Kit Black: Viajantes De Mundos
23 A calmaria que precede a tempestade: Duelo em alto mar/Parte II
Notas iniciais
Ela viu os dois ultimos marinheiros do Lamento da Tempestade–ambos pareciam ser híbridos de demônio humanóide com ouriço-do-mar- baixarem as pranchas para o embarque, de lados opostos do navio. Kit chegou pelo bombordo. Mid Night adentrou o navio pelo lado contrário. Houve uma forte inspiração de sua parte. Seu adversário desagradavelmente mutilado era ainda mais feio de perto. Sentiu os pelinhos de suas costas se arrepiarem de repulsa, mas forçou-se a se concentrar novamente. Entre seus dedos das mãos estavam bem presos os leques de prata que Francis lhe dera. Afiados, enfeitiçados para matar demônios. A única armadura que usava eram manoplas finas para ter certeza de que não iria se cortar. Ele era puro músculo e altura. Ficar dentro de algo que limitasse seus movimentos seria seu fim. E afinal de contas, Kit nunca usara uma armadura mesmo...
–Com pressa, fedelha?
–Nem um pouco. -ela se endireitou, bloqueando tudo que fosse inutil de sua visão e audição. Focou-se nele.
–Farei com que implore por sua vidinha miserável... você irá desistir em pouco tempo.
Um sorriso debochado surgiu nos lábios da garota, enquanto ela fazia uma mesura. -Ahn, me desculpe. Mas a palavra desistir foi tirada do meu vocabulário, então... -jogou o corpo para trás, ficando séria e ficando em guarda. -Venha.
E ele foi. As espadas varreram o convés e ela precisou saltar para desviar. Ed, observando a luta lá de cima, franziu o cenho. -Não sei se esses leques vão ser de muita utilidade contra essas lâminas...
–Hum... eles não vão durar muito. -o outro gêmeo atalhou logo em seguida. Mesmo com a promessa de Cassandra, ainda estava preparado para disparar os canhões sob uma ameaça de ataque. Ou se alguém da tripulação inimiga resouvesse arranjar alguma gracinha para atrapalhar a luta.
–Tenham fé nela... ela sabe o que faz. -Nick mantinha-se atento aos golpes, um a um. Seu olhar não perdia nada, o rosto começava a se tencionar.
–Vocês dois são completamente loucos. -Lyra meneou a cabeça. Draco, que havia se afeiçoado claramente a fada noturna, empoleirou-se em seu ombro para ver melhor e fez fumaça sair de suas narinas.
“Nosso tempo se estendeu graças a essa loucura, no fim das contas...”
–Ela vai vencer... ela precisa vencer. -realmente, pensava Nicolas. De todas as brigas que havia arranjado, era a primeira vez de fato que a vida de várias pessoas dependia de seu sucesso.
O tilintar de armas se chocando irritava os ouvidos. Tanto ela quanto Mid estavam empatados, apesar da clara diferença que teimava em dar vantagem ao demônio. As lâminas giravam como cataventos, a uma velocidade incrível, e Kit usava de toda a sua agilidade felina para se esquivar, e bloquear quando podia. Quando viu que o rival abriu a guarda, ela bloqueou com o leque aberto e o fechou, prendendo a ponta da espada entre suas arestas e usando a desorientação do outro para aplicar um chute em seu abdomem, jogando-o para trás. Ela havia condicionado seu corpo com o passar dos dias e meses, e por mais que parecesse frágil, aquele ataque o empurrou quase para fora do navio. Mas sua euforia durou pouco. Como se nada tivesse acontecido, Mid Night levantou-se, mirou-a bem e começou a correr em sua direção. A colisão era certa, e ela escorregou o corpo para o lado. De alguma forma, porém, ele previu esse movimento, e a parte cega da lâmina -pois quando este levantara havia deliberadamente esquecido de verificar se estava segurando suas espadas certo- bateu com força em seu estomago, fazendo-a se chocar contra o timão. A dor irradiou tanto pelo local atingido quanto nas costas, enquanto lutava para se pôr de pé novamente. Como podia jogar toda a sua força num golpe e não causar dano algum a ele? Apressou-se em pensar numa forma para machucá-lo de fato, e, vendo-o disparar em sua direção novamente, jogou o corpo com certa dificuldade para trás do timão. Sem poder mudar a direção no último instante, o demônio praticamente bateu contra o mesmo.
