Calçada da Hogwarts School

7:20 da manhã de segunda-feira

9 de janeiro de 2018

— Não tem como dar errado, certo? — Lily disse, parada em frente à escola. Batendo os dedos da mão direita sem parar em sua coxa, tentou fazer aquele exercício de respiração pensando no 1 até o 10. — É o último semestre do último ano, novo ano, vida nova. Nada vai dar errado.

Embora o céu estivesse azul, algumas nuvens cobriam a claridade do sol. O tipo de ambiente que a garota considerava o ideal: Nem tão claro, mas também sem estar tão melancólico que não daria vontade de sair da cama.

Não que não tivesse pensado nessa opção.

Sua cama tinha costume de ser mais aconchegante e segura do que a sensação de estar em pé enquanto batucava os dedos no próprio corpo, sentindo os alunos de todos os anos passar por ela — alguns até mesmo a cumprimentaram, mas não está muito no momento para isso — e os pensamentos não param de surgir em disparada em sua mente. Toda essa reflexão a levou, num impulso, a dar meia volta e se dirigir para casa, lugar em que sabia onde tudo estaria e que nada poderia a atingir.

E quando estava prestes a fazer isso, ouviu uma voz familiar atrás de si:

— Falando sozinha, Evans? — Sirius pegou Lily de surpresa, jogando seu braço esquerdo sobre os ombros da garota, que era um pouco mais alta do que ele.

— Deixa ela em paz, Sirius — falou Remus, chegando do outro lado e dando uma piscada para a amiga. — Por que saiu correndo hoje? Fui ver se você queria carona e Petúnia disse que saiu às 6h30 sem rumo.

— Provavelmente surtou de vez… — Sirius, namorado de Remus, deu seu sorriso tão bem conhecido por todos na escola, o de lado e com olhar travesso.

— Se eu surtar será que ainda preciso fazer prova, ir pra uma faculdade, ter um futuro, coisas assim? — Lily deu de ombros. Seu cabelo ruivo estava preso em um rabo, por ela ter corrido quarteirões de sua casa até a escola. Além disso, ela tinha um toque de vermelhidão no rosto, dado ao cansaço.

— Considerando que no futuro seria internada em algum lugar, acho difícil. — Sirius retirou o braços e fez pose de pensativo, provocando uma risada na garota.

O casal de amigos era algo bom de se observar. Após tantos anos em enrolação e descobertas, no meio do segundo ano do ensino médio houve a declaração oficial e, sendo assim, o pedido de namoro, fazendo com que Lily vibrasse mais do que era humanamente possível ao lado de seu melhor amigo.

Conhecia Remus desde o jardim da infância — assim como a maioria das pessoas do grupo — e estivera ao seu lado desde o início do ‘’eu não gosto do Sirius!’’ para ‘’ok, talvez eu sinta alguma coisa, mas não é nada demais’’ até finalmente ‘’eu estou apaixonado por ele.’’, então, quando os dois finalmente se tornaram um casal, era de se esperar que ela surtasse tanto quanto eles.

Talvez só não tenha gostado tanto quanto James, mas isso por que ele era o melhor amigo dos dois. Ela se lembrava de Potter ter desmaiado quando contaram. Demorou cerca de 15 minutos para o garoto acordar, e começar a chorar de novo — sim, estava tudo documentado em vídeo.

— Não surte, ainda vamos morar juntos quando nós formos pra faculdade, lembra? Grande cidade, Londres, pubs, bibliotecas, lugares novos. — Remus, a olhou de forma carinhosa, como sempre fazia. Ele era mais alto do que a maioria do grupo de amigos, loiro, e com algumas marcas de nascença pelo corpo, incluindo no rosto.

— Vai ter eu também! — Sirius falou, empolgado.

— Eu estava falando das vantagens, Six…

— COMO OUSA, REMUS LUPIN? — E assim Lily acompanhou o casal, que fingia uma discussão e causava risos nela, fazendo-a esquecer dos pensamentos que rondavam sua cabeça.

