Koiwazurai
14 Capítulo XIII
Notas iniciais
"Onde há desejo, haverá uma chama
Onde há uma chama alguém está sujeito a se queimar."
A calça de ginástica que Tenten havia me emprestado grudava em minha pele, o suor escorria pelas minhas têmporas e passava pelo meu corpo inteiro, a respiração estava ofegante e eu precisava de um pouco de água, porém continuava trocando os pés e socando o ar.
– Quero uma sequencia mais rápida, Sakura, vamos lá — Mitsashi mandava — assim, você não machuca nem uma formiga.
– Não quero machucar ninguém! Quero me defender! — suspirei.
– Não responda! Lute! Continuei até ela decidir que estava regular.
– Agora, eu vou segurar você por trás, te prender com força e te ensinar a se soltar. Ok?
– Ok — disse
– NÃO! Espera! Deixa eu me preparar psicologicamente.
– Ah, claro, porque o Sasuke vai fazer exatamente isso, esperar você se preparar — ironizou a morena. Não obedecendo a meu pedido, ela virou rapidamente, puxou meus braços para trás de modo que eu mesma estava me enforcando.
– Isso dói...- resmunguei.
– Eu sei — ela respirava com força. — agora bloqueia todos os pensamentos da sua mente, bloqueia todas as ofensas, concentre-se no seu corpo e na sua força... Se necessário, feche os olhos. Entendeu?
– Sim...- respondi já de olhos fechados, fazendo o que ela mandou e observei a minha capacidade de sentir cada vibração ao meu redor, meus braços presos, meu pescoço que estava senso esmagado, meus joelhos muitos juntos, meu cabelo puxado para cima, meu desequilíbrio...
– Isso mesmo... separe um pouco as pernas... vire as palmas das mãos para baixo e quando eu disser três... você joga seu corpo ao chão, com toda sua força. Entendeu? — Entendi!
– Um... dois... TRÊS! Joguei meu corpo no chão, ainda de olhos fechados, e, surpresa, notei que estava livre.
– Ah, Kami, consegui! Consegui!
– Não fique animadinha não, picolé. Só te libero hoje quando seu soco me agradar.
A academia dos Mitshasi era gigante, posta com aparelhos modernos e espaço para treinar vários esportes. Eu estava morando em sua casa há quase uma semana e as coisas estavam funcionando bem. Eu dormia no quarto de hóspedes ao lado do quarto de Tenten. Os pais da minha amiga estavam em viagem de negócios, ambos. Desde que uma filial da empresa deles foi aberta em Sidney, eles ficavam muito pouco tempo em casa e Tenten parecia gostar de não estar mais tão sozinha, na maior parte do tempo.
Não estava trabalhando em sua casa, pois a função que eles estavam precisando, trabalhava em tempo integral, logo, eu procurei algum outro emprego, de meio período, pelos arredores e encontrei um, de garçonete em uma lanchonete com temática australiana que ficava a 20 minutos da casa.
– Vamos lá, Sakura! Melhore essa esquerda! — apesar dos nós do meu dedo estarem doendo, continuei socando o saco de areia.
Eu continuava virando as madrugadas estudando as apostilas escolares e todos os trabalhos, matérias, disciplinas e relatórios em que estava atrasada e já estava em um certo ponto que contava com um adiantamento perante os outros alunos. Eu ainda cruzava com Sasuke nos corredores e em algumas aulas, ás vezes no estacionamento, mas a gente não se falava, nem se olhava, ou melhor, ele não me olhava, porque muitas vezes eu fiquei olhando até ele sumir do meu campo de visão.
Ele havia emagrecido e suas olheiras tinham escurecido, mais ainda, seus olhos... sempre cercado por seus "amigos", Karin pendurada em seu pescoço e Ino pendurada em Karin e suas outras companhias desagradáveis. Seja lá quem tivesse armado para nós dois, se plano era nos destruir, tinha conseguido um êxito de 100%, e eu notava tudo isso de braços cruzados, pois é, me fuderam completamente e tiraram tudo que eu mais amava e o que eu tinha feito? Nada! Uma perfeita passiva do caralho! Isso que eu era.
– Gata... Seja lá o que tenha acontecido agora — verbalizou Tenten — que aconteça mais vezes... Esse foi um puta soco! Olhei para ela, sem entender suas palavras e percebi que havia derrubado o saco de seu gancho.
– Foi só um pensamento... — sussurrei me jogando no chão.
– Bem, pense nele toda vez que for dar um soco e logo, logo estará fazendo uma coleção de dentes quebrados e olhos roxos. — olhei para ela e sorri.