Isso no entanto, também não fez diferença alguma, além de uma breve cambaleada. Ajeitando a espada desta vez, ele desferiu um golpe de cima, o qual Kit bloqueou. Ela rolou no chão e, enquanto ele tentava outra estocada para baixo por causa desse movimento, jogou o corpo para trás para conseguir levantar-se e saltou para o lado. A lâmina passou chiando pelo lado esquerdo de seu rosto, produzindo um corte que sem dúvida demoraria a sarar. Com o canto dos olhos, viu a segunda espada vir em sua direção e a aparou com um dos leques. Estando com uma de suas armas livre, ela golpeou-o sem dó no braço.
A pele era muito dura, mas aparentemente o efeito desejado foi conseguido. O demônio recuou tempo o suficiente para que ela saísse de seu campo de visão. Quando deu-se por si, ele não a achava em lugar nenhum, até sentir uma segunda estocada nas costas. Sua mão, vazia depois de deixar uma das espadas cair com a surpresa -e dor- vasculhou o ar atrás de si até encontrar algo sólido em que pudesse segurar e lançou-o a frente.
Kit foi agarrada pela perna e sentiu o corpo colidir contra o chão. Sentiu-se ser puxada novamente e foi arremessada contra a vela do navio. O tecido a segurou mais do que sua própria habilidade. Ela escorregou, e as garras cravaram-se profundamente, fazendo um rasgo de cima a baixo na vela principal. A dor aumentou, e ela sacudiu a cabeça, momentaneamente tonta.
“Vamos lá, você é um gato... altura não é nada pra você” lembrou a si mesma. Aparentemente Mid estava pensando no que fazer para derrubá-la, ou como chegar até lá.
–Ai... essa doeu... -Laurent fechou os olhos como se isso pudesse evitar a visão que tivera de sua pequena contratante sendo arremeçada pelo ar. Os gritos da tripulação rival chegavam com facilidade aos seus ouvidos agora. Coisas como “acabe com ela” e “corta em pedacinhos” eram praticamente entoadas. Isso o irritou mas do que queria admitir.
–Calem a boca ou vou até ai costurá-la! -berrou Nick de volta, desviando sua atenção por pouco tempo da irmã.
–Ignore-os... só querem que tomemos uma atitude motivados pela raiva. Não será inteligente de nossa parte. -murmurou o capitão, lançando um olhar maligno para o outro lado. Os demônios de lá não pareceram se incomodar.
Mid finalmente conseguiu uma brecha para chegar até sua rival. Ele displicentemente começou a subir pela escada de corda. Kit se retraiu, tentando ajustar seu equilibrio. Seu corpo escorregou para o mastro mais abaixo. A dor diminuiu um pouco, apenas o suficiente para conseguir respirar normalmente. Pelo canto dos olhos, visualizou o demônio vindo a seu encalço, pouco a pouco. Quando ele chegou ao mastro em que estava, ela saltou para trás, endireitando-se e fechando o leque que sobrara em sua mão para usá-lo como uma adaga. E começou as estocadas, de maneira rápida a princípio, mas sabia que o seu corpo não aguentaria esse ritmo por muito tempo. Em contra partida, Mid Night também golpeava com uma espada só, deixando a outra como apoio, fincada na madeira, para não cair. As velas se despedaçaram. Kit parecia dançar, indo de um lado para o outro, percorrendo os lados do mastro das velas com agilidade, dando voltas ao redor do mastro principal e deixando seu inimigo claramente tonto. Sua calda balançou num ultimo instante para dar-lhe uma rasteira que o faria sem duvida cair lá em baixo, mas ele se preveniu, espetando-a na madeira com a espada. Desta vez Kit realmente gritou. O lacinho que usava na calda se desprendeu enquanto ela tentava se soltar. Ela sentiu a mão enorme segurar seu pescoço, fazendo pressão...