‘’Novo ano, novas metas, nova vida’’. Lily Evans tentava não se considerar uma pessoa ansiosa, mas, no final de tudo, não conseguia esconder a verdade. Sabia que sua ansiedade liderava sua vida muitas vezes. Fosse como fosse (tentar) trabalhar a calma era o melhor a se fazer. Não que adiantasse alguma coisa.

O que realmente queria era evitar que seus amigos e família se preocupassem com ela, então, em meio aos seus pensamentos e coisas das quais ela acreditava fielmente que poderiam derrubá-la e machucá-la, sempre fazia de tudo para parecer bem e controlada nas sensações de angústia que se acumulavam em seu corpo.

Era o melhor a se fazer. Pelo menos ela acreditava nisso.

Mas, guardando isso para si, conseguiria evitar uma longa sessão de ‘’Lil, Você Sabe Que Somos Seus Melhores Amigos e Estamos Aqui Com Você Para Tudo’’ que Alice e Remus preparariam se percebessem que algo estava errado.

— Vou para o meu armário, encontro vocês na — Lily abriu sua agenda e conferiu o horário das aulas que recebeu na semana passada — aula de física?

— Logo mais estarei com Slughorn vendo faíscas saírem de circuitos elétricos. Me sinto animado pra dar um choque em James — Sirius disse, logo após depositou um beijo na bochecha da amiga e puxou Remus pela mão direita, e assim Lily os viu indo na direção contrária da dela.

Quando Lily era criança poderia ser considerada calma e decidida, mas, com o tempo a ansiedade fora aparecendo de formas sutis, até que, após um evento ocorrido com um garoto durante a oitava série, tudo estourou. Lily passara seus últimos anos em episódios ansiosos, enquanto pulava de terapeuta em terapeuta tentando achar uma resposta e luz do que realmente fazer com sua vida.

Já em seu último ano e quase com o pé na faculdade, ela se viu constantemente acordada durante a madrugada pensando em diversos cenários onde, em sua maioria, seriam coisas trágicas como: ela ter que voltar correndo novamente para Godric’s Hollow pois sua mãe havia sido diagnosticada com uma doença terminal e ninguém poderia auxiliá-la a não ser ela, portanto Lily ficaria ali desde já para prevenir; ou ela brigaria com Remus, seu melhor amigo, e assim os dois não se falariam, ele jogaria as coisas dela pela janela, ela tentaria atacar ele, acabariam na delegacia e assim, o grupo se dividiria, e tudo porque o garoto queria o vaso de planta próximo a porta e ela queria perto da janela.

E por mais que Petúnia, sua irmã mais velha, tentasse convencê-la de que nenhum cenário desses fosse possível, Lily continuava com suas dúvidas.

— Como sabe disso? É alguma senhora do Destino e não me contou? — A ruiva falou noite passada depois da irmã ter saído do seu quarto.

Não é como se ela gostasse de ter esses pensamentos, mas às vezes eles só aconteciam. Como, por exemplo, se ela está ouvindo ‘’She moved in her on away’’ consegue imaginar algo catastrófico em sua primeira festa de faculdade que causará sua exposição na internet e consequentemente ela terá de viver escondida do mundo trabalhando em um mercadinho, mas, assim que um cliente a reconhecer, terá de se mudar, e assim, viverá sempre no esquecimento.

— Pensando muito de novo, Evans? — Uma voz acordou Lily do piloto automático, e, sem perceber ela já havia pegado suas coisas no armário e estava quase na porta da sala de Literatura Inglesa.

— Na verdade, não, estava apenas aproveitando a bela paisagem escolar daqui, com essas manchas que nunca saberemos o que realmente são no teto, os armários quebrados e, claro, as lâmpadas que logo mais vão apagar. — Ela se virou para James Potter, amigo de longa data, e viu que ele sorria com as sobrancelhas arqueadas.

— Tudo isso do corredor? Se você soubesse o que são aquelas manchas, imagino o quanto mais ia filosofar… — O garoto ficou ao seu lado enquanto olhava para o teto.

