Kokoro No Shiki

2 Capítulo 2 - Hana no Fujisaki


De forma lenta e graciosa Nadeshiko movia-se ao ritmo suave do koto. Estava treinando há mais de três horas sem descansar, mas aquilo não era nada menos do que o esperado do herdeiro principal do estilo Fujisaki-ha. Seus movimentos não perderam a graciosidade, mesmo quando sentiu a presença de sua mãe na sala. Só parou com o treino no momento em que a voz dela se manifestou, fazendo com que a olhasse.

- Nadeshiko-san, precisamos conversar – anunciou ela, deixando claro que o assunto era de verdadeira importância.

Nadeshiko abaixou o leque que segurava e se virou para encarar aquela que era sua progenitora. O olhar que ela dava era sério, como se já antecipasse que o assunto não era simples, ou agradável.

- O que deseja conversar, okaasama? – indagou mantando uma boa postura.

- Vamos ao jardim primeiro, um ambiente com menor tensão será mais adequado para esse assunto – proferiu ela, se virando e se preparando para sair.

Nadeshiko estranhou aquilo. Conversar no jardim era quase um tabu em sua família. Aquele era o único lugar onde todas as máscaras poderiam cair por alguns momentos e as verdades poderiam surgir. Sua família, há muitas gerações, vivia por se esconder debaixo de máscaras e sorrisos gentis, enganando a todos com sua fina etiqueta tradicional. Sabia que essa farsa era tão perfeita, que a cada geração, surgia alguém querendo se aliar com a família Fujisaki por meio de um casamento. Até mesmo havia um pequeno ditado criado entre as famílias ricas e nobres em relação a eles: Para ver uma Yamato Nadeshiko, basta ver as mulheres Fujisaki.

O jardim de sua família era cercado por um muro realmente alto, todo construído com o tradicional estilo japonês. Dois pequenos lagos com peixes ornamentais tradicionais. Flores que representavam as mulheres de sua família cultivadas de forma graciosa. Para ela, Nadeshiko, haviam sido plantados cravos que deram origem ao seu nome. Para sua mãe, Momo, havia um lindo pessegueiro que em toda a primavera lhes oferecia as mais lindas flores¹.

Mais uma surpresa surgiu, quando Nadeshiko percebeu as duas almofadas e um chá que as aguardava. O assunto deveria ser muito sério, para que elas se encontrassem ali.

- Sente-se Nadeshiko-san – pediu a matriarca, sentando-se em uma das almofadas e indicando a outra para a filha.

Nadeshiko concordou e se sentou sobre a almofada, aceitando o copo de chá verde que lhe foi oferecido em seguida. As duas ficaram em silêncio por um momento, observando as flores do jardim.

Logo será primavera” pensou, ela, vendo que já havia alguns botões de flor nos galhos do pessegueiro. “Logo Souma-kun vai se formar também. Imaginado como os Guardiões ficaram sem ele por perto. Apesar de que ele só está indo para um serie diferente, mas não vai poder mais ser um Guardião. Vai ser uma pena, quando isso acontecer.

- Nadeshiko-san, você recebeu outra declaração hoje, não é mesmo? – indagou Momo, surpreendendo a filha que se virou rapidamente.

- Como sabe? – indagou um pouco assustada e surpresa.

- Tsukasa-san presenciou a declaração me contou logo depois – esclareceu, vendo a filha abaixar a cabeça. – Foi Hotori-kun que se declarou para você?

- Hai… — respondeu com a voz baixa e um pouco temerosa sobre o que viria a seguir.

- Você o rejeitou? – indagou, mesmo que já soubesse a resposta, precisava ouvi-la dos lábios de sua filha.

- Iie… — fechou os olhos, já esperando a represália que certamente viria.

- Por quê? – indagou Momo, surpreendendo Nadeshiko e fazendo com que ela erguesse o olhar surpresa, olhando-a fixamente. – Por que você não o rejeitou?

- Eu não sei… quando Hotori-kun se declarou, ele… ele foi diferente dos outros – explicou Nadeshiko, mas não conseguindo encontrar uma forma mais adequada de explicar o que havia acontecido naquele dia. – Ele não…

- Eu conheço a caráter de Hotori-kun, Nadeshiko-san – interrompeu Momo, olhando fixamente para o rosto da filha. – Ele certamente não vê em você a Yamato Nadeshiko, que muitos outros veem e desejam ter. Ele conhece parte do segredo de nossa família. No entanto, a pergunta certa é se ele pode aceitar sua outra metade. Ele é capaz de aceitar o menino que está por trás desse quimono? O menino que se esconde por trás das boas maneiras e sorrisos educados?