–Fim de jogo... ela vai ser esmagada...
–Temos permissão de atirar? -os tripulantes da frota estavam entusiasmados com essa perspectiva. A gritaria recomeçou.
–Acaba com ela!
–Arranque a cabeça!
–Acabe logo com isso, os canhões já estão prontos...
Cassandra, porém, já não estava presente. Agora havia um navio a menos no aglomerado. Aparentemente a Deusa tinha outros assuntos mais importantes para cuidar... ou simplesmente não se incomodara com isso...
A jovem ainda sentia seu corpo estremecer. A mão agarrada em seu pescoço tirava a maior parte da sua possibilidade de respirar. Ela começou a se debater violentamente, tentando se soltar. Sentindo que o oxigênio já começava a abandonar seu corpo, deixou o segundo leque cair e atacou o rosto dele com as garras com toda a força que tinha. Mid Night a soltou, com o rosto mais deformado que antes, e agora com um olho a menos funcionando. Kit conseguiu tempo para se soltar e deixou-se cair no convés. Rolou a tempo de evitar o adversário, que pulara fervendo de raiva em cima dela, preparando-se para cortá-la em duas.
Nicolas estava nervoso o suficiente para fazer alguma loucura. Claro que reparara no sumisso do Devorador de Almas, abandonando seu capitão a própria sorte. Cassandra não estava mais presente. Isso sem duvida dava-lhes uma vantagem e igualmente uma desvantagem, porque pelo visto era ela que impedia seus comparsas de descarregarem sua munição contra o Diamante Negro. Antes que tivessem três navios para se preocupar, tomou uma decisão, que conferenciou aos seus capitães e à Lyra. -Vamos destruir os navios...
–O que? -a fada noturna questionou, sem entender bem como fariam isso... o fato de estarem em menor número não parecia ser de muito significado para o Senhor do Palácio de Granito. -São três navios, eles podem revidar...
–Eles não vão atirar em si mesmos, vão?
–Quem sabe... a maior parte dos demônios não raciocina muito bem... -objetou Laurent. Ed sacou a espada.
–Eu voto que sim... afinal de contas, a gente tem um dragão. -ele apontou para Draco, acomodado nos ombros de Lyra. O dragão levantou a cabeça levemente, com uma expressão quase cética.
“E só agora vocês lembraram disso?”
Nicolas praticamente se descabelou depois desse comentário. -Minha irmã está arriscando a vida lá em baixo a troco de nada!
–É tarde pra dicutir isso. E ela não está lutando a troco de nada.
–As vezes as pessoas precisam provar algo para si mesmas... vamos facilitar a vida dela e naufragá-los...
–Eles já estavam me irritando mesmo. -Ed estralou os dedos com vontade. -Vamos como mesmo?
–Ah... isso não é lógico? Temos um dragão...
Kit ainda desviava, agora sem uma arma decente para revidar. Mid praguejava, amaldiçoando-a o quanto podia. -Sua vadiazinha maldita!Eu vou destruí-la! Vou transformá-la em uma massa de carne e ossos, você nunca, nunca poderá sequer reencarnar!
–Quanta grosseria da sua parte, eu só estava me defendendo... -espalmou as mãos, girando para o lado e acertando um chute alto no pescoço dele. Pode ouvir o “crack”, sinal de que havia quebrado-o, no entanto o outro apenas ergueu as mãos para a cabeça e colocou-o no lugar com um puxão violento.
