Klukler
2 Parte 2
Notas iniciais
Tyler resolveu assistir um filme de ação e aventura. Não era ruim, tinha a temática central mitológica, a história girava em torno de um herói que viajava buscando símbolos e itens para salvar seu reino. Mesmo assim, era esquisito, pois o "herói" matava pessoas inocentes para conseguir esses objetos. E ele morria no final, mas conseguia proteger o reino, só que esse povo era mal julgado e acabou sendo exilado.
–Bizarro! — falei quando terminou.
Tyler estava com a boca cheia de pipoca, mas murmurou alguma coisa que eu julguei ser um "eu gostei".
–Humpf! Não tem lobos, poderia ter algum, aí sim, ficaria mais legal. — falei.
Tyler riu, e me deu um beijo.
–Certo. Então, você quer assistir outro filme, que tenha lobos, ou quer jogar videogame? — ele perguntou colocando a bacia (vazia) de pipoca sobre a mesinha de centro.
Fingi pensar um pouco.
–Qual é a terceira opção?
Ele ergueu as sobrancelhas.
–Eu!?
–Hm... É... Até que não é uma má ideia.
Ele me puxou para perto dele, acabando com o espaço entre nós, e me beijou. Foi um beijo calmo, com gosto de pipoca amanteigada, mas calmo e terno. Quem diria que Tyler, o viciado em videogames saberia beijar assim? Quando (ele) começamos a perder o fôlego, Tyler parou o beijo. Sorri. Os braços dele enlaçavam minha cintura, e, enquanto meus dedos brincavam com o cabelo castanho de meu namorado, ele me fitava.
–O que foi? — perguntei depois de um tempo.
–Nada. — ele desviou o olhar, e soltou um pouco minha cintura.
–Tyler, sério, o que foi? — tornei a perguntar.
–Besteira. — ele voltou a me abraçar.
Suspirei. Acomodei-me em seus braços e, então, notei um detalhe que me tinha passado despercebido. Uma mancha marrom, escura, perto do ombro, na camiseta azul dele. Levei os dedos à mancha, e Tyler estremeceu de leve. Olhei para seu rosto, ele ainda estava um tanto pensativo, não parecia notar. Voltei minha atenção ao detalhe na camisa, eu não havia notado antes, pois o garoto estava de casaco. Mas não havia só aquela mancha, tinham outras, uma perto da clavícula, outra menor na região das costelas e algumas nas costas.
Fui correndo os dedos pelos locais, até que senti um olhar sobre mim, e ergui o rosto. Olhos me observavam. Ao lado do olho direito, o pequeno curativo cobria quase todo um roxo. Eu tinha esquecido daquilo.
–Tyler... Você ainda não me contou como conseguiu essa perna quebrada... — falei baixinho.
Ele suspirou. E abriu a boca para falar alguma coisa, mas tornou a fechar. Ele me olhou por mais algum tempo com uma expressão que poderia ser tanto de seriedade quanto de preocupação, e finalmente falou:
–Foi... Foi uma briga.
Ergui uma sobrancelha.
–Briga? — eu disse, evidenciando na voz que aquilo não serviria de explicação.
–É...- Ele deu uma pausa, como se estivesse pensando a melhor forma de explicar.- Faz algumas semanas, que eu fui para uma festa que uma turma lá do colégio fez. Eu, no começo não ia ir, mas acabei indo, depois de perceber que eu ia ter que ficar sozinho em casa, sem meu videogame, já que Mia tinha quebrado o meu em uma vez que ela foi lá em casa. Enfim, eu acabei indo para aquela festa. Foi bem chata para falar a verdade, eu fiquei boa parte da festa só conversando com uns colegas, mas no final decidiram fazer umas apostas malucas.
"Eu não participei, sabia que não ia dar em muita coisa, conhecendo o povo. Mas fiquei olhando e rindo de umas piadas e brincadeiras que eles estavam fazendo. Uma garota, que era nova na escola, que não estava participando das apostas foi envolvida na conversa, não me lembro do porque, mas, se não me engano, um menino do time de futebol tinha que ficar com a garota. Ele reclamou, citou várias outras, mas o pessoal insistiu tanto, que ele cedeu.
"A festa prosseguiu nisso, o cumprimento das prendas e das apostas aconteceu no decorrer da semana ou depois da festa. O ponto é que quando eu estava indo embora, eu vi o garoto prensando a menina no quintal. Deu para perceber que ele estava bêbado e ela assustada. A menina tentou sair dali, mas ele agarrou o braço dela, e deu um beijo forçado. Eu não consegui ver aquilo e simplesmente ir embora. Fui até lá e tentei defender a garota e..."