— Você e o Sirius? — Ela perguntou. Estava acostumada com os dois fazendo qualquer coisa que envolvesse pegadinhas e brincadeiras. Desde a 6ª série, quando Lily conhecera eles, fora assim.

— E Peter! Ele quem deu a ideia, na verdade.

— Estou realmente surpresa, quero ouvir a história depois…

— Quem sabe, Evans… Quem sabe… — Eles entraram na sala e sentaram um ao lado do outro. James mostrou seu celular a Lily, o que significava que era para ela ler as mensagens.

James: ‘’Quer jogar alguma coisa?’’

Lily: ‘’Tipo o que?’’

James: ‘’Não sei… Stop?’’

Lily: ‘’Você sabe que sou boa demais nisso para você, sempre venço…’’

James: ‘’Que absurdo? Vamos ver então’’

E assim passaram não só duas aulas jogando, como as seguintes dela, como a de matemática avançada. E mesmo quando se separaram de salas continuaram — tudo bem que ela teve de esconder de Alice o que estava fazendo e agradecer por naquela aula Frank estar também, sendo assim, não fez dupla com a amiga.

Não era fora do normal que o dia de aula dos dois — James e Lily — fossem assim, e às vezes até mesmo envolvia outros como Frank ou Marlene. Isso acontecia principalmente quando não costumava encontrar muito com Remus durante as aulas, que não a deixaria ficar mexendo no celular enquanto os professores explicam algo.

Mas quando era apenas ela e James pela maior parte do dia, seus pensamentos conseguiam ser mais leve e engraçados, e até de longe, naquele ambiente da escola, ela conseguia não sentir que iria explodir a qualquer momento.

Quando o alarme apitou indicando o intervalo, Lily saiu o mais rápido a procura de um lugar calmo para que pudesse se afastar de todo o movimento que o primeiro dia costumava trazer, porém, não contou com encontrar Marlene e Dorcas no meio do caminho, e muito menos com as duas a arrastando para o pátio aberto onde costumavam ficar. Não que estivesse reclamando, estar em meio dos amigos a trazia um tipo de paz diferente — mesmo que muitos gritos acontecessem por ali — mas por hoje, apenas queria ficar sozinha.

— Grupo de estudos hoje na minha casa, né? — Marlene disse depois que todos se acalmaram.

— Mal tivemos conteúdo, Marlene, estudar o que? — Remus falou sem levantar os olhos de um livro que estava lendo.

— Sei lá, Rem. A arte de como é maratonar Friends pela milésima vez?

— Friends de novo NÃO! — Sirius falou sem desfocar da briga de dedões que estava tendo com James.

— Você não tem local de fala aqui!

— Me odeia, né? — Sirius disse em tom de sarcasmo, ao passo que Marlene revirou os olhos.

— Todos vão, certo? Lil? — A loira olhou esperançosa para a amiga.

— Ma, eu tava pensando em respirar um pouco hoje, ficar sozinha…

— Lily, você ficou sozinha o recesso todo! Sem nós! Não somos mais

suficientes?

— Você quase nem saiu da minha casa! — Lily rebateu com um sorriso.

— Detalhes…

— Nós vamos, Marlene, porque sabemos que se não formos você não vai nos deixar em paz. — Remus interviu e logo se levantou em direção até o namorado e depositou um beijo em sua bochecha — Vejo vocês depois, quem quiser uma carona me encontra no estacionamento.

— Remmy… — James cantarolou enquanto apontava para a própria bochecha.

— Oh, céus, tá bom — O garoto, que já estava de costas para a mesa, foi até o de óculos e depositou um beijo na bochecha do amigo — Às vezes queria não te namorar para acabar com isso, sabe? — Ele encarou Sirius que estampava com um sorriso.

— É um bônus, Rem. — Sirius soltou uma risada e mandou um último beijo para o namorado

Lily gostava de cada parte ali presente na mesa — e de Remus.