–Puta bastarda... seu caixão terá de ser fechado! Eu irei sapatear sobre ele! Eu vou...
A garota materializou uma adaga e fez um golpe na horizontal, acertando acima do nariz do rival. Este agarrou a arma e a destroçou com um simples apertar de mão. -Coitadinha. Acabaram as ideias?
Kit ia revidar mas uma sombra passou pelo seu corpo. Era enorme... mesmo sem precisar olhar para cima, sabia do que se tratava. A gritaria dos demônios já deixava bem claro. Apenas ergueu a cabeça para ter a confirmação do que já sabia, antes que Draco abrisse a bocarra e lançasse um jato de fogo mudando o foco para pegar todos os três navios de uma só vez. Mid Night praguejou um pouco mais, principalmente quando reparou que seu navio tinha desaparecido. -Você quebrou a sua palavra, sua vagabunda.
–Eu? Mas eu... -ela sentiu o soco chegar em seu rosto de forma tão rápida que não teve tempo de revidar. Foi atirada para o outro lado do navio. Levantando-se com dificuldade, viu que o demônio queria voltar para perto dos seus, no entanto pareceu pensar melhor. Voltou-se para ela.
–Vou matá-la. Vou destruí-la. Isso é entre nós...
–Tirou as palavras da minha boca. -ela passou a mão pelo canto da boca, limpando o sangue que escorria e sentindo que seu rosto deveria estar muito, mais muito inchado. Ambos se lançaram para frente, engalfinhando-se novamente.
Nick, Ed, Laurent e Lyra saltaram para as embarcações em chamas, aproveitando-se da confusão para destruir qualquer inimigo que chegasse a sua frente. A fumaça subia em rolos grossos, as labaredas chegavam a alturas assombrosas. Draco, dependurado na vela do navio mais a esquerda, rugia, fazendo as estruturas se despedaçarem apenas com isso. Em momentos esporádicos, lançava outra rajada de chamas, cuidando para não acertar seus aliados. Em pouco tempo, a frota inimiga estava reduzida a pedaços e fogo. Quando a cabeça do ultimo demônio foi ao chão, antes de se desfazer em uma nuvem mal-cheirosa, os quatro se voltaram para onde o dragão estava.
–Bom trabalho, grandão.
“Isso é o que acontece quando se tem um dragão a seu favor...” o ser estufou o peito escamoso, enrolando-se no mastro em que estava.
–Modéstia à parte. -Nick comentou em um tom baixo, voltando os olhos para o navio-arena.
“Temos que retornar, essa embarcação não vai suportar muito mais.” ele ergueu as asas, abrindo-as, mostrando toda a sua envergadura assombrosa. Mas o rapaz não respondeu. Seus olhos estavam cravados. Ele estava pálido. -Kit...
Enquanto seus amigos destruiam demônios, Kit estava claramente levando uma coça. No corpo-a-corpo a força do capitão demoniaco levava vantagem, e ele ainda tinha uma lâmina. Aliás, agora ele tinha o par novamente, porque o mastro principal já havia caído com as trocas de golpes entre um e outro, e Mid Night conseguira recuperar a segunda espada cravada nele.
As armas que ela materializava não eram suficientemente fortes para segurar as espadas. Elas pareciam estar vivas, pareciam ser indestrutíveis. A pressão era demais para aguentar. Suas forças se esgotavam, assim como as possibilidades. O máximo que conseguia fazer agora era utilizar-se do escudo mágico para se defender, e logo isso também seria inutil. Kit podia ouvir as risadas insanas de seu adversário. Elas chegavam às suas orelhas de gato como uma melodia desvirtuada, um canto macabro. Houve uma pequena folga quando ele pôs-se a se gabar. -Eu não sei o que te motiva, pestinha... você tem em suas veias o sangue dos Black... misturado, conspurcado, uma verdadeira vergonha, mas você o tem. Com essa palhaçada sensibilizada de “lutar pela amizade” está machando-o ridicularmente. Esqueça o prêmio que eu ia receber se te entregasse à Lady Infernal. Eu vou dar cabo de sua vida com todo o prazer.