– Eu vou tomar uma ducha para o trabalho.
– Mas já?!
– É que eu tenho que fazer umas coisas antes.
– Hum... — desconfiou- você tá legal?
– Estou sim... Não se preocupe, só quero pegar algumas de minhas roupas...
– Ok, então, eu vou nadar...
Peguei uma toalha de rosto pendurada para secar o suor que caia em minha testa e colo e fui para o banheiro do quarto de hóspedes, tirei a roupa e entrei no box, deixando a água fria descer pelos meus músculos tensos e aquecidos ... Eu não mencionei para Tenten que as coisas que queria estavam na casa do Sasuke e que pegaria um pouco mais que roupas.
Depois de ensaboar e enxaguar meu corpo, puxei uma toalha grande do armário e me enxuguei, passo um pouco de pomada anti-inflamatório no meu pulso ainda inchado e pego um dos meus vestidos brancos e soltos, uma bolsa de couro preta que era empréstimo de Tenten, me visto, prendo meu cabelo com alguns grampos e saio da casa pela porta da frente, sem passar pela piscina e não me despedindo.
Para chegar ao apartamento de Sasuke não era precisa andar muito, somente uns quatro quarteirões, pois todas essas residências dos estudantes da Camanho ficavam na área nobre do bairro. Eu ainda tinha as chaves reservas que ele havia me dado, logo, entrar não seria difícil, mas não o encontrar lá dentro é que seria complicado. No prédio, eu não fui anunciada, o porteiro já conhecia minha cara e subi no elevador sozinha.
Sua casa estava escura e quieta, suspirei de alívio, olhei ao redor da sala, supondo que o que eu precisava não estaria lá, fui ao seu quarto, revistando as mesas cabeceiras e o closet, não encontrando o que eu precisava. Em seguida, olhei a biblioteca e na mesa central, encontrei uma gaveta trancada e frustrei-me.
As provas só poderiam estar ali e eu já estava demorando tempo demais. Vasculho minha bolsa em busca de algo com ponta afiada para girar a fechadora e não encontro nada.
Olho superficialmente pela biblioteca e não vejo nada, alguns barulhos me exasperam, passo a mão pelos cabelos e então sinto os grampos... retirando com pressa, enfiando no pequeno buraco da chave e demoro algum tempo para obter um resultado.
Meus olhos já estão úmidos quando abro a gaveta e me deparo com as fotos, impressões e gravações forjados, pegando uma foto, observando com atenção, eu sendo refletida, mas somente eu sabendo que não era eu.
Enfio duas fotos na bolsa e quando estou olhando as impressões, percebo que não estou mais sozinha.
Do batente da porta, olhando fixamente para mim, Sasuke. Raivoso, impassivo, triste, confuso, Sasuke.
Eu suspiro e fecho os olhos.
– Você quer mesmo me foder, né Sakura? — ele sussurra ameaçadoramente.
– Sasuke... não é... não é o que está pensando...
– Sempre com essas merdas de desculpazinhas ridículas do caralho.
– Olha a boca! — a represália saí espontaneamente, como em todas as vezes que ele xingava e eu chamava sua atenção e não sei por cargas d'água , dentre todas as coisas para dizer, eu falo isso, porém o lampejo de reconhecimento em seus olhos é evidente.
Suspiro novamente.
– Porque você não deixa eu te provar que sou inocente — as palavras saem junto com minha respiração e soluços secos.
– Eu não posso mais... — fala tão baixo quanto eu — já perdi tudo, Sakura, estou louco, sem nada...
Ele aproxima-se de onde estou e fecha a gaveta com força.
– Você não vai se livrar de mim, meu amor.
– Não é para isso que quero isso!
– Claro que é... — ele me puxa para seu colo e me coloca sentada na mesa.
– Você não vai me foder!
– Shh — seus dedos estão em meus lábios — olha a boca...
Seus lábios cobrem o meu, suavemente, e é como os velhos tempos e a nostalgia é tão grande que não posso controlar a parte doentia em mim em corresponder na mesma sintonia e compasso.
Suas mãos acariciam minhas coxas, subindo e subindo, adentrando as barreiras do vestido, passando por minha barriga e indo para meus seios e continuam mais um pouco, pousando do lado esquerdo do meu peito, logo acima das batidas frenéticas do meu coração e lá estacionam.
Paro o beijo ofegante e olho em seus olhos que estão úmidos. Um ônix brilhante, molhado de lágrimas, passo a mão pelo seu rosto.
– O que estamos fazendo? — pergunto.
– Sobrevivendo. — ele responde.
"Mas só porque queima não significa que você vai morrer
Você tem que se levantar e tentar."
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