Gostava de como Alice a olhava com preocupação e mansidão, dando o

espaço que ela precisava e mostrando que estava ali caso necessário; O jeito que Frank separava os picles do hambúrguer e dava pra ela, mesmo ele gostando de picles; Como Marlene, do jeito Marlene de ser, estava disposta a tudo para manter o grupo animado e junto, fizesse chuva ou sol ela estava pronta para alegrá-los; Dorcas, com seu jeito mais tímido se comparado ao da loira, que era sua namorada, lia um livro e, de tempos em tempos, levantava o olhar para Marlene que falava sem parar de como na noite passada ela jurara ter visto uma fada no quintal; Peter costumava reclamar da comida da escola e jurava que quando fosse um grande chefe mostraria pra todos ali o que era comida de verdade (Sirius fala que gostaria de tudo de graça, e Peter responde que o mais rico dali era ele); E, as pessoas que mais ria por mais que odiasse admitir até os dias de hoje — Sirius e James, que com toda a certeza dividiam apenas um neurônio quando estavam juntos e, pelo jeito, até o mesmo namorado.

E mesmo os amando e rindo com eles, ela não conseguia evitar de pensar que eles ficariam melhores sem ela, e, constantemente, tentava os afastar pois o que ela trazia para o grupo? Nada além da sua cara de sonsa e piadas sem graça.

‘’Sabe que não é verdade, Lily.’’ Alice dizia sempre que a ruiva desabafava

com ela ‘’Você sabe o quanto ajudou Remus, como eu e Frank não estaríamos juntos pois foi você quem me deu apoio, e mesmo com, bem, você sabe, Neville.’’ Ela apontou para a barriga que ainda não mostrava sinais de existir um outro ser humano ‘’Você esteve comigo, Lil. É a pessoa que mais quero comigo nisso tudo, é a minha família, então não ouse dizer que você não faz diferença, pois faz sim!’’

Lily abrigara Alice por um tempo em sua casa, até ela ir definitivamente para a casa de Frank, já que seus pais a colocaram para fora após o anúncio da gravidez no ano passado. E agora, Alice já estava indo para os seus quatro meses de gravidez, e mesmo assim, mesmo elas estando em etapas diferentes da vida, a amiga não a deixara de lado e sempre arrumava tempo para as reclamações e choros cotidianos.

Lily queria acreditar que era importante, mas não conseguia pensar em si dessa forma.

— Vejo vocês depois. — Ela se levantou da mesa enquanto tomava o resto do suco em um gole.

— Na minha casa, certo? — Marlene falou, mas Lily já corria para longe de lá.

Foi até seu armário se preparando para a próxima aula. Planejava tentar escrever uma lista para o futuro, como a orientadora pedagógica indicou na sessão que se encontraram em dezembro, e que todos os alunos do último ano tinham, como uma forma de apoio para o futuro.

Era difícil para ela conseguir imaginar um futuro certo e feliz, mas ela seguia na luta de tentativas, mesmo com muitas listas já rasgadas, amassadas ou só deixadas no caderno.

Quando abriu o armário se deparou com um bilhete:

‘’ Você não sabe o poder que tem , Lily Evans!

Você é o brilho todo em só um ser vivo, é o seu sorriso que motiva quem você ama a continuarmos de pé, e você nem ao menos percebe.

Queria que confiasse em si como todos nós confiamos, por que você é a mulher mais incrível que acho que vou conhecer — se não for vai ser o top 5.

Até depois.

NÃO FUJA!

Remus’’

Era comum receber bilhetes do amigo, principalmente em dias em que ela não estava bem e, odiava admitir, que essas coisas a faziam se sentir melhor.

Já na aula de física dividindo a bancada com o mesmo, começou a rabiscar no caderno — sem prestar atenção no que a professora dizia lá na frente, mas com a certeza de que o amigo estava anotando tudo.

Em meio os rabiscos estão as palavras: Faculdade. Viajar. Filhos. Dinheiro. Beijar.