–Palhaçada? Ter amigos é uma palhaçada? Se eu me tornei o que sou hoje foi tudo graças a eles. -ela arfou, endireitando-se. Agora estava realmente zangada. A brisa bagunçava seus cabelos, fazendo-os chicotear no ar. -Não espero que uma criatura ridícula como você entenda. Você me dá pena... se acha tão importante, mas seus subordinados o abandonaram aqui. Sua própria tripulação o esqueceu.
–Eu não preciso de amor... isso é para seres atrasados, como os humanos, como os mestiços bastardos, como você. É muito melhor ser odiado e reverenciado pelo terror. O que o amor fez por você? Ele cavou a sua cova. Você vai morrer por nada, e vai morrer sozinha!
–Não é por nada! -ela ergueu a voz para gritar com ele. Seu corpo tremia de ódio. -Meu irmão perdeu uma vida mais feliz para me fazer sobreviver. Pessoas abdicaram da facilidade que uma vida normal tem para que eu chegasse até aqui! Aqueles que eu amo estão muito além de você. Eu devo tudo a eles. Eu morreria por isso!Eu estou disposta a dar minha vida, estou disposta a dar tudo de mim para seguir em frente... Eu vou parar minha irmã! E vou parar você!
Um sorriso de sarcasmo surgiu no rosto dele, enquanto fazia um sinal para que ela viesse até ele. -Palavras bonitas, criança burra. Você não viverá para repetí-las! Quer me parar? Venha! Venha e morra!
–Eu não vou morrer! Não aqui, não agora. -ela disparou para frente, e o que parecia ser uma foice de proporções grandes surgiu em suas mãos. Saltou para cima, descendo a arma com toda a força. Ela bateu contra as espadas e, com um estalo, trincou-se completamente, se quebrando em milhões de pedacinhos. Mid ergueu as armas, devolvendo em um golpe em x, impossível de se desviar. Mas ela o segurou. Suas mãos travaram no local onde as armas haviam se juntado, e todo o impacto foi para a mão esquerda, que estava mais a frente. Ela sabia que havia quebrado-a ou pior. Talvez ficasse inutilizada para o resto da vida, mas naquela hora, nada disso importava. Uma aura dourada percorreu seu corpo, pulsante, energia viva. As mãos em contato com as espadas começaram a brilhar, e com um olhar aterrorizado de Mid Night, ela explodiu.
A explosão de energia abalou as estruturas, fez as madeiras que compunham o navio soltarem um lamento de morte. Foi essa cena que Nicolas vira. A luz dourada se expandiu e retraiu, levando tudo consigo. Com a expressão pálida, ele viu o navio rachar ao meio e começar a afundar. -Kit... não... -recuperou-se da imobilização temporária que tomara seu corpo e se precipitou em direção à água.
–Espere... os escombros podem prendê-lo. -era Lyra quem falara, colocando uma mão no ombro dele. Os outros dois se adiantaram para pular também, ignorando o aviso dela.
–Ela não sabe nadar...MINHA IRMÃ NÃO SABE NADAR! ME SOLTE! -ele se desvincilhou dela com facilidade e mergulhou. Com a água impedindo sua audição e boa parte de sua visão, ele não poderia ter ideia de que os outros também haviam seguido-o para procurar... talvez fosse tarde demais. Ele gastara muito tempo. Segurando a respiração, cruzou os restos do navio em que a irmã lutara, procurando desesperadamente algum sinal dela. Quando encontrou o corpo, quase esqueceu-se que estava de baixo d'água. Ele o segurou e imediatamente olhou para cima. Os destroços preenchiam o campo de visão. Sentiu um puxão vindo da sua esquerda e viu Ed fazendo sinal, algo que definitivamente não conseguiu entender. E então, voltando a olhar para o lado da superfície, conseguiu ver uma garra imergir e fechar-se a sua volta.
