryu, o cavaleiro lendário de Dragão; e o general Ikki, cavaleiro lendário de Fênix. Eu tenho muito orgulho de ser pupilo de um dos lendários, com certeza este é um privilégio de poucos.
Shun suspirou, achando tudo aquilo deveras estranho. Da última vez que conversara com o irmão, este não lhe falara nada daquela nomenclatura ilustre. Mas de qualquer forma, o título não lhe cabia. Porém, percebeu que não adiantaria continuar afirmando o fato ao rapaz à sua frente; sendo pupilo do Hyoga — o amigo que até hoje não aceitara sua deserção -, provavelmente, este também não aceitaria a sua verdade.
– Entendi... – Shun respondeu, pensativo. — Mas, me diga, qual é o seu nome? O que faz aqui, no Japão? E... como conseguiu entrar no meu apartamento?
– Ah! É verdade! – o menino de repente corou ao lembrar-se de que não havia se apresentado. Mas antes, ele explicou como adentrara o local: – Eu escalei o prédio e entrei pela janela do seu quarto, era a única que estava aberta. O porteiro não quis me deixar subir. Disse que precisava da sua permissão pra isso.
– As minhas plantas...- o japonês disse pensativo, para si mesmo, ao lembra-se do motivo por que deixava a janela de seu dormitório aberta.
– Como?
– Não, não é nada, estou pensando com os meus botões. Então lembrei que deixo a janela do quarto aberta por causa das plantas que cultivo. Mas esqueça, continue.
– Me chamo Jacob – ele se apresentou. — Conheço o Hyoga desde que nasci. Ele, o mestre Cristal, e o mestre Camus sempre foram guerreiros representantes da nossa região no legado de Athena. E o povo do pequeno vilarejo de Kohoutek, de onde vim, tem muito orgulho do status que eles sempre tiveram dentro do reino da deusa, e mais ainda agora que o mestre também é um lendário. Quando soube da seletiva de aprendizes para futuro cavaleiro de Cisne, eu me candidatei. No começo o mestre relutou muito em me aceitar como seu pupilo; disse que seria muito perigoso. Mas depois dos meus testes, ele acabou aceitando.
Shun sorriu ao lembrar-se do amigo. “Hyoga...” Parecia coincidência Jacob ter aparecido falando dele justo naquele dia, em que Shun também se lembrara dele.
– Mas ainda não entendi no que eu posso te ajudar.
– Ah! – o menino de repente se ajoelhou no chão e juntou as mãos em forma de prece – Vim até aqui para pedir encarecidamente que vá visitar o meu mestre.
– Levante-se! – Shun ordenou e o menino se pôs de pé com a ordem. – Digo, sente-se – corrigiu-se, ao perceber que fora muito incisivo; novamente o menino o obedeceu. — Foi ele quem te pediu pra vir aqui?
– Não – o jovem respondeu, meneando a cabeça de um lado a outro. — Ele nem sabe que estou aqui – explicou. — Eu encontrei o senhor por meio das cartas que o mestre sempre lhe escreveu e nunca teve coragem de enviar. O remetente dava em uma mansão, mas quando eu cheguei lá me disseram que o senhor não morava mais no local, e sim em um condomínio próximo ao hospital em que trabalhava. Só me deram o endereço depois que falei com um ancião careca na mansão; ele confirmou no banco de registro que eu era um cavaleiro. Mesmo assim, foi bem xereta, ficou querendo saber qual era o assunto e se Athena sabia da minha vinda. Foi duro despistá-lo...
Shun sorriu um pouco constrangido; por mais que Jacob tentasse se explicar, não conseguia ver coerência em seu gesto. Porque ele, o pupilo, viria pedir para que fosse visitar seu mestre, sem ele saber?
– Então, o senhor vem comigo?
– Ainda não consigo enxergar o propósito disso. Eu sou uma pessoa bem ocupada, sou médico, e... acho que o Hyoga não vai gostar de saber que você mexeu nas coisas dele, e ainda, que veio até aqui para falar algo em seu nome. Se o cavaleiro de Aquário quisesse mesmo me ver, acho que ele teria enviado as cartas, ou até... teria vindo pessoalmente, não acha?
– Mas ele é muito teimoso! — o garoto replicou enérgico, arrancando espanto da face de Shun. — Ele está sofrendo, senhor! Meu mestre está muito doente e diz que não está. Ele não quer se tratar. Estou ficando preocupado... Ele... ele...