Ok. Esse ponto era delicado.

Lily havia se perguntado diversas vezes porque ela, especificamente ela,

nunca havia beijado. Os amigos diziam que era porque ela não queria, já que qualquer um se apaixonaria por ela se ela desse alguma abertura para isso, mas ela não tinha tanta certeza das palavras deles. Seja como for, ela não se sentia à vontade para beijar, principalmente pela primeira vez, uma pessoa qualquer, desejava — de uma forma clichê e esquisita — alguém conhecido, só pela primeira vez, pelo menos.

Com tais pensamentos invadindo sua cabeça, rasgou um pedaço de papel, e escreveu rapidamente nele, cutucou o garoto ao seu lado que estava concentrado na aula e lhe entregou o papel.

Lily: ‘’Eu nunca beijei.’’

Remus: ‘’... Eu sei……’’

Lily: ‘’Talvez seja isso que eu penso estar sendo deixada pra trás? Digo, é algo fútil? Sim, mas todos você beijam e namoram e flertam e eu pareço uma batata. Queria beijar alguém pra falar ‘Oh realmente não gosto de beijar’. Mas eu não posso dizer isso porque nunca beijei.’’

Remus: ‘’Pensamentos demais, Lily’’

Lily: ‘’Eu sou influenciável?’’

Remus: ‘’E quem não é? Saindo dessa aula temos só mais uma. Me encontra no estacionamento que vamos juntos para a Marlene.’’

Lily sentiu um certo alívio no peito e deu um sorriso para o amigo, que o retribuiu.

Sabia que Remus a ajudaria com o que quer que fosse, e torcia para isso porque a ideia de beijar a deixava apavorada e ansiosa. Por mais confuso que fosse, esperava por uma luz.

Ao último sinal, Lily correu para o estacionamento em direção ao carro prata de Lupin que não demorou muito para chegar, e mandou ela entrar rápido. Ao entrarem ele trancou a porta ao passo que, segundos depois, apareceu em sua janela um Sirius vermelho e suado com cara de bravo gritando para deixar ele, Peter e James entrarem.

Remus negou o pedido e disse que ‘’Hoje não vai dar.’’, que amava ele mas iriam ter que ir com Frank, e, sem esperar por uma resposta, ligou o carro, deu ré, e acelerou, quase atropelando Peter no processo, e o máximo que fez foi abaixar o vidro e gritar:

— DESCULPA, PETE!

— O que foi isso? — Lily questionou.

— Íamos conversar, não? Sem ninguém. Ou quer mesmo ouvir a opinião dos meus três melhores amigos sobre a sua vida de não beijar?

— É um bom ponto.

— Desembucha, Lily Evans! — Remus falou alto, sem desviar o olhar da rua.

— Certo… Eu talvez seja influenciável mas eu só queria muah muah — a garota fez como se suas duas mãos estivessem beijando — uma vez, e assim eu falaria, eca que nojo horrível, ou, hm bom quero mais.

— Você sabe que a beleza do Diário de Uma Princesa não costuma ser verdade, né? Pode ser todo zoado e babado. — Remus deu um sorriso malicioso.

— Quer me fazer desistir assim, do nada?

— Não é isso, Li, é que às vezes você tá com uma expectativa que… pode não ser real. Por exemplo, a Dorcas, mesmo ela e Marlene namorando você sabe que ela não se liga tanto nisso, não é algo crucial pra vida, sabe? Se você esperou até agora tem um motivo.

— Rem, eu sei disso tudo, e eu quero tentar. Não tenho nada a perder e apenas a ganhar, certo? Eu vou e tento, e é isso. Eu sinto muito mas não aceito ir pra faculdade sem ter muah muah — fez novamente o movimento com as mãos — em alguém.

— E tem ideia de alguém? — Remus questionou, virando o rosto para ela enquanto estavam parados em um sinal vermelho.

— Não… mas teria de ser alguém próximo, só de começo pelo menos.

