Kizuato
1 Uma cena de morte
Dirigia sem se preocupar com a direção que tomava, os sinais de trânsito ou os limites de velocidade que ultrapassava. Queria extravasar tudo e não se preocupava nem um pouco com as consequências. Na verdade, esperava alcançar um único objetivo com essa impulsividade: a liberdade.
Estava cansado do peso que era obrigado a carregar, das responsabilidades que foram jogadas em si e das expectativas que alimentavam a seu respeito. Não pediu para herdar nada daquilo! E mesmo assim, se via obrigado a cumprir uma rotina que lhe foi dada.
Tudo porque era o filho mais velho, o único filho, e como tal, devia tomar o lugar do pai na empresa.
Que merda esperavam que conseguisse fazer? Mal tinha saído do colégio! Não estava preparado para assumir nada!
Se arrependimento matasse… se realmente matasse, ele com certeza não precisaria estar correndo de moto daquela forma, acelerando o máximo que conseguia, esperando que alguma desgraça acontecesse.
Sim, ele esperava o pior. Ele queria o pior! Porque nesse caso, o pior seria também o melhor. Seria uma saída. Uma bem covarde, mas uma saída.
Era a sua busca pela liberdade…
Perdeu o controle da motocicleta quando luzes ofuscaram sua visão, obrigando-o a sair da pista, só então notando que ele já estava na pista errada e agora dirigia descontrolado pelo acostamento da contramão.
Se era aquilo que tanto queria, por que estava tão desesperado? Não era só se deixar levar?
Por que não aceitara a proposta de sair de casa e fugir com o amigo? Por que não tentou construir uma nova vida sozinho? Por que fora tão idiota?
Se arrependimento matasse…
A moto perdeu o pouco controle que tinha ao passar por um buraco, derrapando pelo asfalto até bater contra as grades de proteção, jogando o condutor alguns metros à frente e se arrastando pelo chão, o ruído do metal ecoando alto e soltando faíscas, até encontrar a borda da ponte, caindo pelo outro lado.
Mikaru tentou se erguer, mas os braços pareciam ter perdido a força e suas costas queimavam como o inferno. Qualquer mínimo movimento o fazia gemer de dor e sua melhor opção foi permanecer deitado no asfalto. Pelas frestas da ponte, conseguiu ver um movimento nas águas logo abaixo e imaginou que pelo menos a moto conseguira fazer o que ele queria, se jogar para fora desse mundo. As dores que sentia o provavam que, infelizmente, ainda continua vivo, mas talvez não por muito tempo.
Deixou-se ficar observando o ondular do rio por um instante, e talvez fosse o frio, talvez fosse algo mais chegando, mas logo a dor passou, seu corpo parecia anestesiado, e quando pensou que somente sua visão continuava funcionando, ela também foi lhe abandonando aos poucos, trazendo consigo a inconsciência.
O último pensamento que lembrava de passar por sua mente antes de ser tomada pela escuridão, era de se perguntar porque desistira nos segundos finais. Não era aquilo que queria? Se livrar de seus problemas para sempre?
Bom… agora ele não precisava mais se preocupar com isso…
Fale com o autor