– Doente? – Shun o interrompeu, verdadeiramente preocupado. – O que ele sente?
– Sente dores fortes no peito e tosse.
– Cardíaco? Pneumonia?
– O senhor é médico, saberá diagnosticá-lo quando vê-lo.
– Eu vou – Shun anunciou, levantando-se. Se o caso era de saúde, iria, com certeza. – Vou preparar as malas, comprar passagens... – o menino também se levantou, sorrindo ao perceber que conseguira convencer o amigo do mestre. — Acho que amanhã podemos partir. Vou ligar pro Tatsume, ele pode me ajudar com o avião.
– Avião? – o sorriso dele se desfez. — Mas eu nunca andei de avião, eu vim de navio!
Shun sorriu.
– Navio vai demorar até meses pra chegar! Você é um bravo cavaleiro de Athena, não me diga que tem medo de voar? Afinal, você representa um belo pássaro, e os cisnes têm asas e voam, não é?
– Cer- certo... – o menino se viu obrigado a concordar.
Shun começou os preparativos para a viagem. Agora já tinha certeza do rumo das suas férias naquele inverno: uma das regiões mais frias do mundo, a Sibéria.
...
Devido ao mal tempo, a viagem de jatinho até a Sibéria foi bem turbulenta. Shun ficou muito feliz por Tatsume ter sido contagiado pelo clima natalino e ter liberado a aeronave e o piloto particular da Fundação para ajudá-lo. O problema foi só aguentar os tiques nervosos de Jacob toda vez que a nave balançava no ar.
Fizeram um voo direto de Tóquio até Magadan, na Sibéria Oriental; pousaram para abastecer e comerem algo. Depois, seguiram até Chukotka, uma cidade que divisava a leste com oMar de Bering — extremo nordeste doOceano Pacífico -, e ao norte com oMar de Chukchie oMar Siberiano Oriental, ambos pertencentes aoOceano Ártico. Seus limites terrestres eram a sudoeste de Oblast de Magadan, ao sul deKrai de Kamtchatkae a oeste daIacútia. (1)
Shun sentiu a queda brusca de temperatura assim que eles desceram na cidade de Chukotka . Desde a batalha de Asgard, no extremo norte da Europa, nunca ficara exposto a uma temperatura tão baixa. Muito lhe impressionou Jacob, que só vestia um reles casaquinho. E só então pôde entender porque ele estava de camisa cavada no Japão, mesmo na temperatura de quatro graus negativos.
Ele e o piloto respiravam com dificuldade, enquanto Jacob parecia em casa.
– Bem vindos a uma das regiões mais frias do mundo – anunciou o jovem, com um grande sorriso na face, ainda dentro da aeronave.
– Diz isso com tanta empolgação, que fico até constrangido – Shun respondeu, tentando aquecer os dedos esfregando-os um nos outros, envoltos nos três pares de luvas.
– Bem, vamos ter que seguir a pé a partir daqui, senhor Shun – o menino informou.
– Amamiya-san, vou aproveitar que o tempo não está tão ruim e vou voltar para Magadan, e amanhã retorno para o Japão. Quando devo vir apanhá-lo? — perguntou o piloto.
– Eu dou um jeito de voltar daqui, Okada-san, até porque eu não sei quando vou retornar. Tudo vai depender do meu diagnóstico sobre o meu amigo. Mas não quero ficar me aproveitando da boa ação da Fundação. Agradeça ao Tatsume por mim. Mas eu me viro pra voltar.
– Certo – o homem concordou. – Boa sorte, então – desejou.
Os outros dois desceram e o piloto seguiu o caminho de volta.
– Bem, como disse, essa é uma das cidades mais frias do mundo – falou Jacob, chamando a atenção dos olhos de Shun para si, após assistirem o pequeno jato levantar vôo e desaparecer no céu acinzentado. Ele prosseguiu: – Mas, ainda não é a mais fria.
– Asgard, no norte da Europa, deve ser a mais fria.
– Eu ouvi falar de Asgard, mas o senhor poderá tirar conclusões por si só, já que a partir de hoje vai conhecer os dois lugares. Mas isso agora não é importante. Temos que ir rápido; o caminho até Kohoutek é bem longo, o sol está se pondo e a temperatura cai até menos trinta graus durante a noite — o menino começou a correr. — Vamos, senhor!