— Sabe, Lily, fico lisonjeado mas realmente não fico muito à vontade…

— NÃO VOCÊ, REMUS! — Ela bateu no braço dele.

— EI! VAI QUE ERA UMA CANTADA ELABORADA!

— Sem noção.

— Eu tenho uma ideia de quem poderia ser… — Ele disse em tom de mistério.

— Quem?

— James.

— James?

— James!

— James, James?

— Sim, James!

— Tipo, O James?

— Sim, quantos James você conhece? — Remus perguntou em tom sério.

— Tem certeza? Eu sei que ele gostou de mim por um tempo mas…

— Um tempo? Lily, ele gosta de você até hoje, por favor não conte pra ele que te disse isso, mas esse garoto arrasta um caminhão por você. Ele só aprendeu a disfarçar melhor. — O garoto soltou uma risada abafada.

— Ele não fica com outras pessoas? — Ela disse desconfiada. Era esquisito quando lembrava da queda de Potter por ela, e como a mesma negou tal fato por anos. James parecia tão normal que esquecera e imaginara que houvesse passado.

— Fica eventualmente, não sempre, e você sabe, Sirius adora falar disso.

Não seria uma má ideia e você se sente bem com ele, e mais que você ainda sustenta o coração de apaixonado dele, ajuda todos os marotos que aguentam desde os 11 anos as lamentações.

— Não sei, Rem…

— Pensa, tá? — Ele disse estacionando e puxando o freio de mão logo em seguida. — James te respeita e nunca faria algo pra te deixar desconfortável e, já que você nem quer insistir em mim, ele é a melhor opção pra isso.

Lily não teve tempo de responder visto que um Sirius estava batendo na janela do carro e, enquanto os dois saíam, Remus explicou que era apenas Lily e ele fazendo planos para assassiná-los todos naquela tarde e começar um grande mistério de Agatha Christie.

James se aproximou dela e dera um sorriso.

Não é como se ela nunca tivesse percebido como ele era bonito. Ela sabia disso. Qualquer um que olhasse para James pensaria ‘’Uau, garoto bonito’’ e, mesmo quando teve sua época de negação de qualquer interação com ele, onde só brigavam e discutiam, ela não podia negar que era bonito — mas o fazia mesmo assim para os amigos.

A harmonia do cabelo nunca arrumado, dos óculos redondos, do maxilar marcado na medida certa, de sua pele negra, de seu cheiro de amaciante que, mesmo que muito comum, só ele conseguia ter, eram fatores que Lily simplesmente notava. Fatores esses que não poderiam chegar ao ouvido de ninguém, pois se não pensariam que estava rolando algo mais do que apenas notar, então, ela apenas notava em silêncio.

Ainda tinha o fator que James a fazia rir e se sentir bem seja como fosse, e estava disponível para ela tanto quanto.

Toda aquela conversa com Remus e essa aproximação dele com o maldito sorriso a trazia um pensamento que tentava evitar: James Potter era um gostoso!

— Tudo bem, Evans? — Seria possível até a forma que ele dizia seu sobrenome, sem graça que era, era atraente.

— Tudo sim.

Era só tirar essa ideia da cabeça, afinal, pensamentos com James não eram permitidos pois o período de sua paixonite durante a 7ª série não poderia mais voltar, era algo inconsiderável. Portanto pegaria esses pensamentos e afogaria eles em lava, material radioativo, e água oxigenada.

Mas não por muito tempo.

Mais tarde, após comerem e assistirem alguns episódios de Friends , os amigos decidiram jogar um jogo na sala — Monopoly — , e Lily e James foram os escolhidos para arrumarem as coisas antes de descerem — não que Remus não tenha influenciado algo para isso acontecer — e, durante todo o processo a garota evitou olhar para Potter.

— Tá evitando olhar pra mim? — Ele falou sentando na cama, logo em frente a cadeira em que ela estava sentada.

— Porque eu faria isso? — Lily olhou para os olhos castanhos dele e sentiu como se pudesse mergulhar neles, mesmo que águas escuras não sejam uma boa opção.

