Kokoro No Shiki

4 Capítulo 4 - Kanashimi Fuyu


Nagihiko não esperava por aquelas palavras. Seus olhos estavam fixos na expressão confusa e surpresa do pequeno rei, fazendo dele ainda mais fofo do que já era. Os olhos carmesins estavam brilhantes e as bochechas coradas. Os pequenos lábios rosados levemente separados, como se pedissem para serem beijados. Deveria existir alguma lei que proibisse alguém de ser tão fofo assim.

- Você… queria me testar? – indagou novamente Tadase, fazendo com que Nagihiko retornasse a realidade. – Por quê?

- Você não consegue imaginar, nem mesmo por um instante, Hotori-kun? – indagou Nagihiko, tentando ser o mais sério possível. – Você declarou seus sentimentos por Nadeshiko. Porém, Nadeshiko é apenas metade. Você é capaz de desejar a outra metade, Hotori-kun? Você pode amar Nagihiko, do mesmo jeito que diz que ama Nadeshiko?

Tadase olhou fixamente para o rosto do garoto a sua frente. Era estranho escutar Nagihiko fazer aquelas perguntas, mas Tadase percebeu que a resposta era importante para ele. Em algumas horas, ele já havia visto as diferenças entre os dois. Nadeshiko era gentil, bela e sutil. Nagihiko era amigável, forte e extrovertido. Eram duas pessoas diferentes, que dividiam um mesmo corpo.

Ele poderia amar aquelas duas pessoas? Foi à pergunta que estava sem resposta.

Tadase ergueu os olhos carmins na direção dos castanhos de Nagihiko, olhando com se esperasse que a resposta surgisse.

Eles são diferentes…” pensou, olhando com atenção para os olhos que demonstravam uma força e determinação que fazia seu corpo tremer por completo. “Quando olho a Fujisaki-san nos olhos, sinto como se quisesse protege-la e fazê-la se sentir segura… mas… mas os olhos dele me dão um sentimento diferente. É mais forte… como se fizesse com eu me sentisse indefeso, mas ao mesmo tempo eu me sinto protegido…

Nagihiko soltou um suspiro depois de vários minutos em silêncio. Um pouco decepcionado, afastou-se do menor, fazendo com que os olhos vermelhos o olhassem mais confusos do que estavam antes. Um sorriso um pouco triste surgiu em seus lábios enquanto estava pronto para falar às palavras que tanto temia ter de admitir.

- Ao que parece, você não pode, não é mesmo? – falou, se virando para que não precisasse ficar mais olhando para o rosto do menor. – É mesmo uma pena, eu quis que você pudesse – sussurrou para si mesmo, mas Tadase conseguiu escutar. – Hotori-kun, peço que quando eu for embora, não se aproxime mais de Nadeshiko com qualquer intenção romântica. Se você não pode amar os dois, não pode ficar com nenhum deles.

Tadase quis falar algo naquele momento, mas sua voz parecia ter sumido. Seus olhos se arregalaram ainda mais quando virão Nagihiko se afastar, indo cada vez para mais longe. Abriu a boca e tentou forçar as palavras, mas elas não estavam saindo de forma alguma. Assustado tentou gritar, mas sem mesmo um som escapou de seus lábios. Não conseguia produzir qualquer tipo de som.

- Hunf… que plebeu mais insolente! – rosnou Kiseki, olhando para a direção em que Nagihiko havia ido embora com Rhythm. – Como ele pode falar daquele jeito com seu rei? E você Tadase! – exclamou, apontando para o dono. – Por que não deu a ele uma resposta a altura, para fazê-lo calar aquela boca? Se você agir assim, jamais será respeitado por seus súditos!

O caráter encarou Tadase por longos minutos, até que percebeu que seu dono estava com a mão direita sobre a garganta, como se ela lhe doesse. Preocupado, se aproximou um pouco.

- O que foi Tadase? Está com dor de garganta? – indagou, olhando com atenção o ocupante do trono de rei.

Sua resposta não foi sonora. Viu apenas Tadase mexer os lábios sem produzir qualquer tipo de som. Ele não conseguia falar. Havia perdido a voz.

oOo

Nagihiko chegou em casa cansado e sem qualquer animo. Havia pensado, por um fatídico momento, que tudo poderia dar certo, mas acabou por se desiludir. Tadase não poderia amar Nagihiko, assim como dizia amar Nadeshiko.

- Eu Nagi, está tudo bem mesmo? – indagou Rhythm, olhando preocupado para o dono.