Quando reabriu os olhos, Nick precisou de alguns segundos para compreender -ou sequer se lembrar- de onde estava. O convés familiar... o circulo de rostos familiares. Ele se afogara. Mesmo depois de tudo... ergueu-se. -O que...
–Você quase morreu lá em baixo... se não fosse Draco puxá-lo e a Lyra saber fazer respiração boca-a-boca, acho que não ia dar pra te salvar. -protestou Laurent. A fada moveu as asinhas e deu um risinho de escárnio.
–Que bom que não teve de ser nenhum dos dois... não seria muito bom para a sua reputação. Mas Ed se propôs a tentar reanimar sua irmã.
Edwart lançou a ela um olhar homicida e logo abriu espaço para que o rapaz pudesse passar, já que ele levantara num átimo a procura de Kit. -Onde ela está?
–Acalme-se. -ele apontou para trás. A menina dormia sobre um amontoado de velas. Estava muito machucada, molhada, e sua mão esquerda estava quase em carne viva, o sangue escorrendo em profusão. Draco estava ao seu redor, baforando pequenas labaredas, tentando esquentá-la. Apesar de tudo, ela parecia viva. Um outro tripulante ajeitava os curativos com cuidado sobre seu corpo, e já ia para a mão quando Nicolas se aproximou. Ele aconchegou a irmã nos braços, agradecendo o homem, e pôs-se a cuidar dela por si mesmo.
–Você é muito idiota mesmo.
Ela apenas abriu um dos olhos, com certo esforço. -Eu sei...
–Poderia ter morrido lá.
–Eu sei... -ela tossiu e voltou a fechar os olhos. -Meu corpo dói.
–Ele deve ter te confundido com um saco de pancadas.
–Bem capaz. -um arremedo de sorriso surgiu em sua face devastada. Nicolas a ajeitou em seu colo e beijou sua testa, voltando a se concentrar em sua mão esquerda. Ele enfaixava-a com delicadeza, depois de limpá-la adequadamente.
–Você lutou bem, apesar de tudo.
–Que coisa... pode decidir logo se está zangado ou orgulhoso?
–Você é minha irmãzinha, posso ficar de ambos os jeitos.
Uma risada breve da parte dela. Um sorriso sutil em resposta. Eles ficaram bastante tempo assim. Quando Nick foi agradecer aos integrantes do Diamante Negro pela ajuda, mal tinha palavras para dizer. Mas eles entendiam. O que aquilo significara, ou viria a significar. Kit Black estava viva. Ela estava voltando...
Cassandra estava ciente de que Haradja haveria de culpá-la por aquela derrota. Também sabia que era uma coisa inevitável. Mid era incapaz de ver as possibilidades, não conseguia enxergar a força que o adversário podia tirar num momento critico. E Kit, por razões obvias, tinha muita força suprimida. Para bater de frente com um imortal, mesmo tendo suas pedras em mãos, era preciso muita preparação. E ela tivera isso. A cada dia, hora e segundo, a garota havia se condicionado e treinado para apenas esse fim.
O capitão não era páreo para ela. Desde o inicio. Lógico, ela precisaria estar numa situação critica para invocar sua energia latente, isso poderia matá-la. Mas uma vez que o poder fosse libertado, a situação se inverteria drasticamente.
De qualquer forma, em nenhum momento Cassandra pensara em levar a inimiga em custódia. Nunca considerara a vitória de Mid Night. Porque aquilo era necessário. Agora sabia que boa parte dos planos a curto prazo estavam terminados. Aquilo fora tudo armado... tudo devidamente planejado.
Para a batalha final... para o acerto de contas.
Para a guerra que balançaria todos os mundos...
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