Tyler me olhou, como se quisesse confirmar se eu ainda estava ouvindo, ou se eu estava bem. Eu não podia negar ele me surpreendera, nunca imaginei Tyler dessa forma. Afinal, a maior parte das vezes que eu o via na rotina, ele passava sentado jogando videogames e lendo quadrinhos.
–Continue... — falei.
Ele se ajeitou no sofá antes de prosseguir.
–Então, eu fui lá e falei para ele parar, que ela estava assustada e que pelo menos ele teria que respeitar a menina, essas coisas. O grandão segurou a menina pelo braço, forte, e falou para não me meter, que eu não passava de um fracote, viadinho e começou a me xingar de tudo possível. — Tyler deu uma pausa. — Eu fingi não ligar e falei que poderia ser tudo aquilo para ele, mas que eu não ficava me jogando para cima das garotas como um idiota bêbado. Aí ele explodiu, soltou a menina e me empurrou forte. Eu quase caí, mas não revidei. Eu iria perder, ele era mais alto, mais forte, e mais popular que eu.
"As poucas pessoas que estavam ali ao redor fizeram uma rodinha e ficaram tirando fotos, algumas gritando incentivos pro idiota. E aí ele começou a me insultar e nós começamos a brigar, trocamos alguns socos e empurrões, mas não passou de uma discussão. Aquela menina de antes tinha chamado um irmão dela, ou algo parecido, e conseguiu apartar a discussão. De alguma forma o irmão dela não estava bêbado e conhecia o grandão, ele o convenceu de que não iria ser boa ele partir para a briga, já que todo mundo estava ali e depois ia repercutir mal. O que era verdade já que alguns vizinhos já estavam espiando."
Ele concluiu com um suspiro.
–Ok. Entendi. Mas isso não explica a perna quebrada, ou o fato de sua camisa ainda estar manchada de sangue, ou seja lá o que for isso. E você falou que isso foi há semanas.
Ele me olhou e terminou a explicação:
–Bom, antes de eu ir embora eu o ouvi falando com os amigos dele que ia descontar por eu ter me intrometido. Eu até acreditei e fiquei meio na defensiva por alguns dias. Mas depois de duas semanas sem nenhuma ameaça, considerei que ele havia esquecido. Só que ontem de noite eu fui para um festival de jogos que estava tendo aqui perto de Forks, e como meus pais tinham ido visitar Mia e eu estava de férias, resolvi passar aqui. Lá pelas quatro ou cinco da madrugada, próximo daqui, eu me surpreendi em perceber que Joe, o grandão bêbado, e sua gangue de idiotas estavam me seguindo.
Engoli em seco, lembrei-me de meu pensamento na hora que acordei, eu tinha zombado que ele tinha apanhado de uma gangue, eu não poderia imaginar que era verdade.
–Eles chegaram empurrando e esmurrando. A rua tava vazia e a gritaria foi geral. Eles estavam com uns tacos de beisebol e eu, bem, eu tinha apenas meu celular sem sinal. Eu me defendi como pude, deixei um amigo de Joe, com um belo olho roxo e um braço quebrado, quando o empurrei para longe, aparentemente ele bateu na parede. Até Joe saiu com vários hematomas nos "bíceps tatuados". — Ele fez aspas exageradas e conseguiu rir com a própria piada.
Eu não tinha entendido direito a parte dos "tatuados" (destaque nas aspas), talvez fosse por eu não ter conhecido o tal do Joe. Eu não consegui rir, eu tinha imaginado tudo, menos aquilo.
–É... Depois que o grupo se sentiu satisfeito quebrando minha perna, foram embora reclamando, ou do braço quebrado e da cabeça doendo, ou do que as mães e as namoradas dele diziam. — ele riu novamente com a parte das mães.
–Entendo a parte das namoradas, mas enfim, continua. — deixei escapar.
Ele me puxou mais para perto dele e beijou minha testa.
–Acho que é só isso. — Só isso?– Ah. Depois que eles foram embora eu consegui ir num posto médico mancando e pedi para verem minha perna e... — ele se interrompeu. — Não que eu tenha ligado muito, mas, cara, tava doendo para andar.
Forcei um sorriso, vendo que ele estava tentando fazer uma piada, mesmo que sem sucesso.
–Aí, depois disso, eu liguei para Madson e falei que eu iria vir. Ela, aparentemente, estava dormindo, porque concordou e me mandou dormir. Peguei um táxi e vim. Depois que Madson viu como eu estava, revirou os olhos perguntou o que tinha acontecido, e para piorar tudo, avisou nossa mãe que eu iria ficar aqui. No final a "Dona Status" ficou sabendo que eu tinha me machucado, fez um escândalo, claro, mas preferiu ficar chateando a filhinha amada, Mia. E fim.