Nadeshiko abaixou o olhar ao escutar aquela pergunta. Tadase havia lhe afirmado que sim, que poderia aceitar sua outra metade, mas ela não sabia. Era fácil para Tadase, assim como para qualquer outro menino, dizer que tinha sentimentos por ela, sem conhecer seu outro lado. Sua outra metade era seu oposto em tudo. Quando ela era recatada e contida, ele era despreocupado e ativo. Quem se apaixonava por Nadeshiko, sempre iria se desiludir quando conhecesse Nagihiko.

- Você não sabe, não é mesmo? – indagou Momo, depois de ver sua pequena flor em silêncio por tanto tempo. – Ah… eu sabia que esse momento chegaria. O momento em que você, como qualquer pessoa, iria desejar encontrar alguém. Mas tenha em mente, Nadeshiko-san, que para nós é muito mais difícil encontrar a pessoa certa, do que para outras pessoas.

- Eu sei okaasama… demo… Hotori-kun disse que queria conhecer meu outro lado… — respondeu ela, erguendo os olhos para sua progenitora, como se implorasse para que ela não lhe desse uma proibição.

Nadeshiko sentia que se recebesse a proibição, seu coração seria partido. Quando Tadase havia se declarado para ela, por um único segundo, ela sentiu que poderia estar com alguém sem se esconder. Que, talvez, houvesse encontrado a pessoa certa. Mas ainda havia a insegurança dentro de seu peito. O medo do que poderia acontecer, caso Tadase conhecesse seu outro lado.

- Eu não vou lhe dar a proibição agora, Nadeshiko-san – declarou Momo, vendo um pequeno sorriso surgir nos lábios da filha. – No entanto, não aprovarei isso ainda.

- Entendo… — sussurrou Nadeshiko, abaixando a cabeça ao escutar aquilo. Se não conseguisse a permissão de sua mãe, seria como se estivesse desonrando sua família, aquilo seria pior do que uma proibição.

- Antes de eu dar a minha aprovação, ele terá de passar pelo teste – declarou Momo, assustando novamente Nadeshiko com suas palavras, fazendo com que os olhos castanhos dourados se voltassem para si. – Durante duas semanas, Fujisaki Nadeshiko-san sairá em uma viagem para um acampamento de dança clássica. Por coincidência, seu irmão gêmeo, Fujisaki Nagihiko, decidira passar duas semanas com sua família, aproveitando as férias que terá na sua escola na Europa.

- Okaa… sama…

- Se Hotori-kun poder amar e aceitar Nagihiko, da mesma forma como ele diz que pode, então você terá a minha permissão, Nadeshiko-san – declarou Momo, vendo o rosto de sua pequena flor se abrir em um lindo sorriso.

- Hai! – exclamou sorrindo abertamente, sentindo uma mistura de alegria e medo surgir em seu peito.

Alegria, pois sua mãe estava dando uma chance para ela, e medo pelo o que poderia acontecer.

- Bem, agora devemos ir às compras – declarou Momo, se levantando.

- Compras? – indagou confusa.

- Sim, afinal, Nagihiko não pode sair por ai usando uma saia, não é mesmo? – indagou ela, dando uma pequena risada, sendo acompanhada pela filha.

As duas deixaram o jardim, saindo para fazerem as compras. Nadeshiko sentia algum medo tomar conta de seu peito, assim como a ansiosidade que a muito não sentia. Não se lembrava da última vez que havia usado uma calça. Talvez quando era uma pequena criança, que tinha problemas em conter seu outro eu.

oOo

Tadase estava preocupado naquele dia. Havia saído de casa mais cedo, com a intenção de poder se encontrar logo com Nadeshiko, mas ela não se encontrava no Royal Garden para a reunião da manhã. No inicio, pensou que talvez ela apenas tivesse perdido a hora, o que foi um pouco engraçado de se pensar. Mas ela também não apareceu para as aulas da manhã, nem mesmo para as da tarde. Agora estavam todos no Royal Garden, cuidando dos papeis que restavam para o planejamento da festa que seria realizada na academia Seiyo.

Apesar de estar supostamente concentrando em assinar papeis, Tadase estava completamente dispersos em seus pensamentos. Se Yaya tentasse faze-lo assinar alguma permissão boba para a festa, ele nem mesmo perceberia.

- A Nadeshiko realmente não apareceu – comentou Amu, colocando a bandeja de chá sobre a mesa, fazendo com que o guardiões parassem um pouco o trabalho.