— Me responde você.

A garota tirou um tempo para pensar e lembrou-se de algo que teria a perder e que não considerara antes: Se algo desse errado, ela e James poderiam demorar para se falarem novamente, ou até mesmo não voltarem a se falar. Lembra como foi quando Marlene ficou com Sirius, ou quando Alice ficou com Marlene. Não queria que o mesmo acontecesse entre ela e James. Então, quando decidiu responder que não era nada — até porque estava há algum tempo encarando sem dizer nada — , ela falou:

— Você toparia me beijar?

— O QUE? — James disse mais alto do que esperado — Ok… o que?

— Você sabe que não beijei ainda e tenho pensado que seria bom beijar. Mais especificamente, beijar alguém conhecido e então pensei em você, sabe? Somos próximos, amigos, me sentiria confortável… é só para testar mesmo.

— Você… me deixa sempre surpreso, Evans!

— Topa? — Lily estendeu a mão para fecharem um acordo.

— Tem certeza? — Ele fez uma cara de hesitação.

— Sim!

— Certo — Ele olhou novamente para a mão dela que ainda estava esticada e empurrou para o lado — Antes… como vamos fazer?

— Acho que programar é meio esquisito né? E também não quero fazer aqui porque todos estão lá embaixo… Podemos, não sei, sairmos um dia e deixar rolar, como nos filmes?

— É um bom plano. Mais alguma coisa? — Ele perguntou com um sorriso.

— Não podemos ir além da amizade com bons beijos, portanto, acho que poderemos fazer isso apenas três vezes.

— Como os pedidos do gênio?

— Exatamente!

— Gosto de como pensa, Evans… E concordo, o que mais?

— Acho que só. Não se envolver, e beijarmos só três vezes. — Lily tentou se lembrar de mais alguma coisa, enquanto segurava o número dois nos dedos — Ah! Não podemos contar para eles. — ela apontou na direção em que os amigos estariam.

— Concordo também. Estamos certos, então? — James disse esticando a mão direita e Lily olha para ela. Não acreditava que realmente faria isso.

— Sim! — Ela esticou sua mão novamente e fecha o acordo — Vamos descendo? Quero ver Frank e Peter dançando Bad Romance. — Vai se afastando e indo em direção a porta até que ouve James falar baixo.

— Lily…

— Oi?

— Acho que não aguento esperar muito para o primeiro…

— Como assi... — Antes que pudesse terminar a frase se vê de mãos dada com James e a centímetros de seu rosto, seus narizes quase colados, seus olhares memorizando detalhes novos dos rostos tão conhecidos.

— Posso? — James perguntou colocando a mão livre em sua bochecha e acariciando a mesma.

O máximo que Lily conseguiu foi balançar a cabeça em positivo e, milésimos após, sentia o gosto de James Potter.

James era como ela esperava: gentil e suave. Ele não apressou nada, diversas vezes em que ela se embaralhava ele ria junto dela, sua mão ficou no rosto e a outra segurando a mão da ruiva, que sentia se desmanchar ao toque quente do garoto.

Ele não era tão mais alto, mas mesmo assim ela se via ficando nas pontas dos pés, como se quase flutuando. Como se esse beijo, aquele momento, a levassem para o seu nível de maior tranquilidade e leveza.

James ia devagar e por vezes acelerava, parecendo testar a velocidade que ela gostaria e depositava alguns selinhos ao longo do beijo, onde sorria e Lily o acompanhava. Quando pararam de vez, James deu um longo selinho em sua boca, e ficaram com as testas encostadas, sentindo o que acabara de acontecer e como fora estranhamente certo.

— Como você tá? — Lily quebrou o silêncio, ainda com as testas encostadas e os olhos fechados.

— Como se eu estivesse flutuando, Lily. — James respondeu, fazendo a suspirar e sem conseguir se conter, ela depositou um último beijo nos lábios do rapaz e saiu do quarto rapidamente.