- Já era esperado não é mesmo? – indagou, tentando forçar um sorriso, encostando seu corpo na porta da entrada da casa. – Ele reagiu como todos os outros garotos, como era de se esperar. Ele se apaixonou pela Yamato Nadeshiko… jamais poderia gostar de alguém que é seu completo oposto.

Naquele momento, Momo apareceu no corredor de entrada e sua expressão era triste, porém compreensiva. Seus olhos se encontraram com o do filho, que forçou um pequeno sorriso triste.

- Quer beber um chá querido? – indagou ela, sabendo que aquele eram um momento muito delicado.

- Hm… obrigado – agradeceu, seguindo-a para o jardim.

Os dois se sentaram na varanda em silêncio bebendo o chá de ervas calmamente que Baya havia feito. O que os envolvia era de compreensão. Um sabia o que o outro sentia e o quanto aqueles sentimentos doía.

- Não é o fim do mundo, Nagihiko – tentou falar Momo, sorrindo gentilmente para o filho. – Vai aparecer alguém que aceite suas duas metades.

- Eu achei que essa pessoa fosse ele – admitiu, abaixando a cabeça, como se estivesse envergonhado por tudo aquilo. – Hotori-kun é sempre tão gentil e sério sobre os sentimentos das pessoas. Achei que o fato dele ter se declarado para Nadeshiko, significasse que ele também poderia amar Nagihiko.

- Talvez ele ame – afirmou Momo, surpreendendo novamente o filho, fazendo com que os olhos castanhos dourados se erguessem surpresos. – Ele conhece Nadeshiko há muito tempo. O amor que ele declarou a ela demorou muito para nascer e se consolidar. Nagihiko, você não é Nadeshiko. Para ele se apaixonar por você, terá que ser um pouco mais paciente.

- Foi por isso que você me deu duas semanas – concluiu Nagihiko, dando uma risada um pouco desmotivada. – Mas eu sou péssimo em esperar.

- Eu sei que é, eu também era assim – afirmou Momo, dando uma pequena risada. – Mas quando conheci seu pai, não foi muito diferente. Ele também amou Yamato Nadeshiko, mas ele aceitou que não sou apenas ela. Ele desenvolveu amor pelos meus dois lados.

- Você não contou para ele sobre isso, não é mesmo? – indagou, subitamente preocupado de que seu pai soubesse do que estava acontecendo. – Sabe como ele é em relação à Nadeshiko.

- Não se preocupe. Seu pai está cuidado dos negócios em outra cidade e volta só daqui a um mês – lembrou Momo, rindo da expressão do filho. – Ele não sabe que Nadeshiko está em um acampamento de dança e que você está aqui.

Nagihiko soltou um suspiro. Seu pai era um bom homem, mas era protetor demais quando se tratava de sua metade feminina. Às vezes, jurava que ele se esquecia de que possuía uma metade masculina.

- Você não vai desistir, não é mesmo? – indagou Momo, olhando fixamente para o filho. – Um filho meu não desiste só porque encontrou uma pequena dificuldade no caminho.

- Se eu fizesse isso, você me obrigaria a comer wasabi, não é mesmo? – indagou rindo, mas sabendo que aquela era a realidade.

- Pode ter certeza – afirmou, compartilhando a risada com o filho. – Ah, quase que me esqueço. Seu tio Seiji vai nos fazer uma visita amanhã.

Nagihiko arregalou os olhos ao escutar aquilo, olhando com atenção para a expressão de sua progenitora. Aquilo significava o que ele achava que significava?

- Se o Seiji-ojisan está vindo, isso quer dizer que você…? – murmurou, apontando para Momo que ainda lhe oferecia um sorriso.

- Estou indo viajar para a Paris essa noite – afirmou ela, para então dar uma pequena risada. – Seja gentil e obedeça a seu tio quando ele chegar, está bem?

- Er… certo… — concordou Nagihiko vendo ela se levantar e voltar para dentro de casa.

Rhythm e Temari olharam para Nagihiko de forma curiosa. Nenhum dos dois sabia quem era Seiji, mas não sabiam se deveriam perguntar ou não para ele.

- Nagihiko… sua mãe vai sair de casa para não ver o seu tio? – indagou Temari, olhando um pouco preocupada para o dono.

- Okaasama e Seiji-ojisan não podem ficar em um mesmo ambiente juntos – afirmou dando uma pequena risada. – Acho que vou tomar um banho…

Temari e Rhythm trocaram outro olhar, ainda mais curiosos. Quem poderia ser esse tio de Nagihiko, que era capaz de mandar Fujisaki Momo para longe, só com o anuncio de sua chegada?