–Hm... e fim... — falei tocando o curativo ao lado do olho. — Se você soubesse que estragou meu sono, não iria ter falado com tanta naturalidade assim. — Murmurei negando com a cabeça.
–Hm... Eu te acordei, foi? — ele ergueu uma sobrancelha.
–Idiota.
Passei meus dedos pelas manchas novamente, ele reclamou.
–Dói?
–Um pouco.
–Foi por isso que estava de casaco? Para esconder as manchas? Porque não trocou de roupa ou tomou um banho, ou qualquer coisa do tipo?
–Eu estava esperando você perguntar isso. Eu me lavei e me troquei, mas o remédio que passaram no hospital parece que mancha tudo que toca. E parece que minhas roupas nessa casa são quase extintas, graças a Sra. Status que pegou todas um dia desses. — Ele respondeu. — E sim, o casaco era para esconder elas, não queria que você as visse.
–Você me acordou 4 horas da madrugada, e não queria que eu notasse algo desse tamanho? — Falei indicando as diversas manchas no tecido.
–É...
Ele me beijou.
–Uma pergunta, Kluke. — Suspirei ao ver que ele sorria brincalhão. — Eu percebi que ficou desconfortável quando falei que defendi a menina, ficou com ciúmes.
Olhei para ele. Como eu iria responder?
–Sim e não. Fiquei um tanto desconfortável por que vi que não ia dar certo, mas não fiquei com ciúmes. — Eu tinha ficado com um pouquinho, sim, mas ele não ficaria sabendo disso.
–Ok. Vou fingir que não percebi isso... O ruim é que a garota ficou me atormentando com mil agradecimentos por tê-la ajudado, e mais desculpas por ter feito com que eu me metesse em uma confusão. Ofereceu-se até para me ajudar a estudar.
–Já não gostei dela. Puxa-saco demais.
O garoto riu.
–Concordo. Mas eu sobrevivi, não sobrevivi? Estou inteirinho...
Olhei para ele, fingindo analisá-lo.
–É... Eu diria pela metade, mas fora isso, tudo bem.
Ele beijou o topo de minha cabeça e trocou de canal. Eu nem tinha percebido que outro filme tinha começado. Eu não poderia negar, aquelas manchas chamavam a atenção, entendi o porquê do casaco, pelo menos não deixavam visíveis. A camisa era de manga curta, mas cobria os hematomas do ombro. Ergui a camisa dele um pouco, para ver os das costelas. E me assustei.
Tudo bem, eu já tinha lutado contra vampiros malucos, sugadores de pessoas. Visto corpos esvaziados, mas aquelas manchas eram muito parecidas com as que os frios deixavam nas vítimas. O que me lembrou do sonho, teria relação?
–Tyler, tem certeza de que não tinha nenhum sangue-suga idiota naquele grupo? Eu juro que isso me lembra aquelas criaturas nojentas.
Ele pegou minha mão.
–Não, não tinha nenhum. Se não você teria sentido o cheiro.
Tive que concordar, mesmo que ele tivesse tomado banho, eu iria sentir algo diferente na hora que acordei. Algum instinto de que eram vampiros, mas não tive. E, além disso, não havia marcas de dentes.
–De qualquer forma... Você ao menos passou alguma coisa nisso?
Ele me olhou rindo.
–Nunca imaginei que você ficaria tão "coruja" assim. Sim, como eu já disse, no posto médico pediram para que eu passasse um remédio e eu tentei limpar o excesso para não manchar as roupas, mas não adiantou muito.
Corei quando ele usou aquela expressão. Eu estava tão cuidadosa assim? Maldito imprinting.
–Está bem. Mas eu não tenho culpa se eu tive um imprintig por essa criatura, que é você. Eu não pedi para que fosse você. Eu nem pedi para que acontecesse.
Ele riu novamente.
–Já entendi. Mas fale a verdade, nem minha mãe é tão cuidadosa assim — e me beijou.
Fechei um pouco a expressão quando ele falou aquilo.
–Se não quer cuidado, só falar!
Ele me abraçou.
–Eu não disse isso. Só falei que nunca pensei em você assim.
–E eu muito menos. Quem diria que, um garoto que passa o dia todo matando uns zumbis no video-game, iria defender uma garota que mal conhece... — revidei.
–Há! Não falei? Está com ciúmes.
–Cala a boca!
Tyler não disse mais nada, mas sorriu satisfeito. Que ego!
Ficamos ali, assistindo o filme, abraçados. Quando me virei para olhá-lo, acabei batendo o cotovelo nas costelas do garoto, ele estremeceu e soltou um "ai!" baixo. Ergui as sobrancelhas, e ergui um pouco a blusa dele para ver o estado de meu namorado.
Quando eu vi as outras manchas, a dor de cabeça aumentou ao ponto que me assombrei. O sonho não saia de minha cabeça.
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