– Calma, Jacob! – Shun o seguiu, enquanto tentava ajeitar a alça da bolsa de viagem para carregá-la como uma mochila nas costas. – Matte yo, Jacob-kun! (2)
Os dois cavaleiros seguiram correndo pelas terras geladas. Depois de três horas, Shun já estava quase sem fôlego, quando pisou em uma camada de gelo fino. Seu pé acabou adentrando a fissura, e ele foi banhado pela água congelada.
– JACOB, ME AJUDE!
O menino se deteve ao ouvir o pedido, e ao olhar para trás e ver o amigo do seu mestre em apuros, retornou para ajudá-lo. Ao retirá-lo da fissura, fez menção de continuar, mas Shun, que ainda ofegava, pediu para descansarem um pouco. O atual cavaleiro de Cisne juntou as sobrancelhas em estranheza, e acabou perguntando:
– Para quem é um lendário, a resistência do senhor não é tão boa, não é mesmo?
– Não... me... chame... dessa... droga... de... nome! – Shun conseguiu se pronunciar, com a respiração entrecortada, já que ainda estava sem fôlego. – Eu não sou mais um cavaleiro de Athena, eu lhe disse: sou um desertor. E faz dez anos que não treino minhas pernas deste jeito!
– Estranho... – o menino manteve sua expressão de perplexidade na face, enquanto fitava o rosto afogueado do amigo do seu mestre. – O meu mestre nunca me falou que o senhor fosse um desertor. Ser um cavaleiro que serve ao legado da deusa é a maior honra na Terra. Como alguém que chegou ao status de guerreiro lendário desertaria? Eu não consigo entender.
– Eu tive meus motivos – Shun replicou, com um semblante muito sério.
– Não me cabe julgá-lo, senhor. Mas, acho que agora eu entendo o meu mestre. Ele sempre falou dos amigos, e das grandes batalhas que tiveram, com extremo orgulho. Não deve ser fácil aceitar a deserção de um desses. Devia ser por isso que os olhos dele sempre lacrimejavam quando ele citava o nome do senhor.
Shun inspirou profundamente, sentindo o gelado ar Siberiano acalentar o pulsar frenético dos seus pulmões. Chegou até a sentir remorso; nunca pensou que sua atitude tivesse ferido Hyoga tão profundamente. Mas as palavras de Jacob faziam sentido: ele – Hyoga –, mais do que seu próprio irmão Ikki, esforçara-se para impedi-lo de partir.
– Vamos continuar – avisou ao jovem, ignorando a observação feita por ele. – Mas vamos um pouco mais devagar, por favor. Pelo menos, até eu recuperar todo o meu fôlego.
O garoto pareceu ter aceitado a condição e, sem dizer nada, começou a andar. Enquanto eles caminhavam, as lembranças daquele dia no Santuário ressurgiram com clareza, invadindo a mente de Shun:
– Não, Shun! – Hyoga apertou seus pulsos, impedindo-o de continuar fazendo as malas, puxando seu corpo para ele. – Por favor, me ouve!
– Já marquei a audiência com a senhorita Kido, não fico, Hyoga! – Shun exclamou, com uma determinação que ele próprio desconhecia. – Agora, me solta!
– Você não precisa desertar pra fazer o que bem quiser da vida... – o amigo lhe disse com lágrimas nos olhos. — Athena prometeu nos dar liberdade para seguirmos nossas vidas da maneira que bem entendermos. Mas, desistir agora, Shun?! Seria o mesmo que renegar o que você sempre foi e tudo o que fez. Todo o sacrifício, seu treinamento, será tudo em vão...
– Hyoga... – Shun torceu os pulsos, fazendo o colega soltá-los. Então, depositou as mãos sobre os ombros dele, e olhando-o nos olhos, prosseguiu: – Sempre há tempo pra recomeçar. Eu quero recomeçar.
– Você está se deixando levar por um momento de ira, Shun! – Hyoga gritou, inconformado. — Logo você, que é tão sensato, tomar uma atitude como essa por causa do sarcasmo que seu irmão sempre demonstrou, é incabível!
– Eu já tomei a minha decisão – Shun se afastou dele e terminou de fechar a mala, depositando-a no chão. Antes de seguir olhou o amigo, que balançava a cabeça, desesperado. – Nós manteremos contato.
– E quanto aos planos que fizemos? – Hyoga de repente o inquiriu, com as lágrimas já descendo de seus olhos. – Você disse que queria conhecer a minha terra... íamos passar um tempo juntos lá...
– Hyoga, eu estarei no Japão, me escreve quando estiver na Sibéria e eu irei visitá-lo. Estou desistindo de ser um cavaleiro, não de ser seu amigo.
– Eu o amo, Shun. Não sei se consigo suportar viver longe de você.
– Será por pouco tempo. Logo nos veremos. Eu também o amo, irmão. Mas eu preciso fazer isso e tem que ser agora. Sinto muito.
Atravessaram uma última montanha; então Jacob se deteve bruscamente ao ver as luzes do seu vilarejo, fazendo Shun – que vinha disperso em seus pensamentos – bater nas suas costas, se desequilibrar e cair sentado no chão forrado de neve.
– Senhor? Está tudo bem?
– Sim, mas você deveria dar sinal de que ia parar. Sabia que é assim que acidentes acontecem?
O menino abriu um grande sorriso, e estendeu-lhe a mão.
– Acontece que eu não sou um veículo – ele explicou, observando o amigo do mestre aceitar sua ajuda, permitindo-o reerguê-lo. Contudo, este ignorara completamente seu comentário. Então, Jacob apontou alegre para as pequenas luzes mais adiante. – Veja, Senhor! Chegamos! Lá está o vilarejo de Kohoutek.
Shun suspirou profundamente ao observar a cidade e, de repente, seu coração disparou. Fazia nove anos que não via o amigo. Estivera tão ocupado com sua graduação. Mas, não, aquilo não era desculpa. Talvez quisesse tanto esquecer que um dia fora cavaleiro, que deixara os vínculos que o ligavam aquele passado se distanciarem e se tornarem lembranças longínquas. Contudo, não se esquece um irmão. E desde que pousara ali naquelas terras, estava sendo consumido por uma dor imensa, a dor do remorso.
E agora que estava a alguns passos — minutos — de ficar frente a frente com um rosto de nove anos atrás, uma angústia latente lhe consumia. Que desculpas daria? O que dizer para se redimir de tantos anos de ausência?
Hyoga também não o procurara. Mas não poderia culpá-lo. Ele tinha seu orgulho. E como ele iria fazê-lo, depois de Shun ter simplesmente pisado em todos os planos que eles traçaram juntos? Tudo por causa da afronta do irmão.
Ele e Jacob continuaram seguindo para o pequeno vilarejo, um lugar simples, tudo coberto pela neve: casas, ruas, charretes puxadas por animais. Shun suspirou brevemente quando algumas crianças vieram cumprimentá-los.
– Jacob! – uma pequenina, que saiu correndo de dentro de uma tenda, grudou na cintura do jovem, mas seus grandes olhos azuis recaíram curiosos sobre Shun. — Quem é essa moça bonita, Jacob?
– Ei, não fale assim, Maria! É um homem! – o menino advertiu, envergonhado.
– É mesmo? – a pequenina soltou-se dele, para ficar diante de Shun, olhando-o com mais desconfiança. – Mas é tão bonita.
– Bo-ni-to, Maria!
– Tudo bem... – Shun disse ao cavaleiro, e sorriu, desgrenhando os cabelos da pequena. — Eu sou acostumado com esse tipo de confusão, Jacob. – o japonês abaixou-se para ficar do tamanho dela. – Tem olhos bonitos, Maria. – observou. – Eu me chamo, Shun. Quantos anos você tem?
– Sete! – ela respondeu de um jeito espoleta, e fungou, esfregando o narizinho com a mão fechada.
– Está gripada? – Shun colocou a mão na testa dela, sentindo-a balançar a cabeça de um lado para o outro, negando. Então ela lhe disse:
– Estou bem! – afirmou, abrindo os braços para o forasteiro. — Me pega no colo!
– Ei, larga de ser assanhada, pirralha – Jacob a advertiu.
Mas Shun não se importou; gostava de crianças, então a apanhou.
– Ela é linda. Tem uma pele morena, os cabelos lisos e negros, mas os olhos são tão azuis.
– É que a mãe desse estorvinho é uma Chukchi, um tipo de indígena da região, por isso ela é essa mistura toda. (3)
– E o que você tem contra o meu povo, seu moleque! – uma voz mais ferina irrompeu a conversa. — Venha, Maria! Já disse pra não ir com estranhos. – A dona da voz apareceu perto de Shun, arrancando a criança dos seus braços.
Shun nem teve tempo de dizer nada à mulher, que achara até bonita, pois ela tinha pele morena, cabelos compridos, lisos e negros, e olhos tão escuros quanto os cabelos.
– Não me chame de moleque, Shaila! Eu já sou um cavaleiro.
– Humpf! Não me interessa o que você é. Vamos, minha filha.
– Espere! – Shun pediu à mulher, e esta estacou. — Ela está um pouco gripada, eu tenho um xarope aqui – o japonês informou, abrindo sua mochila e retirando um frasco de remédio, estendendo-o para a mãe da criança. – É pra tosse e pra conter a secreção do nariz; com esse frio rigoroso é perigoso que vire uma pneumonia.
– Está brincando comigo, forasteiro?! – a mulher o observou com escárnio, encaixando a menina de lado no seu quadril, amparando-o com uma única mão. – Nós vivemos o ano todo nesse clima, o frio não faz mal à minha filha. O que fará são esses seus remédios modernos. Eu aprendi com os meus avós a produzir nosso próprio medicamento; um pouco de fígado de peixe com sangue de rena e ela estará nova!
Shun fez uma expressão desaprovadora, mas a aparência, tanto da mulher como da pequena, o fez deduzir que pertenciam algum tipo de tribo; não queria interferir na cultura dos outros. Apesar de preocupado, não podia forçá-la a aceitar a ajuda. Guardou o remédio.
– Tudo bem, eu só quis ajudar.
– Não ligue, senhor Shun – Jacob o consolou. — Ela é uma mal-humorada e ignorante. Não sei o que o mes...
– Shaila? – uma nova voz novamente interrompeu a fala de Jacob.
– Papai! – a pequenina se debateu no colo da mãe até que conseguiu se soltar e sair correndo ao encontro a voz que falara atrás de Shun.
Mas antes de se virar para conhecer o pai da menina, Shun observou o rosto da mulher a sua frente se contrair. Então ela depositou as mãos na cintura e virou o rosto, claramente chateada. Algo lhe dizia que o marido – que deveria pertencer ao vilarejo – não era benquisto por ela também.
– Minha jóia, como você está? – o homem perguntou à criança.
De repente, Shun sentiu um estranho amolecer nas pernas. Porém, os olhos saltados de Jacob o fizeram prestar atenção ao choque da sua cosmo-energia com outra ainda mais poderosa. Então, teve certeza de quem era o dono daquela voz um pouco mais rouca. Seus lábios se entreabriram, e com coração disparado no peito, virou o corpo, para observar o pai de Maria.
Todavia, sua surpresa foi ainda maior...
Era um homem muito alto, cabelos longos e loiros, uma barba tão comprida quanto os cabelos, e no mesmo tom dos fios. Polainas nos tornozelos, e uma capa de pele de urso.
Shun não conseguiu acreditar no que seus olhos vislumbravam. Aquele homem, mais parecendo a figura de um antigo viking, era mesmo seu amigo? Era mesmo Hyoga?
Continua...
(1) Iacútia– ARepública da IacútiaouSakhaé umarepúblicaque constitui uma divisão federal daFederação Russa. Ocupa a metade da área doDistrito Federal Oriental, sendo o maiorestatóidedo mundo, com 3.103.200 km², ocupando trêsfusos horáriose indo até oOceano Ártico. É escassamente povoado, como o resto daSibéria; a população da república, segundo o censo de 2002, era de 949.280 habitantes. Cerca de 40% da área da república está a norte doCírculo Polar Árticoe está coberta dePermafrost. Sua capital éYakutsk.
(2) Matte yo– Expressão japonesa traduzida como “Espere!”. O sufixo “kun” é utilizado no nome ou sobrenome de rapazes na idade escolar, dando uma conotação mais íntima de tratamento.
(3) Chukchis– OschukchisouChukchee sãonômadesnativos daSibéria(Rússia). São caçadores derenase vivem em tendas de pele derena, que são bem vedadas para reter ocalor. Habitam aPenínsula Chukchie no litoral doMar de ChukchieMar de Bering,Oceano Ártico. Suas origens vêm dos habitantes da área doMar de Okhotsk.
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