- A Naddy não costuma faltar às aulas. Será que ela ficou doente? – indagou Yaya, mordendo um dos biscoitos que havia na bandeja de chá.

- Hotori, você não sabe de nada? – indagou Kukai, olhando para o loiro, que finalmente saiu de seu mundinho ao escutar a pergunta do valete.

- Não… ela não entrou em contato comigo – respondeu, soltando um suspiro em seguida.

Tadase havia pensado que depois de se declarar, as coisas seriam diferentes. Mas Nadeshiko não parecia ter mudado consigo. Será que ele havia forçado seus sentimentos? Talvez fosse isso, afinal, ele tinha que se lembrar de que apesar da aparência, Nadeshiko era um menino. Talvez ela não gostasse de garotos e sim de garotas. Se fosse assim, ele estava realmente forçando todo os seus sentimentos sobre a rainha e isso lhe incomodava muito.

O assunto sobre Nadeshiko acabou por morrer ali mesmo, e todos se voltaram para seus afazeres. Mas mesmo assim, Tadase não conseguia parar de pensar. O que poderia ter acontecido com Nadeshiko?

Depois de mais uma hora e meia assinando papeis, todos deram seus trabalhos como terminados. O que havia restado, fariam em outro dia, apesar de que agora restava poucas coisas para serem feitas.

Quando estavam saindo do Royal Garden, viram um pequeno grupo de meninas não muito longe conversarem. Elas estavam agitadas, parecendo que haviam visto algo único.

- Vocês o viram? Ele é tão lindo! – exclamou uma delas, soltando um suspiro.

- Aham, nem mesmo o time inteiro de futebol conseguiu derrota-lo! Ele é perfeito! – exclamou outra, soltando um leve gemido extasiado.

- Meninas! Rápido, ele está desafiando o time de basquete! – escutaram outra gritar, um pouco afastada delas.

Os guardiões observaram aquilo sem serem capazes de compreender o que acontecia. Do que aquelas garotas estavam falando, afinal?

- Devemos ir ver também Hotori? – indagou o valete, olhando para o rei.

- Sim, não sabemos o que está acontecendo, mas devemos ver o motivo de todo esse alvoroço – afirmou o rei, em um tom sério.

Os guardiões concordaram e todos seguiram em direção à quadra de basquete. Ao chegarem lá, Tadase teve a nítida impressão de que se sua mandíbula não estivesse bem presa, ela teria se soltado naquele momento, tamanho foi o susto que sentiu naquele momento.

No meio do time de basquete, se encontra um garoto de longos e lisos cabelos arroxeados. Os olhos eram um castanho dourado muito bonito, mas que tinham um brilho malandro. Ele usava uma calça jeans despojada, com os joelhos rasgados, junto com uma camisa preta com a estampa branca de uma banda de rock. Ele se movia de forma rápida entre os jogadores, desviando de todos e saltando incrivelmente alto, marcando as cestas.

Quando ele marcou uma cesta de três pontos, Tadase o viu sorrir de um jeito malandro e um pouco convencido, soltando uma exclamação de vitória.

- Kuru! Ei, você não quer fazer parte do time? – indagou o capitão, que estava realmente impressionado com as habilidades do desconhecido.

- Warui, mas eu não estudo nessa escola – declarou ele em um tom cheio de confiança. – Mas foi divertido jogar com você. Matta ne.

Ele se virou para sair do campo, só então notando os quatro guardiões que o olhavam com espanto e atenção. Um sorriso malandro surgiu em seu rosto ao ver o ocupante do trono de rei. Estava ansioso por aquilo.

- Vocês devem ser os Guardiões – declarou se aproximando deles, ficando a menos de um metro e meio de distância deles.

- Como você sabe quem nós somos? – indagou Kukai, que não podia estar se sentindo menos provocado.

Aquele garoto não era da academia, mas havia derrotado seu time de futebol e ainda exibia aquelas habilidades esportivas. Era quase como um convite para uma disputa.

- E quem é você? Yaya não te conhece – comentou a ruiva, olhando surpresa para o garoto de cabelos longos, que tanto se assemelhava a rainha.

- Eu sou Fujisaki Nagihiko – apresentou-se, dando um sorriso malandro. – Ani no futago da Nadeshiko.

Notas finais
1 - Nadeshiko e Momo são nomes cujo significado tem o nome de uma flor. Nadeshiko é Cravo e Momo é Flor de Pêssego. ^^
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O que estão achando?
Vamos ver como o nosso pequeno reizinho vai se sair na presença do Nagi =P